terça-feira, 3 de setembro de 2013

Carlos Drummond de Andrade: 1964 (Queda de Jango)

Em tempos de Comissão Nacional da Verdade, que objetiva investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 no Brasil e praticadas por agentes do estado, transcrevo abaixo registro do poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade, acerca dos primeiros dias após o golpe civil-militar no país, aqueles dias que, no fio da história, acabaram perdurando por longos vinte e um anos de antidemocracia, rasteiras e perseguições políticas, usurpações de poder, cassações, torturas e mortes. O poeta registra aqueles momentos inquietantes em um diário de anotações de “fatos políticos e literários que o interessaram”, anotações tais, parte delas, reunidas no livro O Observador no Escritório: páginas de diário, editado em 1985 – antes, uma seleção desses registros foi publicada no Jornal do Brasil, entre 1980 e 1981.
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1964 - Queda de Jango

Abril, 1 – E, de repente, foi-se o Governo Goulart, levando consigo o Comando Geral dos Trabalhadores. Em menos de dois dias, tudo se esfarelou. O Presidente da República, tão seguro de si ao falar aos “senhores sargentos”, fugiu de avião para lugar ainda não sabido. Não tinha a força que pensava – e que outros pensavam que ele tivesse.

O dia de ontem foi de tensão e boataria, até que se positivou, entre tarde e noite, a notícia de sublevação da tropa federal em Minas, com o Governador Magalhães Pinto chefiando o movimento. A adesão de São Paulo só foi conhecida pela madrugada. Passei quase toda a noite colado ao radinho transistor, e pedindo e recebendo algumas vezes notícias telefônicas, fornecidas pelo bem informado Otto Lara Resende. Preocupava a situação no Palácio Guanabara: Carlos Lacerda entrincheirado mas também encurralado ali.

Hoje, depois da fala de Lacerda pela Rádio Roquette Pinto, acabaram as notícias, salvo a propaganda contínua, enfadonha, do Governo Jango em sua “cadeia nacional da legalidade”. À tarde, informado de que alguma coisa se passava no Forte de Copacabana, fui conferir na praia. Carlos Heitor Cony, meu colega no Correio da Manhã, me pôs a par dos acontecimentos. O Forte estava ocupado por um grupo militar contrário a Jango. Soldados e civis (estes, oficiais da Marinha à paisana, segundo Cony) foram afastando os curiosos que se aglomeravam junto ao Forte. Há poucas dúvidas sobre a derrota de Jango.

Eu voltava para casa quando se ouviram estampidos, ouve um corre-corre, e eis que das janelas dos edifícios gente sacode lenços, panos de prato, até lençóis, enquanto outra chuva, esta de papel picado, cai sobre o asfalto. O rádio espalhara a notícia, transmitida por Lacerda: Jango deu o fora. Volto à praia. Gente cantando o Hino Nacional, xingando Brizola em slogan improvisado. Sensação geral de alívio.

Abril, 13 – Baixado Ato Institucional, que atenta rudemente contra o sistema democrático. O Congresso, já tão inexpressivo, passa a ser uma pobre coisa tutelada. Vamos ver o que será das liberdades públicas.

Maio, 3 – Incrível. Prisão de Carlos Ribeiro, o “bom mercador de livros”, amigo de todos, sob suspeita de quê? de tramar a derrubada do marechal Castelo Branco? Encontro-o na Travessa do Ouvidor, levado por um tira jovem, que mais parece poeta debutante, e por Ascendino Leite, que o iria acompanhar ao DOPS como amigo e pessoa insuspeita ao Governo.

Junho, 22 – Desagradável chamada para depor no inquérito administrativo da Rádio Ministério da Educação, em torno de alegadas “atividades subversivas” da antiga diretora, Maria Ieda Linhares. Queriam saber o motivo do meu afastamento da Rádio, naturalmente para fazer carga contra ela, que de tão atacada chegou ao quase desespero. Respondi que meu afastamento resultou de solicitação de Simeão Leal, Diretor do Serviço de Documentação do MEC, desejoso de contar comigo no seu trabalho. Os inquéritos desse tipo traduzem mais o espírito de vingança do que o de justiça.

Julho, 21 – Pela segunda vez na sede do Ministério da Educação, para depor no inquérito sobre a Rádio MEC. Às mesmas perguntas dou as mesmas respostas. Não sei de atividades subversivas da ex-editora; nunca tive com ela o menor incidente; pelo contrário, sempre me distinguia em serviço.

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O Observador no Escritório: páginas de diário, 1985, Editora Record, Rio de Janeiro  RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); O Observador no Escritório: páginas de diário (1985); e tantos outros...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Carlos Heitor Cony: Da Salvação da Pátria

Em tempos de Comissão Nacional da Verdade, que objetiva investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 no Brasil e praticadas por agentes do estado, transcrevo abaixo outra crônica política de Carlos Heitor Cony, esta, escrita no calor do primeiro momento do golpe civil-militar de 1964, foi publicada no jornal carioca Correio da Manhã, de 02.04.64, onde o jornalista trabalhava. As crônicas políticas do autor, relatando aquele início de ditadura que acabou perdurando por longos vinte e um anos, foram escritas e divulgadas entre 2 de abril e 9 de junho daquele ano e reunidas no livro O Ato e o Fato, crônicas políticas, cuja 3ª edição (a que trago em meu poder) foi impressa ainda em 1964.
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Da Salvação da Pátria

(Correio da Manhã, 02.04.1964)
Posto em sossego por uma cirurgia e suas complicações, eis que o sossego subitamente se transforma em desassossego: minha filha surge esbaforida dizendo que há revolução na rua.

Apesar da ordem médica, decido interromper o sossego e assuntar: ali no Posto Seis, segundo me afirmam, há briga e morte. Confiando estupidamente no patriotismo e nos sadios princípios que norteiam as nossas gloriosas Forças Armadas, lá vou eu, trôpego e atordoado, ver o povo e a história que ali, em minhas barbas, está sendo feita.

E vejo. Vejo um heróico general, à paisana, comandar alguns rapazes naquilo que mais tarde o repórter da TV-Rio chamou de “gloriosa barricada”. Os rapazes arrancam bancos e árvores. Impedem o cruzamento da Av. Atlântica com a rua Joaquim Nabuco. Mas o general destina-se à missão mais importante e gloriosa: apanha dois paralelepípedos e concentra-se na brava façanha de colocar um em cima do outro.

Estou impossibilitado de ajudar os gloriosos herdeiros de Caxias, mas vendo o general em tarefa aparentemente tão insignificante, chego-me a ele e, antes de oferecer meus préstimos patrióticos, pergunto para que servem aqueles paralelepípedos tão sabiamente colocados um sobre o outro.

– General para que é isto?

O intrépido soldado não se dignou olhar-me. Rosna, modestamente:

– Isso é para impedir os tanques do I Exército!

Apesar de oficial da Reserva – ou talvez por isso mesmo – sempre nutri profunda e inarredável ignorância em assuntos militares. Acreditava, até então, que dificilmente se deteria todo um Exército com dois paralelepípedos na esquina da rua onde moro. Não digo nem pergunto mais nada. Retiro-me à minha estúpida ignorância.

Qual não é meu pasmo quando, dali a pouco, em companhia do bardo Carlos Drummond de Andrade, que descera à rua para saber o que se passava, ouço pelo rádio que os dois paralelepípedos do general foram eficazes: o I Exército, em sabendo que havia tão sólida resistência, desistiu do vexame: aderiu aos que se chamavam de rebeldes.

Nessa altura, há confusão na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, pois ninguém sabe ao certo o que significa “aderir aos rebeldes”. A confusão é rápida. Não há rebeldes e todos, rebeldes ou não, aderem, que a natural tendência da humana espécie é aderir.

Os rapazes de Copacabana, belos espécimes de nossa sadia juventude, bem nutridos, bem fumados, bem motorizados, erguem o general em triunfo. Vejo o bravo cabo-de-guerra passar em glória sobre minha cabeça.

Olho o chão. Por acaso ou não, os dois paralelepípedos lá estão, intactos, invencidos, um em cima do outro. Vou lá perto, com a ponta do sapato tento derrubá-los. É coisa relativamente fácil.

Das janelas, cai papel picado. Senhoras pias exibem seus pios e alvacentos lençóis, em sinal de vitória. Um cadillac conversível pára perto do “Six” e surge uma bandeira nacional. Cantam o Hino também Nacional e declaram todos que a Pátria está salva.

Minha filha, ao meu lado, exige uma explicação para aquilo tudo.

– É carnaval papai?

– Não.

– É campeonato do mundo?

– Também não.

Ela fica sem saber o que é. E eu também fico. Recolho-me ao sossego e sinto na boca um gosto azedo de covardia.

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O Ato e o Fato — crônicas políticas, 3ª edição, 1964, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Heitor Cony, carioca, nascido em 1926, cursou humanidades e filosofia no Seminário São José, do Rio de Janeiro; escritor e jornalista, trabalhou em jornais e revistas cariocas (Rádio Jornal do Brasil, Correio da Manhã, revistas do Grupo Manchete), atualmente colunista da Folha de São Paulo, é autor de extensa obra, ganhador de diversos prêmios literários, e pertence à Academia Brasileira de Letras; entre outros títulos, escreveu O Ventre (romance, 1958), A verdade de cada dia (romance, 1959), Matéria de memória (romance, 1962), Da arte de falar mal (crônicas, 1963), O Ato e o Fato, crônicas políticas (1964), Antes, o Verão (romance, 1964), Posto Seis (crônicas, 1965), Pesssach: a travessia (romance, 1967), Sobre todas as coisas (contos, 1968), Pilatos (romance, 1973), Quase memória (romance, 1995), A Casa do Poeta Trágico (romance, 1999), O Tudo ou o Nada (crônicas, 2004), além de adaptações de textos clássicos da literatura universal, traduções, textos para teatro e televisão (novela) e participação de coletâneas com outros autores; durante a ditadura civil-militar foi preso diversas vezes por sua atuação na imprensa.

Carlos Heitor Cony: A Natural História Natural

A instituição da Comissão Nacional da Verdade é uma das ações levadas a efeito neste governo PT/Dilma e aliados. Instalada em maio de 2012, objetiva investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 no Brasil e praticadas por agentes do estado. Já no assunto, vale a pena ler (ou reler!) as crônicas políticas de Carlos Heitor Cony, escritas nos primeiros dias e/ou semanas após o início do golpe político de 64  ditadura civil-militar iniciada em 31 de março daquele ano e que perdurou por longos vinte e um anos, até o início de 1985; tais crônicas, que retratam os primeiros dias e semanas daquele golpe civil-militar, foram escritas e divulgadas no jornal carioca Correio da Manhã, entre 2 de abril a 9 de junho daquele ano, e reunidas no livro O Ato e o Fato, crônicas políticas, cuja 3ª edição (a que trago em meu poder) foi impressa ainda em 64; abaixo, transcrevo uma delas.
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A Natural História Natural

(Correio da Manhã, 19-4-1964)

Encontro no livro escolar de minha filha (terceira série primária) algumas sábias classificações que vale a pena recordar ou aprender. Nas páginas 162 e seguintes, encontramos: “Invertebrados  Dividem-se em artrópodes, moluscos, vermes, equinodermos, celenterados e protozoários”.

Entre os artrópodes, destaquemos os moluscos: “têm o corpo mole, uns vivem dentro de uma concha, outros não. Exemplos: lesma, polvo, caracol. O caracol é célebre pela ausência de cérebro”. Mas são de moral ilibada, incorruptíveis, bem podiam participar do Alto Comando que nos rege e guia.

Mas há os protozoários. O livro da 3ª. Série assim explica: “São os protozoários os seres mais simples. São de tamanho minúsculo e apesar de infinitamente pequenos, constituem um sério perigo para a vida dos homens; referimo-nos aos micróbios de origem animal, que são protozoários causadores de muitas doenças. Só podem ser vistos através de microscópios”. Mas em horas de convulsões cívicas, os protozoários são facilmente vistos através da televisão.

Falando ainda sobre os animais, o manual de terceira série expõe algumas generalidades.

“Os animais não podem viver sem alimento, e, por isso, eles comem e bebem. Uns comem carne, como o gato e a onça. Outros alimentam-se de ervas ou grãos, como a galinha e o peru. Outros, os mais numerosos, comem de tudo.”

E há o capítulo das metamorfoses:

“Há animais que têm mais ou menos a mesma forma desde que nascem e outros que mudam de forma enquanto se desenvolvem”.

E, finalmente, o curioso e atual capítulo intitulado: “Meios de defesa dos animais”. Vamos transcrevê-lo na íntegra:

“Os animais vivem em luta constante, uns contra os outros. Por isso, a natureza deu a todos eles meios de defesa com os quais se defendem. Há animais que se defendem com:
  1. os chifres (o touro, o veado, o carneiro, etc.);
  2. os dentes (a onça, o cão , o porco, etc.);
  3. as patas traseiras (o cavalo, o burro, a zebra, etc.);
  4. os pelos (o porco espinho);
  5. o casco (a tartaruga, o tatu, a ostra, etc.);
  6. a cauda (o jacaré, a baleia, etc.);
  7. a tromba (o elefante);
  8. o mau cheiro que exalam (o percevejo do mato, o gambá);
  9. a cor que tomam (a perereca, o camaleão, etc.);
  10. a atitude que tomam (fingindo-se mortos)”.
A lição termina com o parágrafo dedicado à expressão: “Certos animais entendem-se por meio de uivos e guinchos; o homem, por meio da linguagem articulada, isto é, por meio da palavra. O homem é o único elemento da natureza que tem o dom da palavra”.

Minha filha decorou esta sabedoria toda e pretende fazer boa prova. De tanto ouvi-la repetir isso tudo, quase que acabei decorando também. E aproveito a oportunidade para oferecer a gregos e troianos, reacionários e revolucionários, guardiões da ordem vigente e pilares da sociedade, esta modesta contribuição à análise de cada um.

De protozoários estamos cheios, transbordam pelas ruas, pelos quartéis, pelas repartições, caem do céu, sobem da terra: é uma invasão. De animais que se defendem com o mau cheiro que exalam  a prudência me aconselha o silêncio. Mas é arma eficaz, tanto na guerra como na paz. Sugeriria que os estrategistas bélicos incluíssem esse importante meio de defesa entre as nobres armas que velam pela Pátria.

Finalmente, há os animais que se comunicam através de guinchos e uivos. Tive o desprazer, em dias da semana passada, de receber alguns telefonemas desses animais.

Além dos animais que se comunicam com uivos e guinchos, há o homem. O livro, embora primário, é categórico ao afirmar: “só o homem tem o dom da palavra”.

E é através da palavra, é pronunciando-a clara e corajosamente, sem medo, que podemos unir todos os homens e a eles nos unir contra todos os animais que para sobreviverem exalam mau cheiro, mudam de feitio e cor, usam chifres e patas.

Animais que para sobreviverem precisam da força e da estéril tranqüilidade que só a imbecilidade dá e sustém.

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O Ato e o Fato crônicas políticas, 3ª edição, 1964, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Heitor Cony, carioca, nascido em 1926, cursou humanidades e filosofia no Seminário São José, do Rio de Janeiro; escritor e jornalista, trabalhou em jornais e revistas cariocas (Rádio Jornal do Brasil, Correio da Manhã, revistas do Grupo Manchete), atualmente colunista da Folha de São Paulo, é autor de extensa obra, ganhador de diversos prêmios literários, e pertence à Academia Brasileira de Letras; escreveu O Ventre (romance, 1958), A verdade de cada dia (romance, 1959), Matéria de memória (romance, 1962), Da arte de falar mal (crônicas, 1963), O Ato e o Fato, crônicas políticas (1964), Antes, o Verão (romance, 1964), Posto Seis (crônicas, 1965), Pesssach: a travessia (romance, 1967), Sobre todas as coisas (contos, 1968), Pilatos (romance, 1973), Quase memória (romance, 1995), A Casa do Poeta Trágico (romance, 1999), O Tudo ou o Nada (crônicas, 2004), e outros, além de adaptações de textos clássicos da literatura universal, traduções, textos para teatro e televisão (novela) e participação de coletâneas com outros autores; durante a ditadura civil-militar foi preso diversas vezes por sua atuação na imprensa.

Carlos Heitor Cony: Revolução dos Caranguejos

No espírito da Comissão Nacional da Verdade, instalada em maio de 2012, com o objetivo de investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 no Brasil e praticadas por agentes do estado, reproduzo abaixo uma crônica política de Carlos Heitor Cony, crônica esta que compõe o rol dos textos escritos pelo autor a partir das primeiras horas após o início do golpe político de 1964 ditadura civil-militar iniciada em 31 de março daquele ano e que perdurou por longos vinte e um anos, até o início de 1985. Tais crônicas, retratando acontecimentos daquele período ditatorial que se iniciava, foram escritas e divulgadas através do jornal carioca Correio da Manhã, entre 2 de abril e 9 de junho daquele ano, e reunidas no livro O Ato e o Fato, crônicas políticas, cuja 3ª edição (a que trago em meu poder) foi impressa naquele mesmo ano, 1964.
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Revolução dos Caranguejos
(Correio da Manhã, 14.04.1964)

Já que o Alto Comando Militar insiste em chamar isso que aí está de Revolução  sejamos generosos: aceitemos a classificação. Mas devemos completá-la: é uma Revolução, sim, mas de caranguejos. Revolução que anda para trás. Que ignora a época, a marcha da história, e tenta regredir ao governo Dutra, ou mais longe ainda, aos tempos da Velha República, quando a probidade dos velhacos era o esconderijo da incompetência e do servilismo. Quando até os vasos de nossos sanitários, as louças de nossos mictórios públicos tinham o consagrador made in England.

O Brasil foi para frente, ganhou campeonatos do mundo, firmou uma presença industrial, subiu ao plano internacional  mas tudo isso é fruto do comunismo: há de regredir aos tempos da Baronesa, da Leopoldina Railway, das tesourinhas Sollingen, do retrato do Santo Padre concedendo indulgências plenárias pendurado nas salas de visita.

Lembro o poema de Apollinaire sobre o caranguejo: “recuamos, recuamos”. E a sensação que predomina é esta: um recuo humilhante que deverá ser varrido muito mais cedo do que os medrosos e os imbecis pensam. Não se podia esperar caráter e patriotismo dos políticos: são coisas que a estrutura de um político não pode possuir, assim como a estrutura do concreto armado não pode possuir bolsões de ar. Mas dos militares  não há como negar, sente-se patriotismo e algum caráter. Um patriotismo adjetivado, sem substantivos, que se masturba com os gloriosos feitos históricos, feitos cada vez mais discutíveis. Um patriotismo estéril, que não leva a nada, que não constrói nada: lembro a patriotada do marechal Osvino mandando que os postos de gasolina hasteassem a bandeira nacional. É quase uma anedota, mas é típico da espécie deste patriotismo que rege nossas Forças Armadas. *

Com algum caráter e algum patriotismo, é possível que os próprios militares compreendam o mau passo que estão dando, desmoralizando o Brasil perante o mundo inteiro, e, o que é pior, destruindo o que de melhor temos como Nação, e como povo: a vergonha.

Não se compreende que os militares, hoje no poder, em nome da ordem queiram impor tamanho retrocesso. Estúpida concepção da ordem essa, a de que a ordem se basta a si mesma. A ordem só é válida quando conduz a alguma coisa: ordo ducit. Mas a ordem que os militares desejam é uma ordem calhorda, feita de regulamentos disciplinares do Exército e de estagnação moral e material.

Até agora, essa chamada Revolução não disse a que veio. As necessidades do País, que levaram o governo inábil do Sr. João Goulart a atrelar-se à linha chinesa do comunismo internacional, não receberam uma só palavra do Alto Comando. Falam em hierarquia, em disciplina, e consideram a Pátria salva porque os generais continuarão a receber continência e medalhas de tempo de serviço  à falta de condecorações mais bravas.

Sabemos que o governo deposto, se realmente enveredou o País para o caminho do caos, em parte tinha real cobertura dos anseios populares que o sr. João Goulart não soube interpretar nem zelar. Esses anseios não desaparecerão porque o general Fulano depôs o general Sicrano. Afinal, o Brasil  já o disse aqui  não é um quartel de oito milhões de quilômetros quadrados. Quadrados são os que desejam fazer do País um prolongamento do quartel.

Sem medo, e com coerência, continuo afirmando: isso não é uma revolução. É uma quartelada continuada, sem nenhum pudor, sem sequer os disfarces legalistas que outrora mascaravam os pronunciamentos militares. É o tacão. É a espora. A força bruta. O coice.

Que os caranguejos continuem andando para trás. Nós andaremos para a frente, apesar dos descaminhos e das ameaças. Pois é na frente que encontraremos a nossa missão, o nosso destino. É na frente que está a nossa glória.

Nota: Em outra crônica, de 14.05.1964, Cony publica duas notas no rodapé. Uma é esta: “Pessoa chegada ao marechal Osvino Alves me afiançou que o ex-presidente da Petrobrás jamais mandou hastear a bandeira nacional nos postos de gasolina. Incorri no equívoco levado por notícias que foram divulgadas em outros jornais. Faço todas estas retificações com humildade e prazer”.

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O Ato e o Fato — crônicas políticas, 3ª edição, 1964, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Heitor Cony, carioca, nascido em 1926, cursou humanidades e filosofia no Seminário São José, do Rio de Janeiro; escritor e jornalista, trabalhou em jornais e revistas cariocas (Rádio Jornal do Brasil, Correio da Manhã, revistas do Grupo Manchete), atualmente colunista da Folha de São Paulo, é autor de extensa obra, ganhador de diversos prêmios literários, e pertence à Academia Brasileira de Letras; escreveu O Ventre (romance, 1958), A verdade de cada dia (romance, 1959), Matéria de memória (romance, 1962), Da arte de falar mal (crônicas, 1963), O Ato e o Fato, crônicas políticas (1964), Antes, o Verão (romance, 1964), Posto Seis (crônicas, 1965), Pesssach: a travessia (romance, 1967), Sobre todas as coisas (contos, 1968), Pilatos (romance, 1973), Quase memória (romance, 1995), A Casa do Poeta Trágico (romance, 1999), O Tudo ou o Nada (crônicas, 2004), e outros, além de adaptações de textos clássicos da literatura universal, traduções, textos para teatro e televisão (novela) e participação de coletâneas com outros autores; durante a ditadura civil-militar foi preso diversas vezes por sua atuação na imprensa.