Mostrando postagens com marcador Luiza Neto Jorge. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luiza Neto Jorge. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Paul Éluard: Domingo à tarde

 
____________________
[traduzido por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge}

Enlaçavam-se os domínios arqueados de uma aurora cinzenta, num país cinzento, sem paixão, tímido.

Enlaçavam-se os céus implacáveis, os mares proibidos, as terras estéreis.

Enlaçavam-se os galopes incansáveis de cavalos magros, as ruas onde já não passavam os carros, os cães e os gatos moribundos.

Aureolavam-se de encantadora palidez as mulheres, as crianças de sentidos límpidos.

Aureolavam-se as aparências, os dias infindáveis, dias sem luz, as noites absurdas.

Aureolava-se a esperança de uma neve definitiva, marcando na fronte o ódio.

Adensavam-se os astros, adelgavam-se os lábios, alargavam-se as frontes como mesas inúteis.

Curvavam-se os cumes acessíveis, adoçavam-se os mais insípidos tormentos, comprazia-se a natureza numa única função.

Respondiam-se os mudos, escutavam-se os surdos, olhavam-se os cegos.

Nestes domínios confundidos onde até as lágrimas só se miravam em espelhos lamacentos, neste país eterno que reunia os países futuros, neste país onde o sol ia sacudir as suas cinzas.

Paul Éluard

Dimanche après-midi

S'enlaçaient les domaines voûtés d'une aurore grise dans un pays gris, sans passions, timide,

S'enlaçaient les cieux implacables, les mers interdites, les terres stériles,

S'enlaçaient les galops inlassables de chevaux maigres, les rues où les voitures ne passaient plus, les chiens et les chats mourants,

S'auréolaient de pâleur charmante les femmes, les enfants et les malades aux sens limpides,

S'auréolaient les apparences, les jours sans fin, jours sans lumière, les nuits absurdes,

S'auréolait l'espoir d'une neige définitive, marquant au front la haine,

S'épaississaient les astres, s'amincissaient les lèvres, s'élargissaient les fronts comme des tables inutiles,

Se courbaient les sommets accessibles, s'adoucissaient les plus fades tourments, se plaisait la nature a ne jouer qu'un rôle,

Se répondaient les muets, s'écoutaient les sourds, se regardaient les aveugles

Dans ces domaines confondus où même les larmes n'avaient plus que des miroirs boueux, dans ce pays éternel qui mêlait les pays futurs, dans ce pays où le soleil allait secouer ses cendres.

(Le Livre ouvert — 1940-1942)
____________________
Algumas das Palavras, antologia — Paul Éluard, bilíngue, Organização, Seleção e Prefácio de António Ramos Rosa, Tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, 2ª edição, 1977, Publicações Dom Quixote, Lisboa — Portugal; Paul Éluard (1895 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, ou Paul Eugène Grindel, francês de Saint-Denis, subúrbio parisiense, ainda adolescente contraiu tuberculose, teve que interromper seus estudos, foi poeta participante ativo do movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; em 1914, foi “mobilizado” para a Primeira Guerra Mundial e atuou como enfermeiro militar; o poeta também lutou na segunda grande guerra; desde 1926, ele e a maioria dos surrealistas haviam se filiado ao Partido comunista francês, mas, mesmo Éluard sendo expulso depois, nunca deixou de marcar presença e apoiar revolucionários e revoluções; em 1942, seu poema ‘Une seule pensée(Um único pensamento) foi enviado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa conflagrada quem contrabandeou o poema de Éluard foi o pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 2003), que muito posteriormente recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada; Paul Éluard manteve uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall, atuantes na vida cultural francesa e europeia da época; suas obras: Premiers poèmes (1913), De devoir et l’inquiétude (1917), Poèmes pour la paix (1918), Les animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922), L’amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925), La dame de carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’amour la poésie (1929), À toute épreuve (1930), La vie immédiate (1932), La rose publique (1934), Facile (1935), Les yeux fertiles (1936), Évidence poétique habitude de la poésie (1937), Cours naturel (1938), Le livre ouvert (1940-1942), Poésie et vérité (1942), Au rendez-vous allemand (1942-1945), Le lit la table (1944), Une longue réflexion amoureuse (1945), Le dur désir de durer (1946), Poésie ininterrompue (1946), Corps mémorable (1948), Une leçon de morale (1949), Ode a Staline (1950), Le phénix (1951), Picasso (dessins, 1952), Poésie ininterrompue (1953); teve poemas adaptados e musicados por mais de um compositor; Paul Éluard teve relação conturbada com Gala (Elena Ivanovna Diakonova), jovem russa que havia conhecido em 1913 em um sanatório suíço, que se tornara sua musa, e com quem se casou em 1916; em 1930, Gala o deixou, e se uniu a Salvador Dali; após isso, Eluárd teve outras duas musas: Maria Benz, apelidada de "Nusch", uma artista de music hall de origem alsaciana, que veio a morrer algum tempo depois, e Dominique (Odette Lemort), francesa que havia conhecido em um Congresso da Paz, no México, e com ambas também se casou.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Paul Éluard: Para nunca mais estarem sós

 
____________________
[traduzido por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge}

Como uma vaga de escuros pássaros dançavam na noite
E todos os corações eram puros
Já não se distinguiam
Quais eram os rapazes quais as raparigas

Traziam todos a espingarda às costas

De mãos dados dançavam e cantavam
Uma ária antiga e nova uma ária de liberdade
E a sombra iluminava-se flamejava

O inimigo tinha adormecido

E o eco repetia o seu amor à vida
E a sua juventude era como uma praia imensa
Onde o mar vem oferecer todos os beijos do mundo

Só alguns tinham visto o mar

No entanto viver bem é uma viagem sem fronteiras
Eles viviam bem vivendo uma com os outros e para os seus irmãos
Seus irmãos de todo o mundo e com eles sonhavam alto

E a montanha estendia-se para a planície e para a praia
Reproducindo os seus sonhos e a sua louca conquista
A mão correndo para as mãos mesmo a nascente para o mar.

Paul Éluard

Pour ne plus être seuls

Comme un flot d’oiseaux noirs ils dansaient dans la nuit
Et leur cœur était pur on ne voyait plus bien
Quels étaient les garçons quelles étaient les filles

Tous avaient leur fusil au dos

Se tenant par la main ils dansaient ils chantaient
Un air ancien nouveau un air de liberté
L’ombre en était illuminée elle flambait

L’ennemi s’était endormi

Et l’écho répétait leur amour de la vie
Et leur jeunesse était comme une plage immense
Où la mer vient offrir tous les baisers du monde

Peu d’entre eux avaient vu la mer

Pourtant bien vivre est un voyage sans frontières
Ils vivaient bien vivant entre eux et pour leurs frères
Leurs frères de partout ils en rêvaient tout haut

Et la montagne allait vers la plaine et la plage
Reproduisant leur rêve et leur folle conquête
La main allant aux mains comme source à la mer.

[Juin 1949]
(Une leçon de morale — 1949)
____________________
Algumas das Palavras, antologia — Paul Éluard, bilíngue, Organização, Seleção e Prefácio de António Ramos Rosa, Tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, 2ª edição, 1977, Publicações Dom Quixote, Lisboa — Portugal; Paul Éluard (1895 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, ou Paul Eugène Grindel, francês de Saint-Denis, subúrbio parisiense, ainda adolescente contraiu tuberculose, teve que interromper seus estudos, foi poeta participante ativo do movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; em 1914, foi “mobilizado” para a Primeira Guerra Mundial e atuou como enfermeiro militar; o poeta também lutou na segunda grande guerra; desde 1926, ele e a maioria dos surrealistas haviam se filiado ao Partido comunista francês, mas, mesmo Éluard sendo expulso depois, nunca deixou de marcar presença e apoiar revolucionários e revoluções; em 1942, seu poema ‘Une seule pensée (Um único pensamento) foi enviado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa conflagrada quem contrabandeou o poema de Éluard foi o pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 2003), que muito posteriormente recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada; Paul Éluard manteve uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall, atuantes na vida cultural francesa e europeia da época; suas obras: Premiers poèmes (1913), De devoir et l’Inquiétude (1917), Poèmes pour la paix (1918), Les animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922), L’amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925), La dame de carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’amour la poésie (1929), À toute épreuve (1930), La vie immédiate (1932), La rose publique (1934), Facile (1935), Les yeux fertiles (1936), Évidence poétique habitude de la poésie (1937), Cours naturel (1938), Le livre ouvert (1940-1942), Poésie et vérité (1942), Au rendez-vous allemand (1942-1945), Le lit la table (1944), Une longue réflexion amoureuse (1945), Le dur désir de durer (1946), Poésie ininterrompue (1946), Corps mémorable (1948), Une leçon de morale (1949), Ode a Staline (1950), Le phénix (1951), Picasso (dessins, 1952), Poésie ininterrompue (1953); teve poemas adaptados e musicados por mais de um compositor; Paul Éluard teve relação conturbada com Gala (Elena Ivanovna Diakonova), jovem russa que havia conhecido em 1913 em um sanatório suíço, que se tornara sua musa, e com quem se casou em 1916; em 1930, Gala o deixou, e se uniu a Salvador Dali; após isso, Eluárd teve outras duas musas: Maria Benz, apelidada de "Nusch", uma artista de music hall de origem alsaciana, que veio a morrer algum tempo depois, e Dominique (Odette Lemort), francesa que havia conhecido em um Congresso da Paz, no México, e com ambas também se casou.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Paul Éluard: Identidades

 
____________________
[traduzido por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge]

a Dora Maar

Vejo os campos e o mar cobertos por um dia igual
Não há diferenças
Entre a areia que dormita
O machado à beira da ferida
O corpo em feixe desatado
E o vulcão da saúde

Vejo mortal e boa
O orgulho que retira o seu machado
E o corpo que respira a plenos desdéns sua glória
Vejo mortal e desolada
A areia que volta ao leito de partida
E a saúde que tem sono
O vulcão palpitante como um coração desvendado
E as barcas respigadas pelos ávidos pássaros
As festas sem reflexos as dores sem eco
Frontes olhos atormentados pelas sombras
Risos como encruzilhadas
Os campos o mar o tédio torres silenciosas sem fim
Vejo leio esqueço
O livro aberto das minhas janelas fechadas


Identités

à Dora Maar

Je vois les champs la mer couverts d'un jour égal
Il n'y a pas de différences
Entre le sable qui sommeille
La hache au bord de la blessure
Le corps en gerbe déployée
Et le volcan de la santé

Je vois mortelle et bonne
L'orgueil qui retire sa hache
Et le corps qui respire á pleins dédains sa gloire
Je vois mortelle et désolée
Le sable qui revient á son lit de départ
Et la santé qui a sommeil
Le volcan palpitant comme un coeur dévoilé
Et les barques glanées par des oiseaux avides
Les fétes sans reflet les douleurs sans écho
Des fronts des yeux en proie aux ombres
Des rires comme des carrefours
Les champs la mer I'ennui tours silencieuses tours sans fin
Je vois je lis j'oublie
Le livre ouvert de mes volets fermés.

[Cours naturel — 1938)
____________________
Algumas das Palavras, antologia — Paul Éluard, bilíngue, Organização, Seleção e Prefácio de António Ramos Rosa, Tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, 2ª edição, 1977, Publicações Dom Quixote, Lisboa — Portugal; Paul Éluard (1895 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, ou Paul Eugène Grindel, francês de Saint-Denis, subúrbio parisiense, ainda adolescente contraiu tuberculose, teve que interromper seus estudos, foi poeta participante ativo do movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; em 1914, foi “mobilizado” para a Primeira Guerra Mundial e atuou como enfermeiro militar; o poeta também lutou na segunda grande guerra; desde 1926, ele e a maioria dos surrealistas haviam se filiado ao Partido comunista francês, mas, mesmo Éluard sendo expulso depois, nunca deixou de marcar presença e apoiar revolucionários e revoluções; em 1942, seu poema ‘Une seule pensée(Um único pensamento) foi enviado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa conflagrada quem contrabandeou o poema de Éluard foi o pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 2003), que muito posteriormente recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada; Paul Éluard manteve uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall, atuantes na vida cultural francesa e europeia da época; suas obras: Premiers poèmes (1913), De devoir et l’inquiétude (1917), Poèmes pour la paix (1918), Les animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922), L’amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925), La dame de carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’amour la poésie (1929), À toute épreuve (1930), La vie immédiate (1932), La rose publique (1934), Facile (1935), Les yeux fertiles (1936), Évidence poétique habitude de la poésie (1937), Cours naturel (1938), Le livre ouvert (1940-1942), Poésie et vérité (1942), Au rendez-vous allemand (1942-1945), Le lit la table (1944), Une longue réflexion amoureuse (1945), Le dur désir de durer (1946), Poésie ininterrompue (1946), Corps mémorable (1948), Une leçon de morale (1949), Ode a Staline (1950), Le pPhénix (1951), Picasso (dessins, 1952), Poésie ininterrompue (1953); teve poemas adaptados e musicados por mais de um compositor; Paul Éluard teve relação conturbada com Gala (Elena Ivanovna Diakonova), jovem russa que havia conhecido em 1913 em um sanatório suíço, que se tornara sua musa, e com quem se casou em 1916; em 1930, Gala o deixou, e se uniu a Salvador Dali; após isso, Eluárd teve outras duas musas: Maria Benz, apelidada de "Nusch", uma artista de music hall de origem alsaciana, que veio a morrer algum tempo depois, e Dominique (Odette Lemort), francesa que havia conhecido em um Congresso da Paz, no México, e com ambas também se casou.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Paul Éluard: Ó meus irmãos contrários . . .

 
____________________
[traduzido por António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge]

Ó meus irmãos contrários que guardais nas vossas pupilas
A noite infusa e o seu horror
Onde vos deixei eu
Com vossas pesadas mãos no azeite preguiçoso
Dos vossos actos antigos
Com tão pouca esperança que a morte tem razão
Ó meus irmãos perdidos
Eu vou para a vida tenho aparência de homem
Para provar que o mundo é feito à minha medida

E não estou só
Mil imagens de mim multiplicam a luz
Mil olhares semelhantes igualam a carne
É a ave é a criança é a rocha é a planície
Que se misturam a nós
O ouro desata a rir ao ver-se fora do abismo
A água o fogo despem-se por uma única estação
Já não há eclipse na fronte do universo.

Paul Éluard

Ó mes frères contraires . . .

Ô mes frères contraires gardant dans vos prunelles
La nuit infuse et son horreur
Où vous ai-je laissés
Avec vos lourdes mains dans l’huile paresseuse
De vos actes anciens
Avec si peu d’espoir que la mort a raison
Ô mes frères perdus
Moi je vais vers la vie j’ai l’apparence d’homme
Pour prouver que le monde est fait à ma mesure

Et je ne suis pas seul
Mille images de moi multiplient ma lumière
Mille regards pareils égalisent la chair
C’est l’oiseau c’est l’enfant c’est le roc c’est la plaine
Qui se mêlent à nous
L’or éclate de rire de se voir hors du gouffre
l’eau le feu se dénudent pour une seule saison
Il n’y a plus d’éclipse au front de l’univers.

[Cours naturel —  1938)
____________________
Algumas das Palavras, antologia — Paul Éluard, bilíngue, Organização, Seleção e Prefácio de António Ramos Rosa, Tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge, 2ª edição, 1977, Publicações Dom Quixote, Lisboa — Portugal; Paul Éluard (1895 1952), pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, ou Paul Eugène Grindel, francês de Saint-Denis, subúrbio parisiense, ainda adolescente contraiu tuberculose, teve que interromper seus estudos, foi poeta participante ativo do movimento dadaísta e um dos pilares do surrealismo; em 1914, foi “mobilizado” para a Primeira Guerra Mundial e atuou como enfermeiro militar; o poeta também lutou na segunda grande guerra; desde 1926, ele e a maioria dos surrealistas haviam se filiado ao Partido comunista francês, mas, mesmo Éluard sendo expulso depois, nunca deixou de marcar presença e apoiar revolucionários e revoluções; em 1942, seu poema ‘Une seule pensée(Um único pensamento) foi enviado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra e, ali, após ser traduzido para vários idiomas, foi distribuído como panfleto e lançado por aviões aliados nos céus de uma Europa conflagrada quem contrabandeou o poema de Éluard foi o pintor brasileiro e pernambucano Cícero Dias (1907 2003), que muito posteriormente recebeu condecoração do governo francês pela proeza realizada; Paul Éluard manteve uma convivência intensa com os poetas André Breton e Louis Aragon e os artistas plásticos e pintores Picasso, De Chirico, Salvador Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall, atuantes na vida cultural francesa e europeia da época; suas obras: Premiers poèmes (1913), De devoir et l’Inquiétude (1917), Poèmes pour la paix (1918), Les animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920), Répétitions (1922), L’amoureuse (1923), Mourir de ne pas mourir (1924), Au défaut du silence (1925), La dame de carreau (1926), Capitale de la douleur (1926), L’amour la poésie (1929), À toute épreuve (1930), La vie immédiate (1932), La rose publique (1934), Facile (1935), Les yeux fertiles (1936), Évidence poétique habitude de la poésie (1937), Cours naturel (1938), Le livre ouvert (1940-1942), Poésie et vérité (1942), Au rendez-vous allemand (1942-1945), Le lit la table (1944), Une longue réflexion amoureuse (1945), Le dur désir de durer (1946), Poésie ininterrompue (1946), Corps mémorable (1948), Une leçon de morale (1949), Ode a Staline (1950), Le phénix (1951), Picasso (dessins, 1952), Poésie ininterrompue (1953); teve poemas adaptados e musicados por mais de um compositor; Paul Éluard teve relação conturbada com Gala (Elena Ivanovna Diakonova), jovem russa que havia conhecido em 1913 em um sanatório suíço, que se tornara sua musa, e com quem se casou em 1916; em 1930, Gala o deixou, e se uniu a Salvador Dali; após isso, Eluárd teve outras duas musas: Maria Benz, apelidada de "Nusch", uma artista de music hall de origem alsaciana, que veio a morrer algum tempo depois, e Dominique (Odette Lemort), francesa que havia conhecido em um Congresso da Paz, no México, e com ambas também se casou.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Gérard de Nerval: Anteros

Resultado de imagem para As Filhas do Fogo 15 Livro B Editorial Estampa Gérard de Nerval
____________________
[traduzido por M. João Gomes]

Perguntas porque tenho no peito tanta ira
E nos ombros ostento esta fronte indomada:
É que, da geração de Anteu originado,
Sou o que o tenso dardo aos próprios deuses vibra.

Sim, sou daqueles a quem o Vingador inspira;
Ele me marcou no rosto um ósculo irado;
De Abel na palidez do sangue fui banhado,
Implacável Caim que de paixão delira.

Ó Jeová, quem foi que o teu poder vencia,
E do profundo inferno gritava: “Ó tirania”!?
Foi meu avô Beluz, meu pai Degon talvez...

Três vezes me banhei nas águas de Cocita,
Protejo minha mãe viúva Amalecita,
Do dragão lhe deixando a presa esparsa aos pés.

(As Quimeras)

Resultado de imagem para gérard de nerval fr
Gérard de Nerval

Antéros

Tu demandes pourquoi j’ai tant de rage au coeur
Et sur un col flexible une tête indomptée;
C’est que je suis issu de la race d’Antée,
Je retourne les dards contre le dieu vainqueur.

Oui, je suis de ceux-là qu’inspire le Vengeur,
Il m’a marqué le front de sa lèvre irritée,
Sous la pâleur d’Abel, hélas! ensanglantée,
J’ai parfois de Caïn l’implacable rougeur!

Jéhovah! le dernier, vaincu par ton génie,
Qui, du fond des enfers, criait: “O tyrannie!”
C’est mon aïeul Bélus ou mon père Dagon…

Ils m’ont plongé trois fois dans les eaux du Cocyte,
Et, protégeant tout seul ma mère Amalécyte,
Je ressème à ses pieds les dents du vieux dragon.

(Les Chimères)
____________________
As Filhas do Fogo (e As Quimeras) — Gérard de Nerval, Traduções de Luiza Neto Jorge (As Filhas do Fogo) e M. João Gomes (As Quimeras), 1972, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Gérard de Nerval (1808 1855), nascido Gérard Labrunie, francês parisiense, foi poeta, dramaturgo, contista, novelista e romancista; estudou no Collège Charlemagne Paris, participou do Petit Cénacle, um círculo de intelectuais e artistas boêmios, traduziu Goethe e Klopstock para o francês, criou a revista Le Monde Dramatique, direcionada ao teatro e que circulou por alguns meses; parte de seus poemas foram publicados em jornais e revistas da época; bibliografia: Elégies et Odelettes (1834), Voyage en Orient (1851), Les Filles du feu (1854), Promenades et souvenirs (1854), Les Chimères (1854), Aurélia ou le Rêve et la Vie (1855) e outros títulos em verso, prosa e para teatro; o poeta, que esteve internado mais de uma vez para acompanhamento e tratamento de suas perturbações mentais e alucinações, cometeu suicídio enforcando-se numa viela de Paris.