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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Artur Azevedo: Plebiscito*

Da série: Contos considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa

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          A cena passa-se em 1890.
          A família está toda reunida na sala de jantar.
          O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.
          Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.
          Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.
          Silêncio.
          De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:
          — Papai, que é plebiscito?
          O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.
          O pequeno insiste:
          — Papai?
          Pausa:
          — Papai?
          Dona Bernardina intervém:
          — Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.
          O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.
          — Que é? que desejam vocês?
          — Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.
          — Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?
          — Se soubesse, não perguntava.
          O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:
          — Senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!
          — Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.
          — Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?
          — Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.
          — Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!
          — A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!...
          — A senhora o que quer é enfezar-me!
          — Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!
          — Proletário, acudiu o senhor Rodrigues, é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.
          — Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!
          — Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!
          — Oh! ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: — Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho.
          O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:
          — Mas se eu sei!
          — Pois se sabe, diga!
          — Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!
          E o senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.
          No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário...
          A menina toma a palavra:
          — Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!
          — Não fosse tolo, observa dona Bernardina, e confessasse francamente que não sabe** o que é plebiscito!
          — Pois sim, acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão; pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.
          — Sim! Sim! façam as pazes! diz a menina em tom meigo e suplicante. Que tolice! duas pessoas que se estimam tanto zangaram-se por causa do plebiscito!
          Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:
          — Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.
          O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente.
          Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.
          — É boa! brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio; é muito boa! Eu! eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!...
          A mulher e os filhos aproximam-se dele.
          O homem continua num tom profundamente dogmático:
          — Plebiscito...
          E olha para todos os lados a ver se há por ali mais alguém que possa aproveitar a lição.
          — Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.
          — Ah! suspiram todos, aliviados.
          — Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...

(Transcrito de Contos Fora da Moda por
 Marques Rebelo, em Antologia Escolar
 Brasileira, primeira edição, 1967, MEC.)


* Conferido com Artur Azevedo, Contos Fora da Moda, Livraria Garnier.
** Não sabia em vez de não sabe.

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Antologia de Antologias  prosadores brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio Doyle e prefácio de Fábio Lucas, Musa Editora 1996, São Paulo  SP; Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo (1855 1908), maranhense de São Luís, foi jornalista, romancista, comediógrafo, contista, poeta e uma das grandes figuras do humorismo brasileiro; escreveu e publicou Carapuças (poesia, 1871), Sonetos (1875), Uma Véspera de Reis (teatro, 1876), A Capital Federal (teatro, 1897), O Escravocrata (teatro, 1884), O Dote (teatro, 1896), Um Dia de Finados (sátira, 1880), Contos Fora da Moda (contos, 1897), Contos em Verso (1898) etc.; como jornalista, trabalhou nos principais jornais da época, no Rio de Janeiro, tendo fundado e dirigido A Gazetinha, Vida Moderna e O Álbum.

domingo, 10 de abril de 2011

Em face de um último acontecimento, agora no Brasil,


        ... renovo postagem de um texto elaborado por mim quando da campanha nacional relativa ao plebiscito pelo desarmamento.
        Naquela eleição plebiscitária, levada a efeito em 23.10.2005, o resultado final foi que 60 milhões de cidadãos votantes (64%) rejeitaram a proposta de não comercialização generalizada de armas de fogo, enquanto outros 33 milhões de cidadãos (36%) votamos pelo "Sim", pela aceitação da proposta contra a venda indiscriminada de armas. Perdemos!
        E é claro que, sozinha, uma futura campanha vitoriosa pró-desarmamento não garante a não-ocorrência de fatos como o da escola do Realengo no Rio de Janeiro, com crianças fatalmente vitimadas por obra de um alucinado.

        Mas vale a pena persistir no sonho.
        A realidade dos acontecimentos, não raras vezes, tem sido bem feia e brutal.
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Sim, voto racional. Não voto neurótico.

Sim, voto pelo avanço da democracia. Não voto pelo direito de alguns, pela força.

Sim, voto pela esperança. Não voto pelo medo.

Sim, voto pela paz. Não voto pela neurose.

Sim, voto pela garantia do ser... humano, pela solidariedade, pelo companheirismo, pelo essencial. Não voto pela garantia do ter... o tênis importado, do ter... o celular de última geração, do ter isso, do ter aquilo; nem pelo capitalismo... selvagem, pelo consumismo.

Sim, voto para passear a pé pelas calçadas ou por praças e jardins, passear de bicicleta. Não voto por cercas elétricas, alarmes, câmeras big brotherstrancas e grades nos condomínios; pela vigilância de pitbulls, dobermans e rotweillers; por carros blindados.

Sim, voto pelo feijão com arroz no prato, pelo leite e pela construção de escolas. Não voto pela construção de mais cadeias, para proteger os anéis.

Sim, voto pelo sonho, pela utopia. Não voto pelo pesadelo, pelo salve-se quem puder.

Sim, voto pela poesia. Não voto pelo noticiário indutivo do crime trágico e sanguinolento.

Sim, voto para cobrar segurança do Estado. Não voto para fazer justiça com as próprias mãos.

Sim, voto pelo fim da miséria humana. Não voto pela segregação, por mais paredes e muros sociais.

Sim, voto pelo exercício da cidadania. Não voto pelo reacionário, pela direita braba.

Sim, voto pela mudança da realidade. Não voto pelo conformismo, pelo "deixa estar pra ver como é que fica".

Sim, voto pela vida. Não voto pela morte... dos outros.
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Genésio dos Santos, poeta e cronista, é aprendiz de blogueiro e tem um lado; entorta, mas não verga pra direita.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Sim, voto racional. Não voto neurótico.

Sim, voto pelo avanço da democracia. Não voto pelo direito de alguns, pela força.

Sim, voto pela esperança. Não voto pelo medo.

Sim, voto pela paz. Não voto pela neurose.

Sim, voto pela garantia do ser... humano, pela solidariedade, pelo companheirismo, pelo essencial. Não voto pela garantia do ter... o tênis importado, do ter... o celular de última geração, do ter isso, do ter aquilo; nem pelo capitalismo... selvagem, pelo consumismo.

Sim, voto para passear a pé pelas calçadas ou por praças e jardins, passear de bicicleta. Não voto por cercas elétricas, alarmes, câmeras big brothers, trancas e grades nos condomínios; pela vigilância de pitbuls, dobermans e rotweillers; por carros blindados.

Sim, voto pelo feijão com arroz no prato, pelo leite e pela construção de escolas. Não voto pela construção de mais cadeias, para proteger os anéis.

Sim, voto pelo sonho, pela utopia. Não voto pelo pesadelo, pelo salve-se quem puder.

Sim, voto pela poesia. Não voto pelo noticiário indutivo do crime trágico e sanguinolento.

Sim, voto para cobrar segurança do Estado. Não voto para fazer justiça com as próprias mãos.

Sim, voto pelo fim da miséria humana. Não voto pela segregação, por mais paredes e muros sociais.

Sim, voto pelo exercício da cidadania. Não voto pelo reacionário, pela direita braba.

Sim, voto pela mudança da realidade. Não voto pelo conformismo, pelo "deixa estar pra ver como é que fica".

Sim, voto pela vida. Não voto pela morte... dos outros.
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Genésio dos Santos, em setembro de 2005, por ocasião da campanha nacional relativa ao referendo plebiscitário pelo desarmamento levado a efeito em 23.10.2005 e que teve como resultado final 59.109.265 votos rejeitando a proposta (63,94%), enquanto 33.333.045 votamos pelo "sim" (36,06%); para obter mais informações a respeito daquele plebiscito sobre o desarmamento clique no título do texto, acima.