sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Luiz Gama: Lá vai verso!

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“Quero também ser poeta,
Bem pouco, ou nada me importo
Se a minha veia é discreta
Se a via que sigo é torta .”
(F. X. de Novais)

Alta noite, sentindo o meu bestunto
Pejado, qual vulcão de flama ardente,
Leve pluma empunhei, incontinenti
O fio das idéias fui traçando.
As Ninfas invoquei para que vissem
Do meu estro voraz o ardimento;
E depois, revoando ao firmamento,
Fossem do Vate o nome apregoando.

Oh! Musa de Guiné, cor de azeviche,
Estátua de granito denegrido,
Ante quem o Leão se põe rendido,
Despido do furor de atroz braveza;
Empresta-me o cabaço d'urucungo,
Ensina-me a brandir tua marimba,
Inspira-me a ciência da candimba,
Às vias me conduz d'alta grandeza.

Quero a glória abater de antigos vates,
Do tempo dos heróis armipotentes;
Os Homeros, Camões — aurifulgentes,
Decantando os Barões da minha Pátria!
Quero gravar as lúcidas colunas
Obscuro poder da parvoíce,
E a fama levar da vil sandice
Às longínquas regiões da velha Báctria!

Quero o mundo me encarando veja,
Um retumbante Orfeu de carapinha
Que a Lira desprezando, por mesquinha,
Ao som decanta de Marimba augusta;
E, qual outro Arion entre os Delfins,
Os ávidos piratas embaindo —
As ferrenhas palhetas vai brandindo
Com estilo que preza a Líbia adusta.

Com sabença profusa irei cantando
Altos feitos da gente luminosa.
Que a trapaça movendo portentosa
À mente assombra, e pasma a natureza!
Espertos eleitores de encomenda.
Deputados, Ministros, Senadores,
Galfarros Diplomatas — chuchadores,
De quem reza a cartilha da esperteza.

Caducas Tartarugas — desfrutáveis,
Velharrões tabaquentos — sem juízo,
Irrisórios fidalgos — de improviso,
Finórios traficantes — patriotas;
Espertos maganões de mão ligeira,
Emproados juízes de trapaça,
E outros que de honrado têm fumaça,
Mas que são refinados agiotas.

Nem eu próprio à festança escaparei;
Com foros de Africano fidalgote,
Montado num Barão com ar de zote —
Ao rufo do tambor e dos zabumbas
Ao som de mil aplausos retumbantes,
Entre os netos da Ginga, meus parentes,
Pulando de prazer e de contentes —
Nas danças entrarei d'altas cayumbas

Primeiras trovas burlescas de Getulino *, 1859


* Getulino era pseudônimo de Luiz Gama.
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Antologia de Poesia Afro-Brasileira  150 anos de consciência negra no Brasil, Prefácio de Eduardo de Assis Duarte, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte MG; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos 10 anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (primeira edição, 1859), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa da época, tendo sido aprendiz de tipógrafo n'O Ipiranga, redator do Radical Paulistano, redator de O Polichinelo primeiro periódico político e satírico da cidade de São Paulo, e ajudou a fundar os periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866 1867).

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Adélia Prado: Neurolinguística

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Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.

(Oráculos de maio, 1999)

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Reunião de Poesia — Adélia Prado (poemas selecionados), Prefácio de Adilson Citelli, segunda edição, 2013, Edições BestBolso, Rio de Janeiro — RJ; Adélia Luzia Prado de Freitas, poeta, nascida em Divinópolis MG, em 1935, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético ao publicar seu primeiro livro de poemas, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976); depois, publicou O coração disparado (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988), Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010), entre outros títulos.

Adélia Prado: Argumento

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Tenho três namorados.
Um na Europa que é um boneco de gelo,
outro na cidade vendo futebol no rádio
e o terceiro tocando violão na roça.
Todos mamíferos, sangue vermelho e ossos friáveis.
Um deles cuspiu no chão, o que escolhi para casar.
Mesmo tendo feito o que fez, só ele me perdoará.

(A Duração do Dia, 2010)

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Reunião de Poesia — Adélia Prado (poemas selecionados), Prefácio de Adilson Citelli, segunda edição, 2013, Edições BestBolso, Rio de Janeiro — RJ; Adélia Luzia Prado de Freitas, poeta, nascida em Divinópolis MG, em 1935, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético ao publicar seu primeiro livro de poemas, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976); depois, publicou O coração disparado (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988), Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010), entre outros títulos.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Núbia N. Marques: Necrose *

Morri tantas vezes em ti
que nem me apercebi da necrose
os túmulos de flores insepultas
eram risos da infância dilacerada
trêmulos risos girassóis outonais.

Morri tantas vezes em ti
que nem me apercebi da necrose
a noite que sempre precede ao nada
tinhas as calcinadas expressões do desamparo
e a única árvore abrigo
era a despedida árvore inatingível

Morri tantas vezes em ti
que nem me apercebi da necrose
os ventos que embalavam os cemitérios
nem tinham o balanço de brisas silenciosas
nem eram a ventania alucinada
mas os ventos lentos que ninam a morte.

Morri tantas vezes em ti
que nem me apercebi da necrose
e a desvairada busca do amor
era o réquiem eterno do desencontro.


* Prêmio Jorge de Lima — II Festival de Verão
   de Marechal Deodoro, Alagoas — 1972
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Geometria do Abandono, Editora do Escritor, 1975, São Paulo — SP (Prêmio Pedro Calazans — Prefeitura Municipal de Aracaju — 1975); Núbia Nascimento Marques (1927 1999), nascida em Aracaju SE, foi poeta, escritora e primeira mulher eleita para a Academia Sergipana de Letras; escreveu e publicou Um Ponto Duas Divergentes, poesia (1959), João Ribeiro, o Poeta ensaio (1960), Dimensões Poéticas, poesia (1961), Sinuosas Em Carne e Osso, crônicas (1962), Baladas do Inútil Silêncio, poesia (em parceria com Giselda Morais e Carmelita Pinto Fontes, 1964), Berço de Angústia, romance (1967), Máquinas e Lírios, poesia (1971), Geometria do Abandono, poesia (1975) entre outros títulos.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

José Paulo Paes: Pavloviana

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a comida
         a sineta
                 a saliva
a sineta
         a saliva
                 a saliva
a saliva
         a saliva
                 a saliva

o mistério
        o rito
              a igreja
o rito
        a igreja
              a igreja
a igreja
        a igreja
              a igreja

a revolta
        a doutrina
               o partido
a doutrina
        o partido
               o partido
o partido
        o partido
               o partido

a emoção
        a idéia
              a palavra
a idéia
        a palavra
              a palavra
a palavra
        a palavra
                 A PALAVRA
(Anatomias, 1967)

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Um Por Todos (poesia reunida), Introdução de Alfredo Bosi, 1986, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926  1998), paulista nascido em Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; escreveu e publicou: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses, tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Ovídio, Níkos Kazantzákis, entre tantos outros; foi laureado com diversos prêmios literários, nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

Luís Carlos: Ventura

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Ventura!... Tanto dizem da ventura!
Uns... que consiste na mulher amada;
Outros... na glória de imortal nomeada,
Que a argila humana em bronze transfigura.

O cego diz que é a luz que em vão procura;
O artista o ideal, como o guerreiro a espada;
O crente o Céu, como o suicida o Nada.
Cada qual na visão que o bem lhe augura.

Todos a consideram por um prisma,
Que em complexa feição sempre a revela.
Pois é simples a minha... o verso diz-ma:

Ver a noite através de uma janela,
Tendo comigo, em convivente cisma,
Pena, tinta, papel, cigarro e vela.

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Poesias Escolhidas — Luís Carlos, 1970, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; publicou seus versos em jornais e revistas; congregado a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.