Mas o que aprontava o tal "Atanásio" bebeano de antanho?
O Sessentão recorda-se de dois "causos" que envolveram o "homônimo" do personagem de Carlos Drummond de Andrade:
- "causo" nº 1 — o banco, num rasgo de demonstração de modernidade democrática, resolvera alterar as normas de uso do vestuário masculino e feminino. Às mulheres, que antes eram obrigadas a trabalhar de saias e blusas e/ou vestidos, foi permitido o uso de calças compridas. Já aos homens, obrigados a usar camisas com mangas longas e gravatas, foi permitido o uso de camisas com mangas curtas e sem gravata àqueles que não trabalhassem diretamente no atendimento do público externo. O Sessentão, à época Trintão!, que não tinha camisa de mangas curtas mas se encaixava no caso, tomou ciência dos novos normativos e aderiu ao figurino. No dia seguinte compareceu ao serviço sem gravata e com camisa de mangas longas. Foi devidamente chamado às falas pelo supervisor, que o advertiu estar "ferindo as normas do padrão" e o "convidou" a arrumar uma gravata, já que portava camisa com mangas longas. O "Atanásio" em questão não quis conversa: " — Ordens são ordens, aqui no meu setor você só pode trabalhar sem gravata se estiver portando camisa com mangas curtas!"
- "causo" nº 2 — um colega nissei, transferido havia pouco tempo de agência do interior paulista, questionou um método de contabilização transitória que habitualmente era feito na seção de responsabilidade do "Atanásio". Sem rodeios, o nosso "homônimo drummondiano" mandou que o "japa" relesse melhor as instruções. Mas o teimoso oriental insistiu, afirmou que, nas agências por onde passara, a contabilização era feita de forma diferente e explicou com detalhes como deveria ser o procedimento. Claro que "Atanásio" soltou fogo pelas ventas e, brandindo os normativos, não deu o braço a torcer. O japonês recém chegado à seção comprou a briga e o impasse estava dado. "Atanásio", iluminando-se, ou quase que trucando!, pegou o telefone, discou para o Departamento de Contabilidade em Brasília, conversou com alguém e, passando o fone para o japa atrevido, disse secamente: " — Repita pra "Deus" o que você interpretou do normativo!" O colegasan não se fez de rogado e repetiu seu ponto de vista ao pai de tudo. Argumentos trocados, "Deus" dá razão ao "discípulo" que acabara de chegar da agência interiorana. O telefone volta para as mãos de "Atanásio" que, ouvido "Deus", repõe o aparelho no gancho e, incisivo, ordena: " — Ordens, são ordens! Faça o que "Deus" mandou!"
É, "Atanásio" não dava o braço a torcer.
____________________Agora, à crônica do mineiro Drummond:
Cara cem por cento é o Atanásio, do Departamento Sindical, setor de assembléias. Tão cem por cento que, quando o ex-presidente Jânio Quadros, lançou o uniforme indo-mato-grossense para o serviço público, ele deu o prazo de 15 dias para que todos os funcionários sob sua chefia adotassem a indumentária oficial. Houve protestos, não cedeu. Duas semanas depois, a turma toda aparecia uniformizada, e Atanásio, antes de dar início aos trabalhos, passava-a em revista.
— O senhor aí. Está com o botão superior do dólmã desabotoado. Retire-se.
— Por que não passou a ferro o seu uniforme? Todo amassado, horrível. Suspenso por três dias.
— Mas...
— Quer que eu o suspenda por sete?
O enxoval de serviço não chegou a ser oficializado, ficou em conversa brasileira, sabe como é? Atanásio teve de curvar-se à inexistência de lei impositiva. Relaxou a vigilância, com dor d'alma. E quando Jânio se mandou, teve esta explicação para a queda:
— Caiu porque não sustentou o uniforme. Quem não cria a forma, não é capaz de criar a substância.
Eu podia citar outros exemplos da inamobilidade de Atanásio, mas fico nesse do dólmã burocrático, porque o Ministro Passarinho e o Governador Negrão acabam de promover uma abertura em matéria de vestuário. Os servidores poderão comparecer à repartição mais à vontade, trocando paletó e gravata por um blusão leve, que não ofenda o decoro. Com esse calor danado, quem não apreciaria?
Chefe Atanásio não apreciou nem desapreciou: resolveu cumprir a ordem à sua maneira integral. O primeiro funcionário que lhe apareceu de casaco e gravata levou advertência:
— Não leu a portaria?
— Que portaria?
— A portaria que regula a nova roupa de serviço.
— Perdão, trata-se de algo facultativo, Seu Atan.
— Facultativo é ponto, portaria é portaria. E no meu setor, as portarias sempre foram cumpridas.
Atanásio regulamentou o blusão, verdade seja que com a colaboração espontânea da maioria de seus subordinados, só não admitindo sugestões com referência a determinadas cores, e proibindo desenhos figurativos. O grupinho do contra, porém, não apenas se absteve de participar dos estudos, como insiste em usar a trapizonga antiquada. E Atanásio, que não é de sentir calor nem frio fora dos regulamentos, acha isso falta grave.
Ele próprio aboliu o paletó e jogou fora as gravatas, isto é, guardou-as, com os paletós, até segunda ordem, pois nada obsta a que, em chegando o inverno, o assunto volte a ser cogitado em escalão superior. Teve de abrir um crediário imenso num magazine da cidade: nada menos de 12 blusões de nylon, para atender a portaria e à lavadeira. Por isso mesmo, não aceita a rebelião dos engravatados.
— Ainda não puni o senhor porque me faltam elementos. Aguardo o parecer do consultor jurídico. Mas, por minha fé, sei que ele me dará respaldo legal.
— Mas, chefe...
— Este paletó é um escárnio, esta gravata é um achincalhe, eu sei, mas o senhor não perde por esperar. Além do mais, reincidente: em 1961, deu uma de tratamento de saúde, só pra não envergar o uniforme!
No momento, Atanásio, enquanto espera o pronunciamento do consultor, cogita de representar a seu superior hierárquico, propondo uma portaria que torne obrigatoriamente mais leves as vestimentas das funcionárias, para rimar com os blusões masculinos.
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O Poder ultrajovem e mais 79 textos em verso e prosa de Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987), Livraria José Olympio Editora, Coleção Sagarana, volume n° 96, 1974, Rio de Janeiro — RJ; poeta, contista e cronista, Drummond viveu intensamente o seu tempo e nos oferece como legado incontáveis obras em verso e prosa: Alguma Poesia; Brejo das Almas; Sentimento do Mundo; José; A Rosa do Povo; Novos Poemas; Claro Enigma; Fazendeiro do Ar; A vida Passada a Limpo; Lição de Coisas; A Falta que Ama; As Impurezas do Branco; Boitempo; Menino Antigo (Boitempo II); Versiprosa; Viola de Bolso; Discurso de Primavera, e algumas sombras; Contos de Aprendiz; Confissões de Minas; Passeios na Ilha; Fala, Amendoeira; A Bolsa e a Vida; Cadeira de Balanço; Caminhos de João Brandão; O Poder Ultrajovem; De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica; O Sessentão de Bacaetava é contador de "causos" que ouviu e/ou por ele foram vivenciados durante os seus mais de trinta anos de vida bancária.

