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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Eudoro Augusto: Inscrição & Ana C

 
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Inscrição

Esta primavera
não é flor que se cheire.

(Dia Sim Dia Não [na parceria
de Francisco Alvim] — 1978)

— o —

Ana C *

Outra vez nos braços do amor perdido.
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Às vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.

(O Desejo e o Deserto — 1989)


* Nota-comentário de Manuel da Costa Pinto:Ana C” [é um poema feito em] homenagem a Ana Cristina César, poeta [carioca] que se suicidou em 1983.
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Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (70 poetas e 205 poemas), Organização, Apresentação e Comentários de Manuel da Costa Pinto, 2006, Edições Publifolha, São Paulo — SP; Eudoro Augusto Macieira de Souza (1943 2024), português lisboeta e naturalizado brasileiro desde 1953, diplomou-se em Letras, fez mestrado em Literatura Brasileira, ambos pela UNB Universidade de Brasília (Distrito Federal), foi poeta, cronista, jornalista, professor, radialista, pesquisador e crítico literário; na década de 70, início de suas publicações, no Rio, se aproximou do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário; suas obras: Grande Sertão-Veredas (crítica, teoria ou história literária, 1968), O Misterioso Ladrão de Tenerife (poemas, em parceria com Afonso Henriques Neto, Edições Oriente, 1972, Goiânia GO), Lincoln (biografia, 1973), A Vida Alheia (Edição do Autor, 1975, Rio de Janeiro RJ), Dia Sim Dia Não (na parceria de Francisco Alvim, Edição dos Autores, 1978, Brasília  DF), Poemas (1979), Carnaval e Cabeças (ambos poemas, Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro RJ), O Desejo e o Deserto (Massao Ohno, 1989, São Paulo SP), Olhos de Bandido (poemas, 7Letras, 2001, Rio de Janeiro RJ), três volumes da ‘Trilogia do Sudoeste’, crônicas e poemas: Um Estrago no Paraíso (Edições do Sudoeste, 2008, Brasília DF), A natureza humana (2009) e Noite em Claro (2011); recebeu o Prêmio Nacional de Poesia, da Fundação Cultural Distrito Federal (1971); produziu programas de música para a Rádio Câmara, DF; em terras brasileiras, o poeta morou e trabalhou em São Paulo, no Rio de Janeiro e na Capital Federal.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Eudoro Augusto: Exames — & — O visitante

 
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O visitante

Entra de mansinho encosta a porta
sem pressa mas firme fala
farfala deblatera
aperta e solta mas agarra
força a barra
apronta um ouriço
que é isso? que é isso? e sai de fino.

&

O fio do sonho é apenas um cabelo.
Mas se ele pinta na cabeça
é bom deixá-lo crescer.

Exames

Na terça chegou assobiando
deu bom-dia
e recebeu de cara a novidade:
esquizofrenia.

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26 Poetas Hoje — antologia, Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Eudoro Augusto Macieira de Souza, nascido em 1943, português lisboeta e naturalizado brasileiro, com mestrado em Literatura Brasileira pela UNB   Universidade de Brasília, é poeta, jornalista e professor; obras: O Misterioso Ladrão de Tenerife (em coautoria com Afonso Henriques Neto, Edições Oriente, 1972, Goiânia GO), A Vida Alheia (Edição do Autor, 1975, Rio de Janeiro RJ), Dia sim Dia não (em coautoria com Francisco Alvim, Edição dos Autores, 1978, Brasília  DF), Carnaval (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro RJ), Cabeças (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro RJ), O Desejo e o Deserto (Massao Ohno, 1989, São Paulo SP), Olhos de Bandido (7Letras, 2001, Rio de Janeiro RJ), Um Estrago no Paraíso (Edições do Sudoeste, 2008, Brasília DF); Na década de 70, início de suas publicações, aproxima-se do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário.

domingo, 24 de junho de 2018

Eudoro Augusto: Racconto

Resultado de imagem para Antologia 26 Poetas Hoje
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Chegada na festa de olhos vendados
e ninguém se apresenta. Mofamos
no canto calados mas o nariz desperta
(está no ar o perfume do perigo)
muita batida conversa de atropelo
joelho cotovelo
 esse ângulo, amor, é impossível 
poucos reparam na moça porque passa
uma salada, bandeja de palavras raras
com citação clássica em forma de cereja.
Circula a taça, o narguilé, risada fraca
afrouxa o cinto, o colóquio
vira circuito de peitinhos rijos
mas quando se repara já é tarde:
o penetra mordisca o damasco, cospe o caroço
identifica-se. Sou um artista, vou comê-la
e Afrodite quase distraída: por que não?
Eu também sou filha de Zeus.
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26 Poetas Hoje — antologia, Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Eudoro Augusto Macieira de Souza, nascido em 1943, português lisboeta e naturalizado brasileiro, é poeta, jornalista e professor, com mestrado em Literatura Brasileira pela UNB  Universidade de Brasília; obra poética: O Misterioso Ladrão de Tenerife (em coautoria com Afonso Henriques Neto, Edições Oriente, 1972, Goiânia  GO), A Vida Alheia (Edição do Autor, 1975, Rio de Janeiro  — RJ), Dia sim Dia não (em coautoria com Francisco Alvim, Edição dos Autores, 1978, Brasília DF), Carnaval (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro  RJ), Cabeças (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro — RJ),  O Desejo e o Deserto (Massao Ohno, 1989, São Paulo  SP), Olhos de Bandido (7Letras, 2001, Rio de Janeiro —  RJ), Um Estrago no Paraíso (Edições do Sudoeste, 2008, Brasilia  DF); Na década de 70, início de suas publicações, aproxima-se do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Eudoro Augusto: Mamãe

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Pra mim chega.
Seus cães policiais não vão mais farejar meu jardim
nem sacudir as pulgas no meu tapete voador.
Seu arame farpado não vai mais cercar vaca nenhuma.
Nunca mais vou medir os dias nem as pesadas noites
pela batida de um coração que apodrece.
E vê se não esquece
de retirar os corpos as manchas de sangue
os mapas irregulares que me destinam
a um país ocupado.
Chega de tímpanos estourados
chega de perder os dentes.
Vê se dá um basta nesse fodido medo.
As paredes revestidas
o algodão nos ouvidos
nada disso pode isolar o berro
o ruído animal que arrepia pelos e espinha
gravado em cavernas abismos
gargantas.
Chega de carne moída chega de vida engasgada.
Hoje todo o seu povo
vivos e mortos famintos e doidos raivosos
faz as malas abre as veias
e volta pra casa da mamãe.
Dia sim Dia não (1978)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 70, Seleção e Prefácio de Afonso Henriques Neto, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2009, São Paulo  SP; Eudoro Augusto Macieira de Souza, nascido em 1943, português lisboeta e naturalizado brasileiro, é poeta, jornalista e professor, com mestrado em Literatura Brasileira pela UNB Universidade de Brasília; obra poética: O Misterioso Ladrão de Tenerife (em coautoria com Afonso Henriques Neto, Edições Oriente, 1972, Goiânia  GO), A Vida Alheia (Edição do Autor, 1975, Rio de Janeiro  RJ), Dia sim Dia não (em coautoria com Francisco Alvim, Edição dos Autores, 1978, Brasília  DF), Carnaval (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro   RJ), Cabeças (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro  RJ), O Desejo e o Deserto (Massao Ohno, 1989, São Paulo —  SP), Olhos de Bandido (7Letras, 2001, Rio de Janeiro  RJ), Um Estrago no Paraíso (Edições do Sudoeste, 2008, Brasilia  DF); Na década de 70, início de suas publicações , aproxima-se do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário.