____________________
Não preciso nem casar
Tiro dele tudo que preciso
Não saio mais daqui
Duvido muito
Esse assunto de mulher já terminou
O gato comeu e regalou-se
Ele dança que nem um realejo
Escritor não existe mais
Mas também não precisa virar deus
Tem alguém na casa
Você acha que ele aguenta?
Sr. ternura está batendo
Eu não estava nem aí
Conchavando: eu faço a tréplica
Armadilha: louca pra saber
Ela é esquisita
Também você mente demais
Ele está me patrulhando
Para quem você vendeu seu tempo?
Não sei dizer: fiquei com o gauche
Não tem a menor lógica
Mas e o trampo?
Ele está bonzinho
Acho que é mentira
Não começa
(A teus pés — 1982)
____________________
ana cristina cesar — a teus pés [prosa & poesia], 1ª edição, 4ª
reimpressão, 2016, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Ana Cristina Cruz
Cesar (1952 — 1983), ou Ana C., carioca, formada em Letras pela PUCRJ —
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com mestrado em comunicação
pela UFRJ — Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi escritora, tradutora,
professora, crítica literária e poetisa; ainda criança, aos sete anos de idade,
teve poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa, depois, antes de
ingressar na Faculdade de Letras, como participante de um programa de
intercâmbio estudou [em 1969] na Richmond School for Girls, em Londres; da
Inglaterra, no retorno ao Brasil, “trouxe na bagagem livros de Emily Dickinson,
Sylvia Plath e Katherine Mansfield, dedicou-se a escrever e a traduzir.”; a
poeta também cursou Teoria Prática da Tradução Literária na Universidade de
Essex, seu segundo mestrado [agora em 1980]; foi professora do ensino médio e
em escolas de idiomas, escreveu para os periódicos Jornal do Brasil, Folha de
São Paulo e foi analista de textos da TV Globo; obras publicadas: poesias:
Cenas de abril (1979), Correspondência completa (1979), Luvas de pelica
(produção artesanal, 1980), A Teus Pés (1982), Inéditos e Dispersos (1985),
Novas Seletas (póstumo, organizado por Armando Freitas Filho), Poética (obra
completa, 2013), crítica literária: Literatura não é documento (1980), Crítica
e Tradução (1999); foi colaboradora do Jornal Opinião, um semanário da chamada
imprensa alternativa que fazia oposição à ditadura militar iniciada em 1964;
suicidou-se em 29 de outubro de 1983, atirando-se pela janela do apartamento
dos pais, no sétimo andar de um edifício no bairro de Copacabana, Rio de
Janeiro; é considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo — também
conhecida como poesia marginal da década de 1970.