____________________
[traduzido por Décio Pignatari]
[...]
Não minto: eu me queria morta.
Deixava-me, desfeita em lágrimas:
“Mas, ah, que triste a nossa
sina!
Eu vou contra a vontade, juro,
Safo”. “Seja feliz”, eu disse,
“E lembre-se de quanto a
quero.
Ou já esqueceu? Pois vou
lembrar-lhe
Os nossos momentos de amor.
Quantas grinaldas, no seu
colo,
— Rosas, violetas, açafrão —
Trançamos juntas! Multiflores
Colares atei para o tenro
Pescoço de Átis; os perfumes
Nos cabelos, os óleos raros
Da sua pele em minha pele!
[…]
Cama macia, o amor nascia1
De sua beleza, e eu matava
A sua sede” […]
. . . . . . . . .
τεθνάκην ἀδόλως, θέλω·
ἀ με ψισδομένα κατελίμπανεν
πόλλα καὶ τόδ’ ἔειπέ μοι·
ὤιμ’ ὠς δεῖνα πεπόνθαμεν,
Ψάπφ’, ἦ μάν σ’ ἀέκοισ’ ἀπυλιμπάνω.
τὰν δ’ ἔγω τάδ’ ἀμειβόμαν·
χαίροισ’ ἔρχεο κἄμεθεν
μέμναισ’, οἶσθα γὰρ ὤς σε πεδήπομεν·
αἰ δὲ μή, ἀλλά σ’ ἔγω θέλω
ὄμναισαι . . .
ὄσα μάλθακα καὶ κάλ’ ἐπάσχομεν·
πόλλοις γὰρ στεφάνοις ἴων
καὶ βρόδων πλοκίων τε ὔμοι
κἀνήτω πὰρ ἔμοι παρεθήκαο
καὶ πόλλαις ὐπαθύμιδας
πλέκταις ἀμφ’ ἀπάλαι δέραι
ἀνθέων ἐρατῶν πεποημέναις.
καὶ πολλῷ λιπαρῶς μύρῳ
βρενθείῳ τε κάλον χρόα
ἀξαλείψαο καὶ βασιληίῳ
καὶ στρώμναν ἐπὶ μολθάκαν
ἀπάλαν παρ ὀπαυόνοων
ἐξίης πόθον αἶψα νεανίδων
κωὔτε τις οὔ τε τι
ἶρον οὐδ’ ὐ. . . .
ἔπλετ’ ὄπποθεν ἄμμες ἀπέσκομεν,
οὐκ ἄλσος . . . . . . ρος
. . . . . . . . . ψοφος
. . . . . . . . . οιδιαι
1. Nota do tradutor Décio Pignatari: O amor nascia — Não pude resistir à beleza da tradução de Salvatore Quasimodo, no verso “nasceva amore dela tua bellezza”. Entre o poético e o erudito, Quasimodo é um marco saneador na tradução dos clássicos greco-latinos.
____________________
31 Poetas 214 Poemas — do Rig-Veda e Safo a Apollinaire: Antologia de poemas
traduzidos, Seleção, Apresentação, Notas e Comentários de Décio Pignatari, 1996
— Companhia das Letras, São Paulo — SP; acerca de Safo de Lesbos (nascida entre
630 a.C. e 604 a.C. — com morte em data incerta), grega de Mitilene, ilha de Lesbos,
muito pouco ou quase nada se sabe; foi poetisa, tecelã e sacerdotisa, sendo
considerada a primeira poeta mulher de quem se tem registro na história do nosso
mundo ocidental; dela, chegaram até nós, da modernidade, apenas 650 versos (fragmentos
de poesias diversas) e tão somente um poema registrado em sua integralidade, a Ode
a Afrodite, preservado que fora em obra de Dionisio de Halicarnasso (grego da Ásia
Menor, viveu em Roma por volta de 30 a.C.); além da poesia lírica, os antigos comentadores
registraram que Safo também escrevia poesia elegíaca e iâmbica; além também dos
tais fragmentos poéticos e do único poema integral, uma fonte sobre a vida da poetisa
são os relatos biográficos e literários de comentadores da antiguidade, historiadores
que tiveram muito mais acesso à poesia de Safo do que nós temos hoje em dia, no
entanto não podemos saber até que ponto tais relatos estão corretos; é tido que
Safo criou uma confraria para preparar moças nobres para o casamento, ocasião
em que estudavam música, liam poesia e aprendiam a dançar, sempre com a proteção
da deusa Afrodite e das musas; a poetisa, chamada de ‘décima musa’ por Platão (428/427
a.C. — 348/347 a.C.), influenciou os poetas Horácio (65 a.C. — 8 a.C.) e Catulo
(87 a.C.? — 57 a.C.?), que a traduziram e imitaram seus textos e, em época muito
mais contemporânea a nós, influenciou também os italianos Ugo Foscolo (1778 — 1827)
e Giacomo Leopardi (1798 — 1837); são vários os poetas que, em suas criações, se
referem a Safo e a sua poesia, dentre os quais Baudelaire e Paul Verlaine.