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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Paul Lafargue: Testamento Político *

Livro O Direito A Preguiça Paul Lafargue
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          Com a mente e o corpo sadios, mato-me antes que a impiedosa velhice, que me tira um a um os prazeres e as alegrias da vida e me despoja de minhas forças físicas e intelectuais acabe por paralisar minhas energias e quebre minha vontade fazendo de mim um peso para os outros e para mim mesmo.
          Há anos prometi a mim mesmo que não passaria dos setenta; marquei a época do ano para minha partida da vida e preparei o modo de execução de minha resolução: uma injeção hipodérmica de ácido cianídrico.
          Morro com a alegria suprema de ter a certeza de que, num futuro próximo, a causa a que me dediquei durante quarenta e cinco anos triunfará.
          Viva o Comunismo.
          Viva o Socialismo Internacional!

The Spark! — KARL MARX REMEMBERED
Paul Lafargue


* Nota: O 'testamento político' acima, deixado escrito num papel como explicação para seu ato de suicídio (26.11.1911), foi publicado em Le Socialiste, de 03 de dezembro de 1911.
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O Direito à Preguiça, Prefácio de Francisco Foot Hardman, 2a. edição, 1980, Kairós Livraria e Editora, São Paulo  SP; Paul Lafargue (1842 1911), cubano de Santiago de Cuba, formado médico, foi jornalista, escritor e ativista político; Lafargue fez seus estudos na França e aderiu à AIT Associação Internacional dos Trabalhadores, criada em 1864, e também conhecida como 'Primeira Internacional' ou 'Internacional'; O escritor e ativista político foi casado com Laura Marx (filha de Karl Marx), e, ele e mulher, em um pacto, suicidaram-se em 26 de novembro de 1911; escritos de Lafargue: Le Droit à la paresse Réfutation du «Droit au travail» de 1848 (O Direito à Preguiça, 1880), Le Parti socialiste allemand (1881), La Politique de la bourgeoisie (1881), Essai critique sur la Révolution française du XVIIIe siècle (1883), Une visite à Louise Michel (1885), Sapho (1886), Le Matriarcat, étude sur les origines de la famille (1886), Origine de la propriété en Grèce (1893), Les Origines du Romantisme (1896), Origine de l'idée du Bien (1899), La Question de la femme (1904), Le Mythe de Prométhée (1904), Le Socialisme et les Intellectuels (1900), La Croyance en Dieu (1909), Le Problème de la connaissance (1910) e outros textos.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Carlos Drummond de Andrade: Ficar em Casa

A crônica drummondiana "Ficar em Casa", abaixo reproduzida, foi publicada originalmente no Jornal do Brasil nos idos anos 60 do século e milênio passados e também fez parte de A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); este aprendiz de blogueiro, num atrevimento, transcreveu parte do texto em negrito: a parte que consta de "Nota Para Um Livro Divertidíssimo", nota esta elaborada pelo organizador e pesquisador Eucanaã Ferraz, na apresentação de Uma Pedra No Meio Do Caminho Biografia De Um Poema, edição ampliada.
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Passar quatro dias e quatro noites em casa, vendo o carnaval passar; ou não vendo nem isso, mas entregue a uma outra e cifrada folia, que nesta quarta-feira de cinzas abre suas pétalas de cansaço, como se também tivéssemos pulado e berrado no clube. Não ligar televisão, esquecer-se de rádio; deixar os locutores falando sozinhos, na ânsia de encher de discurso uma festa à base de movimento e de canto. Perceber apenas o grito trêmulo, trazido e levado pelo vento, de um samba que marca a realidade lúdica sem nos convidar à integração. Beneficiar-se com a ausência de jornais, que prova a inexistência provisória do mundo como arquitetura de notícias. Ter como companheiro o irmão gato Crispim, exemplo de abstenção sem sacrifício, manual de silêncio e sabedoria, aventureiro que experimentou a vertigem da luta-livre nos telhados e homologa a invenção da poltrona. Penetrar no vazio do tempo sem obrigações, como num parque fechado, aproveitando a ausência de guardas, e descobrindo nele tudo que as tabuletas omitem. Aceitar a solidão; escolhê-la; desfrutá-la. Sorrir dos psiquiatras que falam em alienação do mundo e recomendam a terapêutica de grupo. Estimar a pausa como valor musical, o intervalo, o hiato. O instante em que a agulha fere o disco sem despertar ainda qualquer som. Andar de um quarto para outro sem ser à procura de objetos: achando-os. Descobrir, sem mescalina, as cores que a cor esconde; os timbres entrelaçados no ruído. Olhar para as paredes, ou melhor: olhar as paredes, em torno dos quadros. Sentir a casa como um todo e como partículas densas, tensas, expectantes, acostumadas a viver sem nós, à nossa revelia, contra o nosso desdém. Habitar realmente a casa, quatro dias: como ilha, fortaleza, continente: infinito no finito; Reconsiderar os livros, arrumá-los primeiro com método, depois com voluptuosidade, fazendo com que cada prateleira exija o maior tempo possível; verificar que é preciso antes tirar a poeira de um, remover a boba capa de celofane que envolve a encadernação de outro. Reler dedicatórias; abrir ao acaso livros de poetas que preferimos e que infelizmente não são os mais modernos nem os mais célebres; copiar meia estrofe por onde corre um arrepio verbal; separar volumes que não nos falam mais nada e que devem tentar seu destino em outras casas. Sentir chegada a hora dos álbuns de pintura com pouco ou nenhum texto, e dos volumes iconográficos que nos contam Paris ou a vida de Mallarmé. Viajar em fotografias; sentir-se imagem flutuando entre imagens; a terra domesticada em figura, tornada familiar sem perda de sua essência enigmática. Reconhecer que muitos livros comprados a duras penas, pedidos ao estrangeiro ou longamente minerados nos sebos, não têm mais do que essa oportunidade de comunicação durante o ano; deixar que fiquem a sós conosco e nos confiem seu segredo. Admitir a fome, sem exigência de horário, e matá-la com o que houver à mão; renunciar à idéia de almoço e jantar, com reverência ao sagrado direito que assiste a todos, inclusive e principalmente às cozinheiras, de brincarem o seu carnaval; achar mais gosto nessa comida, porque não é a regulamentar nem é seguida de nada: todas as obrigações estão suspensas, e só valem as que soubermos traçar a nós mesmos. Descortinar na preguiça um espaço incomensurável, onde cabe tudo; não enchê-lo demais; devassá-lo à maneira de um explorador que não quer ser muito rico e tanto sente prazer em descobrir como em procurar. Assim vosso cronista passou o carnaval: sem fugir, sem brincar, divertido em seu canto umbroso.

(Jornal do Brasil, 03.03.1960;
A Bolsa & A Vida, crônicas,  1962)

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Uma Pedra No Meio Do Caminho  Biografia De Um Poema, Seleção e Montagem de Carlos Drummond de Andrade, edição ampliada, Organização, Pesquisa, Apresentação e Notas de Eucanaã Ferraz, 2010, Instituto Moreira Salles, São Paulo  SP; Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, Quinta Edição, 1979, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro  RJ; Drummond (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Uma Pedra No Meio Do Caminho  Biografia De Um Poema (seleção de textos críticos diversos, 1967); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Corpo, novos poemas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros...