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sexta-feira, 21 de julho de 2023

Mikhail Lomonósov: Meditação noturna sobre a Divina Majestade por ocasião da aurora boreal

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[traduzido por Marco Lucchesi]

Oculta seu rosto o dia,
desce a noite fantasmal,
sombras pela serrania,
já dormiu o astro real,
abre-se o abismo sem fundo,
quantas estrelas no fundo!

Grão de areia sobre o mar,
nas geleiras fogaréu,
pluma que se vê passar
como poalha no céu.
Eis o que sou nessa altura,
que me abrasa e me tortura.

Lá, dizem as lumeeiras,
há mundos em profusão,
mais de mil sóis as fogueiras,
e seus povos são legião.
E para a glória eternal
sua força é toda igual.

Onde a tua lei, Natura?
Alba além do setentrião!
Habita o sol, por ventura,
lá onde nasce Aquilão?
Fogo frio nos envia
e da noite faz o dia.

Homens de vista atrevida,
descobristes plenamente
as profundas leis da vida,
que rege o menor dos entes
como todos os planetas,
dizei, quanto nos inquieta?

Quem, de noite, o raio inflama?
Quem tira o fogo da terra?
Que relâmpagos, que chama
dos torrões o céu descerra?
Por que gélido vapor
engendra invernal fulgor?

Passam as ondas e a bruma
ou Febo raios envia
pelo ar, e não ressuma?
Ou arde a montanha fria?
Ou se acalma o doce vento
e o mar beija o firmamento?

Eis a sombra e o profundo,
que recai nos circundantes.
Dizei, pois, se é grande o mundo?
Que guardam astros distantes?
Os viventes conheceis?
Do Criador, que sabeis?

Mikhail Lomonósov

Вечернее размышление о Божием величестве при случае великого северного сияния

Лице свое скрывает день:
Поля покрыла мрачна ночь;
Взошла на горы чорна тень;
Лучи от нас склонились прочь;
Открылась бездна, звезд полна;
Звездам числа нет, бездне дна.

Песчинка как в морских волнах,
Как мала искра в вечном льде,
Как в сильном вихре тонкой прах,
В свирепом как перо огне,
Так я, в сей бездне углублен,
Теряюсь, мысльми утомлен!

Уста премудрых нам гласят:
Там разных множество светов;
Несчетны солнца там горят,
Народы там и круг веков:
Для общей славы Божества
Там равна сила естества.

Но где ж, натура, твой закон?
С полночных стран встает заря!
Не солнце ль ставит там свой трон?
Не льдисты ль мещут огнь моря?
Се хладный пламень нас покрыл!
Се в ночь на землю день вступил!

О вы, которых быстрый зрак
Пронзает в книгу вечных прав,
Которым малый вещи знак
Являет естества устав,
Вы знаете пути планет;
Скажите, что наш ум мятет?

Что зыблет ясный ночью луч?
Что тонкий пламень в твердь разит?
Как молния без грозных туч
Стремится от земли в зенит?
Как может быть, чтоб мерзлый пар
Среди зимы рождал пожар?

Там спорит жирна мгла с водой;
Иль солнечны лучи блестят,
Склонясь сквозь воздух к нам густой;
Иль тучных гор верхи горят;
Иль в море дуть престал зефир,
И гладки волны бьют в эфир.

Сомнений полон ваш ответ
О том, что окрест ближних мест.
Скажите ж, коль пространен свет?
И что малейших дале звезд?
Несведом тварей вам конец?
Кто ж знает, коль велик Творец?

1743 г.
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Bizâncio: Marco Lucchesi [mais traduções — bilíngue — de poetas russos], Prefácio de Foed Castro Chamma e Apresentação de Ivan Junqueira, 1997, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Mikhail Vasilyevich Lomonosov (1711 1765), russo de Denisovka, atual Lomonosov, graduado na Universidade da Academia Imperial de Ciências, em São Petersburgo, e com formação acadêmica completada nas universidades de Marburg e Freiberg, na Alemanha, foi físico, químico, astrônomo, professor, gramático, escritor, poeta, ... um autêntico polímata; após estudos na Alemanha, foi nomeado professor de química da Academia de Ciências de São Petersburgo, e também recebeu a missão de construir um laboratório de pesquisas; Lomonosov é considerado pioneiro em muitas áreas do conhecimento, tais como física, filosofia, literatura e criador da formação da cultura russa moderna; textos do polímata Lomonosov: Pismo o pravilakh rossiyskogo stikhotvorstva (Carta sobre as regras da versificação russa), 276 zametok po fizike i korpuskulyarnoy filosofi (276 Notas sobre Filosofia e Física Corpuscular), Slovo o polze khimi (Слово о пользе химии, Discurso sobre a utilidade da química, 1751), Pismo k II Shuvalovu o polze stekla (Carta a II Shuvalov sobre a utilidade do vidro, 1752), Rossiyskaya grammatika (Gramática Russa), Kratkoy rossiyskoy letopisets (Crônica Russa Curta), Slovo o proiskhozhdeni sveta (Origem da Luz e das Cores, 1756), etc., etc...; escreveu, em latim, as Meditationes de Caloris et Frigoris Causa (Causa do Calor e Frio, 1747), o Tentamen Theoriae de vi Aëris Elastica (Força Elástica do Ar, 1748) e Theoria Electricitatis (Teoria da Eletricidade, 1756) e traduziu para o russo as Institutiones philosophiae experimentalis, de Christian Wolff (Estudos de filosofia experimental); teve a originalidade de vários de seus artigos reconhecidos pelo amigo e célebre matemático suíço Leonhard [Paul] Euler [1707 1783], os quais, a seu conselho, foram publicados pela Academia Russa no Novye kommentari; em 1937, estudiosos soviéticos publicaram uma biografia do polímata e, depois, vieram à luz os 11 volumes de Polnoye sobraniye sochineny (Полное собрание сочинений, Obras Completas, 19501983); em 1940, a Universidade de Moscou passou a se chamar Universidade Lomonosov.