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segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Castro Alves: Horas do martírio (Dama negra)

 
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De dia na soidão seguir-te os passos,
De noite vigiar-te à luz da alâmpada,
Se quem amas, e a sombra com quem sonhas
Eis minha eternidade!
Maciel Monteiro.

Quando longe de ti eu vegeto
Nestas horas de largos instantes,
O ponteiro, que passa os quadrantes
Marca séc’los, s’esquece de andar.
Fito o céu é uma nave sem lâmpada.
Fito a terra é uma várzea sem flores.
O universo é um deserto de dores
A madona não brilha no altar.

Então lembro os momentos passados,
Então lembro tuas frases queridas,
Como o infante que as pedras luzidas
Uma a uma desfia na mão.
Como a virgem, que as jóias de noiva
Conta alegre a sorrir de alegria,
Conto os risos, que deste-me um dia,
Que rolaram no meu coração.

Me recordo o lugar onde estavas.
O rugir de teu lindo vestido,
Como as asas de um anjo caído
Quando roçam nas flores do val...
Vejo ainda os teus olhos quebrados,
Este olhar de tão fúlgidos raios,
Este olhar que me mata em desmaios,
Doce, terno, amoroso, fatal...

Tuas frases... são garças, que voam,
É meu peito o seu cândido ninho...
Teus amores a flor do caminho,
Que eu apanho, viajante do amor.
Quer os cardos me firam as plantas,
Quer os ventos me açoitem a fronte,
Dou-lhe orvalho do pranto na fonte,
Dou-lhe sol do meu peito no ardor.

Oh! se Deus algum dia orgulhoso
O seu livro infinito volvesse,
E nas letras de estrelas relesse
Seu passado nas folhas azuis
Não teria o orgulho que tenho,
Quando o abismo dest'alma sondando,
No infinito de amor me abismando
Eu me engolfo num pego de luz...

Teu amor... teu amor me engrandece,
Dá-me forças nos transes da vida,
E a borrasca fatal, insofrida,
Faz-me dó, faz-me rir de desdém...
Se eu cair, rolarei no teu seio...
Se eu sofrer, ouvirei o teu canto!
Sentirei nos meus dias de pranto
Que inda longe de mim vela alguém!

Meu amor... Meu amor é um delírio...
É volúpia, que abrasa e consome
Meu amor é uma mescla sem nome.
És um anjo, e minh’alma um altar.
Oh! meu Deus! manda ao tempo, que fuja,
Que deslizem em fio os instantes,
E o ponteiro, que passa os quadrantes,
Marque a hora em que a possa beijar.


Convento de S. Francisco no Recife,
julho de 1866.
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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...; o poeta traduziu poemas de Victor Hugo, Henry Murger, Lamartine, Musset, Byron e outros.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Henri Murger: A Balada do Desesperado

 
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[traduzido por Castro Alves]

Quem bate à porta a tais horas?
Abre, sou eu. Quem tu és?
Não se entra na minha casa
Tão tarde assim, bem o vês.

Abre. Teu nome? Há geada,
Abre. Teu nome? És tardio!
Qual é teu nome? Ai, na cova
Um morto não tem mais frio.

Eu caminhei todo o dia
Do sul ao setentrião,
Ao pé da tua lareira
Quero sentar-me Inda não!

Diz teu nome... Eu sou a glória
E aspiro à posteridade...
Passa fantasma irrisório...
Ó dá-me hospitalidade!

Eu sou o amor e a esperança
As duas porções de Deus...
Segue a estrada... A minha amante
Há muito me disse adeus!

 Eu sou a arte e a poesia,
Proscreveram-me... Abre! Não!
Já não canto minha amante.
Nem sei que nome lhe dão!...

Abre, que eu sou a riqueza,
E trago do ouro o fulgor,
Posso dar-te a tua amante...
Podes dar-me o seu amor?

 Sou o poder, tenho a púrpura.
Abre a porta!   Anelo vão!
Podes trazer-me a existência
Daqueles que já não são?!

Se tu não abres teus lares
Senão a quem diz seu nome
Sou a morte! trago alívio
P'ra cada dor que consome!

Podes ver, trago na cinta
Ruidosas chaves fatais...
Abrigarei teu sepulcro
Do insulto dos animais.

Entra, estrangeira funérea...
Perdoa à mendicidade,
Porque é no lar da miséria
Que tens hospitalidade.

Entra; cansei-me da vida
Que nada tem que me dar...
Há muito eu tinha desejos
(Não força) de me matar!

Entra no lar, bebe e come,
Dorme, e quando despertares,
Para pagar tua conta
Hás-de levar-me aos teus lares.

Eu te esperava, eu te sigo...
Vamos... arrasta-me... assim...
Mas deixa o meu cão na terra
P'ra eu ter quem chore por mim!

[tradução feita em S. Paulo, 1868]

Henri Murger

La Ballade du Désespéré

Qui frappe à ma porte à cette heure?
Ouvre, c’est moi. Quel est ton nom?
On n’entre pas dans ma demeure
À minuit ainsi, sans façon.

Ouvre. Ton nom? La neige tombe,
Ouvre. Ton nom? Vite, ouvre-moi!
Quel est ton nom? Ah! dans sa tombe
Un cadavre n’a pas plus froid.

J’ai marché toute la journée
De l’ouest à l’est, du sud au nord.
À l’angle de ta cheminée
Laisse-moi m’asseoir. Pas encor!

Quel est ton nom? Je suis la gloire,
Je mène à l’immortalité.
Passe, fantôme dérisoire!
Donne-moi l’hospitalité.

Je suis l’amour et la jeunesse,
Ces deux belles moitiés de Dieu.
Passe ton chemin: ma maîtresse
Depuis longtemps m’a dit adieu.

Je suis l’art et la poésie:
On me proscrit. Vite, ouvre. Non.
Je ne sais plus chanter ma mie,
Je ne sais même plus son nom.

Ouvre-moi! je suis la richesse,
Et j’ai de l’or, de l’or toujours.
Je puis te rendre ta maîtresse.
Peux-tu me rendre nos amours?

Ouvre-moi: je suis la puissance,
J’ai la pourpre. Vœux superflus!
Peux-tu me rendre l’existence
De ceux qui ne reviendront plus?

Si tu ne veux ouvrir ta porte
Qu’au voyageur qui dit son nom,
Je suis la mort: ouvre, j’apporte
Pour tous les maux la guérison.

Tu peux entendre à ma ceinture
Sonner les clés des noirs caveaux;
J’abriterai ta sépulture
De l’insulte des animaux.

Entre chez moi, maigre étrangère,
Et pardonne à ma pauvreté.
C’est le foyer de la misère
Qui t’offre l’hospitalité.

Entre: je suis las de la vie,
Qui pour moi n’a plus d’avenir.
J’avais depuis longtemps l’envie,
Non le courage de mourir.

Entre sous mon toit, bois et mange,
Dors, et quand tu t’éveilleras,
Pour payer ton écot, cher ange,
Dans tes bras tu m’emporteras.

Je t’attendais; je veux te suivre.
Où tu m’emmèneras, j’irai;
Mais laisse mon pauvre chien vivre,
Pour que je puisse être pleuré!
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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Louis-Henri Murger ou Henry Murger (1822 1861), francês parisiense, com escassa e fragmentada educação escolar, foi romancista e poeta; abandonando os estudos aos 15 anos, Henry Murger enfrentou uma variedade de trabalhos braçais antes de empregar-se no escritório de um advogado; passou a escrever poemas e, chamando a atenção do escritor Étienne de Jouy, com quem teve ligação, tornou-se secretário do conde Aleksey Tolstoi, um nobre russo que vivia em Paris; iniciou a carreira literária em 1841 com ensaios literários e poéticos e, para sobreviver, escreveu sobre tudo o que o mercado gráfico jornalístico era demandado e aceitava; foi editor de um jornal de moda, Le Moniteur de la Mode, e de comércio de chapelaria, Le Castor; suas obras: Scènes de la vie de bohème (novela, 18471849), Scènes de la vie de jeunesse (1851), Le Bonhomme Jadis (comédia, 1852), Ballades et Fantaisies (poesias, 1854), Les Nuits d’hiver (poesias, 1861) etc.; vários de seus romances surgiram na revista Revue des deux Mondes, entre os quais Les Pays Latin (1851), Adeline Prótat (1853) e Les Buverus d’eau (1854); Murger viveu sempre atormentado por questões financeiras, morreu aos 38 anos e em sua biografia consta que teve o funeral custeado pelo governo francês e que o jornal Le Figaro criou um fundo para arrecadar dinheiro e construir um monumento à memória do poeta e romancista, com ampla aceitação e colaboração de expoentes do jornalismo, literatura, teatro e artes; sua obra Scènes de la vie de bohème inspirou e serviu de base para os compositores Giacomo Puccini e Ruggero Leoncavallo criarem as óperas La Bohème, ambas de mesmo nome, em 1896 e 1897.

sábado, 4 de setembro de 2021

Castro Alves: Poesia [prosa poética]

 
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          I

          Um dia, enquanto mirava a fumaça azulada de um cigarro, pensava eu tristemente no desânimo, que se tem apoderado dos moços, fazia a mim mesmo estas reflexões:
          A mocidade é cheia de sentimentos.
          É a lira sonora do belo.
          É a flor que desabotoa para receber as gotas do orvalho.
          É a ave implume que abre o biquinho para aspirar os perfumes da alvorada.
          É a brisa, que geme nas madeixas das florestas, e também ruge mas cumeadas das serras.
          É a gazela que mira, tímida e amorosa, a sua sombra no riacho.
          . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

          E depois eu me perguntava:
          Por que a flor desfalece? por que a ave tirita? por que a brisa é muda? por que a gazela se esconde nas selvas?...
          E um pensamento me enunciava a fronte.
          É o materialismo, que invade?
          É a crítica, que mata?
          Não! o materialismo é o apanágio dos espíritos blasés.
          Mas a crítica?
          E eu ia dizer talvez que a crítica faz retroceder o passo a muito talento modesto, quando vieram entregar-me um volume de poesias.

          II

          A poesia é um sacerdócio. seu Deus o belo. seu turibulário o Poeta.
          Grande e sublime profissão!...
          Debalde Pelletan lançar-lhe-á o seu Consummatum. A voz do autor do Monde Marche é altíssona, porém mais forte a consciência da humanidade, abraçando-se ao poeta nas horas de agonia.
          Platão não lhe lançou o anátema, ele que fora poeta?
          Cícero não a achou perversora?...
          Mas ei-la sempre a virgem da Poesia, atravessando os séculos, cada vez mais bela, porque traz mais flores em sua coroa de martírio.
          E ela há de sempre viver, porque o sentimento sempre há de existir, porque o belo nunca há de morrer no mundo...
          Eu sei que às vezes a turba lhe lança um riso de escárnio, às vezes nem se digna de vê-la.
          É ingratidão...
          Duvidais?...
          O que seria a Grécia antiga sem Homero? Um montão de ruínas sem significação, um covil de reptis, sepulcro de uma geração sem nome, um problema lançado na história.
          E o que é? Palco gigante de uma raça ainda mais gigante, onde, entre os destroços das colunas mutiladas, das divindades confusas com o pó, a imaginação parece descobrir as pegadas de algum Ajax, em luta com os Deuses; na relva, que treme, figura o perpassar das roupagens de Helena, nas nuvens, que se elevam no Levante, as pandas velas de Agamenon.
          O que é a Grécia? O deserto mais povoado do mundo.
          Mas, dir-me-eis: ela jaz morta.
          Loucos! ela dorme, mas tem por campa a glória, por capitel a imortalidade.
          Um dia, era nos mares da Índia; o gênio das tempestades açoitava com as longas asas a face da  terra. O céu era negro.
          O mar era negro. Lutavam os dois infinitos.
          Quando o fragor da tempestade rareava, ouviam-se gritos de agonia.
          A manhã correu o reposteiro de nuvens, que encobria o céu, e então alumiou os topes dos mastros de um navio, que por instantes apareceram, como cruzes, naquele imenso cemitério.
          Mais próximo à praia, um homem lutava para salvar-se, ou antes para salvar sua pátria, porque ele era Camões.
          A rainha do Ocidente em breve depôs o cetro pesado em suas mãos trêmulas.
          E hoje, quando espraia os olhos pela superfície dos mares, vendo as velas estrangeiras cruzarem o horizonte, sente uma lágrima tremer-lhe nas pálpebras, abaixa os olhos, e a mão, que ia enxugar essa lágrima, leva entusiástica um livro ao coração Os Lusíadas.
          Fumegam os restos de Jerusalém... Nabucadonosor o gênio da destruição fez da cidade maldita um cemitério.
          Como é belo, como é triste ouvir-se esta lamentação de Jeremias! “Ei-la sentada solitária a cidade outrora tão cheia de povo...
          Debalde chora a noite, porque ninguém lhe enxuga o pranto...
          Suas portas estão derrubadas, seus sacerdotes gemem, suas virgens estão manchadas...
          O vós todos que passais, considerai e vede se há dor, que se compare à minha?!”
          Parece o grito da andorinha, que perdeu o seu ninho, ou o soluçar de uma mãe solitária junto à cruz de um cemitério.
          Sempre o poeta derramando uma lágrima pelas desgraças do mundo.
          É que para chorar as dores pequenas Deus criou a afeição, para adorar a humanidade a poesia.
          Quando o braço da fatalidade nivela os pórticos soberbos com a poeira humilde do chão, quando o tempo esse Átila eterno faz debaixo das patas do seu corcel desaparecerem as nacionalidades, ouve-se um gemido triste, como triste deve ser o soluçar dos anjos e um grito melancólico se ergue entre as ruínas.
          E os pórticos se alevantam...
          E as nacionalidades surgem...
          Não esses pórticos, que a fúria do vendaval desboroa. Não essas nacionalidades, que a morte atira ao nada, mas pórticos e nacionalidades eternos, porque o poeta desarma o tempo, com o condão de seu gênio.
          Quando, porém, a humanidade sente-se abrasada na chama de um pensamento grande, o poeta pega da lira, que treme de entusiasmo, e arrasta as turbas encantadas ao heroísmo.
          Então ele é Tasso, ensinando a morte por seu Deus; Béranger, a morte por sua pátria; Antônio José, cantando entre as chamas da Inquisição; Chénier, selando com seu sangue a redenção da França no Gólgota do patíbulo.
          Grande e imorredoura a profissão, apesar dos espinhos, apesar do martírio e do desprezo!
          Deixai, porém, que a turba vocifere.
          Cristo não foi o apedrejado de Jerusalém?
          O poeta pode ser o da humanidade!...

          Recife, 1864

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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...; o poeta traduziu poemas de Victor Hugo, Henry Murger, Lamartine, Musset, Byron e outros.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Castro Alves: A canoa fantástica

 
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Pelas sombras temerosas
Onde vai esta canoa?
Vai tripulada ou perdida?
Vai ao certo ou vai à toa?

Semelha um tronco gigante
De palmeira, que s’escoa...
No dorso da correnteza,
Como bóia esta canoa!...

Mas não branqueja-lhe a vela!
N’água o remo não ressoa!
Serão fantasmas que descem
Na solitária canoa?

Que vulto é este sombrio
Gelado, imóvel, na proa?
Dir-se-ia o gênio das sombras
Do inferno sobre a canoa!...

Foi visão? Pobre criança!
À luz, que dos astros coa,
É teu, Maria, o cadáver,
Que desce nesta canoa?

Caída, pálida, branca!...
Não há quem dela se doa?!...
Vão-lhe os cabelos a rastos
Pela esteira da canoa!...

E as flores róseas dos golfos,
Pobres flores da lagoa,
Enrolam-se em seus cabelos
E vão seguindo a canoa!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


[A Cachoeira de Paulo Afonso]
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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...; o poeta traduziu poemas de Victor Hugo, Lamartine, Musset, Henry Murger, Byron e outros.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Castro Alves: Na fonte

 
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I
"Era hoje ao meio-dia.
Nem uma brisa macia
Pela savana bravia
Arrufava os ervaçais...
Um sol de fogo abrasava;
Tudo a sombra procurava;
Só a cigarra cantava
No tronco dos coqueirais.

II
"Eu cobri-me da mantilha,
Na cabeça pus a bilha,
Tomei do deserto a trilha,
Que lá na fonte vai dar.
Cansada cheguei na mata:
Ali, na sombra, a cascata
As alvas tranças desata
Como u'a moça a brincar.

III
"Era tão densa a espessura!
Corria a brisa tão pura!
Reinava tanta frescura,
Que eu quis me banhar ali.
Olhei em roda... Era quedo
O mato, o campo, o rochedo...
Só nas galhas do arvoredo
Saltava alegre o sagüi.

IV
"Junto às águas cristalinas
Despi-me louca, traquinas,
E as roupas alvas e finas
Atirei sobre os cipós.
Depois mirei-me inocente,
E ri vaidosa... e contente...
Mas voltei-me de repente...
Como que ouvira uma voz!

V
"Quem foi que passou ligeiro,
Mexendo ali no ingazeiro,
E se embrenhou no balceiro,
Rachando as folhas do chão?...
Quem foi?! Da mata sombria
Uma vermelha cutia
Saltou tímida e bravia,
Em procura do sertão.

VI
"Chamei-me então de criança;
A meus pés a onda mansa
Por entre os juncos s'entrança
Como uma cobra a fugir!
Mergulho o pé docemente;
Com o frio fujo à corrente...
De um salto após de repente
Fui dentro d'água cair.

VII
"Quando o sol queima as estradas,
E nas várzeas abrasadas
Do vento as quentes lufadas
Erguem novelos de pó,
Como é doce em meio às canas,
Sob um teto de lianas,
Das ondas nas espadanas
Banhar-se despida e só!...

VIII
"Rugitavam os palmares...
Em torno dos nenufares
Zumbiam pejando os ares
Mil insetos de rubim...
Eu naquele leito brando
Rolava alegre cantando...
Súbito... um ramo estalando
Salta um homem junto a mim!"

[A Cachoeira de Paulo Afonso]

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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...

sábado, 13 de março de 2021

Castro Alves: Queres flores? Queres cantos? *

 
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Queres flores? Queres cantos?
Como hei de dar-tos se prantos
Só tenho no peito meu?
Queres luzes e harmonias?...
Debalde... só agonias
Meu alaúde gemeu...

Donzela! Fora loucura
Pedir ao tufão doçura,
Ao morto alegre canção,
Buscar a flor dos quiosques
Entre os ciprestes, os bosques
Que ensombram funéreo chão.

Porém escuta um conselho...
Pede a Veneza um espelho...
Mira o teu rosto... e verás
Um desses quadros tão belos
Que homens não sabem fazê-los,
Que dous assim Deus não faz.

Na tua boca formosa
Verás uma linda rosa
Meio fechada a sorrir,
E, como gotas nitentes,
As pérolas de teus dentes
No seio da flor luzir.

O perfume do Oriente
Quando rezas inocente
Se embala nos lábios teus.
E no teu seio, se treme,
Tens a Poesia, se geme,
Tens a harmonia dos Céus.

Queres ver o Paraíso?
Descerra os lábios... Um riso
Vem-nos o Éden mostrar...
Canta!... E aos hinos sagrados
Verás no Céu debruçados
Os astros pra te escutar.

Tens a noite nas madeixas
Onde a brisa em temas queixas
Geme... morre de languor.
São mais que os astros brilhantes
Os teus olhos fascinantes,
Lindas estrofes de amor...

E ainda pedes-me um canto?!...
Quebra a lira o Bardo santo
Ao ver um sorriso teu...
Rasga a tela Rafael...
Fídias estala o cinzel...
Deus treme de amor no Céu.

Março de 1866.

[Poesias coligidas]


* Notas do Organizador de Eugênio Gomes: Publ. [publicada] com o título “Num Álbum” na Rev. [revista] Terra de Sol (nº 7, RJ, jul. 1924), incompletamente, e assim reproduzida nas OC/44 [Obra Completa  ed. 1944]. Texto integral nesta ed., de acordo com Vida de Castro Alves, de Xavier Marques (2ª ed., RJ, 1924, p. 168). O orig. [original], cuja data é “Março de 66 [1866], não traz título.
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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...

quarta-feira, 3 de março de 2021

Castro Alves: Canção do violeiro

 
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Passa, ó vento das campinas,
Leva a canção do tropeiro.
Meu coração ‘stá deserto,
‘Stá deserto o mundo inteiro.
Quem viu a minha senhora
Dona do meu coração?

          Chora, chora na viola,
          Violeiro do sertão.

Ela foi-se ao pôr da tarde
Como as gaivotas do rio.
Como os orvalhos que descem
Da noite num beijo frio,
O cauã canta bem triste,
Mais triste é meu coração.

          Chora, chora na viola,
          Violeiro do sertão.

E eu disse: a senhora volta
Com as flores da sapucaia.
Veio o tempo, trouxe as flores,
Foi o tempo, a flor desmaia.
Colhereira, que além voas,
Onde está meu coração?

          Chora, chora na viola,
          Violeiro do sertão.

Não quero mais esta vida,
Não quero mais esta terra.
Vou procurá-la bem longe,
Lá para as bandas da serra.
Ai! triste que eu sou escravo!
Que vale ter coração?

          Chora, chora na viola,
          Violeiro do sertão.

Recife, setembro de 1865.

[Os Escravos]

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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP — Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes (único livro editado em vida, 1870), Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Musset: Madri

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[tradução livre de Castro Alves] *

Madri! Ó flor das Espanhas,
Correm nas tuas campanhas
Olhos escuros e azuis.
Branca flor das serenatas,
Lavam-se em tuas cascatas
Pequeninos pés tafuis.

Quando os touros mais se irritam,
Que brancas mãos que palpitam!
Que charpas voam no ar!
Em tuas noites doiradas,
As senhoritas veladas,
Sabem descer de um solar.

Madri! Madri! Eu não minto...
Quem teve mais curto cinto
Ou mais estreito chapim?
Eu conheço uma pequena,
Que jamais loura ou morena
Valeram-lhe... tanto assim!

Mas, cautela!... A velha fria
Que a penteia... a gelosia
Só abre a mim... bem o sei!
Quem quiser bater-se ao certo
Na missa passe-lhe perto...
Seja o bispo, seja o rei.

Porque ela é minha andaluza,
Minha amante, minha musa,
A dama do meu amor.
Mais que um anjo!... um demoninho...
Tem o ardor de um passarinho,
E de uma laranja a cor.

Na minha boca profana
Quando ela s'espasma insana,
É para ver e pasmar
Seu corpo ligeiro, frágil,
Quem uma serpente mais ágil
Em meus braços s'enrosca!...

E tão soberba conquista,
Sabeis quem m'a deu? A vista
Do meu corcel triunfal...
Versos à sua mantilha...,
E uns confeitos de baunilha
Em noite de carnaval!...

S. Isabel, 27 de julho de 1870.

Musset

Madrid **

Madrid, princesse des Espagnes,
Il court par tes mille campagnes
Bien des yeux bleus, bien des yeux noirs.
La blanche ville aux sérénades,
Il passe par tes promenades
Bien des petits pieds tous les soirs.

Madrid, quand tes taureaux bondissent,
Bien des mains blanches applaudissent,
Bien des écharpes sont en jeux.
Par tes belles nuits étoilées,
Bien des senoras long voilées
Descendent tes escaliers bleus.

Madrid, Madrid, moi, je me raille
De tes dames à fine taille
Qui chaussent l'escarpin étroit;
Car j'en sais une par le monde
Que jamais ni brune ni blonde
N'ont valu le bout de son doigt!

J'en sais une, et certes la duègne
Qui la surveille et qui la peigne
N'ouvre sa fenêtre qu'à moi;
Certes, qui veut qu'on le redresse,
N'a qu'à l'approcher à la messe,
Fût-ce l'archevêque ou le roi.

Car c'est ma princesse andalouse!
Mon amoureuse! ma jalouse!
Ma belle veuve au long réseau!
C'est un vrai démon! c'est un ange!
Elle est jaune, comme une orange,
Elle est vive comme un oiseau!

Oh! quand sur ma bouche idolâtre
Elle se pâme, la folâtre,
Il faut voir, dans nos grands combats,
Ce corps si souple et si fragile,
Ainsi qu'une couleuvre agile,
Fuir et glisser entre mes bras!

Or si d'aventure on s'enquête
Qui m'a valu telle conquête,
C'est l'allure de mon cheval,
Un compliment sur sa mantille,
Puis des bonbons à la vanille
Par un beau soir de carnaval.

Notas do Organizador Eugênio Gomes:
* Publ. nas Poesias (1913) e nas OC/21[Obras Completas (1921)]
** A poesia orig. é de 1829 e está em Premières Poésies (1852).
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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês nascido em Paris, tido como "l'enfant terrible" do romantismo, foi poeta, novelista e dramaturgo; de sua biografia, consta que "estudou direito, medicina, música e desenho e, desde os 14 anos de idade, já fazia seus versos", 'A ma mére' (1824), 'A Mademoiselle Zoé le Douairin' (1826), 'Un rêve', 'L’anglais mangeur d’opium' (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), La coupe et les lèvres, Namouna (1831), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro, 1834), Lorenzaccio (teatro), Fantasio (teatro, 1834), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836) Nuits (Noites, 1837), Lettres de Dupuis et Cotonet (Cartas de Dupuis e Cotonet, crítica), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé (É preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros títulos; pertenceu à Académie Française.