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sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Lindolf Bell: Passam os cavalos do tempo

 
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Passam os cavalos do tempo
a cavalo passam.
E tu és a viagem
que algum dia
alguém deixou de fazer,
não por perder o navio
mas por perder-se.

Tudo passa
mas tudo fica.
E se outra vez as estações florescem
entre partir e chegar,
antes era o mar de teu derramamento
tramado nas ramas de annamar.

Estrela visceral,
alarga as velas de pouso,
alarga as avenidas,
alarga as alas-alamedas,
o coração é largo quando é largo o pranto,
quem lavra a terra lavra a dor.

Passam os cavalos do tempo
a cavalo passam.
A idade absurda
onde não se colhe
o que se planta,
é o tempo que ilumina
e elimina.

As Annamárias, 1971

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘A Cidade, os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta, contador, professor e crítico de artes; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; obras: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Réquiem (1994); o poeta teve textos editados em Angola África, além de ter sido traduzido em edições de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).

sábado, 16 de janeiro de 2021

Lindolf Bell: Semanário

 
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Na segunda-feira trabalho.
Afio enganos, anos e anos.

Na terça-feira trabalho.
Faço promessas de vagar
e de pressas.

Na sexta-feira trabalho.
Descubro um buraco na calça.
Outro buraco na alma.
Liquido a traça.

Na quarta-feira trabalho.
Empilho o tédio em caixas.
Penduro em branco nas ruas,
as faixas.

Na quinta-feira trabalho.
Esqueço um percevejo
no fundo da gaveta
do desejo.

Sábado trabalho.
No fonema, no poema.
No sonho entalado da verdade.
No dilema da felicidade.

No domingo
sento numa praça deserta.
E penso, covarde,
na próxima semana
escrita no livro da liberdade.

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O Código das Águas — Lindolf Bell, Apresentação de Cláudio Willer, 1984, Coleção Navio Pirata, Global Editora, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta, contador, professor e crítico de artes; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; bibliografia: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Réquiem (1994); o poeta teve textos editados em Angola África, além de ter sido traduzido em edições de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).

domingo, 6 de dezembro de 2020

Lindolf Bell: Poema matemático

 
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Me somo.
E fico um.

Me multiplico.
E permaneço um.

Me divido.
E continuo um.

Me diminuo.
E resto um.

Me escrevo.
E sou nenhum.

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O Código das Águas — Lindolf Bell, Apresentação de Cláudio Willer, 1984, Coleção Navio Pirata, Global Editora, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta, contador, professor e crítico de artes; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; bibliografia: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Réquiem (1994); o poeta teve textos editados em Angola África, além de ter sido traduzido em edições de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Lindolf Bell: Livra o nome de inúteis sons

 
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Livra o nome
de inúteis sons
de letras a mais
ou a menos

Livra o destino
do nome gravado
Do nome escrito
em areia do tempo,
no imutável tempo
do nome

Livra a alma
de escudos, estrelas demais
De tudo supérfluo,
de toda superfície,
do aluamento do ser.

Livra a liberdade
de todo lastro
De qualquer lustro
De qualquer lustro
De vocábulos insólitos, grandiloquentes,
feitos de nada,
vocábulos de enfeite, confeitos

Livra-te do palmo de terra
que te cabe
De panfletos do sentimentalismo
Dos improvisos da paixão

Livra-te de ti
antes de tudo
Livra-te a fio de navalha
Livra-te a fio de idéia
que da dor faz palha

Livra-te das idéias fixas
Porque a dor alheia
também é nossa

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O Código das Águas — Lindolf Bell, Apresentação de Cláudio Willer, 1984, Coleção Navio Pirata, Global Editora, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta, contador, professor e crítico de artes; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; bibliografia: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Réquiem (1994); o poeta teve textos editados em Angola África, além de ter sido traduzido em edições de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).

sábado, 7 de novembro de 2020

Lindolf Bell: Onde ficaram as vossas aves abatidas?

 
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Onde ficaram as vossas aves abatidas,
embutidas nos armários,
onde ficaram?

Onde ficaram
os armários embutidos de vossas salas
com suas portas entalhadas
e gavetas entulhadas
de documentos, dividendos, excrementos e certidões?

Onde ficaram as vossas malas enfeitadas,
confeitadas de recordações,
onde ficaram as neuroses cravejadas de brilhantes?
Onde ficaram as vossas recordações de
onde ficaram as águas vivas de vossos mares?

Onde ficaram
os desejos na virilha,
a cobiça, a ganância,
o escrúpulo posto de lado?
Onde ficaram os vossos amores
de amoras arrancadas
dos tempos de fingimento?

Onde ficaram os vossos diplomas, as vossas denúncias,
os vossos assaltos, os vossos insultos
e vossas almas penduradas em ganchos de açougue, em ais,
na paisagem tropical?

Onde ficaram os vossos segredos
a sete chaves guardados,
a partilha degredo a degredo,
o rabo entre as pernas
como atestado de medo,
o papel assinado, tremido, dobrado
e a asa da prepotência fingindo voar
e não mais que arremedo,
onde ficou o vosso enredo?

De todas aquelas frases feitas bem feitas
Empoladas, empenadas, emboloradas
Desfeitas agora
de mórbidas intenções, plágios e mentiras,
o que sobrou?

De todas aquelas sentenças lidas,
carimbadas, assinadas, seladas de princípios,
ofícios, orifícios,
de identidade forjada em cartilhas, antilhas,
lentilhas, baunilhas, país das maravilhas,
o que sobrou?

Sobrou o tempo.
E antes do tempo final
eu vos colhi.
A bordo de vossa nau de luxo.
A bordo de vosso deslumbramento.
A bordo de vosso desdobramento
de mil caras pintadas de pó-de-arroz.
E vos encerrei
e vos abri na palavra.

Antes da morte
vos revelei.
E vos engastei no poema.
E no tempo permanente.
Com vossas verdades camufladas.
E minhas verdades camufladas.
E toda iniquidade em praça pública.

Ali ficam as respostas.
Ali ficaram as dúvidas.

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O Código das Águas — Lindolf Bell, Apresentação de Cláudio Willer, 1984, Coleção Navio Pirata, Global Editora, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta, contador, professor e crítico de artes; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; bibliografia: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Réquiem (1994); o poeta teve textos editados em Angola África, além de ter sido traduzido em edições de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Lindolf Bell: Enfermidade, efemeridade

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A palavra não é nebulosa estrela.
Sequer desarticulada ilha de afinidades.

Estopim aceso, sim, águas de inquietação,
a palavra não é jogo de dados.
Jogo de dúvidas, sim, dádivas,
dardos envenenados de selvagem silêncio.

Por um fio a palavra é prata.
Por um fio a palavra é pata de cavalo.
Por um fio, ato de injustiça.

Não há nenhuma pressa na palavra,
em seu destino de lesma.
A palavra, flor justa se for bem usada.
A palavra de fogo-fátuo feita.
A palavra que não faz acordo em vão.

A palavra
é não dar com a língua nos dentes.
Ainda que arranquem a língua.
E cortem a palavra em pedaços
e a exponham em postes públicos da degradação.

Não é sempre a palavra
só tiro de festim.
Pode ser fim de linha.
Quimera, exato fingimento de vôo.
Nada, tudo, nunca e ninguém.
Assentimentos, delicada práxis de afetos,
que somente se advinha.

A palavra
que em breve
será a palavra dentro em breve.
A palavra
que se reveste de linho real
na linha real da vida:
                                enfermidade,
                                                     efemeridade.

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O Código das Águas — Lindolf Bell, Apresentação de Claudio Willer, 1984, Coleção Navio Pirata, Global Editora, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938  1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta, contador, professor e crítico de artes; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; bibliografia: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes  APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Requiem (1994); o poeta teve textos editados em Angola  África, além de ter sido traduzido em edições  de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Lindolf Bell: Da certidão de nascer

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Nasci onde?
Nasci onde geografia se faz de sentimento.

Ali nasço.
Ali nasço ainda.
Cada manhã.
Em cada manhã de medo.
Arremedo.
Degredo a degredo.
Em cada impulso, incompetência.
Na eterna e suave ironia do destino
de mais sentir que saber.

De saber
apenas sei
de quantas palavras
se faz a canoa de afetos.
Embora caminhe torto
por sonhos retos.

Muito aprendi
da palavra engolida em seco.
E da palavra abatida
por palavras de equívoco
e sutis alvenarias de cinismo.

Permaneço aqui
mesmo assim.
Nasço onde geografia se faz de sentimento.
Entre princípio e fim de mundo.
Aurora a aurora.
Segundo a segundo.

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O Código das Águas — Lindolf Bell, Apresentação de Cláudio Willer, 1984, Coleção Navio Pirata, Global Editora, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938  1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta, crítico de artes, professor e contador; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; bibliografia: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967),  Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes  APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Requiem (1994); o poeta teve textos editados em Angola  África, além de ter sido traduzido em edições  de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).

domingo, 13 de janeiro de 2019

Lindolf Bell: Procuro a palavra palavra

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Não é a palavra fácil
que procuro.
Nem a difícil sentença,
aquela da morte,
a da fértil e definitiva solitude.
A que antecede este caminho sempre de repente.
Onde me esgueiro, me soletro,
em fantasias de pássaro, homem, serpente.

Procuro a palavra fóssil.
A palavra antes da palavra.

Procuro a palavra palavra.
Esta que me antecede
e se antecede na aurora
e na origem do homem.

Procuro desenhos
dentro da palavra.
Sonoros desenhos, tácteis,
cheiros, desencantos e sombras.
Esquecidos traços. Laços.
Escritos, encantos reescritos.
Na área dos atritos.
Dos detritos.
Em ritos ardidos da carne
e ritmos do verbo.
Em becos metafísicos sem saída.

Sinais, vendavais, silêncios.
Na palavra enigmam restos, rastos de animais,
minerais da insensatez.
Distâncias, circunstâncias, soluços,
desterro.

Palavras são seda, aço.
Cinza onde faço poemas, me refaço.

Uso raciocínio.
Procuro na razão.

Mas o que se revela, arcaico, pungente,
eterno e para sempre, vivo,
vem do buril do coração.

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O Código das Águas — Lindolf Bell, Apresentação de Cláudio Willer, 1984, Coleção Navio Pirata, Global Editora, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 — 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta, crítico de artes, professor e contador; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; bibliografia: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes — APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Requiem (1994); o poeta teve textos editados em Angola  África, além de ter sido traduzido em edições  de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Lindolf Bell: O poeta descobre-se no sebo

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O poeta, ansioso, silencioso, vaidoso
como sempre,
caminha no centro da cidade.

Em busca de si mesmo, considera o poeta,
em busca de mim
e também do povo
que tanto precisa de mim.

Encontra o sebo:
no mesmo lugar
o sebo de sempre
no mesmo lugar.
O sebo que liquida livros de poesia
como sempre,
como sempre anuncia o cartaz
escrito a pincel atômico
que a luz consome.

Quer dizer: o sebo liquida duplamente
a poesia,
pensa o poeta,
sem revolta
nem meta.

O poeta abre caminho entre os títulos.
Polvo de curiosidade.
Mil dedos
entre mil páginas.
E o poeta, herdeiro dos deuses,
hierático, enigmático como sempre
mas de suor frio na testa,
entre tantos livros empilhados
pilhou-se no flagrante
folheando o próprio livro.

Leu comovido a dedicatória.
O que sobra de um tempo feliz, pensa.
Em íntima dedicatória, amiga, íntegra entrega:
ofereço essas palavras
para que a ponte da amizade
cresça perfeita em nós
seres humanos.

O poeta deixa o sebo
o sente o ruidoso bafo da vida.
E neste instante começa a escrever
o próprio epitáfio.

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, e, a título de Posfácio, o texto ‘a Cidade, Os Poetas, a Poesia’, de Cláudio Willer; 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Lindolf Bell (1938 1998), catarinense de Timbó, filho de lavradores, formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, foi poeta; liderou o Movimento Catequese Poética, o qual tinha a iniciativa de conduzir poesia às ruas, através de recitais e cantorias, o que o tornou reconhecido no Brasil e também no exterior; sua bibliografia: Os Póstumos e as Profecias (1962), Os Ciclos (1964), Convocação (1965), Curta Primavera (1966), A Tarefa (1966), Antologia Poética de Lindolf Bell (1967), Antologia da Catequese Poética (Lindolf Bell e outros poetas, 1968), As Annamárias (1971/1979), Incorporação (1974), As Vivências Elementares (1980), O Código das Águas (premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes APCA, 1984), Setenário (1985), Texto e Imagem (1987), Iconographia (1993), Requiem (1994);  o poeta teve textos editados em Angola África, além de ter sido traduzido em edições  de revistas e antologias (italiano, belga, inglês e espanhol).