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domingo, 1 de agosto de 2021

Renata Pallotini: Cântico dos cânticos*

 
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“meu amor é meu e eu sou dele;
ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.”

O meu amor é meu e eu sou dele.
O linho horizontal é nossa casa
e eu me aninho a dormir sob sua asa;
amo-o com minha boca e minha pele.

Ele é quem vela, e não me diz que vele
porque sua é a chama e minha a brasa.
O seu fervor ao meu fervor se casa,
clara coma de luz que nos impele.

Desci ao campo raso: ele é meu campo
onde me deito e a erva se derrama;
é meu olhar que voa, pirilampo.

Sem terra irei por terra; ele me chama.
Vou sem saber por onde, ao mar ou monte.
Sem sua boca eu já não sei ser fonte.

[28-09-59, Livro de Sonetos — 1961]

Renata Pallotini

Cantique des cantiques

“Mon amour est à moi, et je sui à lui,
il fait paître son troupeau entre les lis.”

Mon amour est à moi et je suis à lui.
Le lin horizontal est notre maison
et je me niche pour dormir sous son aile;
je l’aime avec ma bouche et ma peau.

C’est lui qui veille et il ne me dit pas de veiller
parce que c’est lui la flamme qui m’embrase.
Sa ferveur à ma ferveur se marie
claire comme la lumière qui nous pousse.

Je suis descendue en rase champagne, il est le champ
où je me couche et l’herbe se répand;
c’est mon regard qui vole, ver luisant.

Sans terre, j’irai par terre; il m’appelle.
Je vais sans savoir par où, à la mer ou à la montagne.
Sans sa bouche, dejà je ne sais plus être fontaine.

Nota da edição: Poemas compilados por Olga Savary / Poèmes compilés par Olga Savary
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França;  Renata Pallottini, (1931 — 2021),  paulista e paulistana, formou-se em Filosofia Pura na PUC — SP, em Direito na USP — Largo São Francisco, em Dramaturgia e Crítica na Escola de Arte Dramática na USP — SP, além de ter estudado teatro em cursos livres da Sourbonne Nouvelle, em Paris, foi dramaturga, professora, ensaísta, tradutora e poeta, deixou-nos vasta obra poética e também textos para teatro, ensaios, literatura infanto-juvenil e traduções; obras: Acalanto (1952),  O Cais da SerenidadeO Monólogo Vivo (1956), A Casa (1958), NósPortugalLivro de Sonetos(1961), A Faca e a Pedra (1962),  Antologia PoéticaOs Arcos da Memória  (1971), Mate é a Cor da Viuvez (contos, 1974), Coração Americano  (1976),  Chão de Palavras (1977), Noite Afora (1978), Cantar meu PovoTita, a Poeta (literatura infantil, 1984), A Menina que queria ser Anja  (1987), Esse Vinho Vadio (1988), Obra Poética (1995) etc, além de várias publicações na área do teatro e ensaios; recebeu prêmios por sua obra.

domingo, 18 de julho de 2021

Renata Pallotini: Cerejas, meu amor*

 
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Cerejas, meu amor,
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.

E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba

e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...

Renata Pallotini

Cerises, mon amour

Cerises, mon amour,
mais dans ton corps.
Qu’elles te parcourent
par rondes.

Et qu’elles roulent où
je puisse les chercher
là où la vie commence
et où elle finit

et où toutes les faims
se concentrent
dans le rouge de la chair
des cerises...

Nota da edição: Poemas compilados por Olga Savary / Poèmes compilés par Olga Savary
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Renata Pallottini, (1931  2021), paulista e paulistana, formou-se em Filosofia Pura na PUC SP, em Direito na USP Largo São Francisco, em Dramaturgia e Crítica na Escola de Arte Dramática na USP SP, além de ter estudado teatro em cursos livres da Sourbonne Nouvelle, em Paris, foi dramaturga, professora, ensaísta, tradutora e poeta, deixou vasta obra poética e também textos para teatro, ensaios, literatura infanto-juvenil e traduções; obras: Acalanto (1952), O Cais da Serenidade, O Monólogo Vivo (1956), A Casa (1958), Nós, Portugal, Livro de Sonetos (1961), A Faca e a Pedra (1962), Antologia Poética, Os Arcos da Memória (1971), Mate é a Cor da Viuvez (contos, 1974), Coração Americano (1976), Chão de Palavras (1977), Noite Afora (1978), Cantar meu Povo, Tita, a Poeta (literatura infantil, 1984), A Menina que queria ser Anja (1987), Esse Vinho Vadio (1988), Obra Poética (1995) etc, além de várias publicações na área do teatro e ensaios; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Astrid Cabral: Bainha aberta & Cegueira*

 
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Bainha aberta

Crava em meu corpo essa espada crua.
Quero o ardor e o êxtase da luta
em que me rendo voluntária e nua.
Meu temor é a paz pós-união:
desenlace derrota solidão.

Cegueira

No começo
o amor era tão cego
que vivíamos
de tropeço em tropeço.
No começo
o amor era tão cego
que não nos víamos.
Carecíamos do tato
para nos conhecer.

Astrid Cabral

Gaine ouverte

Enfonce dans mon corps cette épée crue.
Je veux  l’ardeur et l’extase de la lutte
dans laquelle je me rends volontaire et nue.
Ma crainte est la paix post-union:
dénouement déroute solitude.

Aveuglement

Au début
l’amour était si aveugle
qu’on vivait
d’achoppement en achoppement.
Au début
l’amour était si aveugle
qu’on ne se voyait pas.
On avait besoin du toucher
pour se connaître.

Nota da edição: Poemas compilados por Olga Savary / Poèmes compilés par Olga Savary
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense de Manaus, ainda adolescente mudou-se para o Rio, diplomou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Zé Pirulito (1982), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.

sábado, 12 de junho de 2021

Myriam Fraga: Cicatrizes*

 
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A face calcinada,
O desespero
Do amargo desengano.

A alegria se foi.
Restou-me o canto,
Derradeiro refúgio
Último quarto
Da obscura morada.

Restou o canto
Ao pássaro,
Restou o canto,
O abecedário,
A palavra;
Inventário do homem.

Sobrou o que sobrou
O estilo na carne,

Sobrou o que sobrou,
O louco intérprete
Da alma de ninguém
Do coração de tudo.

Hoje o homem é a sombra
Do pássaro,
Hoje o homem é o canto vivo
Da ramagem

A lembrança de fundas cicatrizes.

Myriam Fraga

Cicatrices

La face calcinée,
le désespoir
de l amère désilusion.

La joie s’en est allée.
Il m’est resté le chant,
dernier refuge
dernière chambre
de l’obscure demeure.

Il est resté le chant
à l’oiseau,
il est resté le chant,
l’abécédaire,
le mot;
inventaire de l’homme.

Il est resté ce qui a excédé
le style dans la chair,

Il est resté ce qui a excédé,
le fol interprète
de l’âme de personne
du coeur de tout.

Aujourd’hui l’homme est l’ombre
de l’oiseau,
aujourd’hui l’homme est le chant vif
de la ramure

le souvenir de profondes cicatrices.

Nota da edição: Poema compilado por Olga Savary / Poème compilé par Olga Savary
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Myriam Fraga (1937 2016), baiana de Salvador, foi poeta, biógrafa e administradora cultural (diretora executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, desde a sua fundação em 1986); membro da Associação Baiana de Imprensa, foi colaboradora de diversos jornais e revistas e, de 1984 a 2004, manteve coluna semanal no jornal A Tarde, em Salvador; obras: Marinhas (1964), Sesmaria (1969, Prêmio Arthur Salles), O livro de Adynata (1975), A ilha (1975), O risco na pele (1979), A cidade (1979), As purificações ou O sinal de Talião (1981), A lenda do pássaro que roubou o fogo (1983) entre outros títulos.

domingo, 17 de janeiro de 2021

João Cabral de Melo Neto: O poema e a água *

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As vozes líquidas do poema
convidam ao crime
ao revólver.
Falam para mim de ilhas
que mesmo os sonhos
não alcançam.

O livro aberto nos joelhos
o vento nos cabelos
olho o mar.

Os acontecimentos de água
põe-se a se repetir
na memória.

João Cabral de Melo Neto

Le poème et l’eau

Les voix liquides du poème
invitant au crime
au revolver.
Elles me parlent d’iles
que même les rêves
n’ atteignent pas.

Le livre ouvert sur mes genoux
le vent dans mes cheveux
je regarde la mer.

Les événements d’eau
se mettent à se répéter
dans la mémoire.

Nota da edição: Poema compilado por Henrique Alves / Poème compilé par Henrique Alves
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; João Cabral de Melo Neto (1920 1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida Severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) e Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Francisco de Carvalho: Canção diante do mar *

 
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Nuvem que passa, pássaro veloz
   rumo ao horizonte esguio.
   (Há um vento, um vento frio).

As penas da nuvem foram levadas
   pela correnteza do rio.
   (Há um vento, um vento frio).

Nuvem que lembra as aves de rapina
   com seu esporão em cio.
   (Há um vento, um vento frio).

Nuvem que passa, mas fica a memória
   do seu galopar sombrio.
   (Há um vento, um vento frio).

Esta nuvem é um rinoceronte negro
   pastando a alma do estio.
   (Há um vento, um vento frio).

Esta nuvem arrebatou meu pai
   no alazão do desvario.
   (Há um vento, um vento frio).


Chanson devant la mer

Nuage qui passe, oiseau rapide
   vers l’horizon efflanqué.
   (Il y a un vent, un vent froid).

Les plumes du nuage ont été emportées
   par le courent de la rivière.
   (Il y a un vent, un vent froid).

Nuage que rapelle les oiseaux de proie
    avec son éperon en rut.
    (Il y a un vent, un vent froid).

Nuage qui passe, mais il reste la mémoire
    de son galop sombre.
    (Il ya a un vent, un vent froid).

Ce nuage est un rhinocéros noir
    paissant l’âme de l’été.
    (Il y a un vent, un vent froid).

Ce nuage a enlevé mon père
    sur un alezan de délire.
    (Il y a un vent, un vent froid).

* Nota da edição: Poema compilado por Henrique Alves / Poème compilé par Henrique Alves
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Francisco de Oliveira Carvalho (1927 2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes (1966), Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969), Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (poesias, 1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997), Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Lêdo Ivo: A chuva sobre a cidade *

 
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Chove sobre a cidade
e a chuva inunda o asfalto, difunde o desastre e o desencontro
e procura abater as palmeiras que do fim da tarde
queriam apenas graça plena as estrelas.

Os trovões reboam, espantando os pássaros
que vieram refugiar-se no meu quarto.
Os relâmpagos, fotógrafos do absoluto, iluminam as pessoas que
passam
são outros rostos, minha irmã, são as faces
revoltadas porque as divindades impossibilitaram os idílios,
a chegada pontual a uma casa, o já adiado trespasse com o inefável.

As sarjetas recebem finalmente a Poesia. Como são belos
e nítidos os barcos de papel
que navegam buscando os reinos fantásticos, os inacessíveis!

A chuva tem uma canção. Jamais uma elegia
para saudar sua gentileza. Jamais uma ode,
um himeneu, uma écloga deploratória.

Meu irmão, deixa que a goteira molhe tuas últimas
poesias. Pouco importa que amanhã te reconcilies com os grandes
temas poéticos.
O amanhã é inconsumível. A chuva te ensina
a ser invariável sem se repetir.


La pluie sur la ville

Il pleut sur la ville
et la pluie inonde la chaussée, répand le désastre
et le manque de rencontre
et elle cherche à abattre les palmiers qui à la fin de l’aprés-midi
voulaient à peine — grâce pleine — les étoiles.

Le tonerre retentit, em épouvantant les oiseaux
qui sont venus se réfugier dans ma chambre.
Les éclairs, photographes de l’absolu, illuminent les gens qui passent
— ce sont d’autres visages, ma soeur, ce sont les faces
révoltées parce que les divinités ont rendu impossibles les idylles,
l’arrivée à l’heure dans une maison, le dejà ajourné transperce
l’ineffable.

Les rigoles d’écoulements reçoivent finalement la Poésie. Comme ils sont beaux
et nets les bateaux en papiers
qui naviguent en cherchant les règnes fantastiques, les inaccessibles!

La pluie a une chanson. Jamais une élégie
pour saluer sa gentillesse. Jamais une ode,
un hyménée, une églogue qui déplore.

Mon frère, laisse la gouttière tremper tes dernières
poésies. Peu importe que demain tu te reconcilies avec les grands
thèmes poétiques.
Le lendemain n’est pas consommable. La pluie t’enseigne
à  être invariable sans se répéter.

* Nota da edição: Poema compilado por Henrique Alves / Poème compilé par Henrique Alves
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1943, mudando-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito na Faculdade Nacional de Direito hoje UFRJ , passou a colaborar com suplementos literários e a trabalhar como jornalista; bibliografia: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

João Cabral de Melo Neto: A viagem *

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Quem é alguém que caminha
toda a manhã com tristeza
dentro de minhas roupas, perdido
além do sonho e da rua?

Das roupas que vão crescendo
como se levassem nos bolsos
doces geografias, pensamentos
de além do sonho e da rua?

Alguém a cada momento
vem morrer no longe horizonte
de meu quarto, onde esse alguém
é vento, barco, continente.

Alguém me diz toda a noite
coisas em voz que não ouço.
Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

João Cabral de Melo Neto

Le voyage

Qui est-ce quelqu’un qui marche
tout le matin avec tristesse
au-dedans de mes vêtements, perdu
au-delà du rêve et de la rue?

Des vêtements qui grandissent
comme s’ils portaient dans les poches
de douces geographies, des pensées
de l’au-delà du revê et de la rue?

Quelqu’un à chaque instant
vient mourir au lointain horizon
de ma chambre, où ce quelqu’un
est vent, bateau, continent.

Quelqu’un me dit toute la nuit
des choses dans une voix que je n’entends pas.
Parlons du voyage, je me souviens.
Quelqu’un me parle du voyage.

Nota da edição: Poema compilado por Henrique Alves / Poème compilé par Henrique Alves
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; João Cabral de Melo Neto (1920 1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida Severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) e Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Paulo Bomfim: Soneto da transfiguração

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Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonias.
Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.
Retenho dentro da alma, preso à quilha,
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha
Onde sonham morrer os albatrozes.
   Venho de longe a contornar a esmo
   O cabo das tormentas de mim mesmo.


Sonnet de la transfiguration

Je viens de loin, j’apporte la pensée
Em vieux sels et odeur de mer, baignée;
Je trâine des voiles rompues par le vent
Et des mâts chargés d’agonie.
J’arrive de ces mers oubliées
Dans les itinéraires abondonnés il y a longtemps.
Et j’apporte dans la rétine dilués
Les ports mystérieux jamais touchés.
Je retiens dans mon âme, accroché à la quille,
Toute une mer d’algues et de voix,
Et je cherche encore à l’horizon l’île
Où des albatros rêvent d’aller mourir.
   Je viens de loin au hazard faisant le tour
   Du cap des tempêtes de moi-même.
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Paulo Lébeis Bomfim (1926 2019), paulista e paulistano, foi jornalista e poeta; desde criança escrevia seus versos e iniciou-se no jornalismo, em 1945, no Correio Paulistano e, logo após, no Diário de São Paulo, colaborando também com o Diário de Notícias, do Rio; sua obra poética de estréia, Antônio Triste (com Ilustrações de Tarsila do Amaral e Prefácio de Guilherme de Almeida, 1946), foi agraciada, no ano seguinte, com o prêmio Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras; depois, vieram Transfiguração (1951), Relógio de sol (1952), Cantiga do desencontro e Poema do silêncio (ambos em 1954), Sinfonia branca (1955), Armorial (1956), Poema da descoberta (1958), Sonetos (1959), O colecionador de minutos (1960), Sonetos da vida e da morte (1963), Tempo reverso (1964), Canções (1966), Aquele menino — livro de memórias (2000), Tecido de lembranças, crônicas e memórias (2004) etc.; atuou na Fundação Cásper Líbero, produziu e participou de programações para rádio e televisão.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Gilberto Mendonça Teles: Arte de amar *

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Abro o espaço da fome e me abasteço
das coisas mais comuns.
Sou trivial e sóbrio, mas faminto.
Amo o jogo das tripas e dos tropos
e todo dia exercito a competência
da língua retorcida como um búzio
nas vésperas da posse.

E sete vezes sete (e mais a conta
dos números do mito) arremeti
meus dardos contra os muros
dessa tebas morena de mil olhos.

E sete vezes sete (e mais o fôlego
dos gatos guturais) recomecei
o gesto natural da minha flauta
que a chuva modulava no alicerce,
como a canção de amor que principiava
pelas curvas do ventre nos espelhos.


L’Art d’aimer

J’ouvre l’espace de la faim et je approvisionne
des choses les plus communes.
Je suis trivial et sobre, mais affamé.
J’ aime le jeu des tripes et des tropes
et tous les jours j’excite ma compétence
la langue tordue comme un buccin
à la veille de la possession.

Et sept fois sept (et plus le compte
des numéros du mythe) j’ai lancé
mes dards contre les murs
de cette Thèbes brune de mille yeux.

Et sept fois sept (et plus l’ haleine
des chats gutturaux) j’ai recommencé
le geste natural de ma flûte
que la pluie modulait dans le fondement,
comme la chanson de l’amour qui commençait
par les courbes du ventre dans les miroirs.

* Nota da edição: Poema compilado por Olga Savary / Poème compilé par Olga Savary
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.