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[traduzido por Nelson Ascher]
Mais belo que a notável lua e
sua nobre luz
Mais belo que as estrelas, as
insígnias célebres da noite,
Muito mais belo que a irrupção
em chamas de um cometa
E eleito para algo mais belo
que outro astro qualquer,
Pois minha e tua vida a ele
estão ligadas dia a dia, é o sol.
Belo sol que, ao se erguer,
não esqueceu suas tarefas
E as cumpre ainda com mais beleza
no verão quando, na costa,
Um dia se evapora e, refletidas
sem esforço, as velas passam
Pelo teu olho até que te
fatigues e abrevies a derradeira.
Sem o sol mesmo a arte volta a
pôr o véu,
Não me apareces mais e,
vergastados pelas sombras,
Areia e mar abrigam-se sob
minha pálpebra.
Bela luz que nos dá calor, nos
guarda e propicia esse prodígio
Que é novamente ver e te
rever.
Nada mais belo sob o sol do
que estar sob o sol...
Nada mais belo do que ver a
haste na água e, no alto, o pássaro
Ponderando seu vôo e, embaixo,
os peixes em cardumes
de muitas cores, multiformes e
trazidos num jato de luz ao mundo,
Ver a circunferência, o
quadrilátero de um campo, ângulos mil do meu
país
E o vestido que vestes. Teu
vestido azul em forma de campânula.
Tão belo azul no qual pavões,
passeando, fazem reverências,
Azul dos longes, de regiões
felizes que têm climas para meus
humores,
Azulíssimo acaso no horizonte.
E, arrebatados, os meus olhos
dilatam-se outra vez e piscam
e ardem doloridos.
Belo sol que merece a ilimitada
admiração do próprio pó,
Por isto e não devido à lua ou
às estrelas nem à noite
Que, procurando me fazer de
tola, ostenta seus cometas,
Mas sim por tua causa e, em
breve sem cessar, que em torno de mais
nada,
Lamentarei a perda inevitável
dos meus olhos.
 |
| Ingeborg Bachmann |
An
die Sonne
Schöner als der beachtliche
Mond und sein geadeltes Licht,
Schöner als die Sterne, die
berühmten Orden der Nacht,
Viel schöner als der feurige
Auftritt eines Kometen
Und zu weit Schönrem berufen
als jedes andre Gestirn,
Weil dein und mein Leben jeden
Tag an ihr hängt, ist die Sonne.
Schöne Sonne, die aufgeht, ihr
Werk nicht vergessen hat
Und beendet, am schönsten im
Sommer, wenn ein Tag
An den Küsten verdampft und
ohne Kraft gespiegelt die Segel
Über dein Aug ziehn, bis du
müde wirst und das letzte verkürzt.
Ohne die Sonne nimmt auch die
Kunst wieder den Schleier,
Du erscheinst mir nicht mehr,
und die See und der Sand,
Von Schatten gepeitscht,
fliehen unter mein Lid.
Schönes Licht, das uns warm
hält, bewahrt und wunderbar sorgt,
Daß ich wieder sehe und daß
ich dich wiedersehet.
Nicht Schönres unter der Sonne
als unter der Sonne zu sein…
Nicht Schönres als den Stab im
Wasser zu sehn und den Vogeloben,
Der seinen Flug überlegt, und
unten die Fische im Schwarm,
Gefärbt, geformt, in die Welt
gekommen mit einer Sendung von Licht,
Und den Umkreis zu sehn, das
Geviert eines Felds, das Tausendeck
meines Lands
Und das Kleid, das du angetan
hast. Und dein Kleid, glockig und blau!
Schönes Blau, in dem die Pfauen
spazieren und sich verneigen,
Blau der Fernen, der Zonen des
Glücks mit den Wettern für mein
Gefühl,
Blauer Zufall am Horizont! Und
meine begeisterten Augen
Weiten sich wieder und blinken
und brennen sich wund.
Schöne Sonne, der vom Staub
noch die größte Bewundrung gebührt,
Drum werde ich nicht wegen dem
Mond und den Sternen und nicht,
Weil die Nacht mit Kometen
prahlt und in mir einen Narren sucht,
Sondern deinetwegen und bald
endlos und wie um nichts sonst
Klage führen über den
unabwendbaren Verlust meiner Augen.
[1956]
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Poesia Alheia: 124 poemas traduzidos,
edição bilíngue [poetas diversos], Coleção Lazuli, Tradução, Prefácio e Notas biográficas
por Nelson Ascher, e Apresentação [orelhas do livro] por Arthur Nestrovski, 1998,
Imago Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ingeborg Bachmann (1926 — 1973), austríaca de Klagenfurt, estudou Filosofia
e Direito nas universidades de Innsbruck, Graz e Viena, foi escritora, dramaturga,
professora, tradutora e poeta; após se formar e doutorar-se trabalhou como roteirista
e editora da rádio austríaca Rot-Weiss-Rot; a poeta lecionou nas universidades de
Harvard (EUA) e Frankfurt (Alemanha); suas obras: Ein Geschaft mit Traumen (peça
radiofônica, 1952), Die gestundete Zeit (coletânea de poesias, 1953), Die Zikaden
(peça radiofônica, 1955), Todesarten/The Book of Franza & Requiem for Fanny
Goldmann (romance inconcluso, 1955), Anrufung des großen bären
(coletânea de poesias,
1956), Der güte Gott von Manhattan (peça radiofônica, 1959), Der Prinz von Homburg
(libreto de ópera, 1960), Der junge Lord (libreto de ópera, 1965), Das dreißigste
Jahr (contos, 1961), Malina (romance, 1971), Simultan/Three Paths to the Lake (contos,
1972), Ich weiß keine bessere Welt (poemas não publicados, 2000) ...; traduziu
para o idioma alemão o escritor estadunidense Thomas Wolfe (A Mansão) e o poeta
italiano Giuseppe Ungaretti (Poemas); recebeu premiações por suas obras em poesia e peças para rádio; teve poemas
musicados; Ingeborg Bachmann, que também fez uso do pseudônimo Ruth Keller, veio
a morrer após sofrer graves queimaduras por incêndio em seu apartamento em Roma
— Itália.