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sábado, 19 de janeiro de 2019

João Cabral de Melo Neto: Uma faca só lâmina

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Para Vinícius de Moraes

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

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João Cabral de Melo Neto

[translated by Galway Kinnell]

A Knife All Blade

For Vinícius de Moraes

Like a bullet
buried in flesh
weighting down one side
of the dead man,

like a bullet
made of a heavier lead
lodged in some muscle
making the man tip to one side,

like a bullet fired
from a living machine
a bullet which had
its own heartbeat,

like a clock's
beating deep down in the body
of a clock who once lived
and rebelled,

clock whose hands
had knife-edges
and all the pitilessness
of blued steel.

Yes, like a knife
without pocket or sheath
transformed into part
of your anatomy,

a most intimate knife
a knife for internal use
inhabiting the body
like the skeleton itself

of the man who would own it,
in pain, always in pain,
of the man who would wound himself
against his own bones.
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An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry — Edited, with Introduction, by Elizabeth Bishop and Emanuel Brasil, 1972, Wesleyan University Press, Middletown, Connecticut — USA; João Cabral de Melo Neto (1920  1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.