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sábado, 27 de junho de 2015

Lourenço Diaféria: Conversa de Grego

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          Tinha recebido pequena herança de uma tia. Queria aplicar o dinheiro numa atividade que lhe desse algum lucro, porém, mais que lucro, satisfação intelectual. Descartou a idéia de abrir uma banca de jornal. Jornaleiro tem que acordar de madrugada. Queria coisa mais suave. Foi pedir conselho a um amigo. Ainda há pessoas que acreditam em conselhos. O amigo era criativo.
          Abra um curso de Grego. Todo mundo está abrindo curso de línguas. Inglês, Espanhol... Hoje, com o Mercosul, são comuns jogos de futebol contra a Argentina, o Uruguai, o Chile, o Espanhol está em alta. Não se admite mais o portunhol de antes. O negócio hoje é abrir um curso de Espanhol. Inglês também, é claro. Atualmente até para comer um sanduíche é preciso saber inglês. McDonald’s, Coca, Blue Life... Não se diz mais apartamento. É loft... Daqui a uns vinte anos, quando o Brasil tiver liquidado sua dívida externa, as relações pessoais com o resto do mundo serão feitas no idioma de Cervantes, de Carlos Gardel e, claro, na língua do Clinton... Entendeu?
           Não.
           É simples. É preciso alargar os horizontes. É a razão por que em qualquer esquina da cidade surgem placas de curso de línguas. Você tem que ser esperto... Entendeu?
           Ainda não.
           Serei muito objetivo. A cidade está saturada de cursos de Inglês e de Espanhol... Percebe?
           Percebo.
           Muito bem. Agora me diga: quantos cursos de Grego você conhece na cidade?
           Bem...
           Taí. Nenhum... Nem um, cara. O que existe é escola de Inglês, de Espanhol, de Informática... Até de ikebana. Mas de Grego, rapaz, não existe. Então é isso. Você tem que aproveitar as brechas que o mercado oferece. Abra um curso de Grego.
           Mas...
           Não tem mas. Já pensou formar classes de alunos interessados em ler Xenofonte no original? O problema do Brasil é que todo mundo quer ir pelo caminho mais fácil. O sujeito abre uma pizzaria, no mês seguinte outros doze cidadãos resolvem abrir o mesmo tipo de negócio na mesma rua. Desse jeito é claro que não pode dar certo... Veja o caso da comida por quilo. Está arruinando com o negócio do prato feito. O tradicional prato-feito elaborado com carinho, artesanalmente, cada bar com seu tempero peculiar... Hoje o prato-feito está indo pro brejo. Só tem comida por quilo. O mercado vai acabar saturado de comida por quilo. Escute o que lhe digo: daqui a cinqüenta anos, ou um pouco mais, quando o Brasil tiver se safado da dívida externa, ninguém vai poder nem olhar comida por quilo... Entendeu?
           Hum...
           Vou explicar melhor, Anaxágoras. Teu pai não era comandante da marinha mercante grega?
           Foi.
           E tua genitora? Nasceu onde?
           Em Chipre.
           Era cipriota. Eu sabia. Perguntei por perguntar. Veja bem. Teu pai era comandante de navio grego, tua mãe era cipriota, você se chama Anaxágoras, passou a infância ouvindo os pais falando Grego. Cursou a Universidade... Que curso você fez na faculdade?
           Grego, ué. Você sabe disso...
           Aí é que está. Você tem tudo para abrir o curso de Grego.
           Você acha que há alguém disposto a aprender Grego? Qual a utilidade prática? Inglês, vá lá... Até jogador do Palmeiras precisa disso para disputar a taça Toyota...
           Taça Mitsubishi.
           Mitsubishi, Honda, tanto faz... Tem o Torneio Mercosul...
           Mercosur.
           Tanto faz. Mas, Grego? Nem sei se a Grécia tem time de futebol.
           Claro que tem. Mas não estamos falando de futebol. As pessoas precisam alargar seus horizontes culturais. Quantas pessoas sabem quem foi Alexandre, o Grande? A vida de Alexandre é uma novela. Novela você entende o que quero dizer? No-ve-la. Já imaginou emplacar uma novela grega na TV? Quem dominou o mundo? Quem chegou a Roma e a Cartago? Quem atravessou as colunas de Hércules? Os gregos mudaram a face do mundo, rapaz. Ainda hoje, quando se quer falar que uma mulher é de fechar o comércio, o que se diz?
           Que é boazuda.
           Isso quem fala é a ralé. Gente educada diz: “É uma mulher de beleza helênica”. As pessoas ainda têm muito o que aprender com Tucídides, com o general Brásidas, com o cerco de Esfactéria, com a guerra do Peloponeso... A Grécia dá samba, amigo. Infelizmente as pessoas estão sendo induzidas a se entreter com histórias de macarronada, de amores entre fazendeiros e mucamas... Vá por mim, Anaxágoras. Abra um curso de Grego. Você vai faturar uma nota. Daqui a cem anos, quando Brasil...
          ... zerar a dívida externa...
           Exato. O Grego vai voltar a ter a importância cultural do passado. Mas alguém tem que iniciar o processo. Entendeu?
           Entendi...
           Então o próximo passo é bolar o nome da escola. Que tal Ágora? Ágora era a praça onde os gregos discutiam filosofia. Me parece um bom nome para um curso de Grego. Gostou da idéia?
           Não é ruim. Apenas precisa de uns ajustes técnicos...
          Três meses depois Anaxágoras inaugurava o Ágora, um restaurante especializado em delivery de prato-feito grego.

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Antologia de Crônicas — Crônica Brasileira Contemporânea (diversos cronistas), Organização e Apresentação de Manuel da Costa Pinto, 1a. edição, 2005, Editora Moderna, São Paulo SP; Lourenço Carlos Diaféria (1933 2008), paulista e paulistano nascido no Brás, foi jornalista, cronista e contista; trabalhou nos jornais Folha de São Paulo, Jornal da Tarde, Diário Popular, Diário do Grande ABC, além de ter escrito para rádios e televisão; em 1977, trabalhando no jornal Folha de São Paulo, foi preso pelo regime militar, por ter escrito a crônica “Herói. Morto. Nós.”, publicada na edição de 01.09.77 daquele diário e considerada ofensiva às Forças Armadasem tal crônica, Diaféria comenta sobre o heroísmo de um sargento que, para salvar uma criança, pulara em um fosso de ariranhas num zoológico goiano (a criança sobreviveu e o sargento morreu), e faz comparação com Duque de Caxias, patrono do Exército, que tem uma estátua no centro de São Paulo, lembrando que sua espada “oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos”; obras do cronista: Um gato na terra do tamborim (1976), Circo dos Cavalões (1978), A morte sem colete (1983), O Empinador de Estrela (1984), A longa busca da comodidade (1988), O invisível cavalo voador Falas contemporâneas (1990), Papéis íntimos de um ex-boy assumido (1994) e outros títulos.