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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Erik Axel Karlfeldt: Nada melhor do que a espera

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

Nada melhor do que a espera,
cheias da primavera, tempo dos botões,
os dias de maio não são tão claros
como os clarões dos de abril.
Vem sobre o último gelo do caminho;
a floresta nos dá seu frescor adormecido
com seu profundo murmúrio.
Daria satisfeito a volúpia do estio
pelas primeiras vergônteas que começam a luzir
na sombra do vale sob os pinheiros,
e o primeiro canto do melro.

Nada se compara a esse tempo de langor,
anos de espera, tempo de bodas.
Não há primavera com tal claridade
que a de um amor secreto.
Ver-se raramente, separar-se às pressas,
sonhar delícias e os perigos
que a vida no seio traz!
Que os impacientes colham os frutos dourados,
eu quero demorar, renunciar,
velar em meu jardim
enquanto desabrocham os brotos.

Erik Axel Karlfeldt

Intet Är Som Väntanstider

Intet är som väntanstider,
vårflodsveckor, knoppningstider,
ingen maj en dager sprider
som den klarnande april.
Kom på stigens sista halka,
skogen ger sin dävna svalka
och sitt djupa sus därtill.
Sommarns vällust vill jag skänka
för de första strån, som blänka
i en dunkel furusänka,
och den första trastens drill.

Intet är som längtanstider,
väntansår, trolovningstider.
Ingen vår ett skimmer sprider
som en hemlig hjärtanskär.
Sällan mötas, skiljas snarligt,
drömma om allt ljuvt och farligt
livet i sitt sköte bär!
Gyllne frukt må andra skaka;
jag vill dröja och försaka,
i min lustgård vill jag vaka,
medan träden knoppas där.

[Fridolins Visor — 1898]
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Poesias: Erik Axel Karlfeldt, Tradução de Ivo Barroso, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Erik Axel Karlfeldt, por Gunnar Brandell, Ilustrações de Postma e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Erik Axel Karlfeldt, por Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Erik Axel Karlfeldt (1864 1931), sueco de Karlbo, província de Dalekarlia, de família empobrecida e endividada, com descendência de mineradores, teve o pai preso, estudou em Karlbo e em Västerås, depois na Universidade de Uppsala, e, entre outros ofícios, foi bibliotecário da Academia Agrícola e da Biblioteca Real de Estocolmo, membro e secretário da Academia Sueca, professor e poeta lírico simbolista; teve que interromper os estudos na Universidade de Uppsala, por absoluta falta de dinheiro, ocupou-se com alguns trabalhos, experienciou o desemprego, foi contratado como jornalista experimental no Aftonbladet, em Djursholm; com a melhora de sua situação miserável, e com o apoio financeiro do editor-chefe e dono do jornal, voltou aos estudos em Uppsala e, concluindo-os, bacharelou-se em 1892; para isso, obteve aprovação em Latim, Línguas Germânicas, Línguas Nórdicas, Mineralogia e Geologia, Filosofia teórica e Estética, Literatura e História da Arte; já estreante na poesia, Karlfeldt, no início de 1890, fez contato com o crítico literário e editor do Svensk tidskrift, e ali, em 1891, teve quatro de seus poemas publicados e assinados pela primeira vez com o próprio nome; ainda em 1892, atuou na direção da Djursholmsbolaget construtora de casas, fez parte do conselho escolar da Enskilda Läroverk de Djursholm, foi professor de Sueco, Inglês e Alemão; suas obras: Vildmarks — Och Karleksvisor (Canções dos Bosques e Canções de Amor, 1895), Fridolins Visor (Canções de Fridolin, 1898), Fridolins Lustgard och Dalmalningar Pa Rim (O Éden de Fridolin e Quadros Dalecarlianos em Versos, 1901), Flora och Pomona (Flora e Pomona, 1906), Skalden Lucidor (O Poeta Lucidor, Estudo sobre o poeta Lars Johansson Lucidor [1638 — 1674], 1914), Flora och Bellona (Flora e Belona — Poesias, 1918), Carl Fredrik Dahlgren (Retrato de um romântico sueco de há cem anos, 1924), Hösthorn (Trompa Ocidental — Poesias, 1927), Skrifter (Obras poéticas — Edição comemorativa em 5 volumes, 1931); Erik Axel Karlfeldt, o poeta lírico [da lavra simbolista, panteísta disfarçado de regionalista] que morrera em 08 de abril de 1931, em indicação excepcional e póstuma, foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura a 8 de outubro daquele ano.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Erik Axel Karlfeldt: Amor selvagem

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

Ele estava deitado sob as árvores da encosta,
a cabeça a repousar sobre o alforje, dormindo.
Era um cigano vagabundo,
e o sol por entre as bétulas
brilhava sobre o peito moreno
raramente coberto de camisa.

A saia a cair até os tornozelos,
uma rapariga da estirpe gitana,
veio a passar, fagueira e esbelta.
Vendo o rapaz, ela sorriu,
apanhou um raminho de erva
e se pôs a roçá-lo em seus lábios.

Como se fosse de mola, o moço se ergueu
mais rápido do que se fugisse aos da guarda.
E plaft! a bofetada estala!
Mas, plaft! a resposta é imediata,
Depois, em silêncio, embaraçados,
os dois se encararam demoradamente.

Estavam na primavera do amor,
na ardente primavera de junho *
que esparzia seus fogos naquelas almas incendiadas.
Eram ambos atrevidos e belos,
embora perseguidos, magros, extenuados
como os animais bravios da floresta.

Era a primeira vez que se viam,
mas como se parecessem
 cada qual tem seu igual 
bem cedo se reconciliaram.
E trocaram juramentos
sem igreja e sem juiz.

Para o banquete de núpcias, a noiva,
a bela repariga esfomeada,
esvaziou os dois alforjes:
no dele arenques e maçãs,
ração campônia, à que ela ajunta
de dote os doces da cidade.

Com um sorriso experto retirou
do bolso da saia uma garrafa
que até então não revelara.
“Que maravilha, cerveja preta!
Ó minha esposa maravilhosa!”
E ternamente se enlaçaram.

Falaram, após, das belezas da vida
quando se vai, em par, pelas estradas
a mendigar e a furtar ambos de acordo.
Falam do outono e das festas das feiras,
de viagens pela vastidão do mundo,
até o dia em que um se deixa apanhar.

Depois a garrafa sumiu no alforje
e os dois se foram para além da colina
trocando juras e risos saborosos.
No colchão perfumado de um monte de feno
ao som do vento que vai do prado para os bosques
foi que se transcorreu a curta lua-de-mel.

Erik Axel Karlfeldt

Vild kärlek

Han låg på den skogiga åsen
och sov med kinden mot påsen,
en stryker av tattarsläkt,
och soln genom björkarnas springa
sken ner på hans bruna bringa,
den sällan en skjorta väl täckt.

Med kjol som till smalbenet räckte
en slinka av tattarsläkte
kom drivande, gänglig och tunn.
När pojken hon varsnade, log hon,
ett strå ifrån marken tog hon
och kittlade sakta hans mun.

Upp sprang han, kvick som en fjäder,
som om han av länsman fått väder
surr, örfilen ven och brann;
pang, svaret kom raskt och redligt!
Se’n stodo de tyst och beskedligt
och mönstrade skamsna varann.

De voro i älskogsåren.
Den glödande junivåren
göt eld i hetsig natur.
De voro käcka och fagra,
fast jäktade, svultna och magra
som skogarnas skadedjur.

De möttes för första dagen
men buro ju släktskapsdragen,
och lika barn leka bäst.
Och snart var försoningen sluten
och löftenas boja knuten
förutan lysning och präst.

Nu bröllopsmålet vart hållet,
och bruden, det glupska trollet,
i påsarna rev och slet.
Och han hade sill och potäter
och föda som bondfolk äter,
hon stadsmat och läckerhet.

Med illmarigt leende flickan
se’n håvade upp ur fickan
en flaska som hittills hon gömt.
"Det smakte, förbaska mej, mumma,
min lilla beskedliga gumma!"
De kysstes lycksaligt och ömt.

De talte om livets gamman,
då tvenne vandra tillsamman
och tigga och stjäla i lag,
om hösten och marknadsfärden,
om strövtåg vida i världen
tills, förstås, man blir fast en dag...

Se’n stucko de flaskan i påsen
och vankade bort längs åsen
under mustiga smekord och skratt.
På höladans doftande bolster
vid suset av skogsängens jolster
förrann deras korta natt.

[Vildmarks — och Karleksvisor, 1895]

* Nota do tradutor Ivo Barroso: O leitor, tendo presente a incidência do verão europeu nos meses de junho, julho e agosto, poderá estranhar que Karlfeldt se refira a esse primeiro mês como de primavera. A primavera e o verão, entretanto, no Norte da Suécia são mais tardios e curtos que no resto da Europa, o que permite ao poeta referir-se ao mês de junho ao mesmo tempo como fim da primavera e início do verão.
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Poesias: Erik Axel Karlfeldt, Tradução de Ivo Barroso, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Erik Axel Karlfeldt, por Gunnar Brandell, Ilustrações de Postma e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Erik Axel Karlfeldt, por Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Erik Axel Karlfeldt (1864 1931), sueco de Karlbo, província de Dalekarlia, de família empobrecida e endividada, com descendência de mineradores, teve o pai preso, estudou em Karlbo e em Västerås, depois na Universidade de Uppsala, e, entre outros ofícios, foi bibliotecário da Academia Agrícola e da Biblioteca Real de Estocolmo, membro e secretário da Academia Sueca, professor e poeta lírico simbolista; teve que interromper os estudos na Universidade de Uppsala, por absoluta falta de dinheiro, ocupou-se com alguns trabalhos, experienciou o desemprego, foi contratado como jornalista experimental no Aftonbladet, em Djursholm; com a melhora de sua situação miserável, e com o apoio financeiro do editor-chefe e dono do jornal, voltou aos estudos em Uppsala e, concluindo-os, bacharelou-se em 1892; para isso, obteve aprovação em Latim, Línguas Germânicas, Línguas Nórdicas, Mineralogia e Geologia, Filosofia teórica e Estética, Literatura e História da Arte; já estreante na poesia, Karlfeldt, no início de 1890, fez contato com o crítico literário e editor do Svensk tidskrift, e ali, em 1891, teve quatro de seus poemas publicados e assinados pela primeira vez com o próprio nome; ainda em 1892, atuou na direção da Djursholmsbolaget construtora de casas, fez parte do conselho escolar da Enskilda Läroverk de Djursholm, foi professor de Sueco, Inglês e Alemão; suas obras: Vildmarks — och Karleksvisor (Canções dos Bosques e Canções de Amor, 1895), Fridolins Visor (Canções de Fridolin, 1898), Fridolins Lustgard och Dalmalningar Pa Rim (O Éden de Fridolin e Quadros Dalecarlianos em Versos, 1901), Flora och Pomona (Flora e Pomona, 1906), Skalden Lucidor (O Poeta Lucidor, Estudo sobre o poeta Lars Johansson Lucidor [1638 — 1674], 1914), Flora och Bellona (Flora e Belona — Poesias, 1918), Carl Fredrik Dahlgren (Retrato de um romântico sueco de há cem anos, 1924), Hösthorn (Trompa Ocidental — Poesias, 1927), Skrifter (Obras poéticas — Edição comemorativa em 5 volumes, 1931); Erik Axel Karlfeldt, o poeta lírico [da lavra simbolista, panteísta disfarçado de regionalista] que morrera em 08 de abril de 1931, em indicação excepcional e póstuma, foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura a 8 de outubro daquele ano.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Erik Axel Karlfeldt: Talvez

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

Cheguei a sofrer quase tudo
o que se pode sofrer de pena e desconforto.
Estão visíveis os sinais?
Meu leito florescerá ainda para as núpcias
e será que terei esposa e filhos?
Quem sabe ler a minha sorte?

Devo reclamar de deus?
Não, decerto viu que minha pele,
para abrandar-se, requeria um rude tratamento.
Em verdade, como o senti! Mas foi boa a queimadura:
eu não sou hoje nenhum infame.
Devo lamentar-me por isso?

Irão ainda me desancar?
Talvez suporte outra desgraça?
Tormentos sobre os meus plainos,
vinde com vossos ventos, temporais!
Minha pele endureceu como a cortiça
exposta ao vendaval do norte.

Erik Axel Karlfeldt

Kanske!

Jag har slitit ungefär
allt vad lett och otäckt är;
syns det mycket på mig?
Kanske grönskas än min säng,
givs mig mö och föds mig dräng
vem har lust att spå mig?

Skall jag gräla på min Gud?
Nej, han såg väl, att min hud
krävde bister smörja.
Sved nog, men sved ganska gott:
fick ej bli en riktig svott,
skall jag därför sörja?

Skall jag nu ha mera stryk?
Kanske tål jag än en byk.
Storm på mina slätter,
kom med ur och kom med skur!
Jag är hård likt furans tjur,
som mot nordan vätter.

[Fridolins Visor — 1898]
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Poesias: Erik Axel Karlfeldt, Tradução de Ivo Barroso, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Erik Axel Karlfeldt, por Gunnar Brandell, Ilustrações de Postma e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Erik Axel Karlfeldt, por Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Erik Axel Karlfeldt (1864 1931), sueco de Karlbo, província de Dalekarlia, de família empobrecida e endividada, com descendência de mineradores, teve o pai preso, estudou em Karlbo e em Västerås, depois na Universidade de Uppsala, e, entre outros ofícios, foi bibliotecário da Academia Agrícola e da Biblioteca Real de Estocolmo, membro e secretário da Academia Sueca, professor e poeta lírico simbolista; teve que interromper os estudos na Universidade de Uppsala, por absoluta falta de dinheiro, ocupou-se com alguns trabalhos, experienciou o desemprego, foi contratado como jornalista experimental no Aftonbladet, em Djursholm; com a melhora de sua situação miserável, e com o apoio financeiro do editor-chefe e dono do jornal, voltou aos estudos em Uppsala e, concluindo-os, bacharelou-se em 1892; para isso, obteve aprovação em Latim, Línguas Germânicas, Línguas Nórdicas, Mineralogia e Geologia, Filosofia teórica e Estética, Literatura e História da Arte; já estreante na poesia, Karlfeldt, no início de 1890, fez contato com o crítico literário e editor do Svensk tidskrift, e ali, em 1891, teve quatro de seus poemas publicados e assinados pela primeira vez com o próprio nome; ainda em 1892, atuou na direção da Djursholmsbolaget construtora de casas, fez parte do conselho escolar da Enskilda Läroverk de Djursholm, foi professor de Sueco, Inglês e Alemão; suas obras: Vildmarks — och Karleksvisor (Canções dos Bosques e Canções de Amor, 1895), Fridolins Visor (Canções de Fridolin, 1898), Fridolins Lustgard och Dalmalningar Pa Rim (O Éden de Fridolin e Quadros Dalecarlianos em Versos, 1901), Flora och Pomona (Flora e Pomona, 1906), Skalden Lucidor (O Poeta Lucidor, Estudo sobre o poeta Lars Johansson Lucidor [1638 — 1674], 1914), Flora och Bellona (Flora e Belona — Poesias, 1918), Carl Fredrik Dahlgren (Retrato de um romântico sueco de há cem anos, 1924), Hösthorn (Trompa Ocidental — Poesias, 1927), Skrifter (Obras poéticas — Edição comemorativa em 5 volumes, 1931); Erik Axel Karlfeldt, o poeta lírico [da lavra simbolista, panteísta disfarçado de regionalista] que morrera em 08 de abril de 1931, em indicação excepcional e póstuma, foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura a 8 de outubro daquele ano.

segunda-feira, 2 de junho de 2025

Gabriela Mistral: Todas íamos ser rainhas

 
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[traduzido por Henriqueta Lisboa]

Todas íamos ser rainhas
de quatro reinos sob o mar:
Rosália com Efigênia
e Lucila com Soledade.

Lá do vale de Elqui, cingido
por cem montanhas, talvez mais,
que com dádivas ou tributos
ardem em rubro ou açafrão,

nós dizíamos embriagadas
com a convicção de uma verdade,
que havíamos de ser rainhas
e chegaríamos ao mar.

Com aquelas tranças de sete anos
e camisolas de percal,
perseguindo tordos fugidos
sob a sombra do figueiral,

dizíamos que os nossos reinos,
dignos de fé como o Corão,
seriam tão perfeitos e amplos
que se estenderiam ao mar.

Quatro esposos desposaríamos
quando o tempo fosse chegado,
os quais seriam reis e poetas
como David, rei de Judá.

E por serem grandes os reinos
eles teriam, por sinal,
mares verdes, repletos de algas
e a ave selvagem do faisão.

Por possuírem todos os frutos,
a árvore do leite e do pão,
o guaiaco não cortaríamos
nem morderíamos metal.

Todas íamos ser rainhas
e de verídico reinar;
porém nenhuma foi rainha
nem no Arauco nem em Copán...

Rosália beijou marinheiro
que já tinha esposado o mar,
e ao namorador nas Guaitecas
devorou-o a tempestade.

Sete irmãos criou Soledade
e seu sangue deixou no pão.
E seus olhos quedaram negros
de nunca terem visto o mar.

Nos vinhedos de Montegrande
ao puro seio de trigal,
nina os filhos de outras rainhas
porém os seus nunca, jamais.

Efigênia achou estrangeiro
no seu caminho e sem falar
seguiu-o sem saber-lhe o nome
pois o homem se assemelha ao mar.

Lucila que falava ao rio,
às montanhas e aos canaviais,
esta, nas luas da loucura
recebeu reino de verdade.

Entre as nuvens contou dez filhos,
fez nas salinas seu reinado,
viu nos rios os seus esposos
e seu manto na tempestade.

Porém lá no vale de Elqui,
onde há cem montanhas ou mais,
cantam as outras que já vieram,
como as que vierem cantarão:

Na terra seremos rainhas
e de verídico reinar,
e sendo grande os nossos reinos,
chegaremos todas ao mar.

Gabriela Mistral

Todas íbamos a ser reinas

Todas íbamos a ser reinas,
de cuatro reinos sobre el mar:
Rosalía con Efigenia
y Lucila con Soledad.

En el valle de Elqui, ceñido
de cien montañas o de más,
que como ofrendas o tributos
arden en rojo y azafrán.

Lo decíamos embriagadas,
y lo tuvimos por verdad,
que seríamos todas reinas
y llegaríamos al mar.

Con las trenzas de los siete años,
y batas claras de percal,
persiguiendo tordos huidos
en la sombra del higueral.

De los cuatro reinos, decíamos,
indudables como el Korán,
que por grandes y por cabales
alcanzarían hasta el mar.

Cuatro esposos desposarían,
por el tiempo de desposar,
y eran reyes y cantadores
como David, rey de Judá.

Y de ser grandes nuestros reinos,
ellos tendrían, sin faltar,
mares verdes, mares de algas,
y el ave loca del faisán.

Y de tener todos los frutos,
árbol de leche, árbol del pan,
el guayacán no cortaríamos
ni morderíamos metal.

Todas íbamos a ser reinas,
y de verídico reinar;
pero ninguna ha sido reina
ni en Arauco ni en Copán...

Rosalía besó marino
ya desposado con el mar,
y al besador, en las Guaitecas,
se lo comió la tempestad.

Soledad crió siete hermanos
y su sangre dejó en su pan,
y sus ojos quedaron negros
de no haber visto nunca el mar.

En las viñas de Montegrande,
con su puro seno candeal,
mece los hijos de otras reinas
y los suyos nunca-jamás. *

Efigenia cruzó extranjero
en las rutas, y sin hablar,
le siguió, sin saberle nombre,
porque el hombre parece el mar.

Y Lucila, que hablaba a río,
a montaña y cañaveral,
en las lunas de la locura
recibió reino de verdad.

En las nubes contó diez hijos
y en los salares su reinar,
en los ríos ha visto esposos
y su manto en la tempestad.

Pero en el valle de Elqui, donde
son cien montañas o son más,
cantan las otras que vinieron
y las que vienen cantarán:

«En la tierra seremos reinas,
y de verídico reinar,
y siendo grandes nuestros reinos,
llegaremos todas al mar».

[Tala — 1938]
(Antología: Gabriela Mistral en Verso y Prosa
Edición conmemorativa, Real Academia Española —
Asociación de la Lengua Española, febrero de 2010,
World Color Perú S. A., Lima — Perú)

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que, no cotejamento do poema original do livro Antología: Gabriela Mistral en Verso y Prosa — Edición conmemorativa ..., com páginas da internet, encontrou-se a variável abaixo para a 12ª estrofe do poema:
En las viñas de Montegrande,
con su puro seno candeal,
mece los hijos de otras reinas
y los suyos no mecerá.”
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Poesias Escolhidas: Gabriela Mistral, Tradução de Henriqueta Lisboa, Estudo Introdutivo de Jorge Edwards, Ilustrações de Marianne Clouzot e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Gabriela Mistral, por Dr. Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmio Nobel de Literatura, 1971, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada por sua meia irmã, Ermelina Molina Alcayaga, em sua cidade natal a família não tinha dinheiro para custear sua formação em pedagogia , foi ajudante de professora, professora, poeta, educadora, diplomata e feminista; em 1904, começou a trabalhar como professora ajudante em La Serena, e também deu início a seus primeiros textos, os quais foram publicados no jornal serenense El Coquimbo e, depois, no La Voz de Elqui, de Vicuña; em 1908, deu aulas em La Cantera e em Los Cerritos; só em 1910, validou seus conhecimentos na Escola Normal nº 1 de Santiago e obteve o título oficial de Professora do Estado, passando a desenvolver a docência no nível secundário; posteriormente, mesmo sem ter frequentado o Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, foi contratada pelo governo do México “para assentar as bases de seu novo modelo educacional, modelo que atualmente se mantém vigente quase em sua essência ...”; em 1914, depois de obter a primeira premiação em concurso de literatura, por seus Sonetos de la Muerte, passou a fazer uso do pseudônimo Gabriela Mistral; como educadora, visitou o México, os Estados Unidos e a Europa, e foi professora convidada nas universidades de Barnard, Middlebury e Porto Rico; suas obras: em poesia: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Poema de Chile (1967), em prosa: Lecturas para Mujeres (1923), Recados Contando a Chile (1957), e outros títulos em verso e prosa; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

segunda-feira, 17 de março de 2025

Gabriela Mistral: A montanha de noite

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[traduzido por Henriqueta Lisboa]

Acenderemos fogos na montanha.
Lenhadores, a noite se aproxima
e astro nenhum trará nos escaninhos.
Trinta fogueiras hoje acenderemos.

Porque a tarde quebrou há pouco um vaso
de sangue no horizonte. E é mau agouro.
Juntos fiquemos ao redor do fogo
para que não habite em nós o espanto.

Esse fragor de catadupas lembra
um incansável galopar de potros
pela montanha. Enquanto sobe um outro
fragor dos nossos temerosos peitos.

Dizem que pela noite o êxtase negro
os pinheiros esquecem, e a um estranho
sinal secreto, sua multidão
move-se, vagarosa, na montanha.

A esmeralda da neve então adquire
riscando a treva um arabesco oblíquo.
Sobre o ossário da noite que se estende
Representa um bordado de ossos, lívido.

Há um alude invisível que dos montes
desliza mas não chega ao vale inerme.
Há morcegos que vêm, de asas rugosas,
roçar o rosto do pastor que dorme.

Dizem que pelos cimos apertados
da serra próxima, andam junto à sombra
daninhos animais que o vale ignora
nascidos, como grenhas, da montanha.

Já me penetra o coração o frio
do cume ao lado. Penso: porventura
os mortos que deixaram por impuras
as cidades, escolhem o regaço

recôndito e ermo dos desfiladeiros
de escarpa azul que alba nenhuma banha
e, quando a noite adensa seus betumes,
tal como um mar invadem a montanha.

Rachai troncos espessos e fragrantes,
pinheiros que dão chama abrasadora,
apertai bem o cerco da fogueira
porque há frio e angústia, lenhadores.

Gabriela Mistral

La montaña de noche

Haremos fuegos sobre la montaña.
La noche que desciende, leñadores,
no echará al cielo ni su crencha de astros.
¡Haremos treinta fuegos brilladores!

Que la tarde quebró un vaso de sangre
sobre el ocaso, y es señal artera.
El espanto se sienta entre nosotros
si no hacéis corro en torno de la hoguera.

Semeja este fragor de cataratas
un incansable galopar de potros
por la montaña, y otro fragor sube
de los medrosos pechos de nosotros.

Dicen que los pinares en la noche
dejan su éxtasis negro, y a una extraña,
sigilosa señal, su muchedumbre
se mueve, tarda, sobre la montaña.

La esmaltadura de la nieve adquiere
en la tiniebla un arabesco avieso:
sobre el osario inmenso de la noche,
finge un bordado lívido de huesos.

E invisible avalancha de neveras
desciende, sin llegar, al valle inerme,
mientras vampiros de arrugadas alas
rozan el rostro del pastor que duerme.

Dicen que en las cimeras apretadas
de la próxima sierra hay alimañas
que el valle no conoce y que en la sombra,
como greñas, desprende la montaña.

Me va ganando el corazón el frío
de la cumbre cercana. Pienso: “Acaso
los muertos que dejaron por impuras
las ciudades, elijen el regazo

recóndito de los desfiladeros
de tajo azul, que ningún alba baña,
¡y al espesar la noche sus betunes
como una mar invadan la montaña”.

Tronchad los leños tercos y fragantes,
salvias y pinos chisporroteadores,
y apretad bien el corro en torno al fuego,
¡que hace frío y angustia, leñadores!

(Desolación 1922)
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Poesias Escolhidas: Gabriela Mistral, Tradução de Henriqueta Lisboa, Estudo Introdutivo de Jorge Edwards, Ilustrações de Marianne Clouzot e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Gabriela Mistral, por Dr. Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmio Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada por sua meia irmã, Ermelina Molina Alcayaga, em sua cidade natal a família não tinha dinheiro para custear sua formação em pedagogia , foi ajudante de professora, professora, poeta, educadora, diplomata e feminista; em 1904, começou a trabalhar como professora ajudante em La Serena, e também deu início a seus primeiros textos, os quais foram publicados no jornal serenense El Coquimbo e, depois, no La Voz de Elqui, de Vicuña; em 1908, deu aulas em La Cantera e em Los Cerritos; só em 1910, validou seus conhecimentos na Escola Normal nº 1 de Santiago e obteve o título oficial de Professora do Estado, passando a desenvolver a docência no nível secundário; posteriormente, mesmo sem ter frequentado o Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, foi contratada pelo governo do México “para assentar as bases de seu novo modelo educacional, modelo que atualmente se mantém vigente quase em sua essência ...”; em 1914, depois de obter a primeira premiação em concurso de literatura, por seus Sonetos de la Muerte, passou a fazer uso do pseudônimo Gabriela Mistral; como educadora, visitou o México, os Estados Unidos e a Europa, e foi professora convidada nas universidades de Barnard, Middlebury e Porto Rico; suas obras: em poesia: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Poema de Chile (1967), em prosa: Lecturas para Mujeres (1923), Recados Contando a Chile (1957), e outros títulos em verso e prosa; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

quarta-feira, 12 de março de 2025

Erik Axel Karlfeldt: Canção da serpente

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[traduzido por Ivo Barroso]

Quando vou pelos bosques, levo uma garrafa,
porque a aguardente é bom contraveneno.

Mas, ao pensar em víbora, me recordo daquela
mais falsa serpente, mais coleante e astuta.

Dizem que a serpente se esconde entre os ramos verdes
para atrair os pássaros com seu olhar terno e sedutor.

Mas a jovem, essa vai por todos os caminhos com seu olhar
feiticeiro, assim que vê uma veste ou ouve o som de botas.

A serpente se arrasta sobre o ventre e só come terra,
mas a jovem quer ter em sua mesa prataria e giloseimas.

Podemos ensinar as serpentes a dançar para alegria dos tolos,
mas a jovem, segundo dizem, começa a dançar no ventre materno.

Uma vez por ano apenas é que a serpente muda de pele,
mas a jovem muda oito vezes por semana de idéia.

Quando a serpente atraiçoa, morde somente teus calcanhares,
mas a perfídia da mulher pode matar a alma do mancebo.

Termino aqui minha canção sobre esse animal nocivo,
e corro pelos bosques para encontrar a jovem que eu amo.

Erik Axel Karlfeldt

Ormvisa

När jag i marken vandrar, vill jag min flaska ha,
blott därför, att mot ormars gift det starka är så bra.

Men tänker jag på ormen, så minns jag allt en ann,
en falskare och halare och svårare än han.

Det sägs att ormen lurar inunder gröna träd,
och blickar milt och tjusande på fågelen så späd.

Men flickan går på varje stig, och hennes trollblick far
varhelst en rock hon skådar och hör ett stövelpar.

Uppå sin buk går ormen och äter bara jord,
men flickan vill ha sockermat och silverfat på bord.

En orm kan läras dansa till dårars tidsfördriv,
men flickebarnet dansar visst re’n i sin moders liv.

En enda gång om året ömsar ormen skinn,
men åtta dar i veckan byter flickan sinn.

Om ormen dig besviker, han biter blott din häl,
men kvinnosvek kan stinga till döds en ynglings själ.

Nu slutar jag min visa om det skadliga djur
och hastar över skogen till min flickas lilla bur.

[Fridolins Visor — 1898]
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Poesias: Erik Axel Karlfeldt, Tradução de Ivo Barroso, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Erik Axel Karlfeldt, por Gunnar Brandell, Ilustrações de Postma e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Erik Axel Karlfeldt, por Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Erik Axel Karlfeldt (1864 1931), sueco de Karlbo, província de Dalekarlia, de família empobrecida e endividada, com descendência de mineradores, teve o pai preso, estudou em Karlbo e em Västerås, depois na Universidade de Uppsala, e, entre outros ofícios, foi bibliotecário da Academia Agrícola e da Biblioteca Real de Estocolmo, membro e secretário da Academia Sueca, professor e poeta lírico simbolista; teve que interromper os estudos na Universidade de Uppsala, por absoluta falta de dinheiro, ocupou-se com alguns trabalhos, experienciou o desemprego, foi contratado como jornalista experimental no Aftonbladet, em Djursholm; com a melhora de sua situação miserável, e com o apoio financeiro do editor-chefe e dono do jornal, voltou aos estudos em Uppsala e, concluindo-os, bacharelou-se em 1892; para isso, obteve aprovação em Latim, Línguas Germânicas, Línguas Nórdicas, Mineralogia e Geologia, Filosofia teórica e Estética, Literatura e História da Arte; já estreante na poesia, Karlfeldt, no início de 1890, fez contato com o crítico literário e editor do Svensk tidskrift, e ali, em 1891, teve quatro de seus poemas publicados e assinados pela primeira vez com o próprio nome; ainda em 1892, atuou na direção da Djursholmsbolaget construtora de casas, fez parte do conselho escolar da Enskilda Läroverk de Djursholm, foi professor de Sueco, Inglês e Alemão; suas obras: Vildmarks — och Karleksvisor (Canções dos Bosques e Canções de Amor, 1895), Fridolins Visor (Canções de Fridolin, 1898), Fridolins Lustgard och Dalmalningar Pa Rim (O Éden de Fridolin e Quadros Dalecarlianos em Versos, 1901), Flora och Pomona (Flora e Pomona, 1906), Skalden Lucidor (O Poeta Lucidor, Estudo sobre o poeta Lars Johansson Lucidor [1638 — 1674], 1914), Flora och Bellona (Flora e Belona — Poesias, 1918), Carl Fredrik Dahlgren (Retrato de um romântico sueco de há cem anos, 1924), Hösthorn (Trompa Ocidental — Poesias, 1927), Skrifter (Obras poéticas — Edição comemorativa em 5 volumes, 1931); Erik Axel Karlfeldt, o poeta lírico [da lavra simbolista, panteísta disfarçado de regionalista] que morrera em 08 de abril de 1931, em indicação excepcional e póstuma, foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura a 8 de outubro daquele ano.