A seção de falecimentos dos jornais causa um certo desconforto no leitor que instintivamente muda rapidamente de página. A Folha de São Paulo inovou e reservou um canto daquela seção para homenagear não só os mortos ilustres como também as pessoas comuns ou não tão famosas. Lá o leitor toma conhecimento da partida e de detalhes relevantes da vida de alguém contada de uma forma singela e humana. Quem não se deteve naquele canto e não ficou imaginando a trajetória de alguém que sequer conheceu, mas que, pelo relato, gostaria de ter conhecido? Quando a pessoa homenageada é alguém que conhecemos, aí cala fundo o coração da gente.
No começo de abril, citei o Itagyba no texto "O e-mail que caiu do Céu". O Barão de Itararé se referindo a nós que o homenageamos num site, dizia no final da mensagem: - Até qualquer dia porque quem é vivo sempre desaparece. E não é que naquele mesmo dia, o Itagyba partia para se encontrar com o Barão?! Na semana seguinte, aquela seção da Folha o homenageou. Estevão Bertoni chamou-o de O "Braço de Pedra" de Embu das Artes, tradução de seu nome em tupi-guarani. O filho de Moysés Kuhlmann, um dos botânicos fundadores do Jardim Botânico de SP, era poeta, humorista e webdesigner, além de cantor. Faltou dizer que durante o velório houve um delicado sarau apresentado pela própria família. Foi muito bonito, disse o amigo Genésio, frequentador dos saraus dos Kuhlmann. "A minha maior obra é a minha família", costumava dizer Itagyba, revelou Wilma sua companheira por 38 anos e que lhe deu seis filhos: Ubiratan(Bira), Uirá, Yurê, Itagyba, Mayra e Iberê. Wilma Abondanza é regente de corais e foi uma das vocalistas do Pessoal de Santana do histórico disco "Estudando o Samba", de Tom Zé, em 1975. Maurício, o famoso MZK dos quadrinhos, é filho do primeiro casamento de Itagyba.
Que os outros jornais imitem a Folha e registrem não só o nome, idade, se deixa filhos e a última morada, mas que registrem também sobre a vida de alguém "que não passou pela vida em brancas nuvens e em plácido repouso adormeceu". A morte é de morte. Carregou nossos avós, ronda nossos pais e ainda paquera despudoradamente a nossa geração, distribuindo cartões amarelos e até vermelhos. Nosotros que já estamos no segundo tempo deste jogo, tenhamos cuidado com as faltas (excessos) porque esta juíza implacável pode decidir a nossa "partida". Enquanto isso, dá um tempo, Meritíssima, e deixe a vida me levar "até um dia, até talvez, até quem sabe?"
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CARONA - Trabalhei com Itagyba Kuhlmann no jornal Expresso Zona Norte", em 1995, uma aventura do inquieto Antonio Gomide. Itagyba que também foi colunista dos jornais Fato Expresso e Cidade da Serra, em Embu, criava pseudônimos de acordo com o assunto que abordava. Eis alguns: Tio Marcos da Portela Aquele Abraço, partidário do apartidarismo; Bonifrate Mário Neto, um repórter que não se vende separadamente; Madame Quiromana, astróloga evidente; Joermil Percenting, analista econômico em palavras; Saene Cordeiro, seu nome não é Enéas nem de trás pra frente; Jeca Kfuro, comentarista sem esportiva, entre outros.
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Jorge Nagao é cronista, frasista, humorista, colunista, moitista e ativista da palavra.