quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Augusto de Lima: Evangelho e Alcorão


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Num tom de voz que a piedade ungia,
falava o padre ao crente do Alcorão,
que no leito de morte se estorcia:
— "Implora de Jesus a compaixão".

"Deixa Mafoma, ó filho da heresia,
e abraça a sacrossanta religião
do que morreu por nós..." E concluía:
"Se te queres salvar morre cristão."

Ao filho de Jesus, o moribundo,
ergueu o olhar esbranquiçado e fundo,
onde da morte já descia o véu.

Mas logo se estorceu na ânsia extrema
e ao ver da Redenção o triste emblema,
ruge expirando: "Alá nunca morreu!".
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Poesia Parnasiana  Antologia, Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1967, Edições Melhoramentos, São Paulo —  SP; Antônio Augusto de Lima (1859  1934), mineiro de Congonhas de Sabará (hoje, cidade de Nova Lima ), fez seus estudos no Seminário de Mariana, no Colégio do Caraça, no Liceu Mineiro em Ouro Preto e graduou-se na Faculdade de Direito de São Paulo (1882); além de poeta, foi jornalista, magistrado, jurista, professor e político; escreveu e publicou Contemporâneas (1887, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Símbolos (1892, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro) e Poesias (1909, Garnier, Rio de Janeiro).

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Gonçalves Dias: Soneto (Pensas tu, bela Anarda, que os poetas...)


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Pensas tu, bela Anarda, que os poetas*
Vivem d'ar, de perfumes, d'ambrosia?
Que vagando por mares d'harmonia
São melhores que as próprias borboletas?

Não creias que eles sejam tão patetas,
Isso é bom, muito bom mas em poesia,
São contos com que a velha o sono cria
No menino que engorda a comer petas!

Talvez mesmo que algum desses brejeiros
Te diga que assim é, que os dessa gente
Não são lá dos heróis mais verdadeiros.

Eu que sou pecador, que indiferente
Não me julgo ao que toca aos meus parceiros,
Julgo um beijo sem fim cousa excelente.


Rio de Janeiro — 1848.



Nota do Selecionador: Gonçalves Dias cultivou por vezes a Musa jocosa, mas esse não foi o seu forte. O presente soneto, com seu comedido humor, não desdoura a obra do Poeta.
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Poema Gonçalves Dias  Seleção, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, (Biblioteca Folha, Livro 15), 1997, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Gonçalves Dias (1823 1864), maranhense nascido em Caxias, advogado de formação, foi poeta, etnógrafo e jornalista; iniciando seus estudos em Latim, Francês e Filosofia em escola particular, no Brasil, partiu para a Europa, concluiu seus estudos secundários e bacharelou-se na Faculdade de Direito de Coimbra, Portugal (1840); teve presença nos meios literários e na imprensa, lá e cá; no Brasil, juntamente com José de Alencar, desenvolveu o Indianismo, uma sua marca na literatura brasileira; algumas de suas obras: Primeiros Cantos (1846, Laemmert, Rio de Janeiro  RJ), Segundos Cantos (1848, Ferreira Monteiro, Rio de Janeiro  RJ), Últimos Cantos (1851, Paula Brito, Rio de Janeiro  RJ), Cantos (todos os cantos anteriores e mais 16 novas composições sob o título de "Novos Cantos", Brockhaus, Leipzig, Alemanha), Dicionário da Língua Tupi  (1858, Brockhaus, Leipzig, Alemanha) etc.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Castro Alves: Lúcia

Da série: Páginas Negras  uma homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.
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         POEMA

NA FORMOSA estação da primavera
Quando o mato se arreia mais festivo,
E o vento campesino bebe ardente
O agreste aroma da floresta virgem...
Eu e Lúcia, corríamos
crianças
Na veiga, no pomar, na cachoeira,
Como um casal de colibris travessos
Nas laranjeiras que o Natal enflora.

Ela era a
cria mais formosa e meiga
Que jamais, na Fazenda, vira o dia...
Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava
Sempre da corça arisca dos silvados
Quando via-lhe os olhos negros, negros
Como as plumas noturnas da graúna,
Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...
Sua boca era um pássaro escarlate
Onde cantava festival sorriso.
Os cabelos caíam-lhe anelados
Como doudos festões de parasitas...
E a graça... o modo... o coração tão meigo?l...

Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,
Festiva, encher de afagos a família,
Que te queria tanto e que te amava
Como se fosses filha e não cativa...
Tu eras a alegria da fazenda;
Tua senhora ria-se, contente
Quando enlaçavas seus cabelos brancos
Co'as roxas maravilhas da campina.
E quando à noite todos se juntavam,
Aos reflexos doirados da candeia,

Na grande sala em torno da fogueira,
Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:
"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...
Uma criança fez-se mariposa!"

Mas um dia a miséria, a fome, o frio,
Foram pedir um pouso nos teus lares...
A mesa era pequena... Pobre Lúcia!
Foi preciso te ergueres do banquete
Deixares teu lugar aos mais convivas...
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Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.
Tudo era festa em volta da pousada...
Cantava o galo alegre no terreiro,
O mugido das vacas misturava-se
Ao relincho das éguas que corriam
De crinas soltas pelo campo aberto
Aspirando o frescor da madrugada.

Pela última vez ela chorando
Veio sentar-se ao banco do terreiro...
Pobre criança! que conversas tristes
Tu conversaste então co'a natureza.

"Adeus! p'ra sempre, adeus, ó meus amigos,
Passarinhos do céu, brisas da mata,
Patativas saudosas dos coqueiros,
Ventos da várzea, fontes do deserto!...
Nunca mais eu virei, pobres violetas,
Vos arrancar das moitas perfumadas,
Nunca mais eu irei risonha e louca
Roubar o ninho do sabiá choroso...
Perdoai-me que eu parto para sempre!
Venderam para longe a pobre Lúcia!..."

Então ela apanhou do mato as flores
Como outrora enlaçou-as nos cabelos,
E rindo de chorar disse em soluços:
"Não te esqueças de mim que te amo tanto..." 
                      ....................

Depois além, um grupo, informe e vago,
Que cavalgava o dorso da montanha,
Ia esconder-se, transmontando o topo...

Neste momento eu vi, longe... bem longe,
Ainda se agitar um lenço branco...
... Era o lencinho trêmulo de Lúcia...
 
        EPÍLOGO

Muitos anos correram depois disto...
Um dia nos sertões eu caminhava
Por uma estrada agreste e solitária,
Diante de mim ua mulher seguia,
Co' o cântaro à cabeça pés descalços,
Co'os ombros nus, mas pálidos e magros...

Ela cantava, com uma voz extinta,
Uma cantiga triste e compassada...
E eu que a escutava procurava, embalde,
Uma lembrança juvenil e alegre
Do tempo em que aprendera aqueles versos...
De repente, lembrei-me... "Lúcia! Lúcia!"
... A mulher se voltou... fitou-me pasma,
Soltou um grito... e, rindo e soluçando,
Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.
... Mas súbito estacou... Nuvem de sangue
Corou-lhe o rosto pálido e sombrio...
Cobriu co'a mão crispada a face rubra
Como escondendo uma vergonha eterna...
Depois, soltando um grito, ela sumiu-se
Entre as sombras da mata... a pobre Lúcia!

Os Escravos  São Paulo, 30 de abril de 1868.

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Castro Alves  Obra completa em um volume, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847  1871), baiano, um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes, Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?! Além de Lúcia, ora postado, cito Bandido Negro, Saudação a Palmares, Mater Dolorosa, Vozes d'África, O Navio Negreiro, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Castro Alves: Saudação a Palmares

Da série: Páginas Negras  uma homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.
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NOS ALTOS cerros erguido
Ninho d'águias atrevido,
Salve!  País do bandido!
Salve!  Pátria do jaguar!
Verde serra onde os palmares
 Como indianos cocares 
No azul dos colúmbios ares
Desfraldam-se em mole arfar! ...

Salve! Região dos valentes
Onde os ecos estridentes
Mandam aos plainos trementes
Os gritos do caçador!
E ao longe os latidos soam...
E as trompas da caça atroam...
E os corvos negros revoam
Sobre o campo abrasador! ...

Palmares! a ti meu grito!
A ti, barca de granito,
Que no soçobro infinito
Abriste a vela ao trovão.
E provocaste a rajada,
Solta a flâmula agitada
Aos uivos da marujada
Nas ondas da escravidão!

De bravos soberbo estádio,
Das liberdades paládio,
Pegaste o punho do gládio,
E olhaste rindo p’ra o val:
"Descei de cada horizonte...
Senhores! Eis-me de fronte!"
E riste... O riso de um monte!
E a ironia... de um chacal!...

Cantem Eunucos devassos
Dos reis os marmóreos paços;
E beijem os férreos laços,
Que não ousam sacudir ...
Eu canto a beleza tua,
Caçadora seminua!...
Em cuja perna flutua
Ruiva a pele de um tapir.

Crioula! o teu seio escuro
Nunca deste ao beijo impuro!
Luzidio, firme, duro,
Guardaste p’ra um nobre amor.
Negra Diana selvagem,
Que escutas sob a ramagem
As vozes  que traz a aragem
Do teu rijo caçador! ...

Salve, Amazona guerreira!
Que nas rochas da clareira,
 Aos urros da cachoeira 
Sabes bater e lutar...
Salve!  nos cerros erguido 
Ninho, onde em sono atrevido,
Dorme o condor... e o bandido!...
A liberdade... e o jaguar!

Os Escravos — Fazenda de Santa Isabel, agosto de 1870.

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Castro Alves — Obra completa em um volume, quinta edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847  1871), baiano, um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes, Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; Em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?! Além de Saudação a Palmares, ora postado, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, O Navio Negreiro, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...

domingo, 18 de novembro de 2012

Carolina Maria de Jesus: Quarto de despejo — diário de uma favelada (2 a 18 de maio de 1958)

Da série: Páginas Negras  uma homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.

Transcrevo abaixo uma pequenina parte de Quarto de despejo — diário de uma favelada. A autora viveu na Favela do Canindé, em São Paulo, e trabalhava como catadora de papéis e ferro-velho para sobreviver e sustentar seus filhos. E escrevia um diário. Quem a descobriu foi o jornalista Audálio Dantas, então repórter do jornal Folha da Noite, em 1958, e que fora incumbido de escrever uma matéria sobre aquela favela que se expandia na beira do Rio Tietê, no Bairro do Canindé. Assim relata Audálio, no Prefácio do livro: "A história da favela que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história  a visão de dentro da favela. Da reportagem  reprodução de trechos do diário  publicada na Folha da Noite, em 1958, e mais tarde (1959) na revista O Cruzeiro, chegou-se ao livro, em 1960. Fui o responsável pelo que se chama edição de texto. Li todos aqueles vinte cadernos que continham o dia-a-dia de Carolina e de seus companheiros de triste viagem."
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                    ...
                     Fim do diário de 1955

                    2 de maio de 1958 Eu não sou indolente. Há tempos que eu pretendia fazer o meu diário. Mas eu pensava que não tinha valor e achei que era perder tempo.
                    ... Eu fiz uma reforma em mim. Quero tratar as pessoas que eu conheço com mais atenção. Quero enviar um sorriso amavel as crianças e aos operarios.
                    ... Recebi intimação para comparecer as 8 horas da noite na Delegacia do 12. Passei o dia catando papel. A noite os meus pés doíam tanto que eu não podia andar. Começou chover. Eu ia na Delegacia, ia levar o José Carlos. A intimação era para ele. O José Carlos está com 9 anos.
                    3 de maio ... Fui na feira da Rua Carlos de Campos, catar qualquer coisa. Ganhei bastante verdura. Mas ficou sem efeito, porque eu não tinha gordura. Os meninos estão nervosos por não ter o que comer.
                    6 de maio De manhã não fui buscar agua. Mandei o João carregar. Eu estava contente. Recebi outra intimação. Eu estava inspirada e os versos eram bonitos e eu esqueci de ir na Delegacia. Era 11 horas quando eu recordei do convite do ilustre tenente da 12ª. Delegacia.
                    ... O que eu aviso aos pretendentes a política, é que o povo não tolera a fome. É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la.
                    Estão construindo um circo aqui na Rua Araguaia. Circo Theatro Nilo.
                    9 de maio ... Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: Faz de conta que eu estou sonhando.
                    10 de maio Fui na Delegacia e falei com o tenente. Que homem amavel! Se eu soubesse que ele era tão amável, eu teria ido na delegacia na primeira intimação. (...) O tenente interessou-se pela educação dos meus filhos. Disse-me que a favela é um ambiente propenso, que as pessoas tem mais possibilidades de delinquir do que tornar-se util a patria e ao país. Pensei: Se ele sabe disto, porque não faz um relatorio e envia para os políticos? O senhor Janio Quadros, O Kubstchek 1 e o Dr. Adhemar de Barros? 2. Agora fala pra mim, que sou uma pobre lixeira. Não posso resolver nem as minhas dificuldades.
                    ... O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora.
                    Quem passa fome aprende a pensar no proximo, e nas crianças.
                    11 de maio Dia das Mães. O céu está azul e branco. Parece que até a Natureza quer homenagear as mães que atualmente se sentem infeliz por não poder realisar os desejos dos seus filhos.
                    ... O sol vai galgando. Hoje não vai chover. Hoje é o nosso dia.
                    A D. Teresinha veio visitar-me . Ela deu-me 15 cruzeiros. Disse-me que era para a Vera ir no circo. Mas eu vou deixar o dinheiro para comprar pão amanhã, porque eu só tenho 4 cruzeiros.
                    ... Ontem eu ganhei metade de uma cabeça de porco no Frigorifico. Comemos a carne e guardei os ossos. E hoje puis os ossos para ferver. E com o caldo fiz as batatas. Os meus filhos estão sempre com fome. Quando eles passam muita fome eles não são exigentes no paladar.
                    Surgiu a noite. As estrelas estão ocultas. O barraco está cheio de pernilongos. Eu vou acender uma folha de jornal e passar pelas paredes. É assim que os favelados matam mosquitos.
                    13 de maio Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpatico para mim. É o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos.
                    ... Nas prisões os negros eram os bodes espiatorios. Mas os brancos agora são mais cultos. E não nos trata com despreso. Que Deus ilumine os brancos para que os presos sejam feliz.
                    Continua chovendo. E eu tenho só feijão e sal. A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva, para eu ir lá no senhor Manoel vender os ferros. Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça. A chuva passou um pouco. Vou sair.
                    ... Eu tenho tanto dó dos meus filhos. Quando eles vê as coisas de comer eles brada:
                    — Viva a mamãe!
                    A manifestação agrada-me. Mas eu já perdi o hábito de sorrir. Dez minutos depois eles querem mais comida. Eu mandei o João pedir um pouquinho de gordura a Dona Ida. Ela não tinha. Mandei-lhe um bilhete assim:
                    — “Dona Ida peço-te se pode me arranjar um pouco de gordura, para eu fazer uma sopa para os meninos. Hoje choveu e eu não pude catar papel. Agradeço. Carolina.”
                    ... Choveu, esfriou. É o inverno que chega. E, no inverno a gente come mais. A Vera começou pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetaculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos.
                    E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual — a fome!
                    15 de maio Tem noite que eles improvisam uma batucada e não deixa ninguem dormir. Os visinhos de alvenaria já tentaram com abaixo assinado retirar os favelados. Mas não conseguiram. Os visinhos das casas de tijolos diz:
                    — Os politicos protegem os favelados.
                    Quem nos protege é o povo e os Vicentinos. Os politicos só aparecem aqui nas epocas eleitoraes. O senhor Cantidio Sampaio quando era vereador em 1953 passava os domingos aqui na favela. Ele era tão agradavel. Tomava nosso café, bebia nas nossas xicaras. Ele nos dirigia as suas frases de viludo. Brincava com nossas crianças. Deixou boas impressões por aqui e quando candidatou-se a deputado venceu. Mas na Camara dos Deputados não criou um progeto para beneficiar o favelado. Não nos visitou mais.
                    ... Eu classifico São Paulo assim: O Palacio, é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos.
                    ... A noite está tepida. O céu já está salpicado de estrelas. Eu que sou exotica gostaria de recortar um pedaço do céu para fazer um vestido. Começo ouvir uns brados. Saio para a rua. É o Ramiro que quer dar no senhor Binidito. Mal entendido. Caiu uma ripa no fio de luz e apagou a luz da casa do Ramiro. Por isso o Ramiro queria bater no senhor Binidito. Porque o Ramiro é forte e o senhor Binidito é fraco.
                    O Ramiro ficou zangado porque eu fui a favor do senhor Binidito. Tentei concertar os fios. Enquanto eu tentava concertar os fios o Ramiro queria expancar o Binidito que estava alcoolisado e não podia parar de pé. Estava inconciente. Eu não posso descrever o efeito do alcool porque não bebo. Já bebi uma vez, em carater experimental, mas o alcool não me tonteia.
                    Enquanto eu pretendia concertar a luz o Ramiro dizia:
                    — Liga a luz, liga a luz sinão eu te quebro a cara.
                    O fio não dava para ligar a luz. Precisava emendá-lo. Sou leiga na eletricidade. Mandei chamar o senhor Alfredo, que é o atual encarregado da luz. Ele estava nervoso. Olhava o senhor Binidito com despreso. A Juana que é esposa do Binidito deu cinquenta cruzeiros para o senhor Alfredo. Ele pegou o dinheiro. Não sorriu. Mas ficou alegre. Percebi pela sua fisionomia. Enfim o dinheiro dissipou o nervosismo.
                    16 de maio Eu amanheci nervosa. Porque eu queria ficar em casa, mas eu não tinha nada para comer.
                    ... Eu não ia comer porque o pão era pouco. Será que é sou eu que levo esta vida? O que posso esperar do futuro? Um leito em Campos de Jordão 3. Eu quando estou com fome quero matar o Jânio, quero enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino. As dificuldades corta o afeto do povo pelos politicos.
                    17 de maio Levantei nervosa. Com vontade de morrer. Já que os pobres estão mal colocados, para que viver? Será que os pobres de outro País sofrem igual aos pobres do Brasil? Eu estava discontente que até cheguei a brigar com meu filho José Carlos sem motivo.
                    ... Chegou um caminhão aqui na favela. O motorista e o seu ajudante jogam umas latas. É linguiça enlatada. Penso: é assim que fazem esses comerciantes insaciaveis. Ficam esperando os preços subir na ganancia de ganhar mais. E quando apodrece jogam fora para os corvos e os infelizes favelados.
                    Não houve briga. Eu até estou achando isto aqui monotono. Vejo as crianças abrir as latas de linguiça e exclamar satisfeitas:
                    — Hum! Tá gostosa!
                    A Dona Alice deu-me uma para experimentar. Mas a lata está estufada. Já está podre.
                    18 de maio ... Na favela tudo circula num minuto.e a noticia já circulou que a D. Maria José faleceu. Varias pessoas vieram vê-la. Compareceu o vicentino que cuidava dela. Ele vinha visitá-la todos os domingos. Ele não tem nojo dos favelados. Cuida dos miseros favelados com carinho. Isso competia ao tal Serviço Social.
                    ... Chegou o esquife. Cor roxa. Cor da amargura que envolve os corações dos favelados.
                    A D. Maria era crente e dizia que os crentes antes de morrer já estão no céu. O enterro é as treis da tarde. Os crentes estão entoando um hino. As vozes são afinadas.Tenho a impressão que são anjos que cantam. Não vejo ninguem bebado. Talvez seja por respeito a extinta. Mas duvido. Acho que é porque eles não tem dinheiro.
                    Chegou o carro para conduzir o corpo sem vida de Dona Maria José que vai para a sua verdadeira casa própria que é a sepultura. A Dona Maria José era muito boa. Dizem que os vivos devem perdoar os mortos. Porque todos nós temos os nossos momentos de fraquesa. Chegou o carro funebre. Estão esperando a hora para sair o enterro.
                    Vou parar de escrever. Vou torcer as roupas que ensaboei ontem. Não gosto de ver enterros.
                    19 de maio ...
Notas:
1 Juscelino Kubitschek (1902  1976): presidente da República entre 1958 e 1961. No seu governo buscou o desenvolvimento do país pela abertura aos investimentos estrangeiros e transferiu o Distrito Federal para Brasília (nota do editor);
2 Jânio Quadros (1917  1992) foi prefeito da cidade de São Paulo entre 1953 e 1955, governador do Estado entre 1955 e 1961; Adhemar de Barros (1901  1969) foi prefeito de São Paulo entre 1957 e 1961 (nota deste aprendiz de blogueiro);
3 Campos de Jordão: estância climática paulista, tradicionalmente procurada para tratamento de tuberculose (nota do editor).
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Quarto de despejo — diário de uma favelada, Carolina Maria de Jesus, Apresentação/Prefácio de Audálio Dantas, 1993, Editora Ática, São Paulo SP; Carolina Maria de Jesus (1914 1977), mineira de Sacramento, fez seus estudos escolares até o segundo ano primário; na década de 30 mudou-se para São Paulo e foi morar na favela do Canindé; dali, percorrendo ruas da cidade, trabalhava catando papéis e ferro-velho os quais vendia e assim conseguia sobreviver e sustentar seus filhos; ao encontrar uma caderneta no meio do lixo, passou a escrever um diário sobre o seu cotidiano de vida favelada; tal diário (mais de vinte cadernos de anotações) foi editado e publicado pelo jornalista e repórter Audálio Dantas nas páginas do jornal Folha da Noite, em 1958, na revista O Cruzeiro, em 1959, e posteriormente editado em livro; Quarto de despejo, cuja primeira edição se deu em 1960 pela Livraria Francisco Alves, foi traduzido em mais de uma dezena de línguas; tais anotações transformadas em livro inspiraram outras expressões artísticas: letra de samba, adaptação teatral, filme "Despertar de um sonho" realizado para a Televisão Alemã e inédito no Brasil teve como protagonista a própria Carolina de Jesus e adaptação para a série 'Caso Verdade', da Rede Globo (1983); outros escritos da autora: Casa de Alvenaria (1961, Livraria Francisco Alves), Pedaços da Fome (1963, Editora Áquila, São Paulo  SP), Provérbios (1963) e Diário de Bitita (póstumo, 1986, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ).
(Clicando lá em cima, no título da postagem, leia o texto "Redescobrindo Carolina Maria de Jesus, Cidadã do Mundo", de Sueli Meira Liebig  doutora em Literatura Comparada pela UEPB.) 

sábado, 17 de novembro de 2012

Luiz Gama: Minha Mãe *

Da série: Páginas Negras  uma homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.
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Resultado de imagem para Roteiro da Poesia Brasileira — Romantismo, Seleção e Prefácio de Antonio Carlos Secchin

Minha mãe era mui bela,
Eu me lembro tanto dela
De tudo quanto era seu!
Tenho em meu peito guardadas
Suas palavras sagradas
C’os risos que ela me deu.
Junqueira Freire

Era mui bela e formosa,
Era a mais linda pretinha,
Da adusta Líbia rainha,
E no Brasil pobre escrava!
Oh, que saudades que eu tenho
Dos seus mimosos carinhos,
Quando c’os tenros filhinhos
Ela sorrindo brincava.

Éramos dois seus cuidados,
Sonhos de sua alma bela;
Ela a palmeira singela,
Na fulva areia nascida.
Nos roliços braços de ébano.
De amor o fruto apertava,
E à nossa boca juntava
Um beijo seu, que era vida,

Quando o prazer entreabria
Seus lábios de roxo lírio,
Ela fingia o martírio
Nas trevas da solidão.
Os alvos dentes nevados.
Da liberdade eram mito,
No rosto a dor do aflito,
Negra a cor da escravidão.

Os olhos negros, altivos,
Dois astros eram luzentes;
Eram estrelas cadentes
Por corpo humano sustidas.
Foram espelhos brilhantes
Da nossa vida primeira,
Foram a luz derradeira
Das nossas crenças perdidas.

Tão ternas como a saudade
No frio chão das campinas,
Tão meiga como as boninas
Aos raios do sol de abril.
No gesto grave e sombria,
Como a vaga que flutua,
Plácida a mente era a Lua
Refletindo em Céus de anil

Suave o gênio, qual rosa
Ao despontar da alvorada,
Quando treme enamorada
Ao sopro d’aura fagueira.
Brandinha a voz sonorosa,
Sentida como a Rolinha,
Gemendo triste sozinha,
Ao som da aragem faceira.

Escuro e ledo o semblante,
De encantos sorria a fronte,
Baça nuvem no horizonte
Das ondas surgindo à flor;
Tinha o coração de santa,
Era seu peito de Arcanjo,
Mais pura n’alma que um anjo,
Aos pés de seu Criador.

Se junto à Cruz penitente,
A Deus orava contrita,
Tinha uma prece infinita
Como o dobrar do sineiro,
As lágrimas que brotavam
Eram pérolas sentidas
Dos lindos olhos vertidas
Na terra do cativeiro.

Primeiras Trovas Burlescas (1861)



* Clique no título lá em cima e leia "Luiz Gama: um abolicionista leitor de Renan", de Ligia Fonseca Ferreira.
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Roteiro da Poesia Brasileira Romantismo, Seleção e Prefácio de Antonio Carlos Secchin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo SP; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos 10 anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas (1861), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa e ajudou a fundar os primeiros periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866 1867).

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Cruz e Sousa: Crianças Negras *

Da série: Páginas Negras  uma homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.

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Em cada verso um coração pulsando,
sóis flamejando em cada verso, e a rima
cheia de pássaros azuis cantando,
desenrolada como um céu por cima.

Trompas sonoras de tritões marinhos
das ondas glaucas na amplidão sopradas
e a rumorosa música dos ninhos
nos damascos reais das alvoradas.

Fulvos leões do altivo pensamento
galgando da era a soberana rocha,
no espaço o outro leão do sol sangrento
que como um cardo em fogo desabrocha.

A canção de cristal dos grandes rios
sonorizando os florestais profundos,
a terra com seus cânticos sombrios,
o firmamento gerador de mundos.

Tudo, como panóplia sempre cheia
das espadas dos aços rutilantes,
eu quisera trazer preso à cadeia
de serenas estrofes triunfantes.

Preso à cadeia das estrofes que amam,
que choram lágrimas de amor por tudo,
que, como estrelas, vagas se derramam
num sentimento doloroso e mudo.

Preso à cadeia das estrofes quentes
como uma forja em labareda acesa,
para cantar as épicas, frementes
tragédias colossais da Natureza.

Para cantar a angústia das crianças!
não das crianças de cor de oiro e rosa,
mas dessas que o vergel das esperanças
viram secar, na idade luminosa.

Das crianças que vêm da negra noite,
dum leite de venenos e de treva,
dentre os dantescos círculos do açoite,
filhas malditas da desgraça de Eva.

E que ouvem pelos séculos afora
O carrilhão da morte que regela.
a ironia das aves rindo a aurora
e a boca aberta em uivos da procela.

Das crianças vergônteas dos escravos
desamparadas, sobre o caos, à toa
e a cujo pranto, de mil peitos bravos,
a harpa das emoções palpita e soa.

Ó bronze feito carne e nervos, dentro
do peito, como em jaulas soberanas,
ó coração! és o supremo centro
das avalanches das paixões humanas.

Como um clarim a gargalhada vibras,
vibras também eternamente o pranto
e dentre o riso e o pranto te equilibras
de forma tal que a tudo dás encanto.

És tu que à piedade vens descendo.
Como quem desce do alto das estrelas
e a púrpura do amor vais estendendo
sobre as crianças, para protegê-las.

És tu que cresces como o oceano, e cresces
até encher a curva dos espaços
e que lá, coração, lá resplandeces
e todo te abres em maternos braços.

Te abres em largos braços protetores,
em braços de carinho que as amparam,
a elas, crianças, tenebrosas flores,
tórridas urzes que petrificaram.

As pequeninas, tristes criaturas
ei-las, caminham por desertos vagos,
sob o aguilhão de todas as torturas,
na sede atroz de todos os afagos.

Vai, coração! na imensa cordilheira
da Dor, florindo como um loiro fruto
partindo toda a horrível gargalheira
da chorosa falange cor do luto.

As crianças negras, vermes da matéria,
colhidas do suplício a estranha rede,
arranca-as do presídio da miséria
e com teu sangue mata-lhes a sede!

Cruz e Sousa
Nota de Tasso da Silveira:
* Erguido ao cume da mais alta piedade humana é, no entanto, sobre as cabeças das crianças negras que o poeta estende sua grande benção comovida, como para protegê-las da dor da raça.
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Cruz e Sousa — Poesia, Apresentação e Seleção de Tasso da Silveira, Volume 4 da Coleção Nossos Clássicos, 1975, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 — 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (1893, poemas em prosa) e Broquéis (1893, poemas); em 1885, publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Castro Alves: Bandido Negro

Da série: Páginas Negras  uma homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.
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Corre, corre sangue do cativo
Cai, cai, orvalho de sangue
Germina, cresce, colheita vingadora.
A ti, segador, a ti. Está madura.
Aguça tua foice, aguça, aguça tua foice.
E.SUE (Canto dos Filhos de Agar

TREMA a terra de susto aterrada...
Minha égua veloz, desgrenhada,
Negra, escura nas lapas voou.
Trema o céu... ó ruína! ó desgraça!
Porque o negro bandido é quem passa, 
Porque o negro bandido bradou:

Cai orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Dorme o raio na negra tormenta...
Somos negros... o raio fermenta
Nesses peitos cobertos de horror.
Lança o grito da livre coorte,
Lança, ó vento, pampeiro de morte,
Este guante de ferro ao senhor.

Cai orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Eia! Ó raça que nunca te assombras!
P’ra o guerreiro uma tenda de sombras
Arma a noite na vasta amplidão.
Sus! pulula dos quatro horizontes,
Sai da vasta cratera dos montes,
Donde salta o condor, o vulcão.

Cai orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

E o senhor que na festa descanta
Pare o braço que a taça alevanta,
Coroada de flores azuis.
E murmure, julgando-se em sonhos:
“Que demônios são estes medonhos,
Que lá passam famintos e nus”?

Cai orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Somos nós, meu senhor, mas não tremas,
Nós quebramos as nossas algemas
P’ra pedir-te as esposas ou mães.
Este é o filho do ancião que mataste.
Este — irmão da mulher que manchaste...
Oh! não tremas, senhor, são teus cães.

Cai orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

São teus cães, que têm frio e têm fome,
Que há dez séc’los a sede consome...
Quero um vasto banquete feroz...
Venha o manto que os ombros nos cubra.
Para vós fez-se a púrpura rubra.
Fez-se o manto de sangue p’ra nós.

Cai orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Meus leões africanos, alerta!
Vela a noite... a campina é deserta.
Quando a lua esconder seu clarão
Seja o
bramo da vida arrancado
No banquete da morte lançado
Junto ao corvo, seu lúgubre irmão.

Cai orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Trema o vale, o rochedo escarpado,
Trema o céu de trovões carregado,
Ao passar da rajada de heróis,
Que nas éguas fatais desgrenhadas
Vão brandindo essas brancas espadas,
que se amolam nas campas de avós.

Cai orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.
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Castro Alves — Obra completa em um volume, quinta edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro  RJ; Antônio Frederico de Castro Alves (1847  1871), baiano, um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes, Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; Em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?! Além de Bandido Negro, ora postado, cito Mater Dolorosa, Vozes d'África, O Navio Negreiro, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...