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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Henrique de Resende: Senzala

 
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A Mario de Andrade

Senzala da fazenda dos meus avós...
Vão-se desmoronando pouco a pouco
as tuas paredes de pau-a-pique e os teus telhados seculares.

Mas ainda és, no teu desmoronamento,
a lembrança angustiosa das atrocidades dos meus avós.

Senzala da fazenda...
As tuas ruínas ainda estão impregnadas do sangue machucado
dos negros que gemeram nos teus troncos,
sob o chicote ameaçador dos homens brancos feitores da fazenda.

Mas tudo isso há de desaparecer um dia.

As tuas paredes de pau-a-pique e os teus telhados seculares,
ruínas ainda impregnadas do sangue e do suor dos escravos
lembram os gemidos que se perderam pelos teus cubículos de tabique;
e as lágrimas que rolaram pelo teu chão de terra socada;
e o relho de três tranças dos algozes feitores da fazenda;
e os gritos lancinantes que vararam o horror das tuas trevas;
e a mancha apagada que ficou na braúna dos teus troncos.

Mas bendito seja Deus! as tuas ruínas desaparecerão um dia
na bruma longínqua da história dos tempos.

E então se apagará também, esse dia, na minha memória
a lembrança angustiosa das atrocidades dos meus avós...

(Revista Verde, ano.1, nº 4, p. 20, dezembro de 1927.)
(Poemas Cronológicos — 1928)

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Enrique de Rezende ou Henrique de Resende ou Henrique Vieira de Resende (1899 1973), mineiro e cataguasense, fez seus estudos iniciais na Fazenda do Rochedo, Cataguases, cursou o Colégio Anglo-Brasileiro [Rio de Janeiro], estudou Matemática em Ouro Preto MG, formou-se engenheiro civil pela Escola de Engenharia de Juiz de Fora [hoje Faculdade de Engenharia da UFJF Universidade Federal de Juiz de Fora MG], exerceu o ofício de engenheiro, foi escritor e poeta; [H]Enrique de Rezende fez parte da geração modernista mineira, participando ativamente da criação da modernistíssima revista Verde (19271929), editada em Cataguases, tendo sido um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde, o qual deu origem à verdejante revista; suas obras: Turris Eburnea (poemas simbolistas, 1923), Poemas Cronológicos (com Rosário Fusco e Ascânio Lopes, 1928), Cofre de Charão (poemas, 1933), Retrato de Alphonsus de Guimaraens (ensaio, 1938), Rosa dos Ventos (coletânea: poemas escolhidos + 16 trabalhos originais, 1957), A Derradeira Colheita (reunião de sua obra poética, 1964), Pequena história sentimental de Cataguases (ensaio histórico, 1969), Estórias e memórias (crônicas memorialísticas, 1971), Obras Completas, ...; foi eleito membro da Academia Mineira de Letras em 1966.

domingo, 23 de novembro de 2025

Henrique de Resende: O Canto da Terra Verde

 
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Leva de negros.

Fuzila o sol tinindo nas cacundas nuas.

No ar o lampejo metálico das enxadas e das picaretas.

(A quando e quando
estrala a dinamite, estrondando e rebom-
                                  bando no seio bruto
                                    da pedreira bruta.)

E as estradas de rodagem, a custo, lentamente,
                                                     se entrelaçam,
como um cordame de veias,
no corpo adusto
da terra inóspita.

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Enrique de Rezende ou Henrique de Resende ou Henrique Vieira de Resende (1899 1973), mineiro e cataguasense, fez seus estudos iniciais na Fazenda do Rochedo, Cataguases, cursou o Colégio Anglo-Brasileiro [Rio de Janeiro], estudou Matemática em Ouro Preto MG, formou-se engenheiro civil pela Escola de Engenharia de Juiz de Fora [hoje Faculdade de Engenharia da UFJF Universidade Federal de Juiz de Fora MG], exerceu o ofício de engenheiro, foi escritor e poeta; [H]Enrique de Rezende fez parte da geração modernista mineira, participando ativamente da criação da modernistíssima revista Verde (19271929), editada em Cataguases, tendo sido um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde, o qual deu origem à verdejante revista; suas obras: Turris Eburnea (poemas simbolistas, 1923), Poemas Cronológicos (com Rosário Fusco e Ascânio Lopes, 1928), Cofre de Charão (poemas, 1933), Retrato de Alphonsus de Guimaraens (ensaio, 1938), Rosa dos Ventos (coletânea: poemas escolhidos + 16 trabalhos originais, 1957), A Derradeira Colheita (reunião de sua obra poética, 1964), Pequena história sentimental de Cataguases (ensaio histórico, 1969), Estórias e memórias (crônicas memorialísticas, 1971), Obras Completas, ...; foi eleito membro da Academia Mineira de Letras em 1966.

sábado, 26 de outubro de 2024

Ascânio Lopes: As estrelas

 
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Ele enamorou-se das estrelas e quis possuí-las.
E começou a construir uma torre para alcançá-las.
Mas quanto mais a torre crescia no ar
mais longe ficava o céu inatingível
e as estrelas cada vez brilhavam mais.
Um dia, quando a torre estava enorme, fina, alta
e o céu tão longe e as estrelas tão altas
ele desanimou e pôs-se a chorar.
E debruçou-se no alto da torre alta.
Mas deu um grito de dor
porque, lá embaixo, embaixo, as estrelas brilhavam mais
no espelho das águas paradas.

([revista] Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929)

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano, publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; obras: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (na parceria de Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde, e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

domingo, 1 de setembro de 2024

Emilio Moura: Serenidade no bairro pobre

 
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A tarde é ruído nas avenidas,
a tarde é calma nos arrabaldes.

No céu de bronze as aves pairam.
Depois, rápidas, num risco reto, elas descem como aeroplanos de brinquedo,
equilibram-se trêmulas, trêmulas,
e de novo pairam no céu de bronze.

Infinita, a cidade vive...

Há luzes florindo, correndo nas ruas,
há luzes paradas.

A noite é calma nos arrabaldes...

O silêncio sobe da terra magoada,
o silêncio desce do céu luminoso,
tão luminoso e tão alto que ninguém pensa nele...

Pelos jardins de trepadeiras muito calmas,
de eras e rosas,
uma inútil melancolia
planta um refúgio desconsolado.

Infinita, vaga serenidade...

[1]925

(Verde — Revista Mensal de Arte e Cultura, nº 2,
Ano 1 — Outubro de 1927, Cataguases — MG)

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Emílio Guimarães Moura (1902 1971), mineiro de Dores do Indaiá, formado em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, foi jornalista, poeta, escritor e professor universitário; trabalhou como redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais e lecionou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais (FACEUFMG), da qual foi um dos fundadores e também diretor; junto com Carlos Drummond de Andrade e outros, integrou o grupo que editava A Revista, publicação literária modernista; suas obras: Ingenuidade (1931), Canto da hora amarga (1936), Cancioneiro (1945), O espelho e a musa (1949), O instante e o eterno (1953), A casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (1961), Itinerário Poético (1969); recebeu o Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro pela obra Itinerário Poético, coletânea de todos os seus livros.

sábado, 3 de agosto de 2024

Guilhermino César: Balada do arco-íris da gente

 
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para Rosário Fusco

Sempre que vejo o arco-íris
me vêm à lembrança muitas coisas passadas
muitas coisas lindas e muitas coisas tristes
que eu tenho gravadas dentro de mim.

Vermelho da minha ira
Anilado da minha infantilidade
Roxo do meu pesar
Laranja do meu desejo
Azul do meu ideal
Amarelo da minha desesperança.

Fica faltando a cor verde
no meu arco-íris interior.

Eu quisera ter o meu arco-íris completo
mas você me tirou a cor verde
e eu fiquei com as outras cores todas
dançando confusas
dentro de mim.

(1928)

(Verde — Revista Mensal de Arte e Cultura, nº 5,
Ano 1 — Janeiro de 1928, Cataguases — MG)

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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Guilhermino César da Silva (1908 1993), mineiro nascido em Pinheiros, atual Pinhotiba, distrito de Eugenópolis, aprendeu as primeiras letras com Zizinha Negreiros, professora particular, estudou no Grupo Escolar Astolfo Dutra e no Ginásio Municipal de Cataguases, iniciou o curso de Medicina, desistiu, formou-se em Direito, foi escritor, crítico literário, administrador público, jornalista, professor, historiador e poeta; escreveu seus primeiros versos aos oito anos de idade, fez parte da geração modernista mineira e participou ativamente, inclusive na fundação, da modernistíssima revista Verde (19271929), editada em Cataguases MG; o poeta foi um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde cataguasense, que deu origem à verdejante revista; na década de 1940 mudou-se para Porto Alegre RS e deu continuidade às atividades no magistério, à política e à cultura; suas obras: além de sua atuação na Verde, Guilhermino escreveu e publicou Meia-Pataca (em parceria com Francisco Inácio Peixoto, 1928), Sul (romance, 1939), História da Literatura do Rio Grande do Sul: 1737 — 1902 (1956), Ladrão de Cavalo (1964), Lira Coimbrã e Portulano de Lisboa (poesia, ambos em 1965), O embuçado de Erval — mito e poesia de Pedro Canga (1968), Arte de matar (1969), Qorpo-Santo: relações naturais e outras comédias (1969), Primeiros cronistas do Rio Grande do Sul: 1605 — 1801 (1969), Sistema do Imperfeito & Outros Poemas (1977), Banhados (1986), Cantos do canto chorado (poesia, 1990) e outros títulos; no jornalismo, dirigiu o jornalzinho Mercúrio, da Associação dos Empregados no Comércio de Cataguases, na década de 20, atuou, desde a fundação, na já mencionada Verde, foi um dos fundadores da revista Leite Criôlo (em Belo Horizonte, 1929), secretariou os jornais A Tribuna e O Diário, ambos também de BH, além de ter colaborado em outros periódicos; no magistério, foi professor-fundador e depois diretor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Minas Gerais, e ali lecionou Literatura Brasileira e História Moderna, professor, também de Literatura Brasileira, na Faculdade de Filosofia da UFRGS e na Universidade de Coimbra Portugal; assumiu funções públicas em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Ribeiro Couto: A descoberta de Cataguases

 
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          Todo o Brasil está surpreso: existe Cataguases!
          A contingência das enormíssimas distâncias criou entre nós o hábito dandy, de uma pose um pouco Anatole France (um pouco 1910), de duvidarmos mutuamente da existência das nossas cidades. Podemos ir a Petrogrado e voltar em menos tempo do que um habitante de Porto Alegre terá de gastar para ir a Manaus. (Sem falar em que a viagem à Rússia é mais cômoda). Por isso o brasileiro da rua do Ouvidor1 (principalmente o brasileiro da rua do Ouvidor), diante do mal irremediável, criou esta defensiva para a sua indiferença: Manaus não existe, Cuiabá não existe, Goiás não existe, etc. João do Rio2 tem numa comédia um personagem que duvida da existência real de Goiás. Parece que é na “Eva”. E esse personagem, que habilmente preparara um madrigal atacante, exclama num rasgo para a moça bonita da peça: “ Ó meu Goiás és tu!” Entretanto, o exagero, na razão direta das nossas descuidosas indiferenças pátrias, chega ao ponto de, em pleno Distrito Federal3, haver quem duvide de Cascadura4. Apesar dos bondes com as tabuletas insofismáveis: “Cascadura”. Apesar da minha prezada amiga Gilka Machado5 já ter morado lá e garantir que Cascadura existe. É atrevimento duvidar da palavra de uma pessoa tão sedutora.
          Assim, Cataguases. Em vão Astolpho Dutra6 foi presidente da Câmara dos Deputados Federais. Em vão Astolpho Resende7 é uma das figuras mais formosas do direito brasileiro: a par da bondade pessoal, a luz claríssima da cultura e da inteligência rica. Nasceram em Cataguases? Mas onde é Cataguases?
          Subitamente, “Verde”: um bofetão na atonia literária nacional. Poesia. Escrevem prosa também, mas tudo aquilo (a capa, os anúncios de sapatarias, a provável dívida crescente para com o tipógrafo, umas fotografias muito cheias de borrões, uns rapazes a escrever para todo mundo que não conhece “tu pra cá, tu pra lá”), tudo aquilo é poesia. Como é bom ter vinte anos! digo-lhes eu que faço 30 no próximo 12 de março. Essa fé, esse impulso, essa virgindade criança de todos os apetites!
           “O Brasil tem que saber de nós. É urgente”.
          Ó “jeunes gens de Catacazes”! O grande poeta Blaise Cendrars8, evidentemente, não podia escrever certo: Cataguases.
          Não se trata de um cidadão francês? Aliás, como ficou saborosa aquela contração cacofônica da palavra!
          E todo mundo ficou acreditando. Todo mundo foi ao mapa, roçou o dedo pela superfície, procurando, apertando os olhos, até achar: Cataguases. E todo mundo sentiu ternura. Os jornais falam. O sr. Tristão de Athayde9 escreve. O sr. Blaise Cendrars provavelmente estará compondo um poema:

Catacazes
Je voudrais bien y aller.
Ce n’est pas très loin, peut-être
Ma petite ronde insouciante et
lègere de jeunes poètes
Que j’aime
Comme j’aimerais un ananás!

          A comoção nacional aumenta, chega ao desespero, descabela-se, quando se verificou esta coisa grande: “Verde” apareceu quando não existia nenhuma revista exclusivamente de literatura no Brasil!
          (Aqui, é inadiável intercalar um poema:

Política (*)

Trinta e cinco milhões
O maior país do mundo em recur-
sos naturais na opinião
de diversos viajantes
não subvencionados pelo
Governo
A estatística do sr. Bulhões Carvalho
Me enche de fundas melancolias cí-
vicas.
Deixa estar jacaré que a lagoa há
de secar)

          Ah! Cataguases! que sensibilidade, que doçura, que cheiro bom de mato úmido de manhã cedo!
          Como há vida nessas páginas da tua revista! Não sei qual é a opinião do teu presidente da Câmara Municipal, nem sei também se as outras pessoas sensatas da localidade acreditam em “Verde”! Talvez lhes suceda como com a neblina: não a vemos quando estamos dentro dela. Nós, porém, que vivemos pela vastidão anexa do país (residindo em outros ramais ferroviários) nós sabemos em segredo que a “Verde” integrou Cataguases na realidade nacional atingível.
          E jamais oh! jamais! um comediógrafo petulante poderá pôr agora na boca de um personagem esta declaração de amor:
           Ó meu Cataguases és tu!”

(*) Este poema, apesar do sarcasmo ácido, não é do meu amigo
Carlos Drummond de Andrade, nem de nenhum outro
membro do Partido Democrático da Poesia Nacional.

(Verde — Revista Mensal de Arte e Cultura, nº 5,
Ano 1 — Janeiro de 1928, Cataguases — MG)


Notas do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página tomou a ousadia de fazer menção a algumas citações do autor Ribeiro Couto, tais como pessoas e locais: 
1. Rua do Ouvidor — considerada no início dos anos 1920 importante rua do centro do Rio, com seus cafés, livrarias e jornais, para onde afluíam leitores, escritores, poetas, intelectuais em busca de notícias;
2. João do Rio — pseudônimo de João Paulo Emilio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (1881 — 1921), carioca, jornalista, cronista, contista, romancista, tradutor e teatrólogo;
3. Distrito Federal — cidade do Rio de Janeiro, à época capital do país;
4. Cascadura — bairro da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro;
5. Gilka Machado — Gilka da Costa Melo Machado (1893 — 1980), carioca, poeta, figura feminina do Simbolismo;
6. Astolpho Dutra — Astolfo Dutra Nicácio (1864 — 1920), mineiro de Cataguases, advogado e político;
7. Astolpho Resende — Astolpho Vieira de Rezende (1870 — 1946), mineiro de Cataguases, advogado, conselheiro geral da República, presidente da Caixa Econômica Federal e presidente do Instituto de Advogados Brasileiros;
8. Blaise Cendrars — pseudônimo de Frédéric Louis Sauser (1887 — 1961), franco-suiço, romancista, poeta, colaborador da modernista revista Verde e de outras revistas do Modernismo;
9. Tristão de Athayde — pseudônimo literário de Alceu Amoroso Lima (1893 — 1983), carioca, crítico literário, escritor, professor, intelectual e líder católico.
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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (1898 1963), paulista de Santos, foi jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista; estudou na Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco) e na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro; trabalhou nos periódicos Jornal do Commercio e Correio Paulistano, de São Paulo, Jornal do Brasil e O Globo, do Rio de Janeiro, e A Província, de Pernambuco; escreveu e publicou, em poesia, O Jardim das confidências (1921), Poemetos de ternura e de melancolia (1924), Um homem na multidão (1926), Noroeste e outros poemas do Brasil (1932), Cancioneiro de Dom Alfonso (1939), Cancioneiro do ausente (1943), Rive etrangère (1951), Le jour est long (1958), Longe (1961), e, em prosa, A casa do gato cinzento (contos, 1922), O crime do estudante Batista (contos, 1922), A cidade do vício e da graça (crônicas, 1924), Baianinha e outras mulheres (contos, 1927), Cabocla (romance, 1931), Presença de Santa Terezinha (ensaio, 1934), Conversa inocente (crônicas, 1935), Prima Belinha (romance, 1940), Dois retratos de Manuel Bandeira (1960), Sentimento lusitano (ensaio, 1961), entre outros títulos; como diplomata, atuou na França, Portugal, Holanda e Iugoslávia; participou da Semana de Arte Moderna; seu romance Cabocla foi adaptado para televisão; pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

sábado, 20 de julho de 2024

Augusto Frederico Schmidt: Comida

 
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Há gente que trabalha para comer
Há gente que se levanta cedo para ir trabalhar
Há gente que come nas pensões tristes
Há gente que come sozinha nas mesas dos hotéis
até no dia de ano bom
Há gente que às vezes não come.

COMER COMIDA PÃO ALIMENTO

Há gente que toma média na hora do almoço
Ele tomava leite porque tinha os cobres curtos.
E tinha rugas na testa.

Minha avó me disse que era mau coração botar bolachas caras fora,
porque tinha muitos meninos com vontade de comer e eram pobres.
Mas eu tinha bons sentimentos e então fiquei chorando.

(do livro “Poemas ao Portador” * a sair)

(Verde — Revista Mensal de Arte e Cultura, nº 5,
Ano 1 — Janeiro de 1928, Cataguases — MG)


Nota do blogue Verso e Conversa: A respeito de Poemas ao Portador, obra anunciada e prometida pelo poeta, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe o seguinte:
     ‘Em 24 de maio de 1928, diz a Alceu [Amoroso Lima]: “Sou uma alma perfeitamente frívola. Não mereço absolutamente sua atenção, e lhe digo isto por amor próprio. Sou bastante orgulhoso para não deixar que me julguem uma coisa, quando sou outra...” [ . . . ] “Quando estou descuidado, entregue às coisas mais materiais deste mundo, no meu comércio, ou na minha literatice, o que vem a dar na mesma, uma grande angústia se apossa de mim.” Informa a Alceu: “Ando em dúvida de publicar meus versos Poemas ao Portador. Já entreguei três vezes para editar  três vezes me arrependi em tempo. É uma coisa tão outra do que se está fazendo.”
     Em carta de 7 de junho de 1928, informa: “Quando principiei a pensar, logo no princípio, a idéia da transitoriedade se apossou de mim [...] “Estou completamente desiludido da arte e de literatura. Não gosto de mais nada, com sinceridade.” [ . . . ]’ [conforme Vida e Poesia de Augusto Frederico Schmidt: Waldir Ribeiro do Val, 2020, 1ª edição, Casa Lauand]
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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Augusto Frederico Schmidt (1906 1965), carioca, foi poeta, editor e livreiro, além de empresário de sucesso; fez seus estudos no Colégio Champs-Soleil (Lausanne Suiça) e nos colégios São José, São Bento e Liceu Francês (todos no Rio de Janeiro); teve seus primeiros textos divulgados n'O Beira Mar, um jornalzinho de Copacabana, e na revista Souza Cruz; depois, colaborou assiduamente na imprensa diária (jornais Correio da Manhã e O Globo, entre outros periódicos); escreveu e publicou Canto do Brasileiro (1928), Navio Perdido (1929), Canto do Liberto (1929), Pássaro Cego (1930), Desaparição da Amada (1931), Canto da Noite (1934), Estrela Solitária (1940), Mar Desconhecido (1942), Fonte Invisível (1949), Os Reis (1953), Poesias Completas (1956), Caminho do Frio (1964) e outros títulos em verso e prosa; como editor e livreiro, dono da Livraria Schmidt Editora, lançou autores de maior relevância, como Graciliano Ramos, Gilberto Freyre e Jorge Amado, entre outros; em São Paulo, participou do Modernismo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Rosario Fusco: poemas codaque (paisagem n. 2 & outros)*

Revistas do Modernismo. 1922-1929 - Caixa | Amazon.com.br  O voo dos Ases de Cataguases
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Juiz de Fora

Pro António de Alcântara Machado

Manchester das minas gerais.
O crepúsculo escorrega violentamente
                                                       e cai

na paisagem de cartão-postal
e nos olhos espantados do Cristo-do-Morro.

Paisagem n. 2

Pro Carlos Drummond de Andrade

Uma hora.
O dia parou com o meu relógio.

Nem uma folha só planta ruídos.
Nada.

E eu fico pensando na ingenuidade daquele homem alto
que fala muito rouco
tosse
tosse
tosse
e vive a vida à toa
quentando sol o dia inteiro.

Rio de Janeiro

Pro Roberto Theodoro

Os meus sentidos são um menino
que veste um vestido novo.

* (In Verde, n. 2, p. 16, outubro de 1927)

Para tirar Rosário Fusco do esquecimento - Jornal Opção
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Verde (Revistas do Modernismo 1922 — 1929), edição fac-similar, Prefácio / Ensaio de Júlio Castañon Guimarães e Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr., 2014 — Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo — SP; Rosario Fusco (1910  1997), mineiro de São Geraldo, formado em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJ-RJ), foi advogado, jornalista, escritor, crítico literário, dramaturgo e poeta; ainda aos 15 anos, estudante do Ginásio Municipal de Cataguases, frequentou as sessões do Grêmio Literário Machado de Assis e, com outros jovens, foi um dos fundadores do Grupo Verde, responsável pelo lançamento da revista Verde, publicação literária modernista editada entre 1927 e 1929, que adquiriu importância por ter contado com colaborações de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e também do exterior; o poeta Rosario Fusco foi um dos nove signatários do ‘Manifesto do Grupo Verde de Cataguases’; bibliografia: Poemas cronológicos (com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, 1928), Fruta de Conde (poesias, 1929), Amiel (ensaio, 1940), Política e Letras (ensaio, 1940), Vida literária (crítica, 1940), O Agressor (romance, 1943), O Livro do João (romance, 1944), Anel de Saturno e O Viúvo (teatro, ambos em 1949), Introdução à Experiência Estética (ensaio, 1949), Carta à Noiva (romance, 1954), Auto da Noiva (teatro, não editado, peça encenada nos EUA, 1961), Dia do Juízo (romance, 1961), a.s.a. associação dos solitários anônimos (romance, publicação póstuma, 2003); Rosário Fusco é lembrado por críticos como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um verdadeiro precursor do supra-realismo literário; antes da Verde, o poeta deixou impresso seus poemas no Jornal Mercúrio e também nos periódicos Boina e Jazz-Band, na mineira Cataguases; no Rio de Janeiro, à época capital da república, atuou como publicitário, cronista de rádio, crítico literário do Diário de Notícias, redator-chefe da revista A Cigarra, diretor-conjunto da publicação Cultura Política  Revista de Estudos Brasileiros, procurador do estado, adido da embaixada do Brasil no Chile...

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Tácito de Almeida: A mesma tempestade

Resultado de imagem para klaxon revistas do modernismo 1922 1929
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I

Os relâmpagos chicoteiam com fúria
os cavalos cinzentos das nuvens,
para chegar mais depressa à terra.

As trovoadas longínquas parecem
Caminhões cheios de água em disparada
por velhas ruas mal calçadas.

E o vento rasteiro,
vestido de poeira,
passa faminto como um cão,
farejando a terra.

II

A chuva já passou.

A noite límpida é um menino,
saindo detrás das montanhas.

E ele vem correndo, vem correndo,
alegremente,
todo molhado.

Os homens assombrados,
julgando-o perdido,
estavam já desanimados.

Mas ele vem correndo, vem correndo,
alegremente,
todo molhado.

Vem correndo… E, quando encontra
os homens cheios de olhares,
ele pára e estende os braços úmidos,
e vai espalhando pelo céu,
cheio de orgulho,
os mil pedaços ainda móveis
da verde cobra fosforescente
que matou na floresta, atrás das montanhas…

(Klaxon, nº 4, São Paulo, 15 ago. 1922, p. 6.)

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Klaxon  Revistas do Modernismo 1922  1929 (edição fac-similar), Organização de Pedro Puntoni e Samuel Titan Jr. e Ensaio de Gênese Andrade, 2014, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo  SP; Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo (1889  1940), paulista de Campinas, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco), foi jurista, jornalista, escritor e poeta; contribuiu na fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou Ciências Políticas; participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e colaborou com a Klaxon, revista modernista, onde assinou seus textos como Carlos Alberto de Araújo, e cuja redação ficava em seu escritório; em 1923, deixou a produção poética e iniciou a produção de textos jurídicos e políticos; em 1926, porém, escreveu um conto, ‘Um homem bondoso’, publicado no primeiro número da revista modernista Terra roxa e outras terras; escreveu Túnel (poesias, 1922).