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terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Miguel Torga: Livro de Horas

 
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Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
de virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas
O das facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

(O outro livro de Job — 1936)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Miguel Torga (1907 1995), pseudônimo literário de Adolfo Correia da Rocha, português da freguesia de São Martinho de Anta Sabrosa (Trás-os-Montes), fez seus estudos iniciais na escola de sua cidade natal, ingressou no seminário de Lamego, estudou Português, Geografia e História, aprendeu Latim e familiarizou-se com os textos sagrados, desistiu de ser padre e emigrou para o Brasil em 1920; permaneceu no país até 1925, estudou no Ginásio Leopoldinense,  Leopoldina MG, por esta ocasião escreveu seus primeiros versos, regressou a Portugal, concluiu o colégio, cursou Medicina na Universidade de Coimbra; em 1929, deu início à participação em tertúlias literárias, e à colaboração na revista Presença, consolidando, assim, sua “formação estético-literária”; em 1930, foi um dos cofundadores da revista Sinal, de “vida efêmera”; em 1933, já com quatro livros de poesia publicados, concluiu o curso de Medicina, retornou à terra natal e, ali, deu início ao exercício da clínica médica; a partir de 1934, com a publicação da novela A Terceira Voz, adotou o pseudônimo literário Miguel Torga, e assim permaneceu conhecido e reconhecido; em 1936, fundou, com o crítico Albano Nogueira, a revista Manifesto; em 1937, viajou pela França, Itália, Suiça e Bélgica; em 1938, tendo dificuldades com a censura salazarista, lançou o quinto e último número da revista Manifesto; problemas com a censura continuaram, sua obra O Quarto Dia da Criação do Mundo foi recolhida das livrarias, entre 1939 e 1940 Torga foi preso por alguns meses, publicou Bichos (contos), tido como seu maior êxito literário, seu livro Contos da Montanha foi censurado e apreendido, mas continuou em circulação clandestina até 1968; desde 1941, passou a viver em Coimbra, onde também abriu consultório médico; suas obras: em poesia: Ansiedade (1928), Rampa (1930), Tributo (1931), Abismo (1932), O Outro Livro de Job (1936), Lamentação (1943), Libertação (1944), Odes (1946), Nihil Sibi (1948), Cântico do Homem (1950), Orfeu Rebelde (1958), Câmara Ardente (1962), Poemas Ibéricos (1965), publicações em prosa: A Terceira Voz (novela, 1934), Bichos (contos, 1940), Contos da Montanha (1941), Novos Contos da Montanha (1944), Pedras Lavradas (1951), Vindima (romance, 1945), A Criação do Mundo (romance autobiográfico, vários volumes) e Diário (vários volumes), peças teatrais: Mar e Terra Firme (ambas em 1941), Sinfonia (poema dramático, 1947), Paraíso (1949), Traço de União (1956), Fogo Preso (1976) ...; recebeu premiações por suas obras, tendo recusado algumas.

sábado, 7 de setembro de 2024

Miguel Torga: A Poesia

 
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Vou de comboio...
Vou
Mecanizado e duro como sou
Neste dia;
E mesmo assim tu vens, tu me visitas!
Tu ranges nestes ferros e palpitas
Dentro de mim, Poesia!

Vão homens a meu lado distraídos
Da sua condição de almas penadas;
Vão outros à janela, diluídos
Nas paisagens passadas...
E porque hei-de ter eu nos meus sentidos
As tuas formas brancas e aladas?

Os campos, imprecisos, nos meus olhos,
Vão de braços abertos às montanhas;
O mar protesta contra não sei quê;
E eu, movido por ti, por tuas manhas,
A sonhar um painel que se não vê!

Porque me tocas? Porque me destinas
Este cilício vivo de cantar?
Porque hei-de eu padecer e ter matinas
Sem querer acordar?

Porque há-de a tua voz chamar a estrela
Onde descansa e dorme a minha lira?
Que razão te dei eu
Para que a um gesto teu
A harmonia me fira?

Poeta sou e a ti me escravizei,
Incapaz de fugir ao meu destino.
Mas, se todo me dei,
Porque não há-de haver na tua lei
O lugar do menino
Que a fazer versos e a crescer fiquei?

Tanto me apetecia agora ser
Alguém que não cantasse nem sentisse!
Alguém que visse padecer,
E não visse...

Alguém que fosse pelo dia fora
Neutro como um rapaz
Que come e bebe a cada hora
Sem saber o que faz...

Alguém que não tivesse sentimentos,
Pressentimentos,
E coisas de escrever e de exprimir...
Alguém que se deitasse
No banco mais comprido que vagasse,
E pudesse dormir...

Mas eu sei que não posso.
Sei que sou todo vosso,
Ritmos, imagens, emoções!
Sei que serve quem ama,
E que eu jurei amor à minha dama,
Á mágica senhora das paixões.

Musa bela, terrível e sagrada,
Imaculada Deusa do condão:
Aqui vou de longada;
Mas aqui estou, e aqui serás louvada,
Se aqui mesmo me obriga a tua mão!

Odes — 1946

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Miguel Torga (1907 1995), pseudônimo literário de Adolfo Correia da Rocha, português da freguesia de São Martinho de Anta Sabrosa (Trás-os-Montes), fez seus estudos iniciais na escola de sua cidade natal, ingressou no seminário de Lamego, estudou Português, Geografia e História, aprendeu Latim e familiarizou-se com os textos sagrados, desistiu de ser padre e emigrou para o Brasil em 1920; permaneceu no país até 1925, estudou no Ginásio Leopoldinense,  Leopoldina MG, por esta ocasião escreveu seus primeiros versos, regressou a Portugal, concluiu o colégio, cursou Medicina na Universidade de Coimbra; em 1929, deu início à participação em tertúlias literárias, e à colaboração na revista Presença, consolidando, assim, sua “formação estético-literária”; em 1930, foi um dos cofundadores da revista Sinal, de “vida efêmera”; em 1933, já com quatro livros de poesia publicados, concluiu o curso de Medicina, retornou à terra natal e, ali, deu início ao exercício da clínica médica; a partir de 1934, com a publicação da novela A Terceira Voz, adotou o pseudônimo literário Miguel Torga, e assim permaneceu conhecido e reconhecido; em 1936, fundou, com o crítico Albano Nogueira, a revista Manifesto; em 1937, viajou pela França, Itália, Suiça e Bélgica; em 1938, tendo dificuldades com a censura salazarista, lançou o quinto e último número da revista Manifesto; problemas com a censura continuaram, sua obra O Quarto Dia da Criação do Mundo foi recolhida das livrarias, entre 1939 e 1940 Torga foi preso por alguns meses, publicou Bichos (contos), tido como seu maior êxito literário, seu livro Contos da Montanha foi censurado e apreendido, mas continuou em circulação clandestina até 1968; desde 1941, passou a viver em Coimbra, onde também abriu consultório médico; suas obras: em poesia: Ansiedade (1928), Rampa (1930), Tributo (1931), Abismo (1932), O Outro Livro de Job (1936), Lamentação (1943), Libertação (1944), Odes (1946), Nihil Sibi (1948), Cântico do Homem (1950), Orfeu Rebelde (1958), Câmara Ardente (1962), Poemas Ibéricos (1965), publicações em prosa: A Terceira Voz (novela, 1934), Bichos (contos, 1940), Contos da Montanha (1941), Novos Contos da Montanha (1944), Pedras Lavradas (1951), Vindima (romance, 1945), A Criação do Mundo (romance autobiográfico, vários volumes) e Diário (vários volumes), peças teatrais: Mar e Terra Firme (ambas em 1941), Sinfonia (poema dramático, 1947), Paraíso (1949), Traço de União (1956), Fogo Preso (1976) ...; recebeu premiações por suas obras, tendo recusado algumas.

terça-feira, 23 de julho de 2024

Miguel Torga: Miserere Nobis

 
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O que um verso demora!
A esta mesma hora,
Quantos poetas, como eu, à espera!...
Passou o inverno, veio a primavera,
Deitou-se a noite, ergueu-se a madrugada,
E a voz
de todos nós
Cativa na garganta estrangulada!

Nenhum sinal no céu de próximo milagre;
Os adivinhos mal nos adivinham;
E os restantes humanos,
Há infinitos anos
Que apenas tecem
A teia da rotina,
Como o instinto os ensina.

E resta-nos a força
Que empurra os cegos contra a claridade.
Ter confiança é deslaçar metade
Do nó do tempo que o destino aperta.
Suprema descoberta
Doutros que no passado não desesperaram,
E foram premiados, e cantaram.

Mas pesa como um luto
Este silêncio hostil.
E fere como a raiva dum cilício
A certeza da morte
Colada ao corpo.
Que desgraça
Desconhecida,
Se a mudez ultrapassa
A nossa vida!

Orfeu Rebelde — 1958

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Miguel Torga (1907 1995), pseudônimo literário de Adolfo Correia da Rocha, português da freguesia de São Martinho de Anta Sabrosa (Trás-os-Montes), fez seus estudos iniciais na escola de sua cidade natal, ingressou no seminário de Lamego, estudou Português, Geografia e História, aprendeu Latim e familiarizou-se com os textos sagrados, desistiu de ser padre e emigrou para o Brasil em 1920; permaneceu no país até 1925, estudou no Ginásio Leopoldinense,  Leopoldina MG, por esta ocasião escreveu seus primeiros versos, regressou a Portugal, concluiu o colégio, cursou Medicina na Universidade de Coimbra; em 1929, deu início à participação em tertúlias literárias, e à colaboração na revista Presença, consolidando, assim, sua “formação estético-literária”; em 1930, foi um dos cofundadores da revista Sinal, de “vida efêmera”; em 1933, já com quatro livros de poesia publicados, concluiu o curso de Medicina, retornou à terra natal e, ali, deu início ao exercício da clínica médica; a partir de 1934, com a publicação da novela A Terceira Voz, adotou o pseudônimo literário Miguel Torga, e assim permaneceu conhecido e reconhecido; em 1936, fundou, com o crítico Albano Nogueira, a revista Manifesto; em 1937, viajou pela França, Itália, Suiça e Bélgica; em 1938, tendo dificuldades com a censura salazarista, lançou o quinto e último número da revista Manifesto; problemas com a censura continuaram, sua obra O Quarto Dia da Criação do Mundo foi recolhida das livrarias, entre 1939 e 1940 Torga foi preso por alguns meses, publicou Bichos (contos), tido como seu maior êxito literário, seu livro Contos da Montanha foi censurado e apreendido, mas continuou em circulação clandestina até 1968; desde 1941, passou a viver em Coimbra, onde também abriu consultório médico; suas obras: em poesia: Ansiedade (1928), Rampa (1930), Tributo (1931), Abismo (1932), O Outro Livro de Job (1936), Lamentação (1943), Libertação (1944), Odes (1946), Nihil Sibi (1948), Cântico do Homem (1950), Orfeu Rebelde (1958), Câmara Ardente (1962), Poemas Ibéricos (1965), publicações em prosa: A Terceira Voz (novela, 1934), Bichos (contos, 1940), Contos da Montanha (1941), Novos Contos da Montanha (1944), Pedras Lavradas (1951), Vindima (romance, 1945), A Criação do Mundo (romance autobiográfico, vários volumes) e Diário (vários volumes), peças teatrais: Mar e Terra Firme (ambas em 1941), Sinfonia (poema dramático, 1947), Paraíso (1949), Traço de União (1956), Fogo Preso (1976) ...; recebeu premiações por suas obras, tendo recusado algumas.