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domingo, 20 de novembro de 2016

Carolina Maria de Jesus: Quarto de despejo — diário de uma favelada (20 de novembro a 6 de dezembro de 1958)

Da série: Páginas Negras  uma homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.

Transcrevo abaixo uma pequenina parte de Quarto de despejo — diário de uma favelada. A autora viveu na Favela do Canindé, em São Paulo, e trabalhava como catadora de papéis e ferro-velho para sobreviver e sustentar seus filhos. E escrevia um diário. Quem a descobriu foi o jornalista Audálio Dantas, então repórter do jornal Folha da Noite em 1958 e que fora incumbido de escrever uma matéria sobre aquela favela que se expandia na beira do Rio Tietê, no Bairro do Canindé. Assim relata Audálio no Prefácio do livro: "A história da favela que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história  a visão de dentro da favela. Da reportagem  reprodução de trechos do diário  publicada na Folha da Noite, em 1958, e mais tarde (1959) na revista O Cruzeiro, chegou-se ao livro, em 1960. Fui o responsável pelo que se chama edição de texto. Li todos aqueles vinte cadernos que continham o dia-a-dia de Carolina e de seus companheiros de triste viagem."
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                    20 de novembro de 1958 ... Olhei o céu. Parece que vamos ter chuva. Levantei, tomei café e fui varrer o barraco. Vi as mulheres olhando em direção do rio. Fui ver o que era. Eu estava com umas cebolas que a Juana do Binidito deu-me porque eu dei-lhe uns tomates. Mandei a Vera guardar os tomates e fui perguntar as mulheres o que havia no rio.
                     É uma criança que não pode sair do rio.
                    Fui ver. Pensei: se for criança eu vou atravessar o Tietê para retirá-la e se for preciso nadar eu entro na água.
                    Corri para ver o que era. Era um jacá de queijo que flutuava. Voltei e fui escrever.
                    21 de novembro ... Vi varias pessoas no barraco da Leila. Fui ver o que havia. Perguntei para a D. Camila o que houve.
                     É a menina que morreu.
                     De que foi que morreu a menina?
                     Não sei.
                    ... O sono surgiu. Eu deitei. Despertei com um bate-fundo perto da minha janela. Era a Ida e a Analia. A briga começou lá na Leila. Elas não respeitam nem a extinta. O Joaquim intervio pedindo para respeitar o corpo. Elas foram brigar na rua.
                    Hoje de manhã eu disse para o seu Joaquim Purtuguês que a filha da D. Mariquinha não sabia ler. Ele disse:
                     F... elas aprendem. E aprendem sem professor.
                    Eu dei uma risada e disse:
                     Purtuguês não presta!
                    Da minha janela eu vejo a filha da Leila no seu esquife. O diabo é que lá não há respeito no velório. Parece até uma festa.
                    O luar está maravilhoso. A noite tepida. Por isso o favelado está agitado. Uns tocam sanfona, outros cantam. Já rezaram um terço para a filha da Leila.
                    O esquife é branco. Eu vou deitar. O barulho é muito, mas vou deitar.
                    Aqui tudo é motivo para farra.
                    22 de novembro Deixei o leito as 5 horas e fui carregar agua. Olhei o barraco da Leila. Vi o José do Pinho no meio das vagabundas. Pensei: um moço tão bonito...
                    No terreiro todos queixavam que o velorio da filha da Leila foi de amargar. Que andaram a noite toda e não deixaram ninguem dormir.
                    ... Chegou o carro para levar a filha da Leila. Ela começou chorar. Assim que a criança saiu a Leila foi beber.
                    O que eu fico admirada é das almas da favela. Bebem porque estão alegres. E bebem porque estão tristes.
                    A bebida aqui é o paliativo. Nas épocas funestas e nas alegrias.
                    23 de novembro ... Preparei uns ferros para ir vender no deposito do ferro velho. Dei duas viagens. Ganhei 178 cruzeiros. Telefonei para as Folhas * para mandar uns repórteres na favela para expulsar uns ciganos que estão acampados aqui. Eles jogam excrementos na rua. As pessoas que reside perto dos ciganos estão queixando que eles falam a noite toda. E não deixam ninguem dormir. Eles são violentos e os favelados tem medo deles. Mas eu já preveni que comigo a sopa é mais grossa.
                    Devido as mocinhas ficar nuas, os vagabundos ficam sentados perto do barracão, observando-as. O diabo é que se alguém agredi-las os ciganos revoltam. Mas a nudez delas excita. Parece que já estou vendo um bate-fundo de cigano com favelado.
                    Mil vezes os nossos vagabundos do que os ciganos.
                    26 de novembro ... Fui pegar agua. Olhei o local onde os ciganos acamparam. Eles ficaram só treis dias. Mas foi o bastante para nos aborrecer. Eles são nojentos. O local onde eles acamparam está sujo e exala mau cheiro. Um odor desconhecido.
                    27 de novembro ... Eu estou contente com os meus filhos alfabetizados. Compreendem tudo. O José Carlos disse-me que vai ser um homem distinto e que eu vou trata-lo de seu José.
                    Já tem pretensões: quer residir em alvenaria.
                    ... Eu fui retirar os papelões. Ganhei 55 cruzeiros. Quando eu retornava para a favela encontrei uma senhora que se queixava porque foi despejada pela Prefeitura.
                    Como é horrível ouvir um pobre lamentando-se. A voz do pobre não tem poesia.
                    Para reanimá-la eu disse-lhe que havia lido na Bíblia que Deus disse que vai concertar o mundo. Ela ficou alegre e perguntou-me:
                     Quando vai ser isto, Dona Carolina? Que bom! E eu que já queria me suicidar!
                    Disse-lhe para ela ter paciência e esperar quer Jesus Cristo vem ao mundo para julgar os bons e os maus.
                     Ah! Então eu vou esperar.
                    Ela sorriu.
                    ... Despedi-me da mulher, que já estava mais animada. Parei para concertar o saco que deslisava da minha cabeça. Contemplei a paisagem. Vi as flores roxas. A cor da agrura que está nos corações dos brasileiros famintos.
                    28 de novembro Fui carregar água. Não tinha ninguém. Só eu e a filha do T., a mulher que fica gravida e ninguem sabe quem é o pai de seus filhos. Ela diz que os seus filhos são filhos de seu pai.
                    29 de novembro ... era 11 horas quando eu fui deitar. Ouvi vozes alteradas. Era 2 mulheres brigando. Ouvi a voz do Lalau. É que ele já saiu da cadeia. Já faz 3 dias que ele estava preso por causa do pato do Paulo. Acho que o Lalau nunca mais há de querer pato dos visinhos.
                    30 de novembro ... Vi um menino mechendo no pé. Fui ver o que havia. Era um espinho. Retirei um alfinete do vestido e tirei o espinho do pé do menino. Ele foi mostrar o espinho para seu pai.
                    O menino olhou-me. Que olhar! Pensei: arranjei mais um amiguinho.
                    5 de dezembro ... A Leila contou-me que a filha da Dona D. está presa, porque o seu esposo lhe pegou em adulterio com um baiano que tem dois dentes de ouro.
                    ... Hoje eu estou estreando um radio. Toquei o radio até as 12. Ouvi os programas de tango. O Orlando ligou a luz. Agora tenho de pagar 75 cruzeiros por mês, porque ele cobra 25 por bico.
                    6 de dezembro Deixei o leito as 4 da manhã. Liguei o radio para ouvir o amanhecer do tango.
                    ... Eu fiquei horrorisada quando ouvi as crianças comentando que o filho do senhor Joaquim foi na escola embriagado. É que o menino está com 12 anos.
                    Eu hoje estou muito triste.          . . .

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* Nota da ediçãoreferência ao grupo de jornais Folhas, formado por Folha da Noite, Folha da Manhã e Folha da Tarde.
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Quarto de despejo — diário de uma favelada, Carolina Maria de Jesus, Apresentação/Prefácio de Audálio Dantas, 1993, Editora Ática, São Paulo — SP; Carolina Maria de Jesus (1914 1977), mineira de Sacramento, fez seus estudos escolares até o segundo ano primário; na década de 30 mudou-se para São Paulo e foi morar na favela do Canindé; dali, percorrendo ruas da cidade, trabalhava catando papéis e ferro-velho os quais vendia e assim conseguia sobreviver e sustentar seus filhos; ao encontrar uma caderneta no meio do lixo, passou a escrever um diário sobre o seu cotidiano de vida favelada; tal diário (mais de vinte cadernos de anotações) foi editado e publicado pelo jornalista e repórter Audálio Dantas nas páginas do jornal Folha da Noite, em 1958, na revista O Cruzeiro, em 1959, e posteriormente editado em livro; Quarto de despejo, cuja primeira edição se deu em 1960 pela Livraria Francisco Alves, foi traduzido em mais de uma dezena de línguas; tais anotações transformadas em livro inspiraram outras expressões artísticas: letra de samba, adaptação teatral, filme "Despertar de um sonho" realizado para a Televisão Alemã e inédito no Brasil teve como protagonista a própria Carolina de Jesus e adaptação para a série 'Caso Verdade', da Rede Globo (1983); outros escritos da autora: Casa de Alvenaria (1961, Livraria Francisco Alves), Pedaços da Fome (1963, Editora Áquila, São Paulo SP), Provérbios (1963) e Diário de Bitita (póstumo, 1986, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro  RJ).

domingo, 18 de novembro de 2012

Carolina Maria de Jesus: Quarto de despejo — diário de uma favelada (2 a 18 de maio de 1958)

Da série: Páginas Negras  uma homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.

Transcrevo abaixo uma pequenina parte de Quarto de despejo — diário de uma favelada. A autora viveu na Favela do Canindé, em São Paulo, e trabalhava como catadora de papéis e ferro-velho para sobreviver e sustentar seus filhos. E escrevia um diário. Quem a descobriu foi o jornalista Audálio Dantas, então repórter do jornal Folha da Noite, em 1958, e que fora incumbido de escrever uma matéria sobre aquela favela que se expandia na beira do Rio Tietê, no Bairro do Canindé. Assim relata Audálio, no Prefácio do livro: "A história da favela que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história  a visão de dentro da favela. Da reportagem  reprodução de trechos do diário  publicada na Folha da Noite, em 1958, e mais tarde (1959) na revista O Cruzeiro, chegou-se ao livro, em 1960. Fui o responsável pelo que se chama edição de texto. Li todos aqueles vinte cadernos que continham o dia-a-dia de Carolina e de seus companheiros de triste viagem."
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                     Fim do diário de 1955

                    2 de maio de 1958 Eu não sou indolente. Há tempos que eu pretendia fazer o meu diário. Mas eu pensava que não tinha valor e achei que era perder tempo.
                    ... Eu fiz uma reforma em mim. Quero tratar as pessoas que eu conheço com mais atenção. Quero enviar um sorriso amavel as crianças e aos operarios.
                    ... Recebi intimação para comparecer as 8 horas da noite na Delegacia do 12. Passei o dia catando papel. A noite os meus pés doíam tanto que eu não podia andar. Começou chover. Eu ia na Delegacia, ia levar o José Carlos. A intimação era para ele. O José Carlos está com 9 anos.
                    3 de maio ... Fui na feira da Rua Carlos de Campos, catar qualquer coisa. Ganhei bastante verdura. Mas ficou sem efeito, porque eu não tinha gordura. Os meninos estão nervosos por não ter o que comer.
                    6 de maio De manhã não fui buscar agua. Mandei o João carregar. Eu estava contente. Recebi outra intimação. Eu estava inspirada e os versos eram bonitos e eu esqueci de ir na Delegacia. Era 11 horas quando eu recordei do convite do ilustre tenente da 12ª. Delegacia.
                    ... O que eu aviso aos pretendentes a política, é que o povo não tolera a fome. É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la.
                    Estão construindo um circo aqui na Rua Araguaia. Circo Theatro Nilo.
                    9 de maio ... Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: Faz de conta que eu estou sonhando.
                    10 de maio Fui na Delegacia e falei com o tenente. Que homem amavel! Se eu soubesse que ele era tão amável, eu teria ido na delegacia na primeira intimação. (...) O tenente interessou-se pela educação dos meus filhos. Disse-me que a favela é um ambiente propenso, que as pessoas tem mais possibilidades de delinquir do que tornar-se util a patria e ao país. Pensei: Se ele sabe disto, porque não faz um relatorio e envia para os políticos? O senhor Janio Quadros, O Kubstchek 1 e o Dr. Adhemar de Barros? 2. Agora fala pra mim, que sou uma pobre lixeira. Não posso resolver nem as minhas dificuldades.
                    ... O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora.
                    Quem passa fome aprende a pensar no proximo, e nas crianças.
                    11 de maio Dia das Mães. O céu está azul e branco. Parece que até a Natureza quer homenagear as mães que atualmente se sentem infeliz por não poder realisar os desejos dos seus filhos.
                    ... O sol vai galgando. Hoje não vai chover. Hoje é o nosso dia.
                    A D. Teresinha veio visitar-me . Ela deu-me 15 cruzeiros. Disse-me que era para a Vera ir no circo. Mas eu vou deixar o dinheiro para comprar pão amanhã, porque eu só tenho 4 cruzeiros.
                    ... Ontem eu ganhei metade de uma cabeça de porco no Frigorifico. Comemos a carne e guardei os ossos. E hoje puis os ossos para ferver. E com o caldo fiz as batatas. Os meus filhos estão sempre com fome. Quando eles passam muita fome eles não são exigentes no paladar.
                    Surgiu a noite. As estrelas estão ocultas. O barraco está cheio de pernilongos. Eu vou acender uma folha de jornal e passar pelas paredes. É assim que os favelados matam mosquitos.
                    13 de maio Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpatico para mim. É o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos.
                    ... Nas prisões os negros eram os bodes espiatorios. Mas os brancos agora são mais cultos. E não nos trata com despreso. Que Deus ilumine os brancos para que os presos sejam feliz.
                    Continua chovendo. E eu tenho só feijão e sal. A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva, para eu ir lá no senhor Manoel vender os ferros. Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça. A chuva passou um pouco. Vou sair.
                    ... Eu tenho tanto dó dos meus filhos. Quando eles vê as coisas de comer eles brada:
                    — Viva a mamãe!
                    A manifestação agrada-me. Mas eu já perdi o hábito de sorrir. Dez minutos depois eles querem mais comida. Eu mandei o João pedir um pouquinho de gordura a Dona Ida. Ela não tinha. Mandei-lhe um bilhete assim:
                    — “Dona Ida peço-te se pode me arranjar um pouco de gordura, para eu fazer uma sopa para os meninos. Hoje choveu e eu não pude catar papel. Agradeço. Carolina.”
                    ... Choveu, esfriou. É o inverno que chega. E, no inverno a gente come mais. A Vera começou pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetaculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos.
                    E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual — a fome!
                    15 de maio Tem noite que eles improvisam uma batucada e não deixa ninguem dormir. Os visinhos de alvenaria já tentaram com abaixo assinado retirar os favelados. Mas não conseguiram. Os visinhos das casas de tijolos diz:
                    — Os politicos protegem os favelados.
                    Quem nos protege é o povo e os Vicentinos. Os politicos só aparecem aqui nas epocas eleitoraes. O senhor Cantidio Sampaio quando era vereador em 1953 passava os domingos aqui na favela. Ele era tão agradavel. Tomava nosso café, bebia nas nossas xicaras. Ele nos dirigia as suas frases de viludo. Brincava com nossas crianças. Deixou boas impressões por aqui e quando candidatou-se a deputado venceu. Mas na Camara dos Deputados não criou um progeto para beneficiar o favelado. Não nos visitou mais.
                    ... Eu classifico São Paulo assim: O Palacio, é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos.
                    ... A noite está tepida. O céu já está salpicado de estrelas. Eu que sou exotica gostaria de recortar um pedaço do céu para fazer um vestido. Começo ouvir uns brados. Saio para a rua. É o Ramiro que quer dar no senhor Binidito. Mal entendido. Caiu uma ripa no fio de luz e apagou a luz da casa do Ramiro. Por isso o Ramiro queria bater no senhor Binidito. Porque o Ramiro é forte e o senhor Binidito é fraco.
                    O Ramiro ficou zangado porque eu fui a favor do senhor Binidito. Tentei concertar os fios. Enquanto eu tentava concertar os fios o Ramiro queria expancar o Binidito que estava alcoolisado e não podia parar de pé. Estava inconciente. Eu não posso descrever o efeito do alcool porque não bebo. Já bebi uma vez, em carater experimental, mas o alcool não me tonteia.
                    Enquanto eu pretendia concertar a luz o Ramiro dizia:
                    — Liga a luz, liga a luz sinão eu te quebro a cara.
                    O fio não dava para ligar a luz. Precisava emendá-lo. Sou leiga na eletricidade. Mandei chamar o senhor Alfredo, que é o atual encarregado da luz. Ele estava nervoso. Olhava o senhor Binidito com despreso. A Juana que é esposa do Binidito deu cinquenta cruzeiros para o senhor Alfredo. Ele pegou o dinheiro. Não sorriu. Mas ficou alegre. Percebi pela sua fisionomia. Enfim o dinheiro dissipou o nervosismo.
                    16 de maio Eu amanheci nervosa. Porque eu queria ficar em casa, mas eu não tinha nada para comer.
                    ... Eu não ia comer porque o pão era pouco. Será que é sou eu que levo esta vida? O que posso esperar do futuro? Um leito em Campos de Jordão 3. Eu quando estou com fome quero matar o Jânio, quero enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino. As dificuldades corta o afeto do povo pelos politicos.
                    17 de maio Levantei nervosa. Com vontade de morrer. Já que os pobres estão mal colocados, para que viver? Será que os pobres de outro País sofrem igual aos pobres do Brasil? Eu estava discontente que até cheguei a brigar com meu filho José Carlos sem motivo.
                    ... Chegou um caminhão aqui na favela. O motorista e o seu ajudante jogam umas latas. É linguiça enlatada. Penso: é assim que fazem esses comerciantes insaciaveis. Ficam esperando os preços subir na ganancia de ganhar mais. E quando apodrece jogam fora para os corvos e os infelizes favelados.
                    Não houve briga. Eu até estou achando isto aqui monotono. Vejo as crianças abrir as latas de linguiça e exclamar satisfeitas:
                    — Hum! Tá gostosa!
                    A Dona Alice deu-me uma para experimentar. Mas a lata está estufada. Já está podre.
                    18 de maio ... Na favela tudo circula num minuto.e a noticia já circulou que a D. Maria José faleceu. Varias pessoas vieram vê-la. Compareceu o vicentino que cuidava dela. Ele vinha visitá-la todos os domingos. Ele não tem nojo dos favelados. Cuida dos miseros favelados com carinho. Isso competia ao tal Serviço Social.
                    ... Chegou o esquife. Cor roxa. Cor da amargura que envolve os corações dos favelados.
                    A D. Maria era crente e dizia que os crentes antes de morrer já estão no céu. O enterro é as treis da tarde. Os crentes estão entoando um hino. As vozes são afinadas.Tenho a impressão que são anjos que cantam. Não vejo ninguem bebado. Talvez seja por respeito a extinta. Mas duvido. Acho que é porque eles não tem dinheiro.
                    Chegou o carro para conduzir o corpo sem vida de Dona Maria José que vai para a sua verdadeira casa própria que é a sepultura. A Dona Maria José era muito boa. Dizem que os vivos devem perdoar os mortos. Porque todos nós temos os nossos momentos de fraquesa. Chegou o carro funebre. Estão esperando a hora para sair o enterro.
                    Vou parar de escrever. Vou torcer as roupas que ensaboei ontem. Não gosto de ver enterros.
                    19 de maio ...
Notas:
1 Juscelino Kubitschek (1902  1976): presidente da República entre 1958 e 1961. No seu governo buscou o desenvolvimento do país pela abertura aos investimentos estrangeiros e transferiu o Distrito Federal para Brasília (nota do editor);
2 Jânio Quadros (1917  1992) foi prefeito da cidade de São Paulo entre 1953 e 1955, governador do Estado entre 1955 e 1961; Adhemar de Barros (1901  1969) foi prefeito de São Paulo entre 1957 e 1961 (nota deste aprendiz de blogueiro);
3 Campos de Jordão: estância climática paulista, tradicionalmente procurada para tratamento de tuberculose (nota do editor).
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Quarto de despejo — diário de uma favelada, Carolina Maria de Jesus, Apresentação/Prefácio de Audálio Dantas, 1993, Editora Ática, São Paulo SP; Carolina Maria de Jesus (1914 1977), mineira de Sacramento, fez seus estudos escolares até o segundo ano primário; na década de 30 mudou-se para São Paulo e foi morar na favela do Canindé; dali, percorrendo ruas da cidade, trabalhava catando papéis e ferro-velho os quais vendia e assim conseguia sobreviver e sustentar seus filhos; ao encontrar uma caderneta no meio do lixo, passou a escrever um diário sobre o seu cotidiano de vida favelada; tal diário (mais de vinte cadernos de anotações) foi editado e publicado pelo jornalista e repórter Audálio Dantas nas páginas do jornal Folha da Noite, em 1958, na revista O Cruzeiro, em 1959, e posteriormente editado em livro; Quarto de despejo, cuja primeira edição se deu em 1960 pela Livraria Francisco Alves, foi traduzido em mais de uma dezena de línguas; tais anotações transformadas em livro inspiraram outras expressões artísticas: letra de samba, adaptação teatral, filme "Despertar de um sonho" realizado para a Televisão Alemã e inédito no Brasil teve como protagonista a própria Carolina de Jesus e adaptação para a série 'Caso Verdade', da Rede Globo (1983); outros escritos da autora: Casa de Alvenaria (1961, Livraria Francisco Alves), Pedaços da Fome (1963, Editora Áquila, São Paulo  SP), Provérbios (1963) e Diário de Bitita (póstumo, 1986, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ).
(Clicando lá em cima, no título da postagem, leia o texto "Redescobrindo Carolina Maria de Jesus, Cidadã do Mundo", de Sueli Meira Liebig  doutora em Literatura Comparada pela UEPB.)