A crônica drummondiana "Ficar em Casa", abaixo reproduzida, foi publicada originalmente no Jornal do Brasil nos idos anos 60 do século e milênio passados e também fez parte de A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); este aprendiz de blogueiro, num atrevimento, transcreveu parte do texto em negrito: a parte que consta de "Nota Para Um Livro Divertidíssimo", nota esta elaborada pelo organizador e pesquisador Eucanaã Ferraz, na apresentação de Uma Pedra No Meio Do Caminho — Biografia De Um Poema, edição ampliada.
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Passar quatro dias e quatro noites
em casa, vendo o carnaval passar; ou não vendo nem isso, mas entregue a uma
outra e cifrada folia, que nesta quarta-feira de cinzas abre suas pétalas de
cansaço, como se também tivéssemos pulado e berrado no clube. Não ligar televisão,
esquecer-se de rádio; deixar os locutores falando sozinhos, na ânsia de encher
de discurso uma festa à base de movimento e de canto. Perceber apenas o grito
trêmulo, trazido e levado pelo vento, de um samba que marca a realidade lúdica
sem nos convidar à integração. Beneficiar-se com a ausência de jornais, que
prova a inexistência provisória do mundo como arquitetura de notícias. Ter como
companheiro o irmão gato Crispim, exemplo de abstenção sem sacrifício, manual
de silêncio e sabedoria, aventureiro que experimentou a vertigem da luta-livre
nos telhados e homologa a invenção da poltrona. Penetrar no vazio do tempo sem
obrigações, como num parque fechado, aproveitando a ausência de guardas, e descobrindo
nele tudo que as tabuletas omitem. Aceitar a solidão; escolhê-la; desfrutá-la.
Sorrir dos psiquiatras que falam em alienação do mundo e recomendam a
terapêutica de grupo. Estimar a pausa como valor musical, o intervalo, o hiato.
O instante em que a agulha fere o disco sem despertar ainda qualquer som. Andar
de um quarto para outro sem ser à procura de objetos: achando-os. Descobrir,
sem mescalina, as cores que a cor esconde; os timbres entrelaçados no ruído.
Olhar para as paredes, ou melhor: olhar as paredes, em torno dos quadros.
Sentir a casa como um todo e como partículas densas, tensas, expectantes,
acostumadas a viver sem nós, à nossa revelia, contra o nosso desdém. Habitar
realmente a casa, quatro dias: como ilha, fortaleza, continente: infinito no
finito; Reconsiderar os livros, arrumá-los primeiro com método, depois com
voluptuosidade, fazendo com que cada prateleira exija o maior tempo possível;
verificar que é preciso antes tirar a poeira de um, remover a boba capa de
celofane que envolve a encadernação de outro. Reler dedicatórias; abrir ao
acaso livros de poetas que preferimos e que infelizmente não são os mais
modernos nem os mais célebres; copiar meia estrofe por onde corre um arrepio
verbal; separar volumes que não nos falam mais nada e que devem tentar seu
destino em outras casas. Sentir chegada a hora dos álbuns de pintura com pouco
ou nenhum texto, e dos volumes iconográficos que nos contam Paris ou a vida de
Mallarmé. Viajar em fotografias; sentir-se imagem flutuando entre imagens; a
terra domesticada em figura, tornada familiar sem perda de sua essência
enigmática. Reconhecer que muitos livros comprados a duras penas, pedidos ao
estrangeiro ou longamente minerados nos sebos, não têm mais do que essa
oportunidade de comunicação durante o ano; deixar que fiquem a sós conosco e
nos confiem seu segredo. Admitir a fome, sem exigência de horário, e matá-la
com o que houver à mão; renunciar à idéia de almoço e jantar, com reverência ao
sagrado direito que assiste a todos, inclusive e principalmente às cozinheiras,
de brincarem o seu carnaval; achar mais gosto nessa comida, porque não é a
regulamentar nem é seguida de nada: todas as obrigações estão suspensas, e só
valem as que soubermos traçar a nós mesmos. Descortinar na preguiça um espaço
incomensurável, onde cabe tudo; não enchê-lo demais; devassá-lo à maneira de um
explorador que não quer ser muito rico e tanto sente prazer em descobrir como em procurar. Assim
vosso cronista passou o carnaval: sem fugir, sem brincar, divertido em seu
canto umbroso.
(Jornal do Brasil, 03.03.1960;
A Bolsa & A Vida, crônicas, 1962)
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Uma Pedra No Meio Do Caminho — Biografia De Um Poema, Seleção e Montagem de Carlos Drummond de Andrade, edição ampliada, Organização, Pesquisa, Apresentação e Notas de Eucanaã Ferraz, 2010, Instituto Moreira Salles, São Paulo — SP; Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, Quinta Edição, 1979, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro — RJ; Drummond (1902 — 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e
cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis
obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma
Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do
Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e
artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro
Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e
artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa
& A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de
Coisas (1962); Cadeira de Balanço,
crônicas (1966); Uma Pedra No Meio Do Caminho — Biografia De Um Poema (seleção de textos críticos diversos, 1967); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A
Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão,
crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As
Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De
Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de
Primavera, e algumas sombras (1977); Contos
Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Corpo,
novos poemas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das
Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros...