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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Luís Carlos: Estranha afinidade

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Na maior liberdade, estou sujeito
A duas forças de que não prescindo
Relógio e coração, ambas no peito;
Uma, por fora; outra, por dentro, agindo.

E a sorte as equilibra com tal jeito
Que, ambas vivendo num labor infindo,
Uma produz, por fora, o mesmo efeito
Que a outra me vai, por dentro, produzindo.

Relógio é coração do tempo: ao mundo
Marca, pulsando, dia a dia, a idade.
Também relógio é o coração, no fundo.

Une-os em vida estranha afinidade.
Mas o relógio pára num segundo
E pára o coração na Eternidade.

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Poesias Escolhidas — Luís Carlos, Preâmbulo de Luís Carlos Junior e Apresentação/Prefácio de Lasinha Luís Carlos, 1970, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 —  1932), nascido no Rio de Janeiro — RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; exerceu a profissão de engenheiro na Estrada de Ferro Central do Brasil e foi nomeado consultor técnico do Ministério da Viação, sem nunca ter deixado de escrever; publicou seus versos em jornais e revistas; congregado a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas  (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922),  Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão  (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Luís Carlos: A Catulo Cearense

A tua Musa, já não mais só tua,
Por ser lírica irmão da água da fonte,
Que, de muito correr sobre o horizonte,
Rola, por fim, no mar, que a perpetua.

Tanto apura a beleza, quando estua
Nas vertigens de luz da tua fronte,
Que a Terra do Brasil faz que desponte
Na glória virgem da beleza nua.

Primeiro trovador entre os primeiros,
O Sol e a Lua são teus dois tinteiros
De tintas velhas de esplendor tão novol

Por isso, eternos, o teu estro encerra
O espírito de sol da nossa terra
E o coração de luar do nosso povo.

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Poesias Escolhidas — Luís Carlos, Preâmbulo de Luís Carlos Junior e Apresentação/Prefácio de Lasinha Luís Carlos, 1970, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; publicou seus versos em jornais e revistas; congregado a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Luís Carlos: sobre um motivo de António Nobre

Apraz-me ver, à tarde, as andorinhas
Nos fios de telégrafo pousadas,
Como, por entre a pauta das artinhas,
As notas musicais encarceradas.

Sinto, ao vê-las, que, ao longo das estradas,
São nervos da distância aquelas linhas
Com as agonias hiperestesiadas
De António Nobre, que também são minhas.

Por que não trissam no ar? Por que nem bolem,
Se o Sol, ainda esplendendo moribundo,
Esparze no Éter um clarão de pólen?

É que naqueles fios, com certeza,
Elas compreendem, mudas de tristeza,
As queixas que lá vão por este mundo...

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Poesias Escolhidas — Luís Carlos, Preâmbulo de Luís Carlos Junior e Apresentação/Prefácio de Lasinha Luís Carlos, 1970, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; publicou seus versos em jornais e revistas; congregado a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Luís Carlos: Triunfo máximo

Triunfar na vida não é ter vencido
Esquadras ou exércitos em luta;
Nem pelo emprego hostil da força bruta
Calcar o pusilânime oprimido.

Não é ter ao pináculo subido
Do trono real, em púrpura impoluta;
Nem ter nome que o mundo repercuta
Com glória, boca em boca, ouvido a ouvido.

Não é sobreviver à dor terrena,
Não é transpor o mar, subir o Pindo
Galgar o abismo, a noite, a imensidade.

É ter nas mãos grilhões de alheia pena
E as mãos abrir, magnânimas, sorrindo
Para o perdão e para a liberdade!

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Poesias Escolhidas — Luís Carlos, Preâmbulo de Luís Carlos Junior e Apresentação/Prefácio de Lasinha Luís Carlos, 1970, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; publicou seus versos em jornais e revistas; congregado a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Luís Carlos: O trem de ferro

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Entre bulcões de fumo, indômito, ofegando,
Como ao sabor de um cego desatino,
Rola ruidoso o trem, ruidoso e formidando,
Por vales, serras e rechãs, vibrando
Na marcha triunfal do seu destino.

Ora num arremesso agudo de investida,
Ora coleando, a exemplo das serpentes,
Exprime sempre o ardor de uma ânsia indefinida,
Fugaz, vencendo em várzeas e vertentes,
Ponte e túneis, curvas e tangentes.

E, assim, de solidão em solidão fugindo,
Sempre na mesma irreprimível ânsia
De circundar, ovante, o Globo, em giro infindo,
Vive à mercê de própria e íntima instância,
Na sedenta conquista da distância.

Desperta sempre o espanto em torno de onde passa,
Ferindo de roldão tudo o que enfrenta
Numa rajada hostil de fulgural desgraça,
Tal se o fantasma fora da tormenta,
Solto no caos de uma eversão violenta:

 No entanto, não é mais que o arauto do trabalho:
Todo o fervor do seu insofrimento,
Procurando evitar as curvas pelo atalho,
Subindo escarpas, arrostando o vento,
Frenético, fulmíneo, fumarento.

Todo esse turbilhão despótico em que freme,
Rasgando a paz selvagem da floresta,
Sacudindo os rosais, toldando o Azul extreme
Com a fluida pompa da fumaça em festa,
Que a força imensa dos pulmões lhe atesta,

Tudo isso é a febre estranha, a febre que o requeima
Na nevrose galvânica da pressa,
Que no íntimo lhe incute a indeclinável teima
De prosseguir com rapidez obsessa
Para que os frutos do trabalho expeça.

E esse monstro, afinal, que despedaça e esmaga,
Que é o desabrido escândalo dos ermos,
Nutre no seu desvairo a imensa idéia vaga
De iniciar o espírito dos enfermos
À paz sem tréguas e à afeição sem termos.

Por isso, quando vinga heroicamente o acesso
Das cumeadas, arfante de cansaço,
Levando o anseio humano em seu destino impresso,
Parece um Leviatã de fogo e de aço,
Na glória de vencer o tempo e o espaço.

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Poesias Escolhidas — Luís Carlos, Preâmbulo de Luís Carlos Junior e Apresentação/Prefácio de Lasinha Luís Carlos, 1970, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; trabalhou na Estrada de Ferro Central do Brasil e foi nomeado consultor técnico do Ministério da Viação, sem nunca ter deixado de escrever; publicou seus versos em jornais e revistas; congregado a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.