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quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

David Mourão-Ferreira: E por vezes . . . [soneto]

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E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

[Matura Idade — 1973]

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; David de Jesus Mourão-Ferreira (1927 1996), português lisboeta, licenciado em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa, foi professor universitário, dramaturgo, jornalista, poeta, romancista, crítico literário e ensaísta; o poeta foi um dos fundadores das folhas de poesia revista Távola Redonda, redator da revista Graal, diretor da Colóquio/Letras e do periódico A Capital, e diretor-adjunto do jornal O Dia, colaborou no Diário Popular e na revista Seara Nova; foi autor e ator teatral,  manteve programas radiofônicos e televisivos, escreveu textos para fados de Amália Rodrigues; suas obras: em poesia: Tempestade de Verão (1954), Os Quatro Cantos do Tempo (1958), In Memoriam Memoriae (1962), Infinito Pessoal (1962), Do Tempo ao Coração (1966), A Arte de Amar (reunião das obras anteriores, 1967), Lira de Bolso (1969), Cancioneiro de Natal (1971), Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), As Lições do Fogo (1976), Os Ramos e os Remos (1985), Música de Cama (antologia erótica com um livro inédito, 1994) ..., em prosa: Gaivotas em Terra (novelas, 1959), Os Amantes (contos, 1968), As Quatro Estações (1980), Um Amor Feliz (romance, 1986), Vinte poetas contemporâneos (ensaios, 1960), Motim Literário (ensaio, 1962), Hospital das Letras (ensaio, 1966), Discurso Direto (ensaio, 1969), Tópicos de Crítica e de História Literária (ensaios, 1969), Sobre Viventes (ensaio, 1876), Presença da ‘Presença’ (ensaios, 1977), para teatro: Isolda (1948), Contrabando (1950) e O Irmão (1965); obteve premiações por suas obras.

domingo, 22 de setembro de 2024

David Mourão-Ferreira: É terrível o vento

 
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É terrível o vento no planalto
quando não é do vento que se trata
Com plátanos à volta és um palácio
Com sombra de pinheiros uma casa
Mas se penso habitar-te nunca passo
de navio solúvel dentro de água

É terrível o vento no deserto
se não vemos deserto que se veja
Despertíssima assistes ao mistério
da água que na água fica presa
O brilho da platina é mais concreto
quando a prata lhe pede que adormeça

É terrível o vento nas campinas
trazidas pelo mar aos seus domínios
E atingimos as plagas mais antigas
o palco dos desastres mais ambíguos
E gritas. E não gritas. E suplicas
por dentro da represa dos suplícios

É terrível o vento na memória
quando nos despegamos um do outro
e quando na plateia está a morte
seguindo atentamente o nosso jogo
Ah! Como sopra o vento que não sopra
que deixou de repente de ter boca

É terrível o vento que no escuro
nos marcou de antemão com algum número
Mais terrível ainda no soluço
com que nós aguardamos o seu gume
É terrível Terrível Sobretudo
quando não é ao vento que se alude

[Lira de bolso — 1969]

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; David de Jesus Mourão-Ferreira (1927 1996), português lisboeta, licenciado em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa, foi professor universitário, dramaturgo, jornalista, poeta, romancista, crítico literário e ensaísta; o poeta foi um dos fundadores das folhas de poesia revista Távola Redonda, redator da revista Graal, diretor da Colóquio/Letras e do periódico A Capital, e diretor-adjunto do jornal O Dia, colaborou no Diário Popular e na revista Seara Nova; foi autor e ator teatral,  manteve programas radiofônicos e televisivos, escreveu textos para fados de Amália Rodrigues; suas obras: em poesia: Tempestade de Verão (1954), Os Quatro Cantos do Tempo (1958), In Memoriam Memoriae (1962), Infinito Pessoal (1962), Do Tempo ao Coração (1966), A Arte de Amar (reunião das obras anteriores, 1967), Lira de Bolso (1969), Cancioneiro de Natal (1971), Matura Idade (1973), Sonetos do Cativo (1974), As Lições do Fogo (1976), Os Ramos e os Remos (1985), Música de Cama (antologia erótica com um livro inédito, 1994) ..., em prosa: Gaivotas em Terra (novelas, 1959), Os Amantes (contos, 1968), As Quatro Estações (1980), Um Amor Feliz (romance, 1986), Vinte poetas contemporâneos (ensaios, 1960), Motim Literário (ensaio, 1962), Hospital das Letras (ensaio, 1966), Discurso Direto (ensaio, 1969), Tópicos de Crítica e de História Literária (ensaios, 1969), Sobre Viventes (ensaio, 1876), Presença da ‘Presença’ (ensaios, 1977), para teatro: Isolda (1948), Contrabando (1950) e O Irmão (1965); obteve premiações por suas obras.