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quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Safo: A Átis [fragmento 94]

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[traduzido por Décio Pignatari]

[...]
Não minto: eu me queria morta.
Deixava-me, desfeita em lágrimas:

“Mas, ah, que triste a nossa sina!
Eu vou contra a vontade, juro,
Safo”. “Seja feliz”, eu disse,

“E lembre-se de quanto a quero.
Ou já esqueceu? Pois vou lembrar-lhe
Os nossos momentos de amor.

Quantas grinaldas, no seu colo,
Rosas, violetas, açafrão
Trançamos juntas! Multiflores

Colares atei para o tenro
Pescoço de Átis; os perfumes
Nos cabelos, os óleos raros

Da sua pele em minha pele!
[…]
Cama macia, o amor nascia1
De sua beleza, e eu matava
A sua sede” […]

Safo

. . . . . . . . .
τεθνάκην ἀδόλως, θέλω·
ἀ με ψισδομένα κατελίμπανεν

πόλλα καὶ τόδ’ ἔειπέ μοι·
ὤιμ’ ὠς δεῖνα πεπόνθαμεν,
Ψάπφ’, ἦ μάν σ’ ἀέκοισ’ ἀπυλιμπάνω.

τὰν δ’ ἔγω τάδ’ ἀμειβόμαν·
χαίροισ’ ἔρχεο κἄμεθεν
μέμναισ’, οἶσθα γὰρ ὤς σε πεδήπομεν·

αἰ δὲ μή, ἀλλά σ’ ἔγω θέλω
ὄμναισαι . . .
ὄσα μάλθακα καὶ κάλ’ ἐπάσχομεν·

πόλλοις γὰρ στεφάνοις ἴων
καὶ βρόδων πλοκίων τε ὔμοι
κἀνήτω πὰρ ἔμοι παρεθήκαο

καὶ πόλλαις ὐπαθύμιδας
πλέκταις ἀμφ’ ἀπάλαι δέραι
ἀνθέων ἐρατῶν πεποημέναις.

καὶ πολλῷ λιπαρῶς μύρῳ
βρενθείῳ τε κάλον χρόα
ἀξαλείψαο καὶ βασιληίῳ

καὶ στρώμναν ἐπὶ μολθάκαν
ἀπάλαν παρ ὀπαυόνοων
ἐξίης πόθον αἶψα νεανίδων

κωὔτε τις οὔ τε τι
ἶρον οὐδ’ ὐ. . . .
ἔπλετ’ ὄπποθεν ἄμμες ἀπέσκομεν,

οὐκ ἄλσος . . . . . . ρος
. . . . . . . . . ψοφος

. . . . . . . . . οιδιαι

1. Nota do tradutor Décio Pignatari: O amor nasci Não pude resistir à beleza da tradução de Salvatore Quasimodo, no verso “nasceva amore dela tua bellezza”. Entre o poético e o erudito, Quasimodo é um marco saneador na tradução dos clássicos greco-latinos.
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31 Poetas 214 Poemas — do Rig-Veda e Safo a Apollinaire: Antologia de poemas traduzidos, Seleção, Apresentação, Notas e Comentários de Décio Pignatari, 1996 — Companhia das Letras, São Paulo — SP; acerca de Safo de Lesbos (nascida entre 630 a.C. e 604 a.C. com morte em data incerta), grega de Mitilene, ilha de Lesbos, muito pouco ou quase nada se sabe; foi poetisa, tecelã e sacerdotisa, sendo considerada a primeira poeta mulher de quem se tem registro na história do nosso mundo ocidental; dela, chegaram até nós, da modernidade, apenas 650 versos (fragmentos de poesias diversas) e tão somente um poema registrado em sua integralidade, a Ode a Afrodite, preservado que fora em obra de Dionisio de Halicarnasso (grego da Ásia Menor, viveu em Roma por volta de 30 a.C.); além da poesia lírica, os antigos comentadores registraram que Safo também escrevia poesia elegíaca e iâmbica; além também dos tais fragmentos poéticos e do único poema integral, uma fonte sobre a vida da poetisa são os relatos biográficos e literários de comentadores da antiguidade, historiadores que tiveram muito mais acesso à poesia de Safo do que nós temos hoje em dia, no entanto não podemos saber até que ponto tais relatos estão corretos; é tido que Safo criou uma confraria para preparar moças nobres para o casamento, ocasião em que estudavam música, liam poesia e aprendiam a dançar, sempre com a proteção da deusa Afrodite e das musas; a poetisa, chamada de ‘décima musa’ por Platão (428/427 a.C. 348/347 a.C.), influenciou os poetas Horácio (65 a.C. 8 a.C.) e Catulo (87 a.C.? 57 a.C.?), que a traduziram e imitaram seus textos e, em época muito mais contemporânea a nós, influenciou também os italianos Ugo Foscolo (1778 1827) e Giacomo Leopardi (1798 1837); são vários os poetas que, em suas criações, se referem a Safo e a sua poesia, dentre os quais Baudelaire e Paul Verlaine.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Safo: fragmentos 168B & 114

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[traduzidos por Décio Pignatari]

Fragmento 168B

Cai a lua, caem as Plêiades e
É meia-noite, o tempo passa e
Eu só, aqui deitada, desejante1.

Δέδυκε μὲν ἀ σελάννα
καὶ Πληίαδες· μέσαι δὲ
νύκτες, παρὰ δ᾽ ἔρχετ᾽ ὤρα·
ἔγω δὲ μόνα κατεύδω.

 o  

Fragmento 114

Adolescência, adolescência2,
Você se vai, aonde vai?
Não volto mais para você,
Para você volto mais não.

(νύμφη). παρθενἰα, παρθενία, ποῖ με λίποισα †οἴχηι;
(παρθενία). †οὐκέτι ἤξω πρὸς σέ, οὐκέτι ἤξω†

Safo de Lesbos

Notas do tradutor Décio Pignatari:
1. Desejante Não está explicitado no poema; mas: chateúdo = “jazo, fico deitado”, chatéo = “desejo, anseio”” (esse ch indica som semelhante ao j castelhano). Explicitei ainda mais a idéia com palavras de sílabas e letras crescentes e um certo e desejante...
2. Adolescência Em sentido estrito, parthenía significa “virgindade”, em grego; implica, mais amplamente, a idéia de inocência, mas ligada ao frescor da idade candura juvenil, ou infanto-juvenil, portanto. Daí, a minha escolha.
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31 Poetas 214 Poemas — do Rig-Veda e Safo a Apollinaire: Antologia de poemas traduzidos, Seleção, Apresentação, Notas e Comentários de Décio Pignatari, 1996 — Companhia das Letras, São Paulo — SP; acerca de Safo de Lesbos (nascida entre 630 a.C. e 604a.C. com morte em data incerta), grega de Mitilene, ilha de Lesbos, muito pouco ou quase nada, se sabe; foi poetisa, tecelã e sacerdotisa, sendo considerada a primeira poeta mulher de quem se tem registro na história do nosso mundo ocidental; dela, chegaram até nós, da modernidade, apenas 650 versos (fragmentos de poesias diversas) e tão somente um poema registrado em sua integralidade, a Ode a Afrodite, preservado que fora em obra de Dionisio de Halicarnasso (grego da Ásia Menor, viveu em Roma por volta de 30 a.C.); além da poesia lírica, os antigos comentadores registraram que Safo também escrevia poesia elegíaca e iâmbica; além de tais fragmentos poéticos e do único poema integral, uma fonte sobre a vida da poetisa são os relatos biográficos e literários de comentadores da antiguidade, historiadores que tiveram muito mais acesso à poesia de Safo do que nós temos hoje em dia, no entanto não podemos saber até que ponto tais relatos estão corretos; é tido que Safo criou uma confraria para preparar moças nobres para o casamento, ocasião em que estudavam música, liam poesia e aprendiam a dançar, sempre com a proteção da deusa Afrodite e das musas; a poetisa foi chamada de ‘décima musa’ por Platão (428/427 a.C. 348/347 a.C.), influenciou os poetas Horácio (65 a.C. 8 a.C.) e Catulo (87 a.C.? 57 a.C.?), que a traduziram e imitaram seus textos e, em época muito mais contemporânea a nós, influenciou também os italianos Ugo Foscolo (1778 1827) e Giacomo Leopardi (1798 1837); são vários os poetas que, em suas criações, se referem a Safo e a sua poesia, dentre os quais Baudelaire e Paul Verlaine.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Paul Verlaine: Safo


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[traduzido por Heloisa Jahn]

Enfurecida, olhos fundos e seios tesos
Corre como uma loba pelas praias frias
Fora de si, Safo*, com a pressão do desejo.

Ela pensa em Faon, sem se importar com o Rito,
Mas vendo até que ponto é vão seu desespero,
Aos punhados arranca os imensos cabelos.

Depois evoca, tomada pelo remorso,
O tempo em que brilhava, pura, a jovem glória
Daquele amor, cantado em versos que a memória
Da alma vai contar às virgens em seu sono:

E eis que, cerrando as pálpebras descoradas
Ela se joga ao mar, de onde lhe acena a Moira,
E eclode no céu, inflamando a água escura
A pálida Selene, que vinga as Amigas.

Paul Verlaine

Sappho

Furieuse, les yeux caves et les seins roides,
Sappho, que la langueur de son désir irrite,
Comme une louve court le long des grèves froides.

Elle songe à Phaon, oublieuse du Rite,
Et, voyant à ce point ses larmes dédaignées,
Arrache ses cheveux immense par poignées;

Puis elle évoque, en des remords sans accalmies,
Ces temps où rayonnait, pure, la jeune gloire
De ses amors chantées en vers que la mémoire
De l'âme va redire aux vierges endormies:

Et voilà qu'elle abat ses paupières blêmies,
Et saute dans la mer où l'appelle la Moire —
Tandis qu'au ciel éclate, incendiant l'eau noire,
La pâle Séléné qui venge les Amies.

Parallèlement — 1889

* Nota da tradutora Heloisa Jahn: na lenda grega Safo se suicida jogando-se ao mar de um penhasco, desesperada com seu amor não correspondido por Faon, um barqueiro de Lesbos dotado por Afrodite com uma tremenda beleza e um encanto irresistível.
Estrofe 4, versos 1 e 2: Selene é a deusa grega da Lua.
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Para ser caluniado — poemas eróticos: Paul Verlaine, Apresentação, Seleção, Tradução e Notas de Heloisa Jahn, Coleção Circo de Letras nº 31, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Safo de Lesbos: "Ode de Óstraco" *

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[traduzido por Giuliana Ragusa]

Para cá, até mim, de Creta . . . templo
sagrado onde . . . e agradável bosque
de macieiras, e altares nele são esfumeados
com incenso.

E nele água fria murmura por entre os ramos
de macieiras, e pelas rosas todo o lugar
está sombreado, e das trêmulas folhas
torpor divino desce.

E nele o prado pasto de cavalos viceja
. . . com flores, e os ventos
docemente sopram . . .

Aqui tu . . . tomando, ó Cípris,
nos áureos cálices, delicadamente,
néctar, misturado às festividades,
vinho-vertendo . . .

Safo de Lesbos

†δευρυμμ̣εκρητε̣σ̣ιπ[.]ρ[ ].† ναῦον
ἄγνον ὄππ[αι ] χάριεν μὲν ἄλσος
μαλί[αν], βῶμοι δ’ ἔ<ν>ιθυμιάμε-
νοι [λι]βανώτω<ι>·

ἐν δ’ ὔδωρ ψῦχρον κελάδει δι’ ὔσδων
μαλίνων, βρόδοισι δὲ παῖς ὀ χῶρος
ἐσκίαστ’, αἰθυσσομένων δὲ φύλλων
κῶμα †καταιριον·

ἐν δὲ λείμων ἰππόβοτος τέθαλε
†τω̣τ…ι̣ριννοις† ἄνθεσιν, αἰ <δ’> ἄηται
μέλλιχα πν[έο]ισιν [
[ ]

ἔνθα δὴ σὺ †συ.αν† ἔλοισα Κύπρι
χρυσίαισιν ἐν κυλίκεσσιν ἄβρως
<ὀ>μ<με>μείχμενον θαλίαισι νέκταρ
οἰνοχόαισον

* Registro de Giuliano Ragusa, pesquisadora, organizadora e tradutora dos fragmentos/poemas deste Hino a Afrodite e outros poemas: Fragmento 2 ou "Ode de Óstraco Eis outro hino clético, em que se destaca o detalhamento do local ao qual Afrodite é convidada a vir, saindo de Creta. [...] Atente-se para o caráter ativo da epifania, que reforça a idéia da fusão num fragmento de linguagem intensamente sinestésica. Claramente, há o desejo de proximidade entre a voz poética e a deusa. A fonte principal do texto é um óstraco ou caco de cerâmica  material abundante na Grécia antiga e muito utilizado para a escrita , datado do século III a.C., o que faz desta a fonte de transmissão a mais antiga da obra de Safo, e a única anterior à época das edições alexandrinas.
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Safo de Lesbos: Hino a Afrodite e outros poemas Organização, Introdução, Texto e Tradução dos fragmentos/poemas, por Giuliana Ragusa, 2011, Editora Hedra, São Paulo — SP; acerca de Safo de Lesbos (nascida entre 630 a.C. e 604 a.C. com morte em data incerta), grega de Éresos, ilha de Lesbos, muito pouco ou quase nada se sabe; viveu a maior parte de sua vida em Mitilene, também em Lesbos, e foi poetisa, além de tecelã e sacerdotisa; Safo é tida como a primeira poetisa de quem se tem registro na história do nosso mundo ocidental; de sua obra, chegaram até nós apenas 650 versos (fragmentos de poesias diversas) e tão somente um poema registrado em sua integralidade, a Ode a Afrodite ou Hino a Afrodite, preservado que fora em obra de Dionisio de Halicarnasso (grego da Ásia Menor, viveu em Roma por volta de 30 a.C.); além da poesia lírica, os antigos comentadores registraram que Safo também escrevia poesia elegíaca e iâmbica; além de tais fragmentos poéticos e do único poema integral, uma fonte sobre a vida da poetisa são os relatos biográficos e literários de comentadores da antiguidade, historiadores que tiveram muito mais acesso à poesia de Safo do que nós temos hoje em dia, no entanto não podemos saber até que ponto tais relatos estão corretos; é tido que Safo criou uma confraria para preparar moças nobres para o casamento, onde estudavam música, liam poesia e aprendiam a dançar, sempre com a proteção da deusa Afrodite e das musas; a poetisa foi chamada de ‘décima musa’, por Platão (428/427 a.C. 348/347 a.C.), influenciou os poetas Horácio (65 a.C. 8 a.C.) e Catulo (87 a.C.? 57 a.C.?), que a traduziram e imitaram seus textos e, em época muito mais contemporânea a nós, influenciou também os italianos Ugo Foscolo (1778 1827) e Giacomo Leopardi (1798 1837); são vários os poetas que, em suas criações, se referem a Safo e a sua poesia, dentre os quais Baudelaire e Paul Verlaine.

quinta-feira, 9 de março de 2023

Safo de Lesbos: Hino a Afrodite


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[traduzido por Giuliana Ragusa]

De flóreo manto furta-cor, ó imortal Afrodite,
filha de Zeus, tecelã de ardis, suplico-te:
não me dormes com angústias e náuseas,
veneranda, o coração,

mas para cá vem, se já outrora 
a minha voz ouvindo de longe  me
atendeste, e de teu pai deixando a casa
áurea a carruagem

atrelando viste. E belos te conduziram
velozes pardais em torno da terra negra 
rápidas asas turbilhonando, céu abaixo e
pelo meio do éter.

De pronto chegaram. E tu, ó venturosa,
sorrindo em tua imortal face,
indagaste por que de novo sofro e por que
de novo te invoco,

e o que mais quero que me aconteça em meu
desvairado coração. “Quem de novo devo persuadir
(?) ao teu amor? Quem, ó
Safo, te maltrata?

Pois se ela foge, logo perseguirá;
e se presentes não aceita, em troca os dará;
e se não ama, logo amará,
mesmo que não queira”.

Vem até mim também agora, e liberta-me
dos duros pesares, e tudo que cumprir meu
coração deseja, cumpre, e, tu mesma,
sê minha aliada de lutas.

Safo de Lesbos

Ποικιλόθρον᾽ ὰθάνατ᾽ ᾽Αφροδιτα,
παῖ Δίοσ, δολόπλοκε, λίσσομαί σε
μή μ᾽ ἄσαισι μήτ᾽ ὀνίαισι δάμνα,
πότνια, θῦμον.

ἀλλά τυίδ᾽ ἔλθ᾽, αἴποτα κἀτέρωτα
τᾶσ ἔμασ αύδωσ αἴοισα πήλγι
ἔκλυεσ πάτροσ δὲ δόμον λίποισα
χρύσιον ἦλθεσ

ἄρμ᾽ ὐποζεύξαια, κάλοι δέ σ᾽ ἆγον
ὤκεεσ στροῦθοι περὶ γᾶσ μελαίνασ
πύκνα δινεῦντεσ πτέῤ ἀπ᾽ ὠράνω
αἴθεροσ διὰ μέσσω.

αῖψα δ᾽ ἐχίκοντο, σὺ δ᾽, ὦ μάσαιρα
μειδιάσαισ᾽ ἀθάνατῳ προσώπῳ,
ἤρἐ ὄττι δηὖτε πέπονθα κὤττι
δἦγτε κάλημι

κὤττι μοι μάλιστα θέλω γένεσθαι
μαινόλᾳ θύμῳ, τίνα δηὖτε πείθω
μαῖσ ἄγην ἐσ σὰν φιλότατα τίσ τ, ὦ
Πσάπφ᾽, ἀδίκηει;

καὶ γάρ αἰ φεύγει, ταχέωσ διώξει,
αἰ δὲ δῶρα μὴ δέκετ ἀλλά δώσει,
αἰ δὲ μὴ φίλει ταχέωσ φιλήσει,
κωὐκ ἐθέλοισα.

ἔλθε μοι καὶ νῦν, χαλεπᾶν δὲ λῦσον
ἐκ μερίμναν ὄσσα δέ μοι τέλεσσαι
θῦμοσ ἰμμέρρει τέλεσον, σὐ δ᾽ αὔτα
σύμμαχοσ ἔσσο.
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Safo de Lesbos: Hino a Afrodite e outros poemas Organização, Introdução, Texto e Tradução dos fragmentos/poemas, por Giuliana Ragusa, 2011, Editora Hedra, São Paulo SP; acerca de Safo de Lesbos (nascida entre 630 a.C. e 604 a.C. com morte em data incerta), grega de Éresos, ilha de Lesbos, muito pouco ou quase nada se sabe; viveu a maior parte de sua vida em Mitilene, também em Lesbos, e foi poetisa, além de tecelã e sacerdotisa; Safo é tida como a primeira poetisa de quem se tem registro na história do nosso mundo ocidental; de sua obra, chegaram até nós apenas 650 versos (fragmentos de poesias diversas) e tão somente um poema registrado em sua integralidade, a Ode a Afrodite — ou Hino a Afrodite, reservado que fora em obra de Dionisio de Halicarnasso (grego da Ásia Menor, viveu em Roma por volta de 30 a.C.); além da poesia lírica, os antigos comentadores registraram que Safo também escrevia poesia elegíaca e iâmbica; além de tais fragmentos poéticos e do único poema integral, uma fonte sobre a vida da poetisa são os relatos biográficos e literários de comentadores da antiguidade, historiadores que tiveram muito mais acesso à poesia de Safo do que nós temos hoje em dia, no entanto não podemos saber até que ponto tais relatos estão corretos; é tido que Safo criou uma confraria para preparar moças nobres para o casamento, onde estudavam música, liam poesia e aprendiam a dançar, sempre com a proteção da deusa Afrodite e das musas; a poetisa foi chamada de ‘décima musa’, por Platão (428/427 a.C. 348/347 a.C.), influenciou os poetas Horácio (65 a.C. 8 a.C.) e Catulo (87 a.C.? 57 a.C.?), que a traduziram e imitaram seus textos e, em época muito mais contemporânea a nós, influenciou também os italianos Ugo Foscolo (1778 1827) e Giacomo Leopardi (1798 1837); são vários os poetas que, em suas criações, se referem a Safo e a sua poesia, dentre os quais Baudelaire e Paul Verlaine.