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[traduzido por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge}
Enlaçavam-se os domínios arqueados de uma aurora cinzenta, num país
cinzento, sem paixão, tímido.
Enlaçavam-se os céus implacáveis, os mares proibidos, as terras estéreis.
Enlaçavam-se os galopes incansáveis de cavalos magros, as ruas onde já não
passavam os carros, os cães e os gatos moribundos.
Aureolavam-se de encantadora palidez as mulheres, as crianças de
sentidos límpidos.
Aureolavam-se as aparências, os dias infindáveis, dias sem luz, as
noites absurdas.
Aureolava-se a esperança de uma neve definitiva, marcando na fronte o ódio.
Adensavam-se os astros, adelgavam-se os lábios, alargavam-se as frontes
como mesas inúteis.
Curvavam-se os cumes acessíveis, adoçavam-se os mais insípidos
tormentos, comprazia-se a natureza numa única função.
Respondiam-se os mudos, escutavam-se os surdos, olhavam-se os cegos.
Nestes domínios confundidos onde até as lágrimas só se miravam em
espelhos lamacentos, neste país eterno que reunia os países futuros, neste país
onde o sol ia sacudir as suas cinzas.
Dimanche après-midi
S'enlaçaient les domaines
voûtés d'une aurore grise dans un pays gris, sans passions, timide,
S'enlaçaient les cieux
implacables, les mers interdites, les terres stériles,
S'enlaçaient les galops
inlassables de chevaux maigres, les rues où les voitures ne passaient plus, les
chiens et les chats mourants,
S'auréolaient de pâleur
charmante les femmes, les enfants et les malades aux sens limpides,
S'auréolaient les apparences,
les jours sans fin, jours sans lumière, les nuits absurdes,
S'auréolait l'espoir d'une
neige définitive, marquant au front la haine,
S'épaississaient les astres,
s'amincissaient les lèvres, s'élargissaient les fronts comme des tables
inutiles,
Se courbaient les sommets
accessibles, s'adoucissaient les plus fades tourments, se plaisait la nature a
ne jouer qu'un rôle,
Se répondaient les muets,
s'écoutaient les sourds, se regardaient les aveugles
Dans ces domaines confondus où
même les larmes n'avaient plus que des miroirs boueux, dans ce pays éternel qui
mêlait les pays futurs, dans ce pays où le soleil allait secouer ses cendres.
(Le Livre ouvert — 1940-1942)
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Algumas das Palavras, antologia — Paul Éluard, bilíngue, Organização,
Seleção e Prefácio de António Ramos Rosa, Tradução de António Ramos Rosa e Luísa
Neto Jorge, 2ª edição, 1977, Publicações Dom Quixote, Lisboa — Portugal; Paul Éluard
(1895 — 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, ou Paul Eugène Grindel,
francês de Saint-Denis, subúrbio parisiense, ainda adolescente contraiu
tuberculose, teve que interromper seus estudos, foi poeta participante ativo do
movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; em 1914, foi “mobilizado”
para a Primeira Guerra Mundial e atuou como enfermeiro militar; o poeta também
lutou na segunda grande guerra; desde 1926, ele e a maioria dos surrealistas
haviam se filiado ao Partido comunista francês, mas, mesmo Éluard sendo expulso
depois, nunca deixou de marcar presença e apoiar revolucionários e revoluções; em
1942, seu poema ‘Une seule pensée’ (Um único pensamento) foi enviado clandestinamente
da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido
para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados
nos céus de uma Europa conflagrada — quem contrabandeou o poema de Éluard foi o
pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 — 2003), que muito posteriormente
recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada; Paul Éluard manteve
uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas
plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Ray
e Chagall, atuantes na vida cultural francesa e europeia da época; suas obras: Premiers
poèmes (1913), De devoir et l’inquiétude (1917), Poèmes pour la paix (1918), Les animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922),
L’amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925),
La dame de carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’amour la poésie
(1929), À toute épreuve (1930), La vie immédiate (1932), La rose publique (1934),
Facile (1935), Les yeux fertiles (1936), Évidence poétique habitude de la poésie
(1937), Cours naturel (1938), Le livre ouvert (1940-1942), Poésie et vérité (1942),
Au rendez-vous allemand (1942-1945), Le lit la table (1944), Une longue
réflexion amoureuse (1945), Le dur désir de durer (1946), Poésie ininterrompue (1946),
Corps mémorable (1948), Une leçon de morale (1949), Ode a Staline (1950), Le phénix
(1951), Picasso (dessins, 1952), Poésie ininterrompue (1953); teve poemas
adaptados e musicados por mais de um compositor; Paul Éluard teve relação
conturbada com Gala (Elena Ivanovna Diakonova), jovem russa que havia conhecido em 1913 em
um sanatório suíço, que se tornara sua musa, e com quem se casou em 1916; em
1930, Gala o deixou, e se uniu a Salvador Dali; após isso, Eluárd teve outras
duas musas: Maria Benz, apelidada de "Nusch", uma artista de music hall
de origem alsaciana, que veio a morrer algum tempo depois, e Dominique (Odette Lemort), francesa que havia conhecido em um
Congresso da Paz, no México, e com ambas também se casou.
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