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Para Alves Ribeiro
A noite vem numa falua
e a brisa vem do mar nos botes.
O mar cintila e espera a lua
e tem a cor de um miosótis.
A luz do acaso é tão bizarra
que lembra a chama dos archotes.
A noite vem entrando a barra
tão negra como os hotentotes.
A noite vem entrando a barra
trazendo o aroma lá das ilhas.
Sonoro como uma cigarra,
improvisando redondilhas.
A cor do acaso é tão bizarra
que lembra o pó das cochonilhas.
A noite vem numa falua
e a brisa vem do mar nos barcos.
Surgem redondas como a lua
rosas de fogo pelos arcos.
Um véu de opala além flutua
e andam santelmos pelos charcos.
A noite vem entrando a barra
mais aromal do que as baunilhas
e as açucenas de Navarra
e as orquídeas das Antilhas.
A noite vem numa falua
entrando a barra, entre as galeras.
As sombras trazem para a rua
rosas de estranhas primaveras.
Eis que ansiosas pela lua
as ondas gritam como feras.
O mar no entanto cintilando
parece a flor de um miosótis
e o olhar de opala das quimeras.
Os ventos passam fustigando
como demônios com chicotes.
Surge uma estrela recordando
o anel lilás dos sacerdotes.
Os ventos passam fustigando
as próprias árvores austeras
e vão aos uivos como um bando
de velocíssimas panteras.
A noite vem entrando a barra
mais aromal do que as baunilhas.
Com suavidades de guitarra,
o mar oscula as verdes ilhas.
O vento traz a cimitarra,
com que cortou jasmins nas ilhas,
e corta as ondas lá da barra.
Como serpentes em rodilhas,
e as ondas silvam junto às ilhas
e vão florindo pela barra
ramos de brancas granadilhas.
E o mar parece uma cigarra,
todo rendado de escumilhas.
A noite vem entrando a barra
para dormir aqui no porto.
Parou dos ventos a fanfarra.
Os ventos foram para o horto,
dentro do bojo das galeras.
Trazem das ilhas as galeras
flores brilhantes como archotes.
Trazem das ilhas as galeras
cravos com mirra nas anteras
e os lindos ramos das gerberas
e os orientais estefanotes.
Trazem das ilhas as galeras
cerusa em cândidos pacotes,
vinhos em urnas e em crateras
e esses estranhos rapazotes
com o ar de deuses de outras eras.
A noite vem numa falua
E a brisa vem do mar nos botes.
O mar cintila e espera a lua
e tem a cor de um miosótis.
A luz do acaso é tão bizarra
que lembra a chama dos archotes.
A noite vem entrando a barra
tão negra como os hotentotes.
(1930)
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Pavão, Parlenda, Paraíso: uma
tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa — José Paulo Paes,
1977, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 —
1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista,
escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro
da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em
jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do
Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se
como telegrafista do antigo DCT — Departamento de Correios e Telégrafos.