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quinta-feira, 5 de março de 2026

Sully Prudhomme: A jarra fendida

 
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[traduzido por Heitor Práguer Fróis]

A jarra em que este ramo de verbenas
Fenece por um leque foi rachada:
O choque foi na superfície apenas,
E não se ouviu ruído de pancadas...

Mas aquela fratura desprezível,
Incisando o cristal, tanto cresceu
Que, em progressão fatal, imprevisível,
Fez toda a volta, e a jarra se fendeu.

A fresca linfa aos poucos foi-se embora;
As flores estão já quase sem vida,
E ninguém o notou até agora...
Ai! não a toques, que ela está fendida!

Da mão querida quanta vez um gesto
O coração magoa e o faz sofrer...
E, em breve, sem queixume e sem protesto,
As flores desse amor vão fenecer!

Intacto sempre, no parecer do mundo,
O coração também guarda escondido
O seu sofrer, o seu penar profundo...
Ai! não o toques, que ele está ferido!

(Meus Poemas... dos Outros [Heitor
Práguer Fróis], Bahia, 1952.)

Sully Prudhomme

Le vase brisé

Le vase où meurt cette verveine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut effleurer à peine.
Aucun bruit ne l’a révélé.

Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.

Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.

Souvent aussi la main qu’on aime,
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;

Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.

[Stances et poèmes — 1865]
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Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 — 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888)..., em prosa, escreveu Réflexions sur l’art des vers (prosa, 1892) e outros escritos (diário e pensamentos); Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, “de saúde precária” desde a infância, a partir de 1870, sofreu mais complicações, teve paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora]; teve poemas musicados, recebeu honrarias e premiações por sua obra, entre as quais o já citado 1º Prêmio Nobel de Literatura (1901).

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Shakespeare: Aniquilado pela adversidade, . . . [soneto]

 
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[traduzido por Heitor P. Fróes]

"Soneto XXIX"

Aniquilado pela adversidade,
dos homens desprezado e solitário,
deploro este penar desnecessário,
dos céus ante a passiva crueldade;

e, comparando com realidade
a sorte dos demais e o meu fadário,
invejo quem se fez depositário
de esperança, prazer, felicidade...

Mas, quando assim lamento os meus pesares,
recordo-me de ti, e eis que o meu tédio
qual calhandra desperta corta os ares;

e encontro em teu amor tal refrigério,
que minha pobre vida sem remédio
já não trocara nem por um império!

Shakespeare

Sonnet XXIX

When in disgrace with fortune and men's eyes
I all alone beweep my outcast state,
And trouble deaf heaven with my bootless cries,
And look upon myself, and curse my fate,
Wishing me like to one more rich in hope,
Featured like him, like him with friends possessed,
Desiring this man's art, and that man's scope,
With what I most enjoy contented least;
Yet in these thoughts my self almost despising,
Haply I think on thee, and then my state,
Like to the lark at break of day arising
From sullen earth, sings hymns at heaven's gate;
   For thy sweet love remembered such wealth brings
   That then I scorn to change my state with kings.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; William Shakespeare (1564 1616), inglês nascido em Stratford upon-Avon, “provavelmente” tenha iniciado seus estudos em casa, frequentou a Petty School até os sete anos de idade, foi poeta, ator e dramaturgo profissional, e é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; em seus traços biográficos conhecidos há a especulação de que possa ter seguido para Londres por volta de 1592, época em que, com suas peças encenadas, se consolidou como dramaturgo ali; consta que com o fim da epidemia de peste que assolou na época, Shakespeare e outros atores, antes pertencentes a diferentes companhias, se uniram e formaram a Companhia do Lorde Chamberlaim, que os patrocinava, e, por quase vinte anos, passaram a participar dos lucros da empresa; o dramaturgo também se tornou membro dos consórcios que administravam o Globe Theatre e o Blackfriars Theatre; como escritor e poeta, suas primeiras obras impressas foram dois longos poemas: Vênus e Adônis (Venus and Adonis, 1593) e O Estupro de Lucrécia (The Rape of Lucrece, 1594); do poeta, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura — que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias: Sonho de Uma Noite de Verão (A Midsummer Night's Dream), O Mercador de Veneza (The Merchant of Venice), A Comédia de Erros (The Comedy of Errors), A Megera Domada (Taming of the Shrew), A Tempestade (The Tempest), Os Dois Cavalheiros de Verona (The Two Gentlemen of Verona), Cimbelino, e tantas outras, tragédias: Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc., dramas históricos: Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III.