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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Sosígenes Costa: Na casa da açucena

Livro: Pavao Parlenda Paraiso - Jose Paulo Paes | Estante Virtual
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Eu estive na casa da açucena
conversando com o rei Sardanapalo.
Junto dele, entre ramos de verbena,
a aurora procurava cativá-lo.

O rei da Prússia tocou flauta e avena
e o rei do mar tocou pra acompanhá-lo
a cornamusa e a lira sarracena,
o que encantou o rei Sardanapalo.

Foi uma tarde capitosa e amena.
Sardanapalo namorava a aurora
e o amor feriu o peito da açucena.

E um pagem* nos serviu em cantimplora
uns licores de tâmara e a serena,
doce ambrosia divinal e odora.

(1926)

DIA DO EDUCADOR, UMA HOMENAGEM A SOSIGENES COSTA - BelMonte Noticias

* Nota: O atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa deixa registrado que nesta edição de Pavão, Parlenda, Paraíso consta grafado pagem (do francês page = pajem).
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Pavão, Parlenda, Paraíso: uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa — José Paulo Paes, 1977, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Sosígenes Costa: A barcarola da noite

Livro: Pavao Parlenda Paraiso - Jose Paulo Paes | Estante Virtual
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Para Alves Ribeiro

A noite vem numa falua
e a brisa vem do mar nos botes.
O mar cintila e espera a lua
e tem a cor de um miosótis.
A luz do acaso é tão bizarra
que lembra a chama dos archotes.
A noite vem entrando a barra
tão negra como os hotentotes.

A noite vem entrando a barra
trazendo o aroma lá das ilhas.
Sonoro como uma cigarra,
improvisando redondilhas.
A cor do acaso é tão bizarra
que lembra o pó das cochonilhas.

A noite vem numa falua
e a brisa vem do mar nos barcos.
Surgem redondas como a lua
rosas de fogo pelos arcos.
Um véu de opala além flutua
e andam santelmos pelos charcos.

A noite vem entrando a barra
mais aromal do que as baunilhas
e as açucenas de Navarra
e as orquídeas das Antilhas.

A noite vem numa falua
entrando a barra, entre as galeras.
As sombras trazem para a rua
rosas de estranhas primaveras.
Eis que ansiosas pela lua
as ondas gritam como feras.
O mar no entanto cintilando
parece a flor de um miosótis
e o olhar de opala das quimeras.

Os ventos passam fustigando
como demônios com chicotes.
Surge uma estrela recordando
o anel lilás dos sacerdotes.
Os ventos passam fustigando
as próprias árvores austeras
e vão aos uivos como um bando
de velocíssimas panteras.

A noite vem entrando a barra
mais aromal do que as baunilhas.
Com  suavidades de guitarra,
o mar oscula as verdes ilhas.
O vento traz a cimitarra,
com que cortou jasmins nas ilhas,
e corta as ondas lá da barra.
Como serpentes em rodilhas,
e as ondas silvam junto às ilhas
e vão florindo pela barra
ramos de brancas granadilhas.
E o mar parece uma cigarra,
todo rendado de escumilhas.

A noite vem entrando a barra
para dormir aqui no porto.
Parou dos ventos a fanfarra.
Os ventos foram para o horto,
dentro do bojo das galeras.

Trazem das ilhas as galeras
flores brilhantes como archotes.
Trazem das ilhas as galeras
cravos com mirra nas anteras
e os lindos ramos das gerberas
e os orientais estefanotes.
Trazem das ilhas as galeras
cerusa em cândidos pacotes,
vinhos em urnas e em crateras
e esses estranhos rapazotes
com o ar de deuses de outras eras.

A noite vem numa falua
E a brisa vem do mar nos botes.
O mar cintila e espera a lua
e tem a cor de um miosótis.
A luz do acaso é tão bizarra
que lembra a chama dos archotes.
A noite vem entrando a barra
tão negra como os hotentotes.

(1930)

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Pavão, Parlenda, Paraíso: uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa — José Paulo Paes, 1977, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

domingo, 19 de julho de 2020

Sosígenes Costa: O bilhete começado pelo boa-noite

Livro: Pavao Parlenda Paraiso - Jose Paulo Paes | Estante Virtual
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Prezado senhor Sosígenes
Boa-noite, amigo e senhor.
Começo este bilhetinho,
dando boa-noite ao senhor.
E mando este bilhetinho
pelo próprio marmiteiro
que leva o jantar pro senhor.
Queria mandar-lhe um peixinho
mas não achei, meu amor,
o povo daquela banca
parece que não tem pudor;
assalta a banca de peixe
parecendo até os assaltos
de César, o conquistador,
e eu fico sem ter um peixinho
pra mandar para o senhor.
Queria mandar-lhe um peixinho
espetado numa flor.
Há tantas flores, agora,
no meu quintal, meu senhor,
que enfeito os meus pratinhos
com ramalhetes de flor.
Isto é, certos pratinhos
que mando para o senhor.

Queria mandar-lhe o peixinho
que me ensinou a nadar
pra sentires a beleza
daquele gozo do mar.
Amanhã, eu mandarei
um jantarzinho melhor.
Vá desculpando este bife
que suponho que está pife.
Se não gostar desta peça,
pode mandar me dizer
que não ficarei zangada,
soltando sete suspiros
e treze lágrimas de amor.
Ao contrário, ficarei
satisfeita com o senhor
pois não sei o que tu gostas...
Sim, coração, do que gostas?
De marisco ou outro petisco?
Moreninho, do que gostas?

É de sonhos, meu senhor?
É de suspiro ou cocada?
Ou é de papos de anjo?
Ou é de beijos de amor?
Senhor Sosígenes, eu soube
que o senhor é tão calado!
Fale, meu coração.
Me mande um recado de boca
sobre o assunto por favor.
Moreninho dá-me um beijo
que eu te darei, meu senhor,
uma coisa na bandeja...
adivinhe o que será?
Sonhos e suspiros...
Docinhos feitos com amor.
Isto não é uma cartinha
que eu mando para o senhor,
pois comecei estas regras
dando boa-noite ao senhor,
em vez de usar de etiqueta
que não uso com o senhor.
Isto é um recadinho
da respeitadora
dona da pensão.

(1940)

Poeta do Mês: Sosígenes Costa | vinteculturaesociedade
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Pavão, Parlenda, Paraíso: uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa — José Paulo Paes, 1977, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Sosígenes Costa: A aurora e os leopardos

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São mais violentos que os leopardos
nossos recônditos desejos.
Flor de brasão dos reis lombardos
é a aurora em cândidos adejos.

E eis sufocados pelos nardos
da aurora os monstros dos desejos.
Venceu a aurora os leopardos.
Há um alarido de festejos.

Bandos brilhantes de moscardos
cintilam mais que os azulejos.
Gorjeiam pássaros galhardos.

E em suntuosíssimos cortejos
voam pavões nos ares pardos
lançando esplêndidos lampejos.

(1935—1959)

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Pavão, Parlenda, Paraíso: uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa — José Paulo Paes, 1977, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

domingo, 26 de abril de 2020

Sosígenes Costa: O rio e o poeta

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(Fábula)

Despi o manto de bardo,
vesti a pele do rio.
Vou correndo e vou falando
encantado neste rio.
Vou passando nos lugares
atrasados deste rio.
Vou falando na pobreza
dos lugares deste rio.
Não me calo na viagem.
Falo pelos cotovelos.
Mas ponho calor na fala
para exprimir simpatia
pela causa dos pequenos
que são tantos neste rio.
Não é fala de poeta.
É prosa. Não é poesia.
Mas o povo não se importa
com a falta de melodia,
pois quem está assim falando
é a minha simpatia.
Vou falando, vou falando.
Não calo porque não posso
calar esta simpatia
e ao chegar ao mar, ainda
fala minha simpatia.
Acabando-me no mar,
desencanto-me em poeta.
E cessado todo o encanto,
calou-se a minha simpatia.
Falo agora como poeta.
Minha fala agora é canto
que se apaga e que se esfria,
para conservar calada
toda a minha simpatia
pela causa dos pequenos
que são tantos neste rio.
Procuro imitar o canto
da viola e da cotovia.
Imito o canto do povo.
Mas calada a simpatia,
minha fala de poeta
perdeu toda a poesia.

(7/12/1953)

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sábado, 18 de abril de 2020

Sosígenes Costa: Tornou-me o pôr do sol um nobre entre os rapazes

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Queima sândalo e incenso o poente amarelo
perfumando a vereda, encantando o caminho.
Anda a tristeza ao longe a tocar violoncelo.
A saudade no ocaso é uma rosa de espinho.

Tudo é doce e esplendente e mais triste e mais belo
e tem ares de sonho e cercou-se de arminho.
Encanto! E eis que já sou o dono de um castelo
de coral com portões de pedra cor de vinho.

Entre os tanques dos reis, o meu tanque é profundo.
Entre os ases da flora, os meus lírios lilases.
Meus pavões cor-de-rosa, os únicos do mundo.

E assim sou castelão e a vida fez-se oásis
pelo simples poder, ó pôr do sol fecundo,
pelo simples poder das sugestões que trazes.

(1924)

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Sosígenes Costa: O tédio

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O tédio tem um coração de hiena,
Vem durante os crepúsculos tristonhos
descer sobre o teu leito de açucena
e amargurar o arcanjo dos meus sonhos.

Sombra sinistra, de ninguém tem pena.
Entristecendo os querubins risonhos
faz sofrer essa alma tão serena
que derrama a harmonia nos meus sonhos.

E agora a hiena o meu jardim devasta.
Destrói a flor das ilusões da aurora,
emudecendo os pássaros, nefasta.

E o anjo ferido se revolta e chora.
E a hiena a rir entre os rosais se arrasta
e o coração do alado amor devora.

(1935  1959)

Sosígenes Costa
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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Sosígenes Costa: O pôr do sol do papagaio

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O papa-vento nos jardins de maio
e o verde no seu mar de leite.
O mar, já não é azul, é verde-gaio
num clarão que é relâmpago de azeite.

Se o mar é belo sem que a tarde o enfeite
quanto mais se o enfeitar o sol de maio.
O mar do papa-vento é o papagaio
e o céu do verde papa é o papa-leite.

Latadas cristalinas em desmaio.
Tombam flores do céu, meu papagaio.
E o papa-vento é de cristal e leite.

Deite leite, meu mar, pro papagaio.
Que o papagaio em verde se deleite
e não se enfeite de outra cor em maio.

(1928—1959)

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Sosígenes Costa: Obsessão do amarelo

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A areia é fulva, o monte é flavo e a flora,
de bronze e de ouro. Sideral capela
adorna o bosque que dourado agora
mais lindo esplende entre os topázios dela.

De um ruivo estranho o lírio se colora
e o trevo exibe de um jalde de aquarela.
O áureo matiz até na passiflora
dominadoramente se revela.

Chinês pincel esse esplendor dirige,
lançando agora em cima da folhagem
tanto amarelo que a pupila aflige.

E na paixão mongólica e selvagem
pelos tons de ouro a natureza exige
que os próprios troncos amarelo trajem.

(1927)

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sábado, 30 de novembro de 2019

Sosígenes Costa: O triunfo do amarelo

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Luta o amarelo contra o verde, agora,
no esforço de vencê-lo e confundi-lo.
E assim derrama, esdrúxulo, na flora
sépia, topázio, abóbora, berilo.

Transforma o bronze e anula o jade: e aquilo
que é verde-negro, aurífero, colora.
No esforço de vencê-lo e confundi-lo
luta o amarelo contra o verde agora.

Aves azuis se pintam chinesmente
de jalde. E a própria flor da rubra amora
toda se pinta de âmbar louro, ardente.

E a luz do sol, sinfônica e sonora,
dos céus rolando, em mágica torrente,
a gama inteira do amarelo explora.

(1928)

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quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Sosígenes Costa: Pavão azul

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No jardim do castelo desse bruxo
d'asas d'ouro e olhos verdes de dragão,
tú és à beira de um lilás repuxo
um grande lírio de ouro e de açafrão.

Transformado em pavão por esse bruxo,
vivo te amando em tardes de verão,
dentre as rosas e os pássaros de luxo
do jardim desse bruxo castelão.

Tenho medo que um dia o jardineiro...
Mas nunca, estou bem certo, do canteiro
há de colher-te, ó minha flor taful.

Porque ele sabe que em manhã serena,
não suportando a ausência da açucena,
há de morrer esse pavão azul.

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Sosígenes Costa: Poeta da Bahia

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Dizem que sou poeta da Bahia...
Eu não sei porque isto!
Eu não como efó,
nunca vi o acarajé,
eu não sei o que é obi,
nem ebó nem vatapá.
Nunca vi bejerecum
Nem uru nem orobó.
Não vendo cocada.
Não vendo jiló.
Não sei quem é Jubiabá,
não sei quem é dona Loló.
Não compro na biboca
ierê mais atarê.
Não vivo labutando
com a baronesa de Passé.
Nunca fui a Itaparica,
Não vou a festa de bagunça
onde tem faca e fuzuê.
Não pesco de puçá,
nunca fui pegar siri.
Se se come caruru
com farinha ou com acaçá
não sei.
Não moro em casa velha
que levantou o vice-rei.
Não faço feitiço,
não ando em candomblé.
Não acompanho procissão
de opa velha lá da Sé.
Não toco pandeiro,
não toco ganzá.
Não planto guiné
nem croto dois-de-julho.
Não rezo santo-antônio
nem são-cosme-são-damião.
Não sou seabrista
nem farrista
ou civilista
nem cruz-vermelha nem fantoche.
Minha noiva não tem coche
que pertencesse a Dom Juão.
Nunca fiz um soneto
ao casamento da raposa.
Minha vó não é Moema
nem meu pai Tomé de Sousa.

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Sosígenes Costa — Seleção e Introdução/Apresentação de Aleilton Fonseca, Coleção Melhores Poemas, 2012, Global Editora, São Paulo — SP; Sosígenes Marinho da Costa (1901 1968), baiano de Belmonte, foi professor de instrução primária, jornalista, escritor e poeta; colaborou com o jornal Diário da Tarde, de Ilhéus, foi membro da 'Academia dos Rebeldes', grupo modernista baiano, e divulgou seus versos em jornais e revistas da época; o seu livro Obra Poética (1959), foi vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura de 1960, na categoria poesia; o poeta aposentou-se como telegrafista do antigo DCT Departamento de Correios e Telégrafos.