quarta-feira, 30 de abril de 2025

Paul Celan: Salmo


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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Ninguém nos molda de novo com terra e barro,
ninguém evoca o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por ti queremos
florescer.
Ao teu
encontro.

Um nada
éramos nós, somos, continuaremos
sendo, florescendo:
a rosa-de-nada, a
rosa-de-ninguém.

Com
o estilete claralma,
o estame alto-céu,
a coroa rubra
da palavra púrpura, que cantamos
sobre, oh, sobre
o espinho.

(A rosa-de-ninguém, 1963)

Paul Celan

Psalm

Niemand knetet uns wieder aus Erde und Lehm,
niemand bespricht unsern Staub.
Niemand.

Gelobt seist du, Niemand.
Dir zulieb wollen
wir blühn.
Dir
entgegen.

Ein Nichts
waren wir, sind wir, werden
wir bleiben, blühend:
die Nichts-, die
Niemandsrose.

Mit
dem Griffel seelenhell,
dem Staubfaden himmelswüst,
der Krone rot
vom Purpurwort, das wir sangen
über, o über
dem Dorn.

(Die Niemandsrose, 1963)
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Cristal: Paul Celan, Seleção, Tradução e Nota Biobibliográfica de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue, Apresentação de Márcio Seligmann Silva, 1999 (3ª reimpressão, 2014), Iluminuras, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

terça-feira, 29 de abril de 2025

Pierre Ronsard: Sonetos para Helena

 
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[traduzido por Mário Laranjeira]

XLIII

Quando fores bem velha, à noite, à luz da vela,
Sentada ao pé do fogo, e dobando e fiando,
Dirás, aos versos meus, e te maravilhando:
“Ronsard me celebrava ao tempo em que era bela.”

Não terás serva então que, a ouvir notícia tal,
Ao peso do labor meio cochilando,
Ao meu nome não vá logo se despertando,
Bendizendo o meu nome em louvor imortal.

Eu, debaixo da terra, um fantasma sem osso,
Pela sombra murtosa acharei meu repouso;
Tu, ao pé da lareira, uma velha encolhida,

Vais chorar meu amor e tua soberba vã.
Vive, se me dás fé, não deixes pra amanhã:
Colhe já, sem temor, as rosas desta vida.

-o-

Espero e temo, calo-me e suplico,
Ora sou gelo, e ora fogo ardente,
Admiro tudo e nada me é atraente,
Solto-me e logo ligo-me e complico.

Nada me apraz, entediado eu fico,
Meu coração é fraco, e sou valente,
Do ardor à baixa fé vou de repente,
De Amor duvido, e quando o desafio,

Mais eu me pico, e mais me torno esquivo,
Amo ser livre e quero estar cativo,
Cem vezes morro e tenho outra nascença.

Prometeu de paixões por ser eu passo,
E perco, para amar, toda potência,
Nada podendo, o que eu posso faço.

Pierre Ronsard

Second Livre des Sonnets pour Hélène

XLIII

Quand vous serez bien vieille

Quand vous serez bien vieille, au soir, à la chandelle,
Assise auprès du feu, dévidant et filant,
Direz, chantant mes vers, en vous émerveillant:
“Ronsard me célébrait du temps que j’étais belle.”

Lors, vous n’aurez servante oyant telle nouvelle,
Déjà sous le labeur à demi sommeillant,
Qui au bruit de mon nom ne s’aille réveillant
Bénissant votre nom de louange immortelle.

Je serai sous la terre, et fantôme sans os,
Par les ombres myrteux je prendrai mon repos;
Vous serez au foyer une vieille accroupie,

Regrettant mon amour et votre fier dédain.
Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain:
Cueillez dès aujourd’hui les roses de la vie.

-o-

J'espère et crains

J'espère et crains, je me tais et supplie,
Or je suis glace et ores un feu chaud,
J'admire tout et de rien ne me chaut,
Je me délace, et puis je me relie.

Rien ne me plaît sinon ce qui m'ennuie,
Je suis vaillant et le cœur me défaut,
J'ai l'espoir bas, j'ai le courage haut,
Je doubte Amour, et si je le défie,

Plus je me picque, et plus je suis rétif,
J'aime être libre et veux vivre en captif,
Cent fois je meurs, cent fois je prends naissance.

Un Prométhée en passions je suis;
Et pour aimer perdant toute puissance
Ne pouvant rien je fais ce que je puis.

[Sonnets pour Hélène — 1578], (Poésies diverses — 1587)
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Poetas franceses da Renascença [edição bilíngue], Seleção, Apresentação e Tradução de Mário Laranjeira, 1ª edição, agosto de 2004, Martins Fontes Editora, São Paulo — SP; Pierre Ronsard (1524 1585), francês de Vendôme, próximo à aldeia de Couture-sur-Loir, à época Reino da França, foi poeta, invariavelmente prestou serviços à Corte: foi pajem do delfim Francisco [filho de Francisco I, rei da França, patrono das artes e iniciador/impulsionador do Renascimento francês] e, depois, esteve com Carlos Duque de Orleans, Madalena de França, esposa do Rei Jaime V da Escócia, depois, com o próprio Jaime V, esteve ainda a serviço na Escócia, em Londres, em Flandres [hoje, região da Bélgica]; após uma doença tê-lo feito perder parte da audição, teve que interromper seus serviços [diplomáticos] à Corte, dedicou-se aos estudos [processos literários da literatura italiana: Dante, Petrarca, Boccaccio], leu Lemaire de Belges, Guillaume Coquilard, Clément Marot, compôs algumas odes orácicas [de Horácio], mas também prestou serviços ao Rei Charles d’Orleans [Carlos II] e, após a morte deste, a seu delfim Henri [II]; suas obras: Odes (Les Odes, 1550 1552), Amores (Les Amours, 1552 1578), Hinos (Les Hymnes, 1555 1556), Discursos (Les Discours, 1562 1563), Sonetos para Helena (Sonnets pour Hélène, 1578), Os Amores de Cassandra [Les Amours de Cassandre, coleção de poemas em decassílabos, extraídos de Les Amours) ...; teve poemas musicados por músicos de várias épocas.

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Paulo Leminski: [meus amigos]

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meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam
outra coisa

presença
olhar
lembrança calor

meus amigos
quando me dão
deixam na minha
a sua mão


[Não fosse isso e era menos/ Não fosse tanto e era quase, 1980,
Melhores poemas de Paulo Leminski (sel. Fred Góes e
Álvaro Marins), 6ª ed., São Paulo: Global, 2002, p.67.]
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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Paulo Leminski Filho (1944 1989), paranaense de Curitiba, foi escritor, poeta, crítico literário, tradutor, professor, músico e letrista; como seminarista da Ordem dos Beneditinos, no Mosteiro de São Bento em São Paulo, iniciou seus estudos de latim e grego; como judoca faixa-preta, estudou o idioma japonês e tomou contato com a cultura e a poesia do Oriente; participante do I Congresso Brasileiro de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, conheceu o poeta Haroldo de Campos, de quem se tornou amigo e parceiro em várias obras; cursou Direito e desistiu, cursou Letras e desistiu várias vezes; foi professor de História e de Redação em cursos pré-vestibulares, professor de judô, atuou em publicidade; após estréia com seus textos, na revista Invenção, do poeta Décio Pignatari, colaborou em outros periódicos e revistas de vanguarda; teve textos musicados e fez parcerias com Caetano Veloso e outros músicos, compositores e letristas; traduziu obras de Petrônio, Alfred Jarry, James Joyce, John Fante, John Lennon, Samuel Beckett, Yukio Mishima, conhecedor que era dos idiomas inglês, francês, latim, grego, japonês e espanhol; suas obras: Matsuo Bashô (ensaio biográfico, 1983), Caprichos e Relaxos (poesia, 1983), Cruz e Sousa (ensaio biográfico, 1983), Descartes com lentes (conto, 1983), Jesus a.C. (ensaio biográfico, 1983), Agora é que são elas (romance, 1984), Anseios crípticos (1986), Leon Trotski: a paixão segundo a revolução (ensaio biográfico, 1986), Distraídos venceremos (poesias, 1987), Guerra dentro da gente (1988), Catatau (prosa poética experimental, 1989), 40 Clics (poesia, com fotografias de Jack Pires, 1990), La vie en close (poesia, 1991), Uma carta uma brasa através: cartas a Régis Bonvincino — 1976 a 1981 (1992), Metamorfoses: uma viagem pelo imaginário grego (1994), Winterverno (1994), O ex-estranho (1996) e outros; recebeu premiações por sua obra.

domingo, 27 de abril de 2025

Giosuè Carducci: A morte de Eugênio Napoleão

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Este a inconsciente azagaia bárbara
prostrou tirando dos olhos fúlgidos
vida em que riam as visões
flutuantes pelo azul imenso.

Outro beijado pelas austríacas
plumas, sonhando pela alba gélida
a diana e o rufo pugnasse,
dobrou como pálido jacinto.

Ambos das mães distantes: e as mórbidas
tranças florentes de puerícia
eram como à espera do sulco
da maternal carícia. E em vez,

a sombra viu estas almas núbiles
sem um conforto: e até nem o pátrio
louvor seguia os rastros seus
com voz de amor e com voz de glória.

Isto não foi, ó filho de Hortênsia,
o prometido na infância,
pois em Paris tu lhe pediste
a sorte longe de rei de Roma.

De Sebastopol paz e vitória
iam ninando com as asas límpidas
o pequeno: Europa admirava:
a coluna esplendia como um fogo.

Mas de dezembro, mas de brumário
cruento é o lodo, a neblina é pérfida:
não crescen arbustos pela aura,
ou dão frutos de dinza e veneno.

Ó solitária casa de Ajaccio,
que grandes qüercos sombreiam vírides
e os cumes coroam serenos
diante de quem o amor é cantiga!

Aí Letícia, belo nome itálico,
feito de dor por todos os séculos,
esposa foi: foi mãe ditosa
por breve tempo e apenas e ali,

lançado aos tronos o raio último,
dadas ao povo leis de concórdia,
devias, cônsul, entre o mar
e o deus a que oras retirar-te.

Familiar sombra, mora Letícia
na casa vaga: nenhuma auréola
cesária a cinge: ora a mãe corsa
existe posta entre tumbas e aras.

Sou fatal filho, o de olhos de águia,
as filhas, bem como a aurora esplêndidas,
netos que são bela esperança,
todos fenecem bem longe dela.

Vai pelas noites a corsa Níobe,
está na porta aonde iam férvidos
para o batismo os filhos e ora
estende os braços pelo mar árduo.

Implora, implora, se das Américas,
se da Inglaterra, se da ardente África
alguém de sua trágica prole
a morte faça vir ao seu seio.

(Odes bárbaras)


Per la morte di Napoleone Eugenio

Questo la inconscia zagaglia barbara
prostrò, spegnendo li occhi di fulgida
vita sorrisi da i fantasmi
fluttuanti ne l’azzurro immenso.

L’altro, di baci sazio in austriache
piume e sognante su l’albe gelide
le dïane e il rullo pugnace,
piegò come pallido giacinto.

Ambo a le madri lungi; e le morbide
chiome fiorenti di puerizia
pareano aspettare anche il solco
de la materna carezza. In vece

balzâr ne ’l buio, giovinette anime,
senza conforti; né de la patria
l’eloquio seguivali al passo
co i suon’ de l’amore e de la gloria.

Non questo, o fósco figlio d’Ortensia,
non questo avevi promesso al parvolo:
gli pregasti in faccia a Parigi
lontani i fati del re di Roma.

Vittoria e pace da Sebastopoli
sopían co ’l rombo de l’ali candide
il piccolo: Europa ammirava:
la Colonna splendea come un faro.

Ma di decembre, ma di brumaio
cruento è il fango, la nebbia è perfida:
non crescono arbusti a quell’aure,
o dan frutti di cenere e tòsco.

O solitaria casa d’Aiaccio,
cui verdi e grandi le querce ombreggiano
e i poggi coronan sereni
e davanti le risuona il mare!

Ivi Letizia, bel nome italico
che omai sventura suona ne i secoli,
fu sposa, fu madre felice,
ahi troppo breve stagione! ed ivi,

lanciata a i troni l’ultima folgore,
date concordi leggi tra i popoli,
dovevi, o consol, ritrarti
fra il mare e Dio cui tu credevi.

Domestica ombra Letizia or abita
la vuota casa; non lei di Cesare
il raggio precinse: la còrsa
madre visse fra le tombe e l’are.

Il suo fatale da gli occhi d’aquila,
le figlie come l’aurora splendide,
frementi speranza i nepoti,
tutti giacquer, tutti a lei lontano.

Sta ne la notte la còrsa Niobe,
sta sulla porta donde al battesimo
le uscíano i figli, e le braccia
fiera tende su ’l selvaggio mare:

e chiama, chiama, se da l’Americhe,
se di Britannia, se da l’arsa Africa
alcun di sua tragica prole
spinto da morte le approdi in seno.

(Odi Barbare [prima edizione] — 1877)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada” por manter suas opiniões políticas não ao gosto das comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença que o poeta, já aos quatorze anos, passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, de Homero, Eneida, de Virgílio, Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura Italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Inno a Satana (1863), Levia Gravia [1857—1870?] (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860—1870], Levia Gravia [1857—1870] e Juvenilia [1850—1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850—1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850—1907], Prose Giovanili [1851—1859], Primi Sagi [1857—1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858—1901], Petrarca e Boccacio [1861—1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862—1895], Dante [1864—1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868—1897], Leopardi e Manzoni [1873—1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

sábado, 26 de abril de 2025

Guilhermino Cesar: Um soneto? Escrevo um, dois, três, escrevo . . . [soneto]

 
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[Sonetos da Pergunta]

V

Um soneto? Escrevo um, dois, três, escrevo
quantos sonetos puder. É no soneto
que se soma o que é ao que não foi,
numa alquimia de sujeitos hábeis,

de sujeitos que não sendo loucos, nem
sábios, perguntam ao sol o que está
na ostra, e ao micróbio de Washington
o que simplesmente ainda não nasceu

em Fez. Ora, assim já não é mesmo possível
encontrar-se um recanto onde se possa ser
discretamente pequenino e sério.

Faço sonetos por não ser el-Rei,
faço sonetos porque existe um som,
mensageiro do fim e do mistério.

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Sistema do Imperfeito & Outros Poemas — Guilhermino César, 1977, Editora Globo, Porto Alegre — RS; Guilhermino César da Silva (1908 1993), mineiro nascido em Pinheiros, atual Pinhotiba, distrito de Eugenópolis, aprendeu as primeiras letras com Zizinha Negreiros, professora particular, estudou no Grupo Escolar Astolfo Dutra e no Ginásio Municipal de Cataguases, iniciou o curso de Medicina, desistiu, formou-se em Direito, foi escritor, crítico literário, administrador público, jornalista, professor, historiador e poeta; escreveu seus primeiros versos aos oito anos de idade, fez parte da geração modernista mineira e participou ativamente, inclusive na fundação, da modernistíssima revista Verde (19271929), editada em Cataguases MG; o poeta foi um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde cataguasense, que deu origem à verdejante revista; na década de 1940 mudou-se para Porto Alegre RS e deu continuidade às atividades no magistério, à política e à cultura; suas obras: além de sua atuação na Verde, Guilhermino escreveu e publicou Meia-Pataca (em parceria com Francisco Inácio Peixoto, 1928), Sul (romance, 1939), História da Literatura do Rio Grande do Sul: 1737 — 1902 (1956), Ladrão de Cavalo (1964), Lira Coimbrã e Portulano de Lisboa (poesia, ambos em 1965), O embuçado de Erval — mito e poesia de Pedro Canga (1968), Arte de matar (1969), Qorpo-Santo: relações naturais e outras comédias (1969), Primeiros cronistas do Rio Grande do Sul: 1605 — 1801 (1969), Sistema do Imperfeito & Outros Poemas (1977), Banhados (1986), Cantos do canto chorado (poesia, 1990) e outros títulos; no jornalismo, dirigiu o jornalzinho Mercúrio, da Associação dos Empregados no Comércio de Cataguases, na década de 20, atuou, desde a fundação, na já mencionada Verde, foi um dos fundadores da revista Leite Criôlo (em Belo Horizonte, 1929), secretariou os jornais A Tribuna e O Diário, ambos também de BH, além de ter colaborado em outros periódicos; no magistério, foi professor-fundador e depois diretor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Minas Gerais, e ali lecionou Literatura Brasileira e História Moderna, professor, também de Literatura Brasileira, na Faculdade de Filosofia da UFRGS e na Universidade de Coimbra Portugal; assumiu funções públicas em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

John Donne: A mensagerm

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Devolve os pobres olhos que eu perdi
E que te habitam, desde que te vi.
Mas se eles já sofreram tal castigo
        E tantos danos,
        Tantos enganos,
                Tal rigor,
                Que a dor
Os fez inúteis, guarda-os contigo.

Devolve o coração que te foi dado
Sem jamais cometer qualquer pecado.
Porém, se ele contigo já aprendeu
        Como se mata
        E se maltrata
                E se tortura
                Uma alma pura,
Guarda, também, esse ex-pedaço meu.

Melhor, devolve olhos e coração,
Para que eu possa ver a traição,
E possa rir, quando chegar a hora
        De te ver
        Padecer
                Por alguém
                Que tem
Um coração como o que tens agora.

John Donne

The Message

Send home my long strayed eyes to me,
Which, (Oh) too long have dwelt on thee;
Yet since there they have learn'd such ill,
        Such forc’d fashions,
        And false passions,
                That they be
                Made by thee
Fit for no good sight, keep them still.

Send home my harmless heart again,
Which no unworthy thought could stain;
Which if it be taught by thine
        To make jestings
        Of protestings,
                And cross both
                Word and oath,
Keep it, for then 'tis none of mine.

Yet send me back my heart and eyes,
That I may know, and see thy lies,
And may laugh and joy, when thou
        Art in anguish
        And dost languish
                For some one
                That will none,
Or prove as false as thou art now.
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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativa de Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; John Mayra Donne (1572 1631), inglês e londrino, estudou na Hart Hall, atual Hertford College Oxford, depois consta ter ingressado na Universidade de Cambridge, ter concluído o curso, mas não ter sido diplomado devido sua recusa da prestação do Oath of Supremacy Juramento de Supremacia ,  juras de lealdade à rainha, protestante exigido dos formandos, por ele ser da religião católico-romana; foi poeta, pastor, diácono e sacerdote, advogado e reitor da Saint Paul Cathedral, em Londres; de sua biografia, também consta que após os estudos viajou pela Espanha e Itália e, de retorno a Londres, estudou Direito, primeiro no Thavies Inn e depois no Lincoln’s Inn; a poesia de John Donne, em sua grande maioria, não foi publicada com o poeta ainda em vida; seu legado poético foi preservado em cópias manuscritas que eram feitas e distribuídas a um pequeno e seleto grupo de admiradores e amantes da poesia; ao longo do século XVIII e grande parte do XIX, o poeta e sacerdote foi pouco lido e pouco apreciado, consta que apenas no final do ano 1800 “a poesia de Donne foi avidamente adotada por um grupo crescente de leitores e escritores de vanguarda. Sua prosa permaneceu praticamente despercebida até 1919”; publicações do autor: poemas: The Anniversaries (1621), Holy Sonnets (1633), The Good-Morrow (1633), The Canonization (1633), Love Poems (1905), John Donne: Divine Poems, Sermons, Devotions and Prayers (1990), The Complete English Poems (1991), John Donne’s Poetry (1991), John Donne: The Majors Works (2000), Poems on Several Occasions (2001), The Complete Poetry and Selected Prose of John Donne (2001), prosa: Devotions Upon Emergent Occasions and Death’s Duel (1624), Six Sermons (1634), Fifty Sermons (1649), Essayes in Divinity (1651), Paradoxes, Problems, Essayes, Characters (1652), Sermons Never Before Published (1661)...; John Donne “foi um importante poeta inglês da escola metafísica” e “é frequentemente considerado o maior poeta de amor da língua inglesa”.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

José Régio: Narciso

 
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Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico eu bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
...Lá no fundo do poço em que me espelho!

(Sonetos)
(Biografia — 1929)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira (1901 1969), português de Vila do Conde, fez seus primeiros estudos no liceu da cidade natal, formado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi escritor, poeta, professor, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, memorialista, epistológrafo, historiador de literatura, editor e diretor de revista; ainda jovem, publicou seus primeiros poemas nos jornais vilacondenses A República e O Democrático; em sua trajetória literária colaborou com seus textos nas revistas portuenses Crisálida e A Nossa Revista e nas coimbrãs Bisâncio e Tríptico, além de em outros periódicos “nacionais, ultramarinos, regionais e locais”, revista luso-brasileira Atlântico entre os quais; foi co-fundador da revista Presença, na companhia de João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca; lecionou no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, e no Liceu de Portalegre, no qual veio a se aposentar; suas obras: em poesia: Poemas de Deus e do Diabo (1925), Biografia (1929), As Encruzilhadas de Deus (1936), Fado (1941), A Chaga do Lado (1954), Filho do Homem (1961), Cântico Suspenso (1968), ... em prosa: Jogo da Cabra Cega (romance, 1934), O Príncipe com Orelhas de Burro (romance, 1942), A Velha Casa I — Uma gota de sangue (romance, 1945), depois vieram A Velha Casa II, III, IV  e V, de 1947 a 1966, Histórias de Mulheres (novelas, 1946), Há Mais Mundos (contos, 1962), Ensaios de Interpretação Crítica (1964), Três Ensaios sobre Arte (1967), ... para teatro: Jacob e o Anjo (1940), Benilde ou a Virgem Maria (1947), El-Rei Sebastião (1949), ... e outros textos, parte deles em edição póstuma, tais como epistolografias e memória; José Régio, além deste seu pseudônimo incorporado em sua biografia, também fez uso dos alterônimos literários João Bensaúde, Pedro Serra e Lelito.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

joão cabral de melo neto: o ovo de galinha

 
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I
Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
maciçamente ovo, num todo.

Sem possuir um dentro e um fora,
tal como as pedras, sem miolo:
é só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.

No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo,
a mão que o sopesa descobre
que nele há algo suspeitoso:

que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.

II
O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.

E que se encontra também noutras
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas

cujas formas simples são obra
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.

No entretanto, o ovo, e apesar
de pura forma concluída,
não se situa no final:
está no ponto de partida.

III
A presença de qualquer ovo,
até se a mão não lhe faz nada,
possui o dom de provocar
certa reserva em qualquer sala.

O que é difícil de entender
se se pensa na forma clara
que tem um ovo, e na franqueza
de sua parede caiada.

A reserva que um ovo inspira
é de espécie bastante rara:
é a que se sente ante um revólver
e não se sente ante uma bala.

É a que se sente ante essas coisas
que conservando outras guardadas
ameaçam mais com disparar
do que com a coisa que disparam.

IV
Na manipulação de um ovo
um ritual sempre se observa:
há um jeito recolhido e meio
religioso em quem o leva.

Se pode pretender que o jeito
de quem qualquer ovo carrega
vem da atenção normal de quem
conduz uma coisa repleta.

O ovo porém está fechado
em sua arquitetura hermética
e quem o carrega, sabendo-o,
prossegue na atitude regra:

procede ainda da maneira
entre medrosa e circunspecta,
quase beata, de quem tem
nas mãos a chama de uma vela.

[Serial, 1961 (Terceira feira), In: Poesia completa
e prosa (org. Antonio Carlos Secchin), 2ª ed.,
Rio de Janeiro: Nova Aquilar, p.178-9.]

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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; João Cabral de Melo Neto (1920 1999), pernambucano de Recife, fez seus estudos no Colégio Ponte d’Uchoa, dos Irmãos Maristas, ali concluiu o secundário, mudou-se para o Rio de Janeiro, concursou-se pelo Itamaraty, serviu na carreira diplomática em vários países e foi poeta, sendo considerado um dos maiores autores da poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941), Juan Miró (1952); Da função moderna da poesia (1957), ...; por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior, entre os quais o Prêmio Camões (1990), concedido pelo governo português a autores de língua portuguesa; foi eleito membro da ABL Academia Brasileira de Letras.