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Todo o
Brasil está surpreso: existe Cataguases!
A
contingência das enormíssimas distâncias criou entre nós o hábito dandy, de uma
pose um pouco Anatole France (um pouco 1910), de duvidarmos mutuamente da
existência das nossas cidades. Podemos ir a Petrogrado e voltar em menos tempo
do que um habitante de Porto Alegre terá de gastar para ir a Manaus. (Sem falar
em que a viagem à Rússia é mais cômoda). Por isso o brasileiro da rua do
Ouvidor1 (principalmente o brasileiro da rua do Ouvidor), diante do
mal irremediável, criou esta defensiva para a sua indiferença: Manaus não
existe, Cuiabá não existe, Goiás não existe, etc. João do Rio2 tem
numa comédia um personagem que duvida da existência real de Goiás. Parece que é
na “Eva”. E esse personagem, que habilmente preparara um madrigal atacante, exclama
num rasgo para a moça bonita da peça: “ — Ó
meu Goiás és tu!” Entretanto, o exagero, na razão direta das nossas descuidosas
indiferenças pátrias, chega ao ponto de, em pleno Distrito Federal3,
haver quem duvide de Cascadura4. Apesar dos bondes com as tabuletas
insofismáveis: “Cascadura”. Apesar da minha prezada amiga Gilka Machado5
já ter morado lá e garantir que Cascadura existe. É atrevimento duvidar da
palavra de uma pessoa tão sedutora.
Assim,
Cataguases. Em vão Astolpho Dutra6 foi presidente da Câmara dos
Deputados Federais. Em vão Astolpho Resende7 é uma das figuras mais
formosas do direito brasileiro: a par da bondade pessoal, a luz claríssima da
cultura e da inteligência rica. Nasceram em Cataguases? Mas onde é Cataguases?
Subitamente,
“Verde”: um bofetão na atonia literária nacional. Poesia. Escrevem prosa
também, mas tudo aquilo (a capa, os anúncios de sapatarias, a provável dívida
crescente para com o tipógrafo, umas fotografias muito cheias de borrões, uns
rapazes a escrever para todo mundo que não conhece “tu pra cá, tu pra lá”),
tudo aquilo é poesia. Como é bom ter vinte anos! — digo-lhes eu que faço 30 no próximo 12 de março. Essa fé,
esse impulso, essa virgindade criança de todos os apetites!
— “O
Brasil tem que saber de nós. É urgente”.
Ó “jeunes gens de Catacazes”! O
grande poeta Blaise Cendrars8, evidentemente, não podia escrever
certo: Cataguases.
Não se
trata de um cidadão francês? Aliás, como ficou saborosa aquela contração
cacofônica da palavra!
E todo
mundo ficou acreditando. Todo mundo foi ao mapa, roçou o dedo pela superfície,
procurando, apertando os olhos, até achar: Cataguases. E todo mundo sentiu
ternura. Os jornais falam. O sr. Tristão de Athayde9 escreve. O sr.
Blaise Cendrars provavelmente estará compondo um poema:
Je voudrais
bien y aller.
Ce n’est
pas très loin, peut-être
Ma petite
ronde insouciante et
Comme
j’aimerais un ananás!
A comoção
nacional aumenta, chega ao desespero, descabela-se, quando se verificou esta coisa
grande: “Verde” apareceu quando não existia nenhuma revista exclusivamente de
literatura no Brasil!
(Aqui, é inadiável intercalar um poema:
O maior
país do mundo em recur-
A
estatística do sr. Bulhões Carvalho
Me enche
de fundas melancolias cí-
Deixa
estar jacaré que a lagoa há
Ah!
Cataguases! que sensibilidade, que doçura, que cheiro bom de mato úmido de
manhã cedo!
Como há
vida nessas páginas da tua revista! Não sei qual é a opinião do teu presidente
da Câmara Municipal, nem sei também se as outras pessoas sensatas da localidade
acreditam em “Verde”! Talvez lhes suceda como com a neblina: não a vemos quando
estamos dentro dela. Nós, porém, que vivemos pela vastidão anexa do país
(residindo em outros ramais ferroviários) nós sabemos — em segredo — que a
“Verde” integrou Cataguases na realidade nacional atingível.
E jamais — oh! jamais! — um comediógrafo petulante poderá pôr
agora na boca de um personagem esta declaração de amor:
“— Ó meu Cataguases és tu!”
(*) Este poema, apesar do sarcasmo ácido, não é do meu amigo
Carlos Drummond de Andrade, nem de nenhum outro
membro do Partido Democrático
da Poesia Nacional.
(Verde — Revista Mensal de Arte e
Cultura, nº 5,
Ano 1 — Janeiro de 1928, Cataguases — MG)
Notas do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página tomou a ousadia de fazer menção a algumas citações do autor Ribeiro Couto, tais como pessoas e locais:
1. Rua do Ouvidor — considerada no
início dos anos 1920 importante rua do centro do Rio, com seus cafés, livrarias
e jornais, para onde afluíam leitores, escritores, poetas, intelectuais em
busca de notícias;
2. João do Rio — pseudônimo de João
Paulo Emilio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (1881 — 1921), carioca,
jornalista, cronista, contista, romancista, tradutor e teatrólogo;
3. Distrito Federal — cidade do Rio
de Janeiro, à época capital do país;
4. Cascadura — bairro da Zona Norte
da cidade do Rio de Janeiro;
5. Gilka Machado — Gilka da Costa
Melo Machado (1893 — 1980), carioca, poeta, figura feminina do Simbolismo;
6. Astolpho Dutra — Astolfo Dutra
Nicácio (1864 — 1920), mineiro de Cataguases, advogado e político;
7. Astolpho Resende — Astolpho
Vieira de Rezende (1870 — 1946), mineiro de Cataguases, advogado, conselheiro
geral da República, presidente da Caixa Econômica Federal e presidente do
Instituto de Advogados Brasileiros;
8. Blaise Cendrars — pseudônimo de
Frédéric Louis Sauser (1887 — 1961), franco-suiço, romancista, poeta, colaborador
da modernista revista Verde e de outras revistas do Modernismo;
9. Tristão
de Athayde — pseudônimo literário de Alceu Amoroso Lima (1893 — 1983),
carioca, crítico literário, escritor, professor, intelectual e líder católico.
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Verde (Revistas do Modernismo 1922 —
1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização
de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo,
São Paulo — SP; Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (1898 — 1963), paulista de
Santos, foi jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista; estudou
na Faculdade de Direito de São Paulo (USP — Largo São Francisco) e na Faculdade
de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro; trabalhou nos periódicos Jornal
do Commercio e Correio Paulistano, de São Paulo, Jornal do Brasil e O Globo, do
Rio de Janeiro, e A Província, de Pernambuco; escreveu e publicou, em poesia, O
Jardim das confidências (1921), Poemetos de ternura e de melancolia (1924), Um homem
na multidão (1926), Noroeste e outros poemas do Brasil (1932), Cancioneiro de Dom
Alfonso (1939), Cancioneiro do ausente (1943), Rive etrangère (1951), Le jour est
long (1958), Longe (1961), e, em prosa, A casa do gato cinzento (contos, 1922),
O crime do estudante Batista (contos, 1922), A cidade do vício e da graça (crônicas,
1924), Baianinha e outras mulheres (contos, 1927), Cabocla (romance, 1931), Presença
de Santa Terezinha (ensaio, 1934), Conversa inocente (crônicas, 1935), Prima Belinha
(romance, 1940), Dois retratos de Manuel Bandeira (1960), Sentimento lusitano (ensaio,
1961), entre outros títulos; como diplomata, atuou na França, Portugal, Holanda
e Iugoslávia; participou da Semana de Arte Moderna; seu romance Cabocla foi adaptado
para televisão; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.