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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Trilussa: Educação

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[traduzido por Paulo Duarte]

Quando a Mosca pousou
na beirada do prato em que eu comia,
espantei-a. Porém, com teimosia,
deu ela um giro rápido e voltou.
Enxotei-a de novo, com violência:
 Si fosse ao menos uma borboleta
que prefere a essência
das flores à imundície da sarjeta,
paciência!
Mas uma mosca suja,
nojenta como nunca vi,
cujo clima é o da porcaria, cuja
vida é a imundície, puxa já daqui!...

— Você, no fundo, a Mosca, calmamente,
responde, talvez tenha razão.
Mas o erro é um pouco seu, que, do começo,
não soube dar-me a educação
que, como um ser de Deus, também mereço.
Compreendo que me espante, como o faz,
quando me chego a um prato de iguaria,
mas não compreendo que me deixe em paz
quando me assento numa porcaria.

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Trilussa

L'educazione


Ce fu una mosca che me se posò
su un pasticcio de gnocchi; io la cacciai:
ma quella, sì! scocciante più che mai,
fece un giretto ar sole e ritornò.
— Sciò — je strillavo — sciò!...
ché, se t'acchiappo, guai!
Se fussi una farfalla, embè, pazzienza,
ché armeno, quelle, vanno su le rose:
ma tu che te la fai
su certe brutte cose, è 'na schifenza!... 
           
La Mosca me rispose: — Avrai raggione,
ma la corpa è un pò’ tua che da principio
nun m'hai saputo dà l'educazzione.
Io trovo giusto che me cacci via
se vado su la robba che te piace,
ma nun me spiego che me lasci in pace
quanno me poso su la porcheria!
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Versos de Trilussa — tradução de Paulo Duarte, 1973, Marcus Pereira Publicidade, São Paulo — SP; Carlo Alberto Camillo Mariano Salustri (1871  1950), Trilussa (anagrama do sobrenome), nascido em Roma Itália, foi poeta dialetal de sátiras político social, fabulista, escritor e jornalista; escreveu em dialeto romanesco; alguns de seus escritos: Stelle de Roma: versi romaneschi (Cerroni e Solaro, Roma, 1889); Quaranta sonetti romaneschi (Enrico Voghera, Roma, 1895); Favole romanesche (Enrico Voghera, Roma, 1901); Ommini e bestie (Enrico Voghera, Roma, 1914); Lupi e agnelli (Enrico Voghera, Roma, 1919); La Gente (A. Mondadori, Milano, 1927); Acqua e vino (A. Mondadori Tip. Operaia Romana, Roma, 1945) e outros títulos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Trilussa: O leão reconhecido

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[traduzido por Paulo Duarte]

Num deserto africano certo leão
com um estrepe numa pata inchada,
de um tenente pediu a intervenção.
 Muitíssimo obrigado, camarada,
disse depois. Serei reconhecido,
conte com a minha gratidão.
Que deseja você? — Ser promovido,
mas isso não está na tua mão.
— Farei o que puder. De fato, nessa
mesma noite, com toda a correção,
o velho leão cumprira já a promessa:
— Amigo velho, foi dizendo, agora
pode contar com a promoção,
porque não faz nem meia hora
que acabei de comer o capitão.

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Er leone riconoscente

Ner deserto dell'Africa, un Leone
che j'era entrato un ago drento ar piede,
chiamò un Tenente pe’ l'operazzione.
— Bravo! — je disse doppo — lo t'aringrazzio:
vedrai che sarò riconoscente
d'avemme libberato da sto strazio;
qual'è er pensiere tuo? d'esse promosso?
Embè, s'io posso te darò 'na mano... 
E in quella notte istessa
mantenne la promessa
più mejo d'un cristiano;
ritornò dar Tenente e disse: — Amico,
la promozzione é certa, e te lo dico
perché me so' magnato er Capitano.
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Versos de Trilussa — tradução de Paulo Duarte, 1973, Marcus Pereira Publicidade, São Paulo — SP; Carlo Alberto Salustri (1871  1950), Trilussa (anagrama do sobrenome), nascido em Roma  Itália, poeta de sátiras político social, e também fabulista, escreveu em dialeto romanesco; alguns de seus escritos: Stelle de Roma: versi romaneschi (Cerroni e Solaro, Roma, 1889); Quaranta sonetti romaneschi (Enrico Voghera, Roma, 1895); Favole romanesche (Enrico Voghera, Roma, 1901); Ommini e bestie (Enrico Voghera, Roma, 1914); Lupi e agnelli (Enrico Voghera, Roma, 1919); La Gente (A. Mondadori, Milano, 1927); Acqua e vino (A. Mondadori  Tip. Operaia Romana, Roma, 1945) e outros títulos.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Trilussa: A minha estrada

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[traduzido por Paulo Duarte]

A estrada é longa, mas está por pouco.
Sei bem para onde vou, não tenho pressa.
O coração tranqüilo e na cabeça,
a paz de um sábio que se finge louco.
Si acaso um pensamento mau desfila,
com um bom trago, peço ajuda ao vinho,
a cantar, sigo após o meu caminho,
o Destino levando na mochila...

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Trilussa

La Strada mia

La strada è lunga, ma er deppiù l’ho fatto:
so dov’arrivo e nun me pijo pena.
Ciò er core in pace e l'anima serena
der savio che s'ammaschera da matto.
Se me frulla un pensiero che me scoccia
me fermo a beve e chiedo ajuto ar vino:
poi me la canto e seguito er cammino
cor destino in saccoccia.

Libro Muto — 1934
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Versos de Trilussa — Tradução de Paulo Duarte, 1973, Marcus Pereira Publicidade, São Paulo — SP; Carlo Alberto Camillo Mariano Salustri (1871 1950), Trilussa (anagrama do sobrenome), nascido em Roma Itália, foi poeta dialetal de sátiras político-sociais, fabulista, escritor e jornalista; escreveu em dialeto romanesco e publicou seus primeiros versos aos dezesseis anos, quando iniciou sua colaboração nos jornais Rugantino e, depois, no Don Chisciotte; sua bibliografia: Stelle de Roma: versi romaneschi (Cerroni e Solaro, Roma, 1889); Quaranta sonetti romaneschi (Enrico Voghera, Roma, 1895); Favole romanesche (Enrico Voghera, Roma, 1901); Ommini e bestie (Enrico Voghera, Roma, 1914); Lupi e agnelli (Enrico Voghera, Roma, 1919); I Sonetti (A. Mondadori, Milano, 1922); La Gente (A. Mondadori, Milano, 1927); Acqua e vino (A. Mondadori Tip. Operaia Romana, Roma, 1945) e muitos outros títulos.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Trilussa: A Poesia

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[traduzido por Paulo Duarte]

Apenas some a estrela derradeira
e a noite, aos poucos, plácida se esfuma,
um Melro vem pousar na trepadeira
e as flores vai beijando, uma por uma,
esquadrinha os recônditos da planta,
a folhagem agita, pula e canta.

Certa manhã, deixei, cedinho, o leito
com a idéia de observá-lo bem de perto,
mas o vôo levantou o Melro esperto,
deixando-me corrido e contrafeito.
 Seu bobalhão! gritei, por que fugiste?
e arremessei-lhe uma porção de alpiste...

 Não é por nada, o Melro cantarola,
até te considero um bom amigo,
sei mesmo que não há nenhum perigo
de ser por ti metido na gaiola,
porém tu és Poeta e me arrepia
ser preso dentro de qualquer poesia...

Poeta, não tens o mais pequeno tato!
Não é o nosso canto um manifesto
de prazer como pensas! Será honesto
esse juízo apressado, sem de fato
entender uma sílaba entre tantas
que nos saem, a toda hora, das gargantas?

Nove vezes em dez, esse cantor
que  toma nota!  o coração te alegra,
não faz uma oração, nem tece, em regra,
um hino ao sol, uma canção de amor!
Diz, quando muito, da satisfação
De haver feito uma boa digestão...

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Trilussa

La poesia

Appena se ne va l'urtima stella
e diventa più pallida la luna
c'è un Merlo che me becca una per una
tutte le rose de la finestrella:
s'agguatta fra li rami de la pianta,
sgrulla la guazza, s'arinfresca e canta.

L'antra matina scesi giù dar letto
co’ l'idea de vedello da vicino,
e er Merlo, furbo, che capì el latino
spalancò l'ale e se n'annò sur tetto.
— Scemo, je dissi, nun t'acchiappo mica... 
E je buttai du’ pezzi de mollica.

— Nun è, rispose er Merlo, che nun ciabbia
fiducia in te, chè invece me ne fido:
lo so che nu m'infili in uno spido,
lo so che nun me chiudi in una gabbia:
ma sei poeta, e la paura mia
è che me schiaffi in una poesia.

È un pezzo che ce scocci co’ li trilli!
Per te, l'ucelli fanno solo questo:
chiucchiù, ciccì, pipi... Te pare onesto
de facce fa’ la parte d’imbecilli
senza capì nemmanco una parola
de quello che ce sorte da la gola?

Nove vorte su dieci er cinguettio
che te consola e t'arillegra er core
nun è pe’ gnente er canto de l'amore
o l'inno ar sole, o la preghiera a Dio:
ma solamente la soddisfazzione
d'a vè fatto una bona diggestione.

La Gente — 1927
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Versos de Trilussa — tradução de Paulo Duarte, 1973, Marcus Pereira Publicidade, São Paulo — SP; Carlo Alberto Camillo Mariano Salustri (1871 1950), Trilussa (anagrama do sobrenome), nascido em Roma Itália, foi poeta dialetal de sátiras político-sociais, fabulista, escritor e jornalista; escreveu em dialeto romanesco e publicou seus primeiros versos aos dezesseis anos, quando iniciou sua colaboração nos jornais Rugantino e, depois, no Don Chisciotte; sua bibliografia: Stelle de Roma: versi romaneschi (Cerroni e Solaro, Roma, 1889); Quaranta sonetti romaneschi (Enrico Voghera, Roma, 1895); Favole romanesche (Enrico Voghera, Roma, 1901); Ommini e bestie (Enrico Voghera, Roma, 1914); Lupi e agnelli (Enrico Voghera, Roma, 1919); I Sonetti (A. Mondadori, Milano, 1922); La Gente (A. Mondadori, Milano, 1927); Acqua e vino (A. Mondadori Tip. Operaia Romana, Roma, 1945) e muitos outros títulos.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Trilussa: Estatística

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[traduzido por Paulo Duarte]

Sabes o que é estatística? é uma cousa
que serve para o cômputo geral
dos que casam ou vivem bem ou mal,
de quem nasce ou na terra já repousa,

de quem não casa ou já perdeu a esposa...
O mais curioso é a conclusão final:
pois uma média surge sempre igual,
seja qual for a base em que se pousa.

Explico-me: são contas sem engano,
pelas quais a estatística te informa
de que comes um frango cada ano.

É mentira? Não é que esteja errado:
na conta, o frango está da mesma forma,
um sempre existe pra comer dobrado...

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Trilussa

Sai ched'è la statistica? È 'na cosa
che serve pe’ fa’  un conto in generale
de la gente che nasce, che sta male,
che more, che va in carcere e che spósa.

Ma pe’ me la statistica curiosa
è dove c'entra la percentuale,
pe’ via che, lì, la media é sempre eguale
puro co' la persona bisognosa.

Me spiego: da li conti che se fanno
seconno le statistiche d'adesso
risurta che te tocca un pollo all'anno:

e, se nun entra nelle spese tue,
t'entra ne la statistica lo stesso
perché c'è un antro che ne magna due.


I Sonetti 1922
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Versos de Trilussa — tradução de Paulo Duarte, 1973, Marcus Pereira Publicidade, São Paulo SP; Carlo Alberto Camillo Mariano Salustri (1871  1950), Trilussa (anagrama do sobrenome), nascido em Roma — Itália, foi poeta de sátiras político social, fabulista, escritor e jornalista; escreveu em dialeto romanesco; alguns de seus escritos: Stelle de Roma: versi romaneschi (Cerroni e Solaro, Roma, 1889); Quaranta sonetti romaneschi (Enrico Voghera, Roma, 1895); Favole romanesche (Enrico Voghera, Roma, 1901); Ommini e bestie (Enrico Voghera, Roma, 1914); Lupi e agnelli (Enrico Voghera, Roma, 1919); I Sonetti (A. Mondadori, Milano, 1922); La Gente (A. Mondadori, Milano, 1927); Acqua e vino (A. Mondadori Tip. Operaia Romana, Roma, 1945) e outros títulos.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Trilussa: O Gato Advogado

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[traduzido por Paulo Duarte]

A coisa foi assim: a Tartaruga,
saindo em busca de um lugar seguro
para dormir tranquilamente, estuga
o passo, tropeça e cai ao pé do muro.
O pior de tudo é que, ao escorregar,
ficou de casca e pernas para o ar!

A uma Cadela que se achava ao lado
pediu ajuda, sob a condição
de regalá-la com um frango assado
que ela vira na casa do patrão.
Aceita a condição, de boa fé,
a Cadela ajudou-a a pôr-se em pé.

 E o frango? Reclamou depois.  Hein? Qual?
 O frango do contrato!  Que contrato?
 Ah! Não se lembra agora? É natural!
Mas eu vou me queixar ao velho Gato,
contarei tudo tim-tim por tim-tim,
e veremos se a coisa fica assim!

O Gato, que era um ótimo advogado,
inteira-se da estória e fala: 
 Penso
que se trata de um caso delicado;
não é questão apenas de bom senso
e, em certas coisas, como diz Horácio,
“Promissio boni viri est obligatio”.

Porém vejamos, antes que me exprima,
se, posta a Tartaruga ao mesmo jeito
antigo, isto é, de ventre para cima,
sustenta ou não o compromisso feito;
veremos se se trata de moral
só válida em decúbito dorsal.

Assim foi feito. E a Tartaruga, agora,
posta diante do fato mais concreto,
diz, com minúcias, onde, há meia hora,
se achava o frango. E o Gato circunspecto:
 Para confirmação do depoimento,
converto em diligência o julgamento…

Regressa o Gato ao fim do dia:  Os nossos
argumentos valeram, diz radiante.
 Bravo! aplaude a Cadela. E o frango? 
 Os ossos
já se acham ao dispor da querelante,
quanto à carne, conforme texto expresso,
esta ficou nas custas do processo.



Trilussa

Er Gatto Avvocato

La cosa annò così. La Tartaruga,
mentre cercava un posto più sicuro
pe' magnasse una foja de lattuga,
j'amancò un piede e cascò giù dar muro:
e, quer ch'é peggio, ne la scivolata
rimase co' la casa arivortata.

Allora chiese ajuto a la Cagnola;
dice: Se me rimetti in posizzione
t'arigalo, in compenso, una braciola
che ciò riposta a casa der padrone.
Accetti? Accetto. E, quella, in bona fede,
co' du' zampate l'arimise in piede.

Poi chiese: E la braciola? Dice: Quale?
Ah! dice mó te butti a Santa Nega!
T'ammascheri da tonta! È naturale!
Ma c'è bona giustizzia che te frega!
Mó chiamo er Gatto, j'aricconto tutto,
e te levo la sete cór preciutto! —

Er Gatto, che faceva l'avvocato,
intese er fatto e j'arispose: Penso
che è un tasto un pochettino delicato
perché c'è la questione der compenso:
e in certi casi, come dice Orazzio,
”promisso boni viri est obbligatio”.

Ma prima ch'io decida è necessario
che la bestia medesima sia messa
co' la casa vortata a l'incontrario
finché nun riconferma la promessa,
pe' stabbili s'è un metodo ch'addopra
solo quanno se trova sottosopra.

Così fu fatto. Er Micio disse: Spero 
che la braciola veramente esista...
La Tartaruga je rispose: È vero!
Sta accosto a la gratticola... L'ho vista.
Va bene, dice er Gatto nu' ne dubbito:
mó faccio un soprallogo e torno subbito.

E ritornò, defatti, verso sera.
Avemo vinto! dice a la criente.
Dice: Davvero? E la braciola? C'era...
ma m'è rimasto l'osso solamente
perché la carne l'ho finita adesso
pe' sostené le spese der processo.
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Lírica do Direito  Antologia de Versos Jurídicos  Conexão Migalhas Organizador: Miguel Matos, Ano 2, n.2 (diversos poetas e tradutores), sem data, Millenium Editora Ltda., Campinas SP; Carlo Alberto Salustri (1871 1950), Trilussa (anagrama do sobrenome), italiano de Roma, poeta de sátiras político social, e também fabulista, escreveu em dialeto romanesco; alguns de seus escritos: Stelle de Roma: versi romaneschi (Cerroni e Solaro, Roma, 1889); Quaranta sonetti romaneschi (Enrico Voghera, Roma, 1895); Favole romanesche (Enrico Voghera, Roma, 1901); Ommini e bestie (Enrico Voghera, Roma, 1914); Lupi e agnelli (Enrico Voghera, Roma, 1919); La Gente (A. Mondadori, Milano, 1927); Acqua e vino (A. Mondadori  Tip.Operaia Romana, Roma, 1945) e outros títulos.