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No dia de Natal
Boas-festas, velhinha! Eu
te dou boas-festas,
nestes versos que faço à
glória dessas cãs
lavadas pelo pranto, às
tuas cãs honestas
— linho corado ao sol de
trinta mil manhãs.
Consente que eu te beije
as mãos mumificadas,
trêmulas de sentir o frio
dos desenganos;
mãos secas, espectrais,
tiritantes, cansadas
de tanto abençoar, durante
oitenta anos.
E tomem essas mãos —
camélias fenecidas
que ora o Amor elevou,
quais ramos de oliveira,
ora o Ódio agitou,
crispadas, contraídas —
os versos em que evoco a
tua vida inteira.
Já no tempo em que os teus
cabelos foram pretos
e se usavam bandós e os
toucavas de flores,
um poeta de então
fizera-te uns sonetos,
onde muito falava em —
olhos sonhadores.
Inda os sabes de cor — Os netos
que os confrontem
com os versos de agora...
E pões-te a recitar...
Bons tempos!... E parece
entanto que foi ontem!
Não te podes conter... e
ficas a chorar...
Choras... que a tua vida é
uma flor em desfolhos.
Sonhavam, velam hoje, os
teus olhos tristonhos.
Os sonhos, noutro tempo,
erravam nos teus olhos;
os teus olhos, agora, é
que erram pelos sonhos!
O tempo acumulou lembranças
nos teus ombros,
e andas assim curvada, ao
peso da Saudade...
Olha para o Passado! Olha para
os escombros
do feudo, onde viveu a tua
Mocidade!
Quase um século vai! Evoca
a Meninice
e hás de ver a boneca, o
berço, a Carochinha,
quando não se calcula o
efeito da meiguice
e recebe-se a rir a1 Dor que se avizinha.
Mas depois, assaltou-te
uma cousa esquisita...
Tua carne te fez
promessas, em segredo...
Foi então que te
olhaste... e te achaste bonita...
Que estranhas sensações
enchiam-te de medo!
Uma noite, febril,
acordaste, a tremer...
Que vácuo!... e o coração
fugia-te do peito.
Nunca te pareceu tão
frágil o teu ser!
Carecias de alguém!... de
mais ar!... de mais leito!...
Amaste... e tudo em torno a
ti, cantava e ria!
No teu seio trinava, alacre2, um rouxinol!
Teu corpo era um rosal em
maio: — florescia!
E a tu’alma era como um
diamante ao sol!
Foi-se o primeiro amor...
Foi-se o primeiro engano...
Veio mais um amor... e
foi-se... e um outro veio...
e foi-se... e finalmente
eram tantos por ano,
que já entisicava a
Esperança em teu seio.
Cada amor que chegava,
esboçava em teu rosto
um sorriso fugaz, mas
depois, quando ia3,
riscava em teu semblante a
ruga de um desgosto,
e era o sulco da mágoa o
que jamais saía.
Boas-festas, velhinha! Eu te
dou boas-festas,
nestes versos que faço à
glória dessas cãs
lavadas pelo pranto, às
tuas cãs honestas
— linho corado ao sol de
trinta mil manhãs.
Opuseste o artifício aos
estragos da idade,
e chegaste, talvez, a
pensar num convento...
As tuas Ilusões, a tua
Mocidade,
eram como rosais varridos
pelo vento.
O beijo já pesava em teu
lábio fanado
e exausto de gemer por
teus mortos afetos.
Enfim!... chegou-te enfim,
a noite do noivado!...
Casaste... e contas hoje
alguns tataranetos.
Velhinha encarquilhada,
evoca a laranjeira
que deu flores com que te
engrinaldaste então...
Há muito ela morreu! Mas
tu, nessa canseira,
inda queres viver, arrimada
ao bordão.
As idéias, em ti, já são
ocas e pecas
e como um cantochão,
escapam-te dos lábios.
És uma tradição, cheiras a
flores secas,
e me fazes lembrar roídos
alfarrábios.
O teu tempo! velhinha...
os tempos bons de outrora!...
E crescendo na idade e a
mirrar no tamanho,
tens saudades de tudo, e
lá vais, vida em fora,
— autêntico exemplar os
costumes d’antanho!
Abençoa-me sempre, ao
chegar esta data!
Olha o coveiro, além,
cansado de esperar-te...
Mas a Morte venera as tuas
cãs de prata!
... E o louco do coveiro,
a chamar-te!... a chamar-te...
(Via-Sacra, 2ª edição,
págs. 43-45.)
Notas de Andrade Muricy:
1. Falta esse a;
2. Alacre (paroxítono), pronúncia muito generalizada,
e que o poeta adotava, convém melhor à cadência do verso;
3. Na edição de Via-Sacra
e outros poemas (1944), está:
“quando se ia”.
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Panorama do Movimento Simbolista
Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio,
Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação
e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Marcelo Gama, nome
literário (1878 — 1915), pseudônimo de Possidônio Machado, gaúcho de Mostardas,
de índole inquieta e boêmia, autodidata, viveu de jornalismo e de modestos empregos
e foi poeta, dramaturgo, cronista e editor; em 1898, em Porto Alegre — RS, fundou
o quinzenário Artes e Letras e, em Cachoeira do Sul — RS, a revista A Lua; depois,
transferindo-se para o Rio de Janeiro, continuou a levar a mesma vida de noctívago
e sonhador, vindo a falecer de forma inusitada ao ter sido lançado para fora do
bonde em que viajava, dormindo, em plena madrugada, sobre os trilhos de estrada
de ferro; suas obras: Via Sacra (1902), Avatar (poema dramático em um ato, 1904),
Noite de Insônia (1907), todos publicados em Porto Alegre; em 1944, a Sociedade
Felipe d’Oliveira, no Rio de Janeiro, publicou-lhe as obras completas sob o título
de Via Sacra e Outros Poemas, acrescentando os Dispersos aos livros mencionados;
foi um dos membros fundadores da Academia Rio-Grandense de Letras e é tido por estudiosos
como o poeta que introduziu o Simbolismo no Rio Grande do Sul.

