Da série: Páginas Negras — uma
homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.
Transcrevo abaixo uma pequenina parte de Quarto de despejo — diário de uma favelada. A autora viveu na Favela do Canindé, em São Paulo, e trabalhava como catadora de papéis e ferro-velho para sobreviver e sustentar seus filhos. E escrevia um diário. Quem a descobriu foi o jornalista Audálio Dantas, então repórter do jornal Folha da Noite, em 1958, e que fora incumbido de escrever uma matéria sobre aquela favela que se expandia na beira do Rio Tietê, no Bairro do Canindé. Assim relata Audálio, no Prefácio do livro: "A história da favela que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história — a visão de dentro da favela. Da reportagem — reprodução de trechos do diário — publicada na Folha da Noite, em 1958, e mais tarde (1959) na revista O Cruzeiro, chegou-se ao livro, em 1960. Fui o responsável pelo que se chama edição de texto. Li todos aqueles vinte cadernos que continham o dia-a-dia de Carolina e de seus companheiros de triste viagem."
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Fim do diário de 1955
2 de maio de 1958 Eu não sou
indolente. Há tempos que eu pretendia fazer o meu diário. Mas eu pensava que não
tinha valor e achei que era perder tempo.
... Eu fiz uma reforma em mim. Quero tratar as
pessoas que eu conheço com mais atenção. Quero enviar um sorriso amavel as
crianças e aos operarios.
... Recebi intimação para comparecer
as 8 horas da noite na Delegacia do 12. Passei o dia catando papel. A noite os
meus pés doíam tanto que eu não podia andar. Começou chover. Eu ia na
Delegacia, ia levar o José Carlos. A intimação era para ele. O José Carlos está
com 9 anos.
3 de maio ... Fui na feira da Rua
Carlos de Campos, catar qualquer coisa. Ganhei bastante verdura. Mas ficou sem
efeito, porque eu não tinha gordura. Os meninos estão nervosos por não ter o
que comer.
6 de maio De manhã não fui buscar agua.
Mandei o João carregar. Eu estava contente. Recebi outra intimação. Eu estava
inspirada e os versos eram bonitos e eu esqueci de ir na Delegacia. Era 11
horas quando eu recordei do convite do ilustre tenente da 12ª. Delegacia.
... O que eu aviso aos pretendentes a política, é que o povo não tolera a fome. É preciso conhecer a fome para
saber descrevê-la.
Estão construindo um circo aqui na
Rua Araguaia. Circo Theatro Nilo.
9 de maio ... Eu cato papel, mas não
gosto. Então eu penso: Faz de conta que eu estou sonhando.
10 de maio Fui na Delegacia e falei
com o tenente. Que homem amavel! Se eu soubesse que ele era tão amável, eu
teria ido na delegacia na primeira intimação. (...) O tenente interessou-se
pela educação dos meus filhos. Disse-me que a favela é um ambiente propenso,
que as pessoas tem mais possibilidades de delinquir do que tornar-se util a patria
e ao país. Pensei: Se ele sabe disto, porque não faz um relatorio e envia para
os políticos? O senhor Janio Quadros, O Kubstchek 1 e o Dr. Adhemar de Barros?
2. Agora fala pra mim, que sou uma pobre lixeira. Não posso resolver nem as
minhas dificuldades.
... O Brasil precisa ser dirigido por
uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora.
Quem passa fome aprende a pensar no proximo,
e nas crianças.
11 de maio Dia das Mães. O céu está
azul e branco. Parece que até a Natureza quer homenagear as mães que atualmente
se sentem infeliz por não poder realisar os desejos dos seus filhos.
... O sol vai galgando. Hoje não vai
chover. Hoje é o nosso dia.
A D. Teresinha veio visitar-me . Ela
deu-me 15 cruzeiros. Disse-me que era para a Vera ir no circo. Mas eu vou deixar
o dinheiro para comprar pão amanhã, porque eu só tenho 4 cruzeiros.
... Ontem eu ganhei metade de uma
cabeça de porco no Frigorifico. Comemos a carne e guardei os ossos. E hoje puis
os ossos para ferver. E com o caldo fiz as batatas. Os meus filhos estão sempre
com fome. Quando eles passam muita fome eles não são exigentes no paladar.
Surgiu a noite. As estrelas estão
ocultas. O barraco está cheio de pernilongos. Eu vou acender uma folha de
jornal e passar pelas paredes. É assim que os favelados matam mosquitos.
13 de maio Hoje amanheceu chovendo. É
um dia simpatico para mim. É o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação
dos escravos.
... Nas prisões os negros eram os
bodes espiatorios. Mas os brancos agora são mais cultos. E não nos trata com
despreso. Que Deus ilumine os brancos para que os presos sejam feliz.
Continua chovendo. E eu tenho só feijão
e sal. A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos para a escola. Estou
escrevendo até passar a chuva, para eu ir lá no senhor Manoel vender os ferros.
Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça. A chuva passou um
pouco. Vou sair.
... Eu tenho tanto dó dos meus
filhos. Quando eles vê as coisas de comer eles brada:
— Viva a mamãe!
A manifestação agrada-me. Mas eu já
perdi o hábito de sorrir. Dez minutos depois eles querem mais comida. Eu mandei
o João pedir um pouquinho de gordura a Dona Ida. Ela não tinha. Mandei-lhe um
bilhete assim:
— “Dona Ida peço-te se pode me
arranjar um pouco de gordura, para eu fazer uma sopa para os meninos. Hoje
choveu e eu não pude catar papel. Agradeço. Carolina.”
... Choveu, esfriou. É o inverno que
chega. E, no inverno a gente come mais. A Vera começou pedir comida. E eu não
tinha. Era a reprise do espetaculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia
comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a
Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos.
E assim no dia 13 de maio de 1958 eu
lutava contra a escravatura atual — a fome!
15 de maio Tem noite que eles
improvisam uma batucada e não deixa ninguem dormir. Os visinhos de alvenaria já
tentaram com abaixo assinado retirar os favelados. Mas não conseguiram. Os
visinhos das casas de tijolos diz:
— Os politicos protegem os favelados.
Quem nos protege é o povo e os
Vicentinos. Os politicos só aparecem aqui nas epocas eleitoraes. O senhor
Cantidio Sampaio quando era vereador em 1953 passava os domingos aqui na
favela. Ele era tão agradavel. Tomava nosso café, bebia nas nossas xicaras. Ele
nos dirigia as suas frases de viludo. Brincava com nossas crianças. Deixou boas
impressões por aqui e quando candidatou-se a deputado venceu. Mas na Camara dos
Deputados não criou um progeto para beneficiar o favelado. Não nos visitou mais.
... Eu classifico São Paulo assim: O Palacio,
é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a
favela é o quintal onde jogam os lixos.
... A noite está tepida. O céu já está
salpicado de estrelas. Eu que sou exotica gostaria de recortar um pedaço do céu
para fazer um vestido. Começo ouvir uns brados. Saio para a rua. É o Ramiro que
quer dar no senhor Binidito. Mal entendido. Caiu uma ripa no fio de luz e apagou
a luz da casa do Ramiro. Por isso o Ramiro queria bater no senhor Binidito. Porque
o Ramiro é forte e o senhor Binidito é fraco.
O Ramiro ficou zangado porque eu fui
a favor do senhor Binidito. Tentei concertar os fios. Enquanto eu tentava
concertar os fios o Ramiro queria expancar o Binidito que estava alcoolisado e não
podia parar de pé. Estava inconciente. Eu não posso descrever o efeito do alcool
porque não bebo. Já bebi uma vez, em carater experimental, mas o alcool não me
tonteia.
Enquanto eu pretendia concertar a luz
o Ramiro dizia:
— Liga a luz, liga a luz sinão eu te
quebro a cara.
O fio não dava para ligar a luz. Precisava
emendá-lo. Sou leiga na eletricidade. Mandei chamar o senhor Alfredo, que é o
atual encarregado da luz. Ele estava nervoso. Olhava o senhor Binidito com
despreso. A Juana que é esposa do Binidito deu cinquenta cruzeiros para o
senhor Alfredo. Ele pegou o dinheiro. Não sorriu. Mas ficou alegre. Percebi
pela sua fisionomia. Enfim o dinheiro dissipou o nervosismo.
16 de maio Eu amanheci nervosa.
Porque eu queria ficar em casa, mas eu não tinha nada para comer.
... Eu não ia comer porque o pão era
pouco. Será que é sou eu que levo esta vida? O que posso esperar do futuro? Um
leito em Campos de Jordão 3. Eu quando estou com fome quero matar o Jânio,
quero enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino. As dificuldades corta o afeto
do povo pelos politicos.
17 de maio Levantei nervosa. Com
vontade de morrer. Já que os pobres estão mal colocados, para que viver? Será
que os pobres de outro País sofrem igual aos pobres do Brasil? Eu estava
discontente que até cheguei a brigar com meu filho José Carlos sem motivo.
... Chegou um caminhão aqui na
favela. O motorista e o seu ajudante jogam umas latas. É linguiça enlatada. Penso:
é assim que fazem esses comerciantes insaciaveis. Ficam esperando os preços
subir na ganancia de ganhar mais. E quando apodrece jogam fora para os corvos e
os infelizes favelados.
Não houve briga. Eu até estou achando
isto aqui monotono. Vejo as crianças abrir as latas de linguiça e exclamar
satisfeitas:
— Hum! Tá gostosa!
A Dona Alice deu-me uma para
experimentar. Mas a lata está estufada. Já está podre.
18 de maio ... Na favela tudo
circula num minuto.e a noticia já circulou que a D. Maria José faleceu. Varias
pessoas vieram vê-la. Compareceu o vicentino que cuidava dela. Ele vinha visitá-la
todos os domingos. Ele não tem nojo dos favelados. Cuida dos miseros favelados
com carinho. Isso competia ao tal Serviço Social.
... Chegou o esquife. Cor roxa. Cor
da amargura que envolve os corações dos favelados.
A D. Maria era crente e dizia que os
crentes antes de morrer já estão no céu. O enterro é as treis da tarde. Os
crentes estão entoando um hino. As vozes são afinadas.Tenho a impressão que são
anjos que cantam. Não vejo ninguem bebado. Talvez seja por respeito a extinta.
Mas duvido. Acho que é porque eles não tem dinheiro.
Chegou o carro para conduzir o corpo
sem vida de Dona Maria José que vai para a sua verdadeira casa própria que é a
sepultura. A Dona Maria José era muito boa. Dizem que os vivos devem perdoar os
mortos. Porque todos nós temos os nossos momentos de fraquesa. Chegou o carro funebre.
Estão esperando a hora para sair o enterro.
Vou parar de escrever. Vou torcer as
roupas que ensaboei ontem. Não gosto de ver enterros.
19 de maio ...
Notas:
1 Juscelino Kubitschek (1902 — 1976): presidente da República entre 1958 e 1961. No seu governo buscou o desenvolvimento do país pela abertura aos investimentos estrangeiros e transferiu o Distrito Federal para Brasília (nota do editor);
2 Jânio Quadros (1917 — 1992) foi prefeito da cidade de São Paulo entre 1953 e 1955, governador do Estado entre 1955 e 1961; Adhemar de Barros (1901 — 1969) foi prefeito de São Paulo entre 1957 e 1961 (nota deste aprendiz de blogueiro);
3 Campos de Jordão: estância climática paulista, tradicionalmente procurada para tratamento de tuberculose (nota do editor).
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Quarto de despejo — diário de uma favelada, Carolina Maria de Jesus, Apresentação/Prefácio de Audálio Dantas, 1993, Editora Ática, São Paulo — SP; Carolina Maria de Jesus (1914 — 1977), mineira de Sacramento, fez seus estudos escolares até o segundo ano primário; na década de 30 mudou-se para São Paulo e foi morar na favela do Canindé; dali, percorrendo ruas da cidade, trabalhava catando papéis e ferro-velho os quais vendia e assim conseguia sobreviver e sustentar seus filhos; ao encontrar uma caderneta no meio do lixo, passou a escrever um diário sobre o seu cotidiano de vida favelada; tal diário (mais de vinte cadernos de anotações) foi editado e publicado pelo jornalista e repórter Audálio Dantas nas páginas do jornal Folha da Noite, em 1958, na revista O Cruzeiro, em 1959, e posteriormente editado em livro; Quarto de despejo, cuja primeira edição se deu em 1960 pela Livraria Francisco Alves, foi traduzido em mais de uma dezena de línguas; tais anotações transformadas em livro inspiraram outras expressões artísticas: letra de samba, adaptação teatral, filme "Despertar de um sonho" realizado para a Televisão Alemã e inédito no Brasil — teve como protagonista a própria Carolina de Jesus — e adaptação para a série 'Caso Verdade', da Rede Globo (1983); outros escritos da autora: Casa de Alvenaria (1961, Livraria Francisco Alves), Pedaços da Fome (1963, Editora Áquila, São Paulo — SP), Provérbios (1963) e Diário de Bitita (póstumo, 1986, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ).
(Clicando lá em cima, no título da postagem, leia o texto "Redescobrindo Carolina Maria de Jesus, Cidadã do Mundo", de Sueli Meira Liebig — doutora em Literatura Comparada pela UEPB.)