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Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.
Me confesso
possesso
de virtudes teologais,
que são três,
e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.
Me confesso
o dono das minhas horas
O das facadas cegas e
raivosas,
e o das ternuras lúcidas e
mansas.
E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.
Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.
Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.
Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da
caverna.
Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!
(O outro livro de Job — 1936)
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Poesia portuguesa contemporânea
[várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos
por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP;
Miguel Torga (1907 — 1995), pseudônimo literário de Adolfo Correia da Rocha, português
da freguesia de São Martinho de Anta — Sabrosa (Trás-os-Montes), fez seus estudos
iniciais na escola de sua cidade natal, ingressou no seminário de Lamego, estudou
Português, Geografia e História, aprendeu Latim e familiarizou-se com os textos
sagrados, desistiu de ser padre e emigrou para o Brasil em 1920; permaneceu no país
até 1925, estudou no Ginásio Leopoldinense,
Leopoldina — MG, por esta ocasião escreveu seus primeiros versos, regressou
a Portugal, concluiu o colégio, cursou Medicina na Universidade de Coimbra; em 1929,
deu início à participação em tertúlias literárias, e à colaboração na revista Presença,
consolidando, assim, sua “formação estético-literária”; em 1930, foi um dos cofundadores
da revista Sinal, de “vida efêmera”; em 1933, já com quatro livros de poesia publicados,
concluiu o curso de Medicina, retornou à terra natal e, ali, deu início ao exercício
da clínica médica; a partir de 1934, com a publicação da novela A Terceira Voz,
adotou o pseudônimo literário Miguel Torga, e assim permaneceu conhecido e reconhecido;
em 1936, fundou, com o crítico Albano Nogueira, a revista Manifesto; em 1937, viajou
pela França, Itália, Suiça e Bélgica; em 1938, tendo dificuldades com a censura
salazarista, lançou o quinto e último número da revista Manifesto; problemas com
a censura continuaram, sua obra O Quarto Dia da Criação do Mundo foi recolhida das
livrarias, entre 1939 e 1940 Torga foi preso por alguns meses, publicou Bichos (contos),
tido como seu maior êxito literário, seu livro Contos da Montanha foi censurado
e apreendido, mas continuou em circulação clandestina até 1968; desde 1941, passou
a viver em Coimbra, onde também abriu consultório médico; suas obras: em poesia:
Ansiedade (1928), Rampa (1930), Tributo (1931), Abismo (1932), O Outro Livro de
Job (1936), Lamentação (1943), Libertação (1944), Odes (1946), Nihil Sibi (1948),
Cântico do Homem (1950), Orfeu Rebelde (1958), Câmara Ardente (1962), Poemas Ibéricos
(1965), publicações em prosa: A Terceira Voz (novela, 1934), Bichos (contos, 1940),
Contos da Montanha (1941), Novos Contos da Montanha (1944), Pedras Lavradas (1951),
Vindima (romance, 1945), A Criação do Mundo (romance autobiográfico, vários volumes)
e Diário (vários volumes), peças teatrais: Mar e Terra Firme (ambas em 1941), Sinfonia
(poema dramático, 1947), Paraíso (1949), Traço de União (1956), Fogo Preso (1976)
...; recebeu premiações por suas obras, tendo recusado algumas.