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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Vasko Popa: Não houvesse teus olhos

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Não houvesse teus olhos
Não haveria céu
Em nossa casa cega

Não houvesse teu sorriso
As paredes jamais
Sumiriam dos olhos

Não houvesse teus rouxinóis
Os salgueiros jamais
Transporiam o umbral dócil

Não houvesse tuas mãos
O sol jamais
Pernoitaria em nosso sonho

Vasko Popa

Očiju tvojih da nije

Očiju tvojih da nije
Ne bilo neba
U slepom našem stanu

Smeha tvoga da nema
Zidovi ne bi nikad
Iz očiju nestajali

Slavuja tvojih da nije
Vrbe ne bi nikad
Nežne preko praga prešle

Ruku tvojih da nije
Sunce ne bi nikad
U snu našem prenoćilo
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], edição bilíngue, texto A Poesia Contemporânea da Sérvia  suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca (Kora, 1953), O Campo do Desassossego (Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta (Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Miroslav Antić: Marcha fúnebre dos clowns [trechos]

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović *]

[III]

Quando eu morrer,
tenho ao menos a certeza:
ninguém há de arrastar-se para cuspir-me na face.

Todos hão de tornar-se amigos de um[a] só vez
e buscarão ainda prestar-me uma homenagem qualquer.

Compreendo-vos perfeitamente:
as pessoas mortas não são malfeitores,
tampouco são nojentas,
ou assassinas.

A morte é absolvição.

A morte é a forma mais adequada de partir,
sem apertos de mão,
sem promessas,
em paz.

A morte é a invalidez para os heróis
de crânios cortados,
e a insônia das cinzas
em que as almas pedem ventos de gramados.

Com a partida lucra-se bastante:
emplacam o nome e sobrenome das pessoas
pelos cantos
em papéis finos,
e todos lêem o vosso nome,
lêem,
como se de uma só vez vos tornásseis exposição de relevo,
concerto
ou pré-estréia de teatro.

[VII]

Quando eu morrer,
sentirei apenas pelos pássaros,
porque o tempo todo fiquei sonhando verões,
e o resto todo não possuía para mim
sentido ou significação extraordinários.

E vós sorris
quando descerem o grande clown na sepultura
e seus mundos compreensíveis
cansados das anedotas da vida.

E que tudo passe sem rezas
e sem patriotismo.
Para as mulheres das ruas a roupa íntima
das vestimentas monásticas!

Não fui ícone,
nem comandante militar,
nem cidadão provincial
cujos filhos o reconhecimento educa.

Os circos
foram o meu amor mais oculto
e o meu patriotismo mais policromado.

E multipliquei-me
quando os outros por mim
e pelo futuro da humanidade caíam mortos.
e morria
quando as guerras vindas da treva
novamente ressuscitam enevoadas.

Miroslav Antić

Posmrtni marš klovnova

III

Kad umrem,
bar sam siguran:
niko se neće dovući da mi pljune u lice.

Svi ćete mi odjednom biti prijatelji,
i ko zna kakvo izmisliti priznanje.

Potpuno vas razumem:
mrtvi ljudi nisu zločinci,
nisu gadovi,
nisu ubice.

Smrt je pomilovanje.

Smrt je najpristojniji način da se ode
bez rukovanja,
bez obećanja,
na miru.

Smrt je invalidnima herojima
za odrezane lobanje,
i nesanica pepela
u kojoj duše trava vetrove ištu.

Odlaskom se znatno dobija:
plakatiraju čovekovo ime i prezime
po uglovima
na finijem papiru,
i svako vas čita,
čita,
kao da ste odjednom postali važna izložba,
koncert
ili premijera u pozorištu.

VII

Kad umrem,
samo će mi biti žao ptica,
jer sve vreme sam sanjao letove,
pa ono drugo za mene nije imalo
naročitog smisla i značenja.

A vi se nasmejte
kad spušte u raku velikog klovna
i njegove nerazumljive svetove,
umorne od životnog šegaćenja.

I neka sve prodje bez molitvi
i rodoljublja.
Uličarkama donji veš
od kaludjerskih riza!

Nisam bio ni ikona,
ni vojskovodja,
ni graždanin provincijski
kome bone decu vaspitavaju.

Cirkusi su bili
moja najmračnija ljubav
i moj najšareniji patriotizam,

i radjao sam se
kad su drugi za mene
i za budućnost čovečanstva ginuli,
a umro
kad ratovi iz mraka
ponovo potmulo vaskrsavaju.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca, São Paulo — SP; Miroslav Antić (1932 1986), sérvio de Mokrin, Kikinda, região de Vóivodina, Reino da Iugoslávia, cursou o ensino primário e o médio em sua cidade natal e em Pančevo, onde morou, estudou na Faculdade de Filosofia (Estudos Eslavos, Tcheco e Russo), em Belgrado, foi editor, poeta e, indo além da literatura, também lidou com pintura, jornalismo e cinema, atuando como diretor de longas-metragens e documentários e também como cenografista; escreveu seus primeiros versos aos dezesseis anos, os quais foram publicados na revista Mladost; trabalhou no jornal Pancevac, de Pancevo, foi editor dos jornais Ritam, Dnevnik (ambos de Belgrado), Mladog pokolenja (de Novi Sad) e dirigiu os filmes Areia Sagrada (Sveti pijesak, 1968), Café da Manhã com o Diabo (Doručak s đavlom, 1971), As Folhas são Largas (Shiroko je liješte, 1981), O Leão Terrível ...; suas obras literárias: publicou mais de 20 livros dentre os quais "Desculpado pela primavera" (Ispričano za proljeća, coletânea de poemas-canções, 1950), Blasfêmias da ternura (Psovke nježnosti, 1959), Concertos para 1001 tambores (Koncert za 1001 bubanj, 1974), O Livro Cosido (Sašava Knjiga, 1972), “esta última obra tem encantado crianças, adultos e velhos, de modo indistinto”; foi várias vezes premiado por seus textos, tendo sido eleito membro da Associação de Escritores da Sérvia; parte de seus filmes, especialmente o Café da Manhã com o Diabo, foi proibida pelo governo comunista da época e, na década de 90, foram encontrados, restaurados e tornados público; suas atividades no jornalismo lhe possibilitaram conhecer pessoas cultas e outras culturas, ao viajar por vários países; seus poemas-canções foram traduzidos para os idiomas russo, macedônio, albanês, inglês, turco, húngaro, eslovaco, tcheco, francês, romeno, polonês e esloveno; antes de adquirir fama como poeta, Miroslav Antić já havia sido ajudante de pedreiro, porteiro no cais, operário de cervejaria, marinheiro e trabalhara em teatro de fantoches, em serviços de encanamento e esgoto, em telhados, carpintaria e vários outros ofícios.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Branko Miljković: Orfeu no subterrâneo

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović *]

M. P.

Não te voltas, não! Pois, atrás de ti imenso
mistério há. E alto gorjeia a passarada,
bem acima, enquanto maturesce o intenso
dolor no fruto, e cai a chuva envenenada.

Por astros tendo vagas em sonho. Penso,
único és a não vê-la. Segue a tua caminhada
ela fiel. Porém, quando cair seu denso
brilho sobre ti, nem que esteja ocultada,
acharás a entrada, com os dois cães nefandos.
Dorme, o tempo é mau. Eterno amaldiçoado,
Coração maldoso. E se os mortos em bandos
existem, vivo hão chamar-te, os vitandos.
É esse por detrás de quem o mundo foi criado,
como jura eterna, movimento inebriado.

Branko Miljković

Orfej u Podzemlju

M. P.

Ne osvrći se. Velika se tajna
iza tebe odigrava. Ptice gnjiju
visoko nad tvojom glavom dok beskrajna
patnja zri u plodu i otrovne kiše liju.

Zvezdama ranjen u snu lutaš. Sjajna
onda ide tvojim tragom, ald sviju
jedini je ne smeš videti. O sjaj
na tebe njen dok pada nek je i sakriju
ti ćeš naći ulaz dva mutna psa gde stoje.
Spavaj, zlu je vreme. Zauvek si proklet.
Zlo je u srcu. Mrtvi ako postoje
proglasiće te živim. Eto to je
taj iza čijih leđa nasta svet
ko večina zavera e tužan zaokret.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], edição bilíngue, texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Branko Miljković (1933 1961), nascido em Nis, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), formado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado, foi poeta, ensaísta, resenhista e tradutor: ainda estudante, participou de um grupo literário neo-simbolista; fez contatos e estabeleceu relações de amizade com outros poetas (Vasko Popa entre os quais), recusou adesão e associação partidária, o que acabou resultando na não publicação de sua poesia; seus primeiros poemas denotavam a influência recebida dos simbolistas franceses Paul Valéry e Stéphane Mallarmé, e também do pensamento filosófico de Heráclito; por longos três anos seguidos ouviu nãos das redações de muitas revistas, em 1955 teve seus primeiros poemas publicados na Delo, “abrindo assim as portas de outras editoras e, a partir daí, ganhou as páginas de inúmeras revistas”; em 1956 foi publicada sua primeira coletânea de canções, Acordo-a em vão (Uzalud je budim), obra que obteve “sucesso de público e crítica”; depois vieram as coletâneas de poemas Sangue contra a morte (Smrću protiv smrti, com Blažom Šćepanovićem, 1959), Origem da esperança (Poreklo nade, 1960), O fogo e o nada (Vatra i ništa, 1960), Krv koja svetli (1961) ...; agraciado pela crítica literária e alçado ao topo da poesia sérvia, Branko Miljković foi laureado com o Prêmio Outubro, um dos mais prestigiados de sua época; sabe-se, por sua biografia, que o poeta, “frequentemente visto nas tabernas de Belgrado, onde levava uma vida boêmia e despreocupado, devido ao consumo constante de álcool mostrava seu lado agressivo quando bêbado, se envolvia constantemente em brigas que quase sempre perdia”, e cujo comportamento por várias vezes lhe trazia problemas com o regime [a polícia] de Tito; seus muitos amigos sempre o resgatavam de tais dificuldades; a tais amigos, o poeta chegou a jurar “que nunca mais escreveria”; Branko deixou Belgrado “no outono de 1960”, mudou-se para Zagreb, tornou-se editor do Literarne redakcije zagrebačkog radija (Editorial Literário Escritório da Rádio Zagreb), “provavelmente insatisfeito com sua vida”, continuou se entregando ao álcool e, “na noite entre 11 e 12 de fevereiro” [de 1961], numa floresta próxima à cidade, “segundo a versão oficial, o poeta sérvio suicidou-se”; as razões que levaram Branko a tomar tal atitude permanecem polêmicas, havendo quem, à época, suspeitasse de que o poeta fora morto pela polícia ou apoiadores do regime vigente.

domingo, 14 de setembro de 2025

Vasko Popa: Quartzo

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Para Duchán Ráditch

Sem cabeça sem membros
Aparece
Com o emocionado movimento das ocasiões
Movimenta-se
Com o passo desavergonhado dos tempos
Tudo cinge
Em seu terrível
Interno abraço

Tronco branco liso curto
Sorri com a sobrancelha da lua

Vasko Popa

Belutak

Dušanu Radiću

Bez glave bez udova
Javlja se
Uzbudljivim damarom slučaja
Miče se
Bestidnim hodom vremena
Sve drži
U svom strašnom
Unutrašnjem zagrljaju

Beo gladak nedužan trup
Smeši se obrvom meseca
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca (Kora, 1953), O Campo do Desassossego (Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta (Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

sábado, 30 de agosto de 2025

Dušan Matić: Mar

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović *]

Hoje dormes, densa beldade veranil
maturas em pleno agosto
feito mulher que descobriu que o amor é
tudo e é cinza e é inesgotável
chama que o primeiro sopro reaviva
e um segundo sopro apaga
e um terceiro sopro novamente reaviva
e assim por diante
pelas crianças nascidas e pelas não nascidas
deixa em paz a onda balouçante.

Dormes, densa beldade veranil
Tu, que cegas até o infinito
luz brilhante, brilho no brilho
voragem junto à voragem, voragem na voragem
Todos os gritos de todos os naufrágios em ti se igualam
e hoje se aquietam em tua supérflua harmonia diamantina.

Dorme também tu diante dessa infinitude
diante desse brilho reluzente que lucila
dorme sobre o travesseiro inquieto das lembranças
das lembranças truncadas e dos instantes desperdiçados
dorme, embriagado no esquecimento
dorme, à beira das visões que fitar não soubeste
à margem infértil do conhecimento
à margem da cegueira e do paladar perdido
e no encontro das tempestades
e lá tembém onde a aurora se reparte
e onde tu não estás
nem com o teu grito nem com a verdejante
duração.

Dorme
e tudo o que quiseram as curiosas gaitas dos sentidos
as mãos em trabalho ignotos
e o jejum da eternidade eu não quero nem pelo preço desses
prematuros
nem tampouco pelo preço da vigília por crianças futuras de mulheres
desonradas
quando pela terra passarem desapiedados conquistadores
nos desertos dos devaneios tudo isso são cumes desnudados
onde se põem as noites e as canções não terminadas
de egoístas amantes satisfeitos.

No primeiro catre desvendarás o mapa do mundo
desenharás todas as coordenadas e abrirás todos os compassos
daqui até a África
as linhas são as mesmas, o silvar do vento é o mesmo, o chamado do
deserto é o mesmo,
e as escusas mãos no laço de carne as mesmas como no coração do
primeiro caminhante.

É melhor que durmas
Não sorri quando te agradar algo que não sabias que iria agradar-te
cobre a tua cabeça com ambas as mãos
e diz quem poderá romper esse escudo de granizo.

Inquietações e madições rebentarão quando com fragor
baixares os teus inaudíveis lábios sobre amargos lábios
que rasgam o mundo no horror da alagria e no horror do sofrimento
ó rosa do adocicado horror, ó rosa da não digesta ausência, ó mesma
rosa do horror
ó rosa selvagem do misto sangue
dia, e não há dia
noite, e não há noite
estrelas ou fluir de sangue apagados.

É melhor que durmas
o gato se estira sobre a parede ensombreada
as uvas amadurecem nas parreiras
o reconhecimento estendeu-se sobre o mundo.

dorme
duas tardias borboletas apressam-se rumo ao sol traiçoeiro
e com a vinda da noite desaparecerão
e duas belezas com elas também.

Dorme, e quando nada mais restar tu
dorme, o amor espera pelo amanhã e por ti e pelas encantadas
asas do espaço onde ardem as cores da eternidade
mesmo quando há negror nas raízes do teu olhar e nos teus feridos
seios

e quando te seduz a floresta perdida de teu sangue
de tua mortal verdade.

Dorme,
a eternidade é aquele fulgor, aquela infinitude
aquela ensandecida harmonia sobre o vloco dos naufrágios
e o teu sonho além de todas as justiças e todas as injustiças
a eternidade é aquela que se engalfinha inquieta diante de teus
pés mortificados
e obediente tombará diante dos adormecidos, amados, cruéis
pés teus.

Dušan Matić

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Spavaš danas, gusta lepoto leta
zriš u srcu avgusta
kao žena koja je poznala da ljubav je
sve i pepeo i opet neiscrpna
žar što ga prvi dah raspiri
i drugi dah ugasi
i treći dah opet raspiri
i tako redom
za decu rođenu i decu nerođjenu
bujan talas za to ne mari.

Spavaš, gusta lepoto leta
o ti zaslepljujući nedogledu
sjaj do sjaja, sjaj u sjaju
ambis do ambisa, ambis u ambisu
Svi krici svih brodolomnika u tebi su izjednačeni
i smireni danas u tvom izlišnom dijamantnom skladu.

Spavaj i ti pred tim nedogledom
pred tim sjajem od sjaja svakog sjajnijim
spavaj na nemirnom uzglavlju uspomena
krnjih uspomena i promašenih trenutaka
spavaj, pijana od zaborava
spavaj na ivici čarolija koje nisi znala da vidiš
na jalovoj ivici saznanja
na ivici slepila i izgubljenog ukusa
i na dodiru oluja
i tamo gde se deli zora
i gde te nema
ni krikom ni zimzelenom
trajanja.

Spavaj
šta su htele smešne gajde smisla
šta ruke na nepoznatom poslu
post večnosti ja neću ni po cenu ove nedonoščadi
ni po cenu svanuća za decu buduću žena obeščašćenih
kad zemljom prodju bezazleni osvajači
na puste fatamorgane
to su samo ćelavi vrhunci
gde zalaze večeri i pesme nedopevane
sitih sebičnih ljubavnika.

Na prvom krevetu rasklopićeš mapu sveta
ispisaćeš sve koordinate i raširićeš sve šestare
odavde pa do Afrike
isti je stroj, isti je šum vetra, isti zov pustare
i iste turobne ruke u zamci mesa kao u srcu prvog prolaznika.

Bolje spavaj.
Ne smej se kad zavoliš što nisi znala da ćeš zavoleti
glavu svoju obujmi rukama obema
taj obruč od tuči ko će moći da slomi.

Prsnuće damari i kletve tek kad skrušeno
spustiš neuslišene usne na gorke usne
što cepaju svet na užas radosti i na užas patnje.
O ružo slatkog užasa, o ružo nesvarene otsutnosti, o ista ružo užasa
o divlja ružo pomešane krvi
dan, a nema dana
noć, a nema noći
zvezde i krvotok ugašeni.

Bolje spavaj,
mačka se proteže na osenčenom zidu
groždje zri na čokotima
bonača je polegla nad svetom
spavaj
dva pozna leptira žure varljivom suncu
i dolaskom noći nestaće ih
i dve lepote s njima.

Spavaj, kad ništa drugo ne preostaje ti
spavaj, ljubav čeka na sutra i na tebe i na omamljena
krila prostora gde gore boje večnosti
i kad je tama u korenju tvog vida i u tvojim ranjavim grudima
i kad te mami izgubljena prašuma tvoje krvi
tvoje smrtne istine.

Spavaj,
večnost je taj sjaj, taj nedogled
taj uzaludni sklad nad paperjem brodolomnika
i tvoj san preko svih pravdi svih nepravdi

večnost je taj talas što nesmiren vrvi pred tvojim
smrtnim nogama
taj talas silan ciklon što lomi katarke
i poslušno pašće pred nemilosrdnom, ljubljenom, zaspalom
nogom tvojom.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Dušan Matić (1898 1979[?] [1980]), iugoslavo nascido em Tchúpria, matriculou-se em Filosofia na Sorbonne Paris em 1917, motivado por doença interrompeu o curso e, de volta a Belgrado, completou o curso em 1922, formando-se pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado, foi poeta do surrealismo, crítico, ensaísta, professor e tradutor; viajou pela França, Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda e Dinamarca; foi participante do grupo surrealista de Belgrado e de seu almanaque surrealista Nemoguće (O Impossível); colaborou com os periódicos de vanguarda modernistas surrealistas e suas dissenções: revistas Zenit [Zenith], Putevi (Estradas), Svedočanstva (Testemunhos), da qual o poeta foi um iniciador, Naša stvarnost (Nossa Realidade) e 50 u Evropi [50 na Europa], todas de Belgrado, nas quais publicou poemas, ensaios e outros escritos; ainda em 1922, já em Dresden-Alemanha, estudou filosofia romântica alemã; antes, aos 16 anos e sob o pseudônimo de Uroš Jovanović, publicara sua primeira poesia no Radničke novine (Jornal dos Trabalhadores) do Partido Social-Democrata Sérvio; em duas épocas, foi professor de ensino médio e lecionou línguas sérvia e francesa; suas obras: Položaj nadrealizma u društvenom procesu (em colaboração com Oskar Davičo e Đorđe Kostić, A Posição do Surrealismo no Processo Social, 1932), Gluho doba (Os Tempos Surdos, romance, 1940), Bagdala (poemas [cancioneiro emotivo], 1954), Buđenje materije (O Despertar da Matéria, ensaio, 1959), Proplanak i um (coleção de ensaios, artigos e entrevistas, O Prado e a Mente, 1969), Bitka oko zida (seleção de ensaios, Uma luta sobre o muro, 1971), André Breton oblique (1976) Tajni plamen (Chama Secreta, 1976) ...; traduziu Émile Zola (Germinal e Son Excellence Eugène Rougon) e Ivan Pavlov (obra sobre reflexos condicionados), foi cotradutor de Roger Martin du Gard (do multivolume Les Thibault: Le Cahier gris [O Caderno Cinzento]); Dušan Matić, que sofreu prisões por suas atividades e teve que se aposentar de dar aulas, sem condenação, foi um dos principais membros da Associação de Cientistas, Escritores e Artistas da Sérvia.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Miodrag Pavlović: Réquiem

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

desta feita
morreu alguém por perto

Réquiem
no cinzento parque
sob o céu carrancudo

As mulheres seguem o corpo morto
e no quarto vazio restou a morte
fechando as cortinas

Senti
as flores ficaram mais leves
por um cérebro humano
E o agradável silêncio da tarde
e menino descalço sentado à porta
mastiga uvas

Quem permanece fiel
àquele que perde
Sem pressa com a morte
ninguém se parece com ninguém
os filhos pensam nos brinquedos
Sem despedidas nas partidas
isso é risível e censurável

Miodrag Pavlović

Rekvijem

ovoga puta
umro je neko blizu

Rekvijem
u sivom parku
pod zatvorenim nebom

Žene su pošle za mrtvim telom
smrt je ostala u praznoj sobi
i spustila zavesu

Osetite
svet je postao lakši
za jedan ljudski mozak
Prijatna tišina posle ručka
bosonog dečak sjedi na kapiji
i jede groždje

Zar iko ostane veran
onome što izgubi
Ne žurite sa smrću
niko ni na koga ne liči
sinovi misle na igračke
i ne opraštajte se pri odlasku
to je smešno I pogrdno

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Miodrag Pávlovitch (1923[?] 1928 2014), nascido em Novi Sad, região norte da Sérvia, formou-se pela Faculdade de Medicina de Belgrado, atuou como médico num breve período, passou a dedicar-se “exclusivamente” à literatura, foi poeta, contista, ensaísta, dramaturgo, editor, tradutor, professor universitário e antologista; estreou em 1953 com seu livro 87 Pesama e a partir daí tornou-se conhecido; por longo período foi editor da editora Prosveta, em Belgrado; também em Belgrado, foi diretor do Teatro Nacional e atuou como dramaturgo; suas obras: 87 Pesama ([87 песама] 87 canções, coleção de poemas, 1952), Stub sećanja ([Стуб сећања], Pilar da Memória, 1953), Hododarje ([Хододарје], 1971), Svetli i tamni praznici ([Светли и тамни празници] Feriados brilhantes e escuros, 1971), Pevanja na Viru ([Певања на Виру] Canções sobre a fonte, 1977), Bekstvo po Srbiji ([Бекства по Србији] Fuga para a Sérvia, 1979), Ulazak u Kremonu ([Улазак у Кремону] Entrando em Cremona, 1989), Cosmologia profanata ([Цосмологиа профаната] Cosmologia do Profano, 1990), e outros títulos; teve poemas e ensaios traduzidos para todas as línguas europeias e diversas línguas orientais; Miodrag Pávlovitch organizou várias antologias poéticas, com destaque para a “Antologija srpskog pesništva od XIII do XX veka ([Антологија српског песништва од XIII до XX века] Antologia de Poesia Sérvia do Século XIII ao Século XX, 1ª edição em 1964, e várias vezes reeditada); o poeta foi membro da Academia Europeia de Poesia e da Academia Sérvia de Ciências e Artes; recebeu premiações por várias de suas obras.