sábado, 28 de fevereiro de 2015

Gilka Machado: Na plena solidão . . . [soneto]

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Na plena solidão de um amplo descampado,
penso em ti e que tu pensas em mim suponho;
tenho toda a feição de um arbusto isolado,
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.

O Vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora langoroso, ora forte, medonho!
e tanto penso em ti, ó meu ausente amado!
que te sinto no Vento e a ele, feliz, me exponho.

Com carícias brutais e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me toda tua...

 sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças...

E não podes saber do meu gozo violento,
quando me fico assim, neste ermo, toda nua,
completamente exposta à Volúpia do Vento!



Nota do Organizador:
Dizia Medeiros e Albuquerque que em Gilka Machado  “o que predomina é essa nota de sensualidade clamada e proclamada de verso em verso”.
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Gilka da Costa Melo Machado (1893 1980), nascida no Rio de Janeiro  RJ, vinda de uma família de artistas, também trazia a arte nas veias: desde criança fazia versos; escreveu e publicou Cristais Partidos (1915), A revelação dos perfumes (1916), Estados de Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu Glorioso Pecado (1928), Poesia (1929), Sublimação (1938), Carne e Alma (1938), Meu Rosto (1947), Velha poesia (1965) Poesias Completas (1987); foi premiada por sua obra (Revista O Malho, 1933, e Academia Brasileira de Letras, Prêmio Machado de Assis, 1979).

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Zalina Rolim: Gozo Pungente

Resultado de imagem para Carlos Fidêncio Itapetininga ontem - hoje
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Eu não sei se o detesto ou se o adoro,
Não sei é isto amor ou se é loucura:
Junto dele eu não vejo a noite escura,
Se ele foge de mim definho e choro.

Quero afastar-me  e o seu olhar imploro
Falar-lhe tento  e minha voz murmura;
Se ele, sorrindo, os olhos meu procura,
Inclino a fronte e estremecendo coro...

Como é pungente e dura esta incerteza...!
Mas a curar-me a dor desta agonia,
Que tem laivos de riso e de tristeza,

Quantas vezes, meu Deus, preferiria
Viver cativa, eternamente presa
Deste mal que me fere e acaricia!...

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Itapetininga: ontem hoje, Carlos Fidêncio, 1986, Editora Cehon, Itapetininga SP; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; como educadora do Jardim da Infância de São Paulo, traduziu obras dos idiomas inglês e italiano e colaborou com a Revista do Jardim da Infância com traduções, adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo; são de sua autoria O Coração (1893), Livro das Crianças (1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); viveu em Itapetininga durante parte de sua vida, inicialmente acompanhando o pai, juiz de Direito que para ali fora nomeado; viveu também em São Paulo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Zalina Rolim: Outrora, quando as penas me feriam . . . [soneto]

Resultado de imagem para A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira Volume I IMESP
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[Do "Livro da Saudade"]

Outrora, quando as penas me feriam,
Na sua voz eu tinha alívio santo,
Seus afagos dulcíssimos diziam:
 “Filha, não quero nos teus olhos pranto!”

E eu, esquecendo as mágoas que pungiam,
Acreditava nele tanto e tanto
Que as tristezas e lágrimas fugiam,
Do seu consolo ao poderoso encanto.

Hoje a lágrima vem e vai sozinha...
Ninguém nos olhos meus sente e adivinha
A mágoa que, em silêncio, vem e vai...

Alma de órfã, de angústias vive presa,...
Onde um consolo à intérmina tristeza
Que me ficou quando perdi meu pai?!

(publicado em A Mensageira,
 Ano I,  número 1,  de 15 de
 outubro de 1897, São Paulo)

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A Mensageira  Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A IMESP, São Paulo  SP; Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo (1869 1961), paulista de Botucatu, foi professora alfabetizadora, educadora, poeta e uma das precursoras na difusão de poesias para crianças no país; como educadora do Jardim da Infância de São Paulo, traduziu obras dos idiomas inglês e italiano e colaborou com a Revista do Jardim da Infância com traduções, adaptações e produções originais de pedagogia, ficção e poesia; escreveu para a revista feminina A Mensageira (1897 1900) e para os jornais O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo; são de sua autoria O Coração (1893), Livro das Crianças (1897) e Livro da Saudade (organizado em 1903 para publicação póstuma e se extraviou); viveu em Itapetininga durante parte de sua vida, inicialmente acompanhando o pai, juiz de Direito que para ali fora nomeado; viveu também em São Paulo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Castro Meneses: Baudelaire

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Na água-forte onde vejo o rigor sem exemplo
Do severo perfil de teu busto de poeta,
Charles, o teu olhar, não sei por que, me inquieta,
Evocando o pavor de uma orgia num templo.

Penetra-me essa luz de encantos esquisitos,
Que deviam possuir, em rápidos instantes,
Os teus olhos fatais como dois sóis malditos,
Fixos num céu de sonhos de ópio alucinantes...

Há um ríctus singular na tua boca estranha...
E esse ríctus cruel, de tédio ou de loucura,
Imprime a esta água-forte uma vida tamanha,

Que desvairo ao fitá-la e, num trágico espanto,
Vejo Satã possuir, na paz da cela escura,
O corpo virginal de uma noviça em pranto...



Nota do Organizador:
A evocação de Baudelaire não destoa da imagem que dele faziam os satanistas decadentes.
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Álvaro de Sá Castro Meneses (1883  1920), fluminense de Niterói, formado em Direito, além de ter exercido as funções de promotor público e juiz, foi professor, jornalista e poeta; na área literária, pertenceu ao grupo simbolista fundador da revista Rosa-Cruz; escreveu e publicou Mitos (1898), Estrada de Damasco (1920) e também deixou-nos poesias esparsas; trabalhou longos anos no Jornal do Comércio.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Fontoura Xavier: Carvalho Júnior

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Um instante, coveiro! o morto é meu amigo,
E como vês cheguei para dizer-lhe adeus;
Depois podes levá-lo, a Satanás, contigo,
Que sei que não pretende a salvação de Deus.

Eu descuidei-me, sim; nós dávamo-nos muito!
Há meses abracei-o e nunca mais o vi...
Alguém, quem quer que seja! aproveitou o intuito,
Matou-o em minha ausência e trouxe-o para aqui.

Vim despedir-me dele... (Escuta-me, primeiro.
Tu deves conhecer os mortos que aqui somes;
Muitas vezes Hamleto a dúvida, coveiro,
Visita este lugar interrogando nomes.

Estuda esta cabeça, o príncipe há de vê-la;
Repara bem, é loura, esplendida, à Van-Dick!
Pois bem, gasta a mortalha, então roída a tela,
Não tomes Baudelaire por um jogral Yorick !).

Vim despedir-me, pois! A morte já começa
A martelar caixões na porta dos ateus!...
Sentido, batalhões! caiu uma cabeça...
Que importa uma vitória às legiões de Deus?...


Nota do Organizador:
A última estrofe, que figura na edição definitiva, 1905, não vem reproduzida na 4ª. Edição de Opalas, e a poesia inteira não consta da ed. Príncipe. Os versos são decadentes com seu satanismo e também com seu intuito escandalizador de profanar. Se foram recitados à beira-túmulo de Carvalho Júnior, devem datar de 1879. Os títulos também variam: na ed. definitiva, é o que se lê acima; na 4ª., “Nos Funerais de um Poeta”.
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Poesia Simbolista, Antologia — Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1965, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Antônio Vicente da Fontoura Xavier (1856  1922), gaúcho de Cachoeira do Sul, foi jornalista, tradutor, poeta e diplomata; colaborou com os periódicos Besouro, Gazeta de Notícias, Repórter e Revista Ilustrada, no Rio de Janeiro, além de ter sido redator do jornal carioca A Semana e um dos fundadores do jornal Gazetinha, juntamente com Artur de Azevedo e Aníbal Falcão; traduziu poemas de Poe, Baudelaire, Jean Moréas, Sully Prudhomme e Shakespeare; escreveu e publicou O Régio Saltimbanco (versos contra a monarquia, 1877) Opalas (poesias, 1ª. edição em 1884 e edição definitiva em 1905); serviu como diplomata em diversos países (Estados Unidos, Cuba, México, Suiça, Argentina, Guatemala, Inglaterra, Espanha e Portugal).

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Carlos Drummond de Andrade: Desligamento do Poeta

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A arte completa,
a vida completa,
o poeta recolhe seus dons,
o arsenal de sons e signos,
o sentimento de seu pensamento.

Imobiliza-se,
infinitamente cala-se,
cápsula em si mesma contida.

Fica sendo o não rir
de longos dentes,
o não ver
de cristais acerados,
o não estar
nem ter aparência.
O absoluto do não ser.

Não há invocá-lo acenar-lhe pedir-lhe.

Passa ao estranho domínio
de deus ou pasárgada-segunda.

Onde não aflora a pergunta
nem o tema da
nem a hipótese do.

Sua poesia pousa no tempo.
Cada verso, com sua música
e sua paixão, livre de dono,
respira em flor, expande-se
na luz amorosa.

A circulação do poema
sem poeta: forma autônoma
de toda circunstância,
magia em si, prima letra
escrita no ar, sem intermédio,
faiscando,
na ausência definitiva
do corpo desintegrado.

Agora Manuel Bandeira é pura
poesia, profundamente.

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As Impurezas do Branco, Carlos Drummond de Andrade, Livraria José Olympio Editora, 4a. edição, 1978, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Os Dias Lindos — crônicas (1977); A Paixão Medida (1980); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Helena Kolody: dois haicais

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RESSONÂNCIA

Bate breve o gongo
Na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo.


OS TRISTES

Em seus caramujos
os tristes sonham silêncios.
Que ausência os habita?



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Boa companhia — haicai (diversos poetas), Organização, Seleção e Introdução de Rodolfo Witzig Guttilla, 2009, primeira reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; a poetisa Helena Kolody (1912 2004), paranaense de Cruz Machado, começou a escrever jovem e, em 1930, já em Curitiba, teve seus poemas publicados em jornais e revistas; professora, lecionou na Escola Normal de Curitiba (Instituto de Educação); publicou Paisagem Interior (1941), Música Submersa (1945), A Sombra no Rio (1951), Vida Breve (1965), Era Espacial e Trilha Sonora (1966), Tempo (1970), Infinito Presente (1980), Sempre Palavra (1985), Poesia Mínima (1986), Ontem, Agora (1991), Reika (1993), Caixinha de Música (1996), além de reedições e coletâneas; em 1992 foi homenageada pelo cineasta Sylvio Back com o filme Babel de Luz, vencedor dos prêmios de melhor curta-metragem e melhor montagem no 25º Festival de Brasília.