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De dia na soidão seguir-te os passos,
De noite vigiar-te à luz da alâmpada,
Se quem amas, e a sombra com quem sonhas
Eis minha eternidade!
Maciel Monteiro.
Quando longe de ti eu vegeto
Nestas horas de largos instantes,
O ponteiro, que passa os quadrantes
Marca séc’los, s’esquece de andar.
Fito o céu — é uma nave sem lâmpada.
Fito a terra — é uma várzea sem flores.
O universo é um deserto de dores
A madona não brilha no altar.
Então lembro os momentos passados,
Então lembro tuas frases queridas,
Como o infante que as pedras luzidas
Uma a uma desfia na mão.
Como a virgem, que as jóias de noiva
Conta alegre a sorrir de alegria,
Conto os risos, que deste-me um dia,
Que rolaram no meu coração.
Me recordo o lugar onde estavas.
O rugir de teu lindo vestido,
Como as asas de um anjo caído
Quando roçam nas flores do val...
Vejo ainda os teus olhos quebrados,
Este olhar de tão fúlgidos raios,
Este olhar que me mata em desmaios,
Doce, terno, amoroso, fatal...
Tuas frases... são garças, que voam,
É meu peito — o seu cândido ninho...
Teus amores — a flor do caminho,
Que eu apanho, viajante do amor.
Quer os cardos me firam as plantas,
Quer os ventos me açoitem a fronte,
Dou-lhe orvalho — do pranto na fonte,
Dou-lhe sol — do meu peito no ardor.
Oh! se Deus algum dia orgulhoso
O seu livro infinito volvesse,
E nas letras de estrelas relesse
Seu passado nas folhas azuis
Não teria o orgulho que tenho,
Quando o abismo dest'alma sondando,
No infinito de amor me abismando
Eu me engolfo num pego de luz...
Teu amor... teu amor me engrandece,
Dá-me forças nos transes da vida,
E a borrasca fatal, insofrida,
Faz-me dó, faz-me rir de desdém...
Se eu cair, — rolarei no teu seio...
Se eu sofrer, — ouvirei o teu canto!
Sentirei nos meus dias de pranto
Que inda longe de mim — vela alguém!
Meu amor... Meu amor é um delírio...
É volúpia, que abrasa e consome
Meu amor é uma mescla sem nome.
És um anjo, e minh’alma — um altar.
Oh! meu Deus! manda ao tempo, que fuja,
Que deslizem em fio os instantes,
E o ponteiro, que passa os quadrantes,
Marque a hora em que a possa beijar.
Convento de S. Francisco no Recife,
julho de
1866.
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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas
de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ;
Antônio Frederico de Castro Alves (1847 — 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras,
antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito
de Recife e de São Paulo (atual USP — Largo São Francisco), foi poeta e também escritor;
na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu
poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão
e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida,
1870), Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras
em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio,
na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido
Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A
Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...; o poeta traduziu poemas de Victor Hugo,
Henry Murger, Lamartine, Musset, Byron e outros.













