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Inscrição
Esta primavera
não é flor que se cheire.
(Dia Sim Dia Não [na parceria
de Francisco Alvim] — 1978)
— o —
Ana C *
Outra vez nos braços do amor
perdido.
Sempre o declive. Sempre a
vertigem.
Às vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais
azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua
orelha fina
invade o cinema como um vento
fictício
e rabisca cicatrizes bem
legíveis
no coração deserto do meio-dia.
(O Desejo e o Deserto — 1989)
* Nota-comentário de Manuel
da Costa Pinto: “Ana C” [é um poema feito em] homenagem a Ana Cristina César,
poeta [carioca] que se suicidou em 1983.
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Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (70 poetas e 205 poemas),
Organização, Apresentação e Comentários de Manuel da Costa Pinto, 2006, Edições
Publifolha, São Paulo — SP; Eudoro Augusto Macieira de Souza (1943 — 2024),
português lisboeta e naturalizado brasileiro desde 1953, diplomou-se em Letras,
fez mestrado em Literatura Brasileira, ambos pela UNB — Universidade de Brasília
(Distrito Federal), foi poeta, cronista, jornalista, professor, radialista, pesquisador
e crítico literário; na década de 70, início de suas publicações, no Rio, se aproximou
do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário; suas obras: Grande
Sertão-Veredas (crítica, teoria ou história literária, 1968), O Misterioso Ladrão
de Tenerife (poemas, em parceria com Afonso Henriques Neto, Edições Oriente, 1972,
Goiânia — GO), Lincoln (biografia, 1973), A Vida Alheia (Edição do Autor, 1975,
Rio de Janeiro — RJ), Dia Sim Dia Não (na parceria de Francisco Alvim, Edição dos
Autores, 1978, Brasília — DF), Poemas (1979), Carnaval e Cabeças (ambos poemas, Edição
do Autor, 1981, Rio de Janeiro — RJ), O Desejo e o Deserto (Massao Ohno, 1989, São
Paulo — SP), Olhos de Bandido (poemas, 7Letras, 2001, Rio de Janeiro — RJ), três
volumes da ‘Trilogia do Sudoeste’, crônicas e poemas: Um Estrago no Paraíso (Edições
do Sudoeste, 2008, Brasília — DF), A natureza humana (2009) e Noite em Claro (2011);
recebeu o Prêmio Nacional de Poesia, da Fundação Cultural Distrito Federal (1971);
produziu programas de música para a Rádio Câmara, DF; em terras brasileiras, o poeta
morou e trabalhou em São Paulo, no Rio de Janeiro e na Capital Federal.


