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sexta-feira, 7 de abril de 2023

Ricardo Aquino: Gênesis

 
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Das sombras da vida
da dor mais sentida
dos gritos, gemidos
ecoando no espaço
nascem os meninos de rua.

Das plantações da fome
dos homens sem nome,
sem dentes, sem terra
sobreviventes da guerra
nascem os meninos de rua.

Do salário de exploração
insegurança, fome, inflação;
da falta de leite
no seio das favelas
nascem os meninos de rua.

Da violência da polícia,
da iniquidade da Justiça
desigualdade, maldades
dos rostos humilhados
nascem os meninos de rua.

Do Brasil, brasileiro,
ritmado no pandeiro
do lucro fácil,
por político “Gerson”*,
nascem os meninos de rua.

Da minha revolta, minha vergonha,
minha iniciativa e insônia
acendo um holofote no escuro
e escrevo em cada muro:
por que nascem os meninos de rua?


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que “Gerson” refere-se à expressão ‘Lei de Gerson’, foi cunhada em 1976 e baseou-se numa propaganda de cigarros da época [cigarros Vila Rica] na qual o protagonista/ator, Gerson, ex-jogador de futebol da seleção brasileira e considerado um dos cérebros entre os ‘tri-campeões’ da seleção de 1970, afirmava que gostava de “levar vantagem em tudo” e concitava o consumidor: “leve vantagem você também. Fume Vila Rica”
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meninos de rua — poesia, Prefácio de Jack Rubens, 1991, Oficina Letras & Artes — Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Rodrigues de Aquino, nascido em 1952, fluminense e carioca, formado pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, é médico psiquiatra e psicoterapeuta em formação psicanalítica, com mestrado e doutorado em Memória Social e também poeta; membro de instituições literárias, participou de recitais de poesia, publicou poemas na chamada imprensa alternativa, participou de diversas antologias poéticas e também publicou crônicas; seu livro individual de estréia foi Meninos de rua — poesia (1991).

sexta-feira, 3 de março de 2023

Ricardo Aquino: Egoísmo & outros poemas


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Pingentes

São menores carentes
desfavorecidos,
privados dos direitos
num país menor
carente de futuro;
pingentes da vida
na luta,
sem dentes,
sobreviventes
até quando?

— o —

Egoísmo

Brasil,
gigante,
deitado em berço esplêndido
chega pra lá,
um pouquinho,
arruma um lugar
para os pequenininhos
que dormem ao relento.

— o —

Trinta e oito

Não tive bala de coco
branca
Nem bola de gude
colorida
Só bala metálica
calibrada.

— o —

Poética do abandono

A mamadeira
não tem leite
deixa
a fome dura
como cacete.

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meninos de rua — poesia, Prefácio de Jack Rubens, 1991, Oficina Letras & Artes — Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Rodrigues de Aquino, nascido em 1952, fluminense e carioca, formado pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, é médico psiquiatra e psicoterapeuta em formação psicanalítica, com mestrado e doutorado em Memória Social e também poeta; membro de instituições literárias, participou de recitais de poesia, publicou poemas na chamada imprensa alternativa, participou de diversas antologias poéticas e também publicou crônicas; seu livro individual de estréia foi Meninos de rua — poesia (1991).

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Ricardo Aquino: Revolta & outros poemas


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Poética da solidão

É Natal
e o passarinho
pousado no tronco do ipê
abatido
passeia no meu pensamento
enquanto o pivete
dorme no cimento
coberto da luz do dia.

— o —

Meia vida

Meia
Bola de meia
Meia de sede
Meia vida
Meia inteira
Uma vida.

— o —

Revolta

O menino de olhar assustado
disse com voz embargada
de tanta porrada e humilhação:
quando crescer vou ser polícia,
vou ser igual a eles,
vai chegar minha vez...

— o —

Menina

descalça
na calçada
a espera da vida
nas calçadas da vida

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meninos de rua — poesia, Prefácio de Jack Rubens, 1991, Oficina Letras & Artes — Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Rodrigues de Aquino, nascido em 1952, fluminense e carioca, formado pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, é médico psiquiatra e psicoterapeuta em formação psicanalítica, com mestrado e doutorado em Memória Social, e também poeta; membro de instituições literárias, participou de recitais de poesia, publicou poemas na chamada imprensa alternativa, participou de diversas antologias poéticas e também publicou crônicas; seu livro individual de estréia foi Meninos de rua — poesia (1991).

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

genésio dos santos: poemanifesto ou o desespero do poeta


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Ah, o que escrevi na mesa e no muro
Com coração de tolo e mão de tolo
Não deveria me ornar a mesa e o muro?...

Mas vocês dizem: “Mãos de tolo sujam —
E deve se limpar a mesa e o muro
Até que o último traço desapareça!”

Tolo em desespero [Narr in Verzweiflung,
Nietzschetraduzido por Paulo César de Souza]

          1.
          calem a poesia!
          ignorem-na, ela de nada serve.
          inútil poesia.

          tal qual uma gravura de magritte
          isto não é uma muleta.

          2.
          poetas de todo mundo, uni-vos! uma onda avassaladora percorre os rincões da terra.
          de que adiantaram odes, epigramas, epitalâmios e epístolas que bardos e aedos de antanho recitaram nos ajuntamentos das ágoras e das tribunas para seus ouvintes e degustadores de ocasião? acalmaram angústias pelo menos? reposicionaram desejos?
          ainda agorinha, aqui mesmo na modernidade dos anos vinte do último século do segundo milênio d.c., a já centenaríssima semana de vinte e dois a que veio? o que trouxe com seus saraus e sua exposição em teatro municipal? o que consolidou como benefício? marcava-se ali a criação prioritária de uma arte nacional, mas a mando de quem e de qual elite?
          e hoje, nesta cataléptica pós-modernidade de dois mil e vinte e dois d.c., a que se prestam páginas e páginas internéticas ora ocupadas e visitadas por versos livres ou mesmo sonetos? ou até mesmo por cordéis, repentes e outras canções, tudo devidamente monitorado e chancelado pelos zuquerbérgues nativos e/ou alienígenas... como escapar desta terrível bolharmadilha?

          3.
          “a poesia está morta, mas juro que não fui eu”, manifestou o poeta.
          não, josé paulo paes, nenhuma poesia morreu!
          é certo, contudo, que à luz de vela os versos bruxuleiam cambaleantes, vítimas que são do apagão que nos coloca em atroz escuridão.
          sem novidade no campo literário, protegido pela solidão e em penumbra forçada, o poeta se concentra com uma taça de vinho à mão. e lê, e escreve, e declama.
          quem sabe ele careça da escuridão pra declamar e louvar a réstia de luz, assim como o médico se dedica ao doente e o pastor ao seu rebanho.
          sem doente, pra quê médico? sem rebanho, pra quê pastor?
          e há doente e há rebanho e há escuridão.

          4.
          do mundo real do hoje a poesia não tem nada a dizer ou não quer dizer nada? nem falo do silêncio da pintura, da escultura, da dança, da mímica...
          no entanto, se a poesia, aquela exclusiva que se utiliza da palavra escrita ou falada, não cuidar de tais temas nem deles enviar notícias, então pra que ela serve?
          pra aliviar as dores do narcísico poeta? pra acarinhar alguém ressentido pela ausência de bens materiais?
          quem sabe, ao contrário do que possa afirmar nossa vã suposição, sirva a alguém empanturrado de tantos bens materiais... sei lá! talvez sirva a algum bajulador dos donos do dinheiro.

          5.
          qual o lado da poesia neste ambiente a nós apresentado? nesta pátria dinheiril de arenga democrática, o que a poesia pensa e diz sobre os algoritmos e outros ritmos que nos regem? isso é questão nanúscula ou questão nenhuma para o fazer e o refazer de nossos textos?
          o que palavras pensam e dizem acerca do aquecimento global, do derretimento das cada vez menores calotas polares a cada dia que passa? e sobre o uso dos combustíveis fósseis? o que elas, as palavras, nos revelam sobre o capitalismo selvagem ou vá lá!? , domesticado e bem longe de ser tão somente ocidental e muito menos acidental? já são fatos consumados e irreversíveis?
          com mais acuidade ainda, neste nanocosmo, o que a palavra doce palavra! tem a dizer sobre desgovernos? e o que já se disse sobre governos e desgovernos de ontem ou de antanho? poemas não deram jeito nisso. há poesia que a isso dê jeito?
          aliás, o que é desgoverno? e governo?

          hoje agorinha, e já encaminhado para um qualquercosmo, que ruídos sonantes e/ou dissonantes são ouvidos acerca deste novíssimo e contaminante momento de vento pandêmico que infesta esta bolhaterra? com uma conta na casa de vários milhões de mortos e sequelados, a que veio tal pandemia?
          mas e acerca de todas as mortes de todas as guerras de todos os tempos? só cabe o silêncio?
          o que a poesia declama sobre a china e a cochinchina? e sobre a américa latina?
          ah! o que dizer sobre os que vestem fardas, todas as fardas de todas as cores e para todo propósito? nada há a ser dito?

          6.
          inútil poesia
          não uive para o lado escuro da lua
          não há mais lua
          esqueça a lua

          7.
          o poeta tem algo a dizer sobre a utopia?
          descendo do pedestal para onde foi catapultado e onde ora se posiciona, o que ele nos informa acerca das muletas quaisquer muletas! , a religião, a arte, a bebedeira, o socialismo utópico?
          existe socialismo utópico? não sendo utópico, pode-se arguir sobre algum socialismo real? há magia que dê jeito a isso?

          8.
          a morte ronda perversa. e se a vida for tão somente um paliativo para em vão tentar driblá-la no que há devir, há placebo que nos alivie e nos conforme?
          não, não é preciso calar a poesia. ela já anda calada. por inútil, já não serve pra nada mesmo.

          [ou, sem pretensão alguma e tampouco movidos por intenções terceiras, a cultivemos e a deixemos funcionar, talvez!, mesmo que sem função definida...]

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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal O Espelho — SP, Folha Bancária, participou do jornal Brinque (do coletivo cultural do Seeb-SP, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Ricardo Aquino: Poética da propriedade & outros poemas


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Poética da propriedade

Não tive leite
Não tive pão
Não tive carinho
Não tive cama
Não tive teto
Não tive afeto
Vivi no chão
Vivi na rua
Vivi no frio
Por isso a cidade é minha.

— o —

Restos

Meninos e meninas de rua
não são restos de gente,
eles nem cresceram...

— o —

Pilhagem

Eles correm gritando
não sei se alegres
de alguma brincadeira;
os olhos brilhando
denunciam sua vitória,
são meninos assaltando
são vidas sem glória.

— o —

Poética do medo

Uma criança
agachada
na clareira
de leis
da selva
de pedra
parada
com medo
das leis
das pedras
sem lei
paralisada
por feras
tropicais.

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meninos de rua — poesia, Prefácio de Jack Rubens, 1991, Oficina Letras & Artes — Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Rodrigues de Aquino, nascido em 1952, fluminense e carioca, formado pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, é médico psiquiatra e psicoterapeuta em formação psicanalítica, com mestrado e doutorado em Memória Social e também poeta; membro de instituições literárias, participou de recitais de poesia, publicou poemas na chamada imprensa alternativa, participou de diversas antologias poéticas e também publicou crônicas; seu livro individual de estréia foi Meninos de rua — poesia (1991).

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Ricardo Aquino: Genocídio & outros poemas

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Genocídio

“Cônscios” Pilatos
ecos modernos
exterminam promessas de vida;
quem vai semear a esperança?
quem vai multiplicar o pão?

— o —

Roleta russa

Fome
Prostituição
Tóxico
Morte
Funabem*
Violência
Fome
Prostituição
Tóxico
Morte
Funabem
Violência
Fim

— o —

Meninos de rua

Da ausência de vida
surgem
No horizonte da cidade
vivem
Na quebrada da sociedade
gemem
Do espelho de tanta mágoa
ecoa minha revolta
e grito: não!

— o —

Um pedido

Pivetes
Cola
Candentes
Consola
Pedintes
Escola


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que a sigla Funabem corresponde à então Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, órgão federal, depois substituída por organismos estaduais com o mesmo objetivo [em São Paulo, a Fundação Casa/SP — Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente].
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meninos de rua — poesia, Prefácio de Jack Rubens, 1991, Oficina Letras & Artes — Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Rodrigues de Aquino, nascido em 1952, fluminense e carioca, formado pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro, é médico psiquiatra e psicoterapeuta em formação psicanalítica, com mestrado e doutorado em Memória Social, e também poeta; membro de instituições literárias, participou de recitais de poesia, publicou poemas na chamada imprensa alternativa, participou de diversas antologias poéticas e também publicou crônicas; seu livro individual de estréia foi Meninos de rua — poesia (1991).

domingo, 5 de abril de 2020

p. da silva: a pá lavra

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a pá lavra nas bocas
de quem quer plantar
pra saciar a fome do mundo.

a pá lavra nos sonhos
de quem se recusa a buscar sonhos
nos cortiços, favelas e ruas
dos centros urbanos.

a pá lavra nas armas tão toscas
dos que resistem a fuzis, metralhadoras,
escudos e coletes à prova de balas
dos defensores de latifúndios improdutivos.

a pá lavra que mata ecoa
floresta propaga de boca em boca:
vergonha!

a pá lavra numa vida inteira
e em sete palmos de terra.
amém!

a pá lavra, enfim,
em duas só palavras:
REFORMA AGRÁRIA!
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P. da Silva (Genésio dos Santos), maio/1996: poema desenvolvido por ocasião das mortes de 19 trabalhadores rurais sem-terra, no sul do Pará, em 17 de abril de 1996, trabalhadores esses executados pela polícia paraense num episódio amplamente registrado na mídia como o Massacre de Eldorado dos Carajás; á época, três meses após as mortes, o Sindicato dos Bancários de São Paulo promovera um ato público itinerante lembrando o triste e revoltante acontecimento, e, durante a caminhada pelo centro de São Paulo, foi distribuido à população um documento pelo qual se cobrava o não esquecimento e a punição dos matadores e responsáveis pela chacina  no verso do documento fez-se constar o poema acima.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Bertolt Brecht: A queima de livros

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[traduzido por André Vallias]

Quando o regime ordenou que todos os livros
Com informação nociva fossem queimados, e por toda
Parte forçaram bois a puxar carroças com livros
Para a fogueira, um poeta escorraçado, um dos melhores
Descobriu estarrecido, examinando a lista dos
Incinerados, que os seus haviam sido
Esquecidos. Ele voou para a escrivaninha
Enfurecido, e escreveu uma carta aos donos do poder.
Incinerem-me! escreveu com a pluma alada, incinerem-me!.
Não façam isso comigo! Não me deixem para trás! Porventura
Não relatei sempre a verdade em meus livros? E eis
Que agora vocês me tratam como um mentiroso! Eu ordeno:
Incinerem-me!

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Bertolt Brecht

Die Bücherverbrennung

Als das Regime befahl, Bücher mit schädlichem Wissen
Öffentlich zu verbrennen, und allenthalben
Ochsen gezwungen wurden, Karren mit Büchern
Zu den Scheiterhaufen zu ziehen, entdeckte
Ein verjagter Dichter, einer der besten, die Liste der
Verbrannten studierend, entsetzt, daß seine
Bücher vergessen waren. Er eilte zum Schreibtisch
Zornbeflügelt, und schrieb einen Brief an die Machthaber.
Verbrennt mich! schrieb er mit fliegender Feder, verbrennt mich!
Tut mir das nicht an! Laßt mich nicht übrig! Habe ich nicht
Immer die Wahrheit berichtet in meinen Büchern? Und jetzt
Werd ich von euch wie ein Lügner behandelt! Ich befehle euch:
Verbrennt mich!

[1938]
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Bertolt Brecht — Poesia, Introdução e Tradução de André Vallias, Editora Perspectiva, 1ª edição, São Paulo — SP; Eugen Bertholt Friedrich Brecht (1898 1956), alemão de Augsburg Baviera, foi dramaturgo, encenador e poeta; em 1917 iniciou o curso de Medicina, em Munique, mas, tendo sido convocado pelo exército, na Primeira Guerra, trabalhou como enfermeiro em hospital militar; em 1933, com a ascensão de Hitler, deixa a Alemanha, exilando-se primeiro na Dinamarca, depois nos Estados Unidos e na Suiça; em 1948, de volta à Alemanha, funda a companhia teatral Berliner Ensemble; Brecht, atuante na poesia e na arte dramática, deixou-nos extensa produção artística, Baal (texto de 1918/produção em 1926), Trommein in der Nacht (Tambores na Noite, 1918/1920), Mann is Mann (Um Homem é um Homem, 1924-26/1926), Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs, 1928/1928), Die Kleinbürgerhochzeit (O Casamento do Pequeno Burguês, 1919/1926), Die Ausnahme und die Regel (A Exceção e a Regra, 1930/1938) e tantos outros textos escritos e produzidos para o teatro; sua poesia não se dissocia da arte dramática, havendo em seus poemas o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Lima Barreto: O novo manifesto

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                    Eu também sou candidato a deputado. Nada mais justo. Primeiro: eu não pretendo fazer coisa alguma pela Pátria, pela família, pela humanidade.
                    Um deputado que quisesse fazer qualquer coisa dessas, ver-se-ia bambo, pois teria, certamente, os duzentos e tantos espíritos dos seus colegas contra ele.
                    Contra as suas ideias levantar-se-iam duas centenas de pessoas do mais profundo bom senso.
                    Assim, para poder fazer alguma coisa útil, não farei coisa alguma, a não ser receber o subsídio.
                    Eis aí em que vai consistir o máximo da minha ação parlamentar, caso o preclaro eleitorado sufrague o meu nome nas urnas.
                    Recebendo os três contos mensais, darei mais conforto à mulher e aos filhos, ficando mais generoso nas facadas aos amigos.
                    Desde que minha mulher e os meus filhos passem melhor de cama, mesa e roupas, a humanidade ganha. Ganha, porque, sendo eles parcelas da humanidade, a sua situação melhorando, essa melhoria reflete sobre o todo de que fazem parte.
                    Concordarão os nossos leitores e prováveis eleitores, que o meu propósito é lógico e as razões apontadas para justificar a minha candidatura são bastante ponderosas.
                    De resto, acresce que nada sei da história social, política e intelectual do país; que nada sei da sua geografia; que nada entendo de ciências sociais e próximas, para que o nobre eleitorado veja bem que vou dar um excelente deputado.
                    Há ainda um poderoso motivo, que, na minha consciência, pesa para dar este cansado passo de vir solicitar dos meus compatriotas atenção para o meu obscuro nome.
                    Ando mal vestido e tenho uma grande vocação para elegâncias.
                    O subsídio, meus senhores, viria dar-me elementos para realizar essa minha velha aspiração de emparelhar-me com a deschanelesca* elegância do Senhor Carlos Peixoto.
                    Confesso também que, quando passo pela rua do Passeio e outras do Catete, alta noite, a minha modesta vagabundagem é atraída para certas casas cheias de luzes, com carros e automóveis à porta, janelas com cortinas ricas, de onde jorram gargalhadas femininas, mais ou menos falsas.
                    Um tal espetáculo é por demais tentador, para a minha imaginação; e, eu desejo ser deputado para gozar esse paraíso de Maomé sem passar pela algidez da sepultura.
                    Razões tão ponderosas e justas, creio, até agora, nenhum candidato apresentou, e espero da clarividência dos homens livres e orientados o sufrágio do meu humilde nome, para ocupar uma cadeira de deputado, por qualquer Estado, província ou emirado, porque, nesse ponto, não faço questão alguma.
                    Às urnas

Vida urbana, 16-1-1915

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* Nota da edição: Deschanel, Paul (1855 — 1922): Político francês, presidente da República de fevereiro a setembro de 1920.
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Lima Barreto: Crônicas Escolhidas, Apresentação de João Antônio, Coleção Folha de São Paulo, 1995, Editora Ática, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C. e Careta dentre eles; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; obras literárias: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e editado em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919),  Cemitério dos Vivos (obra inacabada, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Luiz Roberto Ramos: "O único jeito de você não ficar velho é morrer cedo."


Reproduzo texto-entrevista com o médico geriatra Luiz Roberto Ramos, diretor do Centro de Estudos do Envelhecimento da Escola Paulista de Medicina e coordenador do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp (extraído do site da Rede Brasil Atual):
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São Paulo – O Brasil caminha a passos largos para ter uma das maiores populações idosas do planeta. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), nos próximos 13 anos o país ocupará o sexto lugar no ranking daqueles com maior número de idosos. Hoje, 10% da população brasileira, cerca de 15 milhões de pessoas, tem mais de 60 anos.
Em dez anos, esse número vai dobrar. Segundo o geriatra Luiz Roberto Ramos, após os 60 anos a maioria das pessoas terá ao menos uma doença crônica e o que vai determinar a saúde nessa faixa etária é a capacidade de o idoso ter uma vida autônoma.
Ramos, que é diretor do Centro de Estudos do Envelhecimento da Escola Paulista de Medicina e coordena o Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta que o país precisa se preparar para cuidar da saúde de seus idosos, inclusive formando mais médicos especializados. A entrevista foi concedida à repórter Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual.  
Como o senhor analisa o rápido crescimento da população idosa no Brasil?
O que está ocorrendo no Brasil não é só um envelhecimento populacional nos moldes do que foi observado em outros países anteriormente, mas é um processo muito mais acelerado por conta do fato de que o Brasil está envelhecendo já com algumas questões bastante resolvidas, como anticoncepção, porque para uma população envelhecer precisa cair a fecundidade dessa população.
O Brasil está envelhecendo, porque não só o brasileiro está vivendo mais, mas as mulheres estão tendo menos filhos. Na medida em que entram menos crianças na população, começam a sobressair os idosos. Esse é o processo de envelhecimento. Na época em que a Europa envelheceu a gente não tinha mecanismos de controle da natalidade, a coisa era feita mais na base do calendário e, mesmo assim, houve envelhecimento.
No Brasil, quando isso acontece, no final da década de 70, começa a cair a fecundidade já com os métodos anticoncepcionais bastante desenvolvidos. Foi uma queda muito mais rápida e muito mais intensa fazendo com que esse processo todo no Brasil fosse bastante encurtado. Nós estamos envelhecendo na metade do tempo que a Europa envelheceu.
Qual é a idade média do idoso brasileiro?
A idade média do brasileiro hoje está em 75 anos. As mulheres vivem sempre um pouco mais que a média, os homens sempre um pouco menos. Podemos dizer que o brasileiro ganhou nos últimos 50 anos quase 30 anos a mais de vida. Essa é uma equação complicada, porque mexe com o planejamento de vida das pessoas. Em pouco tempo, as pessoas passam a administrar 20, 30 anos a mais de vida e isso tem uma série de implicações até para o sistema da Previdência Social.            
Quem é o idoso brasileiro? Como identificar essa população?
Do ponto de vista demográfico, chamamos de idosas as pessoas com mais de 60 anos. Alguns países da Europa mais desenvolvidos identificam o idoso com mais de 65 anos. Na Escandinávia, por exemplo, um idoso é um individuo com mais de 70 anos, porque muitas pessoas atingem essa idade em boas condições de saúde, fazendo com que as peculiaridades da velhice fiquem sendo empurradas para frente.
Então o parâmetro nesse caso é a saúde?
O parâmetro é a conservação das pessoas. Em países como a Suécia eles estão preocupados com a população com mais de 70 anos, embora você possa dizer que uma pessoa com mais de 60 é idosa. Eles identificam a população de atenção com mais de 70 anos. No Brasil, a gente ainda trabalha com a noção de que idosos são os indivíduos que têm mais de 60 anos e que hoje representam cerca de 10% da população, ou seja, 15 milhões de pessoas.
O que nos preocupa é que em menos de 10 anos essa população vai dobrar e nós vamos ter 30 e tantos milhões de idosos no Brasil. Aí sim, vai ser uma população grande, uma das maiores do planeta, e que vai ter que ser cuidada.
Quais são os estigmas relacionados aos “velhos”?
O único jeito de você não ficar velho é morrer cedo, então essa inevitabilidade tem um lado positivo. Os brasileiros estão vivendo mais, mas todo mundo recusa um pouco a ideia de envelhecer porque associa envelhecimento com decrepitude, no sentido das pessoas ficarem fragilizadas e principalmente se tornarem velhos dependentes e incapazes de tocar a sua própria vida.
Algumas pessoas vão envelhecer com perda funcional e consequentemente vão se tornar dependentes no dia a dia, mas elas são a minoria. A grande maioria das pessoas envelhece capaz de administrar a própria vida. No entanto, a gente tem que ter presente que a ocorrência de doenças crônicas é quase que inevitável ou seja, após os 60 anos a grande maioria das pessoas vai ter pelo menos uma doença crônica, seja pressão alta, diabete, catarata, um problema cardíaco.
Mas isso não quer dizer que ela vai ser uma pessoa limitada, dependente. Significa sim, que ela vai ter que administrar diariamente uma ou mais doenças crônicas que são inevitavelmente desenvolvidas na medida que os anos passam. O que é evitável é o individuo perder função, perder capacidade de tocar a vida de forma independente.
Esse é o foco principal das pesquisas que a gente realizou durante todos esses anos, ou seja, saúde na velhice é a manutenção da função suficiente para o individuo ter uma vida independente, autônoma. Esse é o novo conceito de saúde.
Aquele idoso que vive sozinho, que se vira sozinho.
Ele é capaz de viver sozinho porque ele consegue realizar as atividades que todo mundo faz, como se vestir, tomar banho, comer, fazer compras, cuidar das finanças, enfim, manter a sua casa e a sua família sem precisar de ajuda específica de ninguém. Esse indivíduo pode ter várias doenças. Tenho uma conhecida, a dona Clemência, que tem 90 anos e mora sozinha. Toma seus remédios, mas não depende da família para a própria sobrevivência.
Eu costumo dizer que viver sozinho na velhice, não é para quem quer, é para quem pode. É uma conquista você poder depois de uma certa idade, ter capacidade funcional suficiente para viver sozinho. Dá para você ser saudável na velhice e, ao mesmo tempo, tomar remédio para pressão, diabete, e isso não comprometer a sua saúde global.
Qual a receita para um envelhecimento saudável?
Primeiro, se manter ativo é uma grande ajuda para todas as pessoas depois da suposta idade da aposentadoria. A outra coisa é o próprio “viver sozinho” que estimula o indivíduo a se manter independente e capaz de realizar tudo que ele precisa durante o dia. E terceiro, ter claro o benefício de fazer atividade física. Um bom exemplo de manter a saúde funcional é permanecer ativo do ponto de vista laboral e do ponto de vista físico e mental.
O mercado de trabalho no Brasil está aberto à terceira idade?
Ainda não da mesma forma que se observa na Europa, onde já existem políticas bastante explícitas de recontratação e pessoas aposentadas podem ter determinadas funções que não demandam muita agilidade física, mas demandam comprometimento. É um mercado que se abre para idosos.
No Brasil, algumas áreas já identificam nos idosos pessoas mais confiáveis, com responsabilidade maior nas suas funções e que, portanto, atrairiam contratações apesar da idade e do fato de já serem aposentados em outras funções. Mas acho que é uma coisa que o Brasil vai precisar desenvolver mais. É um campo de trabalho para pessoas que já se aposentaram em alguma função e que ainda tem condições físicas e mentais de servir a sociedade.
Quais são os direitos dos idosos no Brasil?
Existe um Estatuto do Idoso bastante desenvolvido, com uma série de direitos nem sempre acessíveis a todos, pelo menos no momento. Nós vivemos num país com problemas econômicos, desemprego. Nessa disputa é óbvio que os idosos que necessitem de uma atividade laboral para fins econômicos certamente vão ter alguns problemas, porque esse mercado não está desenvolvido.
Agora, a própria necessidade de precisar trabalhar nessas idades já coloca esses indivíduos em uma situação de mais risco, porque eles certamente vêm de uma situação carente já de mais tempo. Mas o ideal é que as pessoas se mantenham ativas, sem a premência econômica, ou seja, terem uma aposentadoria mínima para poderem viver e trabalhar para melhorar essa situação e não como única alternativa.