Em tempos de Comissão Nacional da Verdade,
que objetiva investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e
1988 no Brasil e praticadas por agentes do estado, transcrevo abaixo registro
do poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade, acerca dos primeiros
dias após o golpe civil-militar no país, aqueles dias que, no fio da história, acabaram perdurando por longos vinte e um anos de antidemocracia, rasteiras e perseguições políticas,
usurpações de poder, cassações, torturas e mortes. O poeta registra aqueles
momentos inquietantes em um diário de anotações de “fatos políticos e literários
que o interessaram”, anotações tais, parte delas, reunidas no livro O
Observador no Escritório: páginas de diário, editado em 1985 – antes, uma seleção desses registros
foi publicada no Jornal do Brasil, entre 1980 e 1981.
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1964 - Queda de Jango
Abril, 1 – E, de repente,
foi-se o Governo Goulart, levando consigo o Comando Geral dos Trabalhadores. Em
menos de dois dias, tudo se esfarelou. O Presidente da República, tão seguro de
si ao falar aos “senhores sargentos”, fugiu de avião para lugar ainda não
sabido. Não tinha a força que pensava – e que outros pensavam que ele tivesse.
O dia de ontem foi de tensão
e boataria, até que se positivou, entre tarde e noite, a notícia de sublevação
da tropa federal em Minas, com o Governador Magalhães Pinto chefiando o
movimento. A adesão de São Paulo só foi conhecida pela madrugada. Passei quase
toda a noite colado ao radinho transistor, e pedindo e recebendo algumas vezes
notícias telefônicas, fornecidas pelo bem informado Otto Lara Resende.
Preocupava a situação no Palácio Guanabara: Carlos Lacerda entrincheirado mas
também encurralado ali.
Hoje, depois da fala de
Lacerda pela Rádio Roquette Pinto, acabaram as notícias, salvo a propaganda
contínua, enfadonha, do Governo Jango em sua “cadeia nacional da legalidade”. À
tarde, informado de que alguma coisa se passava no Forte de Copacabana, fui
conferir na praia. Carlos Heitor Cony, meu colega no Correio da Manhã, me pôs a par dos acontecimentos. O Forte estava ocupado por um grupo
militar contrário a Jango. Soldados e civis (estes, oficiais da Marinha à
paisana, segundo Cony) foram afastando os curiosos que se aglomeravam junto ao
Forte. Há poucas dúvidas sobre a derrota de Jango.
Eu voltava para casa quando
se ouviram estampidos, ouve um corre-corre, e eis que das janelas dos edifícios
gente sacode lenços, panos de prato, até lençóis, enquanto outra chuva, esta de
papel picado, cai sobre o asfalto. O rádio espalhara a notícia, transmitida por
Lacerda: Jango deu o fora. Volto à praia. Gente cantando o Hino Nacional,
xingando Brizola em slogan improvisado. Sensação geral de alívio.
Abril, 13 – Baixado Ato
Institucional, que atenta rudemente contra o sistema democrático. O Congresso,
já tão inexpressivo, passa a ser uma pobre coisa tutelada. Vamos ver o que será
das liberdades públicas.
Maio, 3 – Incrível. Prisão
de Carlos Ribeiro, o “bom mercador de livros”, amigo de todos, sob suspeita de
quê? de tramar a derrubada do marechal Castelo Branco? Encontro-o na Travessa do
Ouvidor, levado por um tira jovem, que mais parece poeta debutante, e por
Ascendino Leite, que o iria acompanhar ao DOPS como amigo e pessoa insuspeita
ao Governo.
Junho, 22 – Desagradável
chamada para depor no inquérito administrativo da Rádio Ministério da Educação,
em torno de alegadas “atividades subversivas” da antiga diretora, Maria Ieda
Linhares. Queriam saber o motivo do meu afastamento da Rádio, naturalmente para
fazer carga contra ela, que de tão atacada chegou ao quase desespero. Respondi
que meu afastamento resultou de solicitação de Simeão Leal, Diretor do Serviço
de Documentação do MEC, desejoso de contar comigo no seu trabalho. Os
inquéritos desse tipo traduzem mais o espírito de vingança do que o de justiça.
Julho, 21 – Pela segunda vez
na sede do Ministério da Educação, para depor no inquérito sobre a Rádio MEC.
Às mesmas perguntas dou as mesmas respostas. Não sei de atividades subversivas
da ex-editora; nunca tive com ela o menor incidente; pelo contrário, sempre me
distinguia em serviço.

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O Observador no Escritório: páginas de diário,
1985, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como
legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e
revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento
do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A
Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos
de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha,
crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira,
crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida
Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A
Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O
Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973);
Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias
faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos
Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); O Observador
no Escritório: páginas de diário (1985); e tantos outros...



