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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

José de Alencar: Verdes mares bravios...

Livro - Anatologia Escolar Brasileira 1977 - Marques Rebelo
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                    Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba;
                    Verdes mares que brilhais como líquida esmeralda aos raios do Sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros;
                    Serenai verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.
                    Onde vai a afoita jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela?
                    Onde vai branca alcíone buscando o rochedo pátrio nas solidões do oceano?
                    Três entes respiram sobre o frágil lenho que vai singrando veloce, mar em fora.
                    Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano; uma criança e um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.
                    A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas:
                    — Iracema!...
                    O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva da terra; a espaços o olhar empanado por tênue lágrima cai sobre o jirau, onde folgam as duas inocentes criaturas, companheiras de seu infortúnio.
                    Nesse momento o lábio arranca d’alma um agro sorriso.
                    Que deixara ele na terra do exílio?
                    Uma história que me contaram nas lindas várzeas onde nasci, à calada da noite, quando a lua passeava no céu argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares.
                    Refresca o vento.
                    O rulo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas e desaparece no horizonte. Abre-se a imensidade dos mares, e a borrasca enverga como o condor, as foscas asas sobre o abismo.
                    Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje nalguma enseada amiga! Soprem para ti as brandas auras, e para ti jaspeie a bonança mares de leite.
                    Enquanto vogas assim à discrição do vento, airoso barco, volva às brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra onde revoa.

(Trecho inicial
 de Iracema)

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Antologia Escolar Brasileira — Marques Rebelo, primeira edição, 1967, Companhia Nacional de Material de Ensino — MEC, Rio de Janeiro — RJ; José Martiniano de Alencar (1829  1877), cearense de Messejana, formado em Direito em São Paulo (atual USP  Largo São Francisco, fez parte do curso em Olinda  PE), foi advogado, jornalista, crítico literário, político, orador, romancista e teatrólogo; no Rio, colaborou nos jornais Correio Mercantil, Jornal do Commercio, e Diário do Rio de Janeiro, onde escrevia seus textos e folhetins, depois editados em livros; escreveu e publicou os romances Cinco Minutos (1857), O Guarani (inicialmente editado em folhetins, 1857), A viuvinha (1860), Lucíola (1862), Diva (1864), Iracema (1865), As minas de prata (em dois volumes, 1865 e 1866), A pata da gazela (1870), O tronco do ipê (1871), Til (1872), Ubirajara (1874), Senhora (1875) etc.; além de textos para teatro, Verso e reverso (1857), Mãe (1860), crônicas, Ao correr da pena (1874), texto autobiográfico, Como e porque sou romancista (1873) e críticas, Cartas sobre a Confederação dos Tamoios (1856) ...; foi um dos patronos da Academia Brasileira de Letras.