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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Manoel Cerqueira Leite: Talvez . . .

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Já me disseram que esta poesia nada vale,
que vive na morte!
Talvez...

Talvez que eu não consiga
ser aquilo que canto,
pela íntima pobreza do meu ser.

Talvez que toda a minha miséria
de velhos farrapos sujos
nela se cubra de vestes ricas e limpas
para iludir.

A minha única resposta é apenas esta:
muitos dos medos que me oprimiam
se desfizeram;
muitos apegos que me estrangulavam
já se desenroscaram
de minha outrora garganta ansiada!

Começo  sinto  a respirar um novo ar,
e vejo que meus passos me conduzem
para uma terra que conheço!

Campo Grande, 28.1.46

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Fonte Na Serra, poemas — Carta-prefácio de Jaime Bruna, 1959, Editora Brasiliense Ltda., São Paulo — SP; Manoel Cerqueira Leite (1916  1975), paulista de Sarapuí, formado pela USP  Universidade de São Paulo foi poeta, crítico literário, professor de literatura brasileira (USP e UNESP) e colaborou com jornais da capital e do interior paulista (O Democrata  Itapetininga, Jornal de São Paulo, Folha da Manhã — São Paulo); escreveu e publicou: Terra Verde, poemas (1946), Água na Cuia, sonetilhos (1948), Fonte na Serra, poemas (1959), Rumo (textos da década de 50 e 60, estudos literários, 1976), A Crítica Funcional I, II, III e IV (crítica literária), Introdução à Literatura Brasileira, etc.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Manoel Cerqueira Leite: Poema Xucro


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Amo tudo o que é xucro na Vida!

O macho que levanta polvadeira,
e bate com o peão na poeira.

O pássaro que morre, na gaiola, sem um canto,
na gaiola forrada de alpiste.

O gavião que voa alto e guincha,
olhar e bico em riste.

O sagüi, jogando terrão nos homens,
fazendo careta, rindo,
dentalhada branca...

O vento, nunca sabendo pra onde vai,
mas indo!

E o sol, sempre sabendo pra onde vai,
mesmo que o estrondo da tempestade
sacuda o mundo!

Ó liberdade humana,
acomodada, calculada,
como és risível, diante da enorme xucreza da Vida!


São Paulo, 21-5-46


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Fonte Na Serra , poemas  Carta-prefácio de Jaime Bruna, 1959, Editora Brasiliense Ltda., São Paulo — SP; Manoel Cerqueira Leite (1916 1975), paulista de Sarapuí, formado pela USP — Universidade de São Paulo foi poeta, crítico literário, professor de literatura brasileira (USP e UNESP) e colaborou com jornais da capital e do interior paulista; escreveu e publicou: Água na Cuia, sonetilhos; Rumo; Fonte na Serra, poemas; Terra Verde  Antologia: Conto e Poesia; Poesias; A Crítica Funcional I, II, III e IV (crítica literária); Literatura Brasileira.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Manoel Cerqueira Leite: Rangido e Canto

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A água limpinha que da bica jorra
gargalhando espumas,
cai no cocho fundo:
e o munjolão, chorando, desemperra e bate.

Depois, a água, cantando, segue clara,
fica o munjolo negro chorando.

Qual a razão deste canto,
qual a razão deste pranto?

Ó liberdade desprendida,
cantas,
n'água!
cantas, corres, brilhas, jorras, espumejas!

Nem vês um madeiro preso nas roscas,
nas vascas do seus sistema:
um coração esmagado,
batendo num ponto só.

Eu, em verdade, munjolo amigo, vos digo
que muito rangido, no mundo,
tem passado por canto!
Campo Grande, 26-1-46.

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Fonte Na Serra , poemas  Carta-prefácio de Jaime Bruna, 1959, Editora Brasiliense Ltda., São Paulo SP; Manoel Cerqueira Leite (1916 1975), paulista de Sarapuí, formado pela USP Universidade de São Paulo foi poeta, crítico literário, professor de literatura brasileira (USP e UNESP) e colaborou com jornais da capital e do interior paulista; escreveu e publicou: Água na Cuia, sonetilhos; Rumo; Fonte na Serra, poemas; Terra Verde  Antologia: Conto e Poesia; Poesias; A Crítica Funcional I, II, III e IV (crítica literária); Literatura Brasileira.