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sexta-feira, 28 de junho de 2024

Rimbaud: Fome


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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

Se tenho gosto, é quase só
Pela terra e pelas pedras.
Meu almoço é sempre o ar,
A rocha, o carvão, o ferro.

Minhas fomes, girem, girem,
Atravessem os trigais,
Atraiam o alegre veneno
Da flor-de-pau.

Comam os seixos quebráveis,
As velhas pedras das igrejas,
Os biscoitos dos naufrágios,
Os pães jogados nas cinzas.

O lobo uiva entre a folhagem
Cuspindo as bonitas penas
Da sua comida de aves:
Como ele me consumo.

As saladas ou os frutos
Só esperam a colheita;
Mas a aranha do valado
Não come senão violetas.

Que eu durma! Que eu ferva
Nos altares de Salomão.
O caldo escorre na ferrugem
E se mistura ao Cedrão. *

Rimbaud

Faim

Si j’ai du goût, ce n’est guère
Que pour la terre et les pierres.
Je déjeune toujours d’air,
De roc, de charbons, de fer.

Mes faims, tournez. Paissez, faims,
Le pré des sons.
Attirez le gai venin
Des liserons.

Mangez les cailloux qu’on brise,
Les vieilles pierres d’églises;
Les galets des vieux déluges,
Pains semés dans les vallées grises.

Le loup criait sous les feuilles
En crachant les belles plumes
De son repas de volailles:
Comme lui je me consume.

Les salades, les fruits
N’attendent que la cueillette;
Mais l’araignée de la haie
Ne mange que des violettes.

Que je dorme! que je bouille
Aux autels de Salomon.
Le bouillon court sur la rouille,
Et se mêle au Cédron.

* Nota da edição: Rimbaud A. “Fome”. In: Uma temporada no inferno, op. cit., p. 73-75, [Tradução de Paulo Hecker Filho, edição bilíngue, 2008, L&PM, Porto Alegre — RS].
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Rimbaud — biografia: Jean Baptiste Baronian, Tradução de Joana Canêdo, biografias L&PM POCKET Volume 975, 1ª edição, 2011, L&PM, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Arthur Rimbaud: Adeus

 
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

     O outono já! Mas por que sentir falta dum sol permanente, se nos empenhamos na descoberta da claridade divina longe dos que morrem pelas estações.
     O outono. Nossa barca nas brumas imóveis avança para o porto da miséria, a enorme cidade manchada de fogo e lama. Ah! os farrapos podres, o pão molhado de chuva, a embriaguez, os mil amores que me crucificaram! Ela não terminará com o vampiro rei de milhões de almas e corpos e que serão julgados! Me imagino com a pele tomada pelo barro e a peste, vermes cheios de cabelos e axilas e o maior deles no coração, estendido entre desconhecidos sem idade, sem sentimento... Teria podido morrer... A terrível evocação! Execro a miséria.
     E temo o inverno por ser a estação do conforto!
      Não raro vejo no céu praias sem-fim cobertas de brancas nações alegres. Um grande navio de ouro, acima de mim, agita as bandeiras multicores sob as brisas da manhã. Criei todas as festas, todos os êxitos, todos os dramas. Procurei inventar flores novas, astros novos, carnes novas, línguas novas. Pensei adquirir poderes sobrenaturais. Bem! devo enterrar minha imaginação e minhas lembranças! Uma bela glória de artista e narrador suprimida!
     Eu! Eu que tinha me dado por mágico ou anjo, dispensado de toda moral, à superfície da terra, com um dever a buscar, e a realidade rugosa a estender! Aldeão!
     Me enganei? A caridade seria irmã da morte para mim?
     Afinal pedirei perdão por me ter nutrido de mentira. Prossigamos.
     E nem uma mão amiga! onde encontrar socorro?

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     Sim, a hora nova é a menos severa.
     Pois posso dizer que a vitória está garantida: o ranger de dentes, as labaredas de fogo, os suspiros enfermos se moderam. Todas as lembranças sujas se apagam. Meus últimos remorsos se retiram invejas pelos mendigos, os facínoras, os amigos da morte, os retardados de toda espécie. Condenados, se eu me vingasse!
     É preciso ser absolutamente moderno.
     Nada de cânticos: manter o passo dado. Dura noite! O sangue seco recende no meu rosto, e nada tenho atrás de mim senão este horrível pinheiro!... O combate espiritual é tão brutal quanto a batalha de homens; mas a visão da justiça é o prazer apenas de Deus.
     Entretanto, a vigília. Recebemos todos os influxos de vigor e ternura real. E na aurora, armados duma ardente paciência, entraremos nas cidades esplêndidas.
     Que falei de mão amiga! Uma vantagem é que posso rir dos falsos amores e causar vergonha a esses casais mentirosos vi o inferno das mulheres e me será lícito possuir a verdade numa alma e num corpo.

     Abril—agosto, 1873

Arthur Rimbaud

Adieu

     L’automne, déjà! Mais pourquoi regretter un éternel soleil, si nous sommes engagés à la découverte de la clarté divine, loin des gens qui meurent sur les saisons.
     L’automne. Notre barque élevée dans les brumes immobiles tourne vers le port de la misère, la cité enorme au ciel tache de feu et de boue. Ah! les haillons pourris, le pain trempé de pluie, l’ivresse, les mille amours qui m’ont crucifié! Elle ne finira donc point cette goule reine de millions d’âmes et de corps morts et qui seront jugés! Je me revois la peau rongée par la boue et la peste, des vers pleins les cheveux et les aisselles et encore de plus gros vers dans le cœur, étendu parmi des inconnus sans âge, sans sentiment… J’aurais pu y mourir… L’affreuse évocation! J’exècre la misère.
     Et je redoute l’hiver parce que c’est la saison du comfort!
      Quelquefois je vois au ciel des plages sans fin couvertes de blanches nations en joie. Un grand vaisseau d’or, au-dessus de moi, agite ses pavillons multicolores sous les brises du matin. J’ai créé toutes les fêtes, tous les triomphes, tous les drames. J’ai essayé d’inventer de nouvelles fleurs, de nouveaux astres, de nouvelles chairs, de nouvelles langues. J’ai cru acquérir des pouvoirs surnaturels. Eh bien! je dois enterrer mon imagination et mes souvenirs! Une belle gloire d’artiste et de conteur emportée!
     Moi! moi qui me suis dit mage ou ange, dispensé de toute morale, je suis rendu au sol, avec un devoir à chercher, et la réalité rugueuse à étreindre! Paysan!
     Suis-je trompé? la charité serait-elle sœur de la mort, pour moi?
     Enfin, je demanderai pardon pour m’être nourri de mensonge. Et allons.
     Mais pas une main amie! et où puiser le secours?

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     Oui l’heure nouvelle est au moins très-sévère.
     Car je puis dire que la victoire m’est acquise: les grincements de dents, les sifflements de feu, les soupirs empestes se modèrent. Tous les souvenirs immondes s’effacent. Mes derniers regrets détalent, des jalousies pour les mendiants, les brigands, les amis de la mort, les arriérés de toutes sortes. Damnés, si je me vengeais!
     Il faut être absolument moderne.
     Point de cantiques: tenir le pas gagné. Dure nuit! le sang séché fume sur ma face, et je n’ai rien derrière moi, que cet horrible arbrisseau!… Le combat spirituel est aussi brutal que la bataille d’hommes; mais la vision de la justice est le plaisir de Dieu seul.
     Cependant c’est la veille. Recevons tous les influx de vigueur et de tendresse réelle. Et à l’aurore, armés d’une ardente patience, nous entrerons aux splendides villes.
     Que parlais-je de main amie! Un bel avantage, c’est que je puis rire des vieilles amours mensongères, et frapper de honte ces couples menteurs, j’ai vu l’enfer des femmes là-bas; et il me sera loisible de posséder la vérité dans une âme et un corps.

     Avril—août, 1873.
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Uma temporada no inferno — Arthur Rimbaud, edição bilíngue, Tradução de Paulo Hecker Filho, 2006, reimpressão 2015, Série L&PM Pocket Plus nº 35, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

sábado, 29 de julho de 2023

Arthur Rimbaud: Uma temporada no inferno

 
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

     Antes, se lembro bem, minha vida era um festim em que se abriam todos os corações, todos os vinhos corriam.
     Uma noite, fiz a Beleza sentar no meu colo. E achei amarga. Injuriei.
     Me preveni contra a justiça.
     Fugi. Ó bruxas, ó miséria, ó ódio, a vós meu tesouro foi entregue a vocês!
     Consegui fazer desaparecer no meu espírito toda a esperança humana. Para extirpar qualquer alegria dava o salto mudo do animal feroz.
     Chamei o pelotão para, morrendo, morder a coronha dos fuzis. Chamei os torturadores para me afogarem com areia, sangue. A desgraça foi meu Deus. Me estendi na lama. Fui me secar no ar do crime. Preguei peças à loucura.
     E a primavera me trouxe o riso horrível do idiota.
     Ora, ultimamente, chegando ao ponto de soltar o último basta!, pensei em buscar a chave do antigo festim, que talvez me devolvesse o apetite dele.
     A caridade é a chave. Inspiração que prova que eu estava sonhando!
     “Continuarás hiena, etc...” repete o demônio que me orna de amáveis flores de ópio. “A morte virá com todos os teus desejos, e o teu egoísmo e todos os pecados capitais.”
     Ah! pequei demais: Mas, caro Satã, por favor, um cenho menos carregado! e esperando algumas pequenas covardias em atraso, como aprecia no escritor a falta de faculdades descritivas e instrutivas, lhe destaco estas assustadoras páginas do meu bloco de condenado eterno.

Arthur Rimbaud

Une saison en enfer

     Jadis, si je me souviens bien, ma vie était un festin où s’ouvraient tous les cœurs, où tous les vins coulaient.
     Un soir, j’ai assis la Beauté sur mes genoux.  Et je l’ai trouvée amère.  Et je l’ai injuriée.
     Je me suis armé contre la justice.
     Je me suis enfui. Ô sorcières, ô misère, ô haine, c’est à vous que mon trésor a été confié!
     Je parvins à faire s’évanour dans mon esprit toute l’espérance humaine. Sur toute joie pour l’étrangler j’ai fait le bond sourd de la bête féroce.
     J’ai appelé les bourreaux pour, en périssant, mordre la crosse de leurs fusils. J’ai appelé les fléux, pour m’étouffer avec le sable, avec le sang. Le malheur a été mon dieu. Je me suis allongé dans la boue. Je me suis séché à l’air du crime. Et j’ai joué de bons tours à la folie.
     Et le printemps m’a apporté l’affreux rire de l’idiot.
     Or, tout dernièrement, m’étant trouvé sur le point de faire le dernier couac! j’ai songé à rechercher la clef du festin ancien, où je reprendrais peut-être appétit.
     La charité est cette clef.  Cette inspiration prouve que j’ai rêvé!
     «Tu resteras hyène, etc.», se récrie le démon qui me couronna de si aimables pavots. «Gagne la mort avec tous tes appétits, et ton égoïsme et tous les péchés capitaux.»
     Ah! j’en ai trop pris:  Mais, cher Satan, je vous en conjure, une prunelle moins irritée! et en attendant les quelques petites lâchetés en retard, vous qui aimez dans l’écrivain l’absence des facultés descriptives ou instructives, je vous détache des quelques hideux feuillets de mon carnet de damné.
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Uma temporada no inferno — Arthur Rimbaud, edição bilíngue, Tradução de Paulo Hecker Filho, 2006, reimpressão 2015, Série L&PM Pocket Plus nº 35, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

quarta-feira, 12 de julho de 2023

Arthur Rimbaud: Noite do Inferno

 
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

          Engoli um senhor gole de veneno. Três vezes abençoado seja o conselho que me deram! As entranhas me ardem. A violência do veneno torce meus membros, me torna disforme, me prostra. Morro de sede, sufoco, não consigo gritar. É o inferno, a pena eterna! Vejam como o fogo se ergue! Queimo como deve ser. Anda, demônio!
          Entrevi a conversão ao bem e à felicidade, a salvação. Pudesse descrever a visão, o ar do inferno não suporta hinos! Eram milhões de criaturas encantadoras, um suave concerto espiritual, a força e a paz, as nobres ambições, que sei?
          As nobres ambições!
          E ainda é a vida! Se a danação é eterna! Um homem que quer se mutilar está condenado, não é? Não creio no inferno, pois estou nele. É a execução do catecismo. Sou escravo do meu batismo. Pais, fizeram a minha desgraça e a de vocês. Pobre inocente! O inferno não pode acometer os pagãos É a vida ainda! Mais tarde, as delícias da danação vão ser mais profundas. Um crime, ligeiro, que eu caia no nada, segundo a lei humana.
          Cala-te, mas cala-te!... É a vergonha, a censura, aqui: Satã é quem diz que o fogo é abjeto, que minha cólera é terrivelmente tola. Basta!... Os equívocos que me passam, magias, falsos perfumes, músicas pueris. E dizer que aprendo a verdade, discirno a justiça: possuo um julgamento são e moderado, estou pronto para a perfeição. Orgulho. A pele do meu crânio desseca. Piedade! Senhor, tenho medo. E sede, tanta sede! Ah! a infância, a grama, a chuva, o lago sobre as pedras, o luar quando o campanário batia as doze... o diabo está ali nessa hora. Maria! Santa Virgem!... Horror da minha tolice.
          Não estão lá boas gentes, que me querem bem?... Venham... tenho um travesseiro na boca, não me escutam, são fantasmas. Ademais, nunca ninguém pensa no outro. Não cheguemos perto. Sinto cheiro de queimado, é certo.
          As alucinações são inumeráveis. É bem o que eu sempre tive: não mais fé na história, o esquecimento dos princípios. Não falo deles: poetas e visionários teriam inveja. Sou mil vezes mais rico, sejamos avaros como o mar.
          Ah isto! o relógio da vida parou há pouco. Não estou mais no mundo. — A teologia é séria, o inferno é sem dúvida embaixo e o céu, no alto. êxtase, pesadelo, sonho num ninho de chamas.
          Quantas travessuras em atenção ao campo... Satã, Ferdinand*, corre como as sementes selvagens... Jesus caminha sobre as sarças purpúreas, sem curvá-las... Jesus anda sobre as águas encrespadas. A lanterna mostra-o de pé, branco, com tranças escuras, na borda de uma onda de esmeralda...
          Quero desvelar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, futuro, passado, cosmogonia, nada. Sou mestre em fantasmagorias.
          Ouçam!...
          Tenho todos os talentos! Não há ninguém aqui e há alguém: não gostaria de espalhar meu tesouro. Querem cantos negros, danças de huris? Querem que eu desapareça, que mergulhe em busca do anel? Querem? Farei ouro, remédios.
          Confiem em mim, a fé alivia, guia, cura. Todos, venham mesmo as criancinhas que os consolarei, reparto o coração dele o coração maravilhoso! Pobres homens, trabalhadores! Não peço preces; com sua confiança apenas, estou satisfeito.
           E pensemos em mim. Isso me leva a ter pouca saudade do mundo. Tenho a possibilidade de não sofrer mais. Minha vida não passou de doces loucuras, é lamentável.
          Bah! Façamos todas as caretas imagináveis.
          Decididamente, estamos fora do mundo. Mais nenhum som. Meu tato sumiu. Ah! meu castelo, minha Saxe, meu bosque de salgueiros. As tardes, as manhãs, as noites, os dias. Estou ali!
          Deveria ter meu inferno pela cólera, meu inferno pelo orgulho e o inferno da carícia; um concerto de infernos.
          Morro de lassidão. É a tumba, vou para os vermes, horror dos horrores! Satã, farsante, queres me diluir com teus feitiços. Me queixo. Me queixo! Um golpe do tridente, uma gota de fogo.
          Ah! voltar à vida! Lançar os olhos sobre nossas deformidades. E este veneno, este beijo mil vezes maldito! Minha fraqueza, a crueldade do mundo! Meu Deus, piedade, esconde-me, me aguento mal! Estou oculto e não estou.
          É o fogo que cresce, com seu condenado.

Arthur Rimbaud

Nuit de l’enfer

          J’ai avalé une fameuse gorgée de poison. Trois fois béni soit le conseil qui m’est arrivé! Les entrailles me brûlent. La violence du venin tord mes membres, me rend difforme, me terrasse. Je meurs de soif, j’étouffe, je ne puis crier. C’est l’enfer, l’éternelle peine! Voyez comme le feu se relève! Je brûle comme il faut. Va, démon!
          J’avais entrevu la conversion au bien et au bonheur, le salut. Puis-je décrire la vision, l’air de l’enfer ne souffre pas les hymnes! C’était des millions de créatures charmantes, un suave concert spirituel, la force et la paix, les nobles ambitions, que sais-je?
          Les nobles ambitions!
          Et c’est encore la vie! Si la damnation est éternelle! Un homme qui veut se mutiler est bien damné, n’est-ce pas? Je me crois en enfer, donc j’y suis. C’est l’exécution du catéchisme. Je suis esclave de mon baptême. Parents, vous avez fait mon malheur et vous avez fait le vôtre. Pauvre innocent! L’enfer ne peut attaquer les païens. C’est la vie encore! Plus tard, les délices de la damnation seront plus profondes. Un crime, vite, que je tombe au néant, de par la loi humaine.
          Tais-toi, mais tais-toi!… C’est la honte, le reproche, ici: Satan qui dit que le feu est ignoble, que ma colère est affreusement sotte. Assez!… Des erreurs qu’on me souffle, magies, parfums faux, musiques puériles. Et dire que je tiens la vérité, que je vois la justice: j’ai un jugement sain et arrêté, je suis prêt pour la perfection… Orgueil. — La peau de ma tête se dessèche. Pitié! Seigneur, j’ai peur. J’ai soif, si soif! Ah! l’enfance, l’herbe, la pluie, le lac sur les pierres, le clair de lune quando le clocher sonnait douze… le diable est au clocher, à cette heure. Marie! Sainte-Vierge!… Horreur de ma bêtise.
          Là-bas, ne sont-ce pas des âmes honnêtes, qui me veulent du bien… Venez… J’ai un oreiller sur la bouche, elles ne m’entendent pas, ce sont des fantômes. Puis, jamais personne ne pense à autrui. Qu’on n’approche pas. Je sens le roussi, c’est certain.
          Les hallucinations sont innombrables. C’est bien ce que j’ai toujours eu: plus de foi en l’histoire, l’oubli des principes. Je m’en tairai: poètes et visionnaires seraient jaloux. Je suis mille fois le plus riche, soyons avare comme la mer.
          Ah ça! l’horloge de la vie s’est arrêtée tout à l’heure. Je ne suis plus au monde. La théologie est sérieuse, l’enfer est certainement en bas et le ciel en haut. Extase, cauchemar, sommeil dans un nid de flammes.
          Que de malices dans l’attention dans la campagne… Satan, Ferdinand, court avec les graines sauvages… Jésus marche sur les ronces purpurines, sans les courber… Jésus marchait sur les eaux irritées. La lanterne nous le montra debout, blanc et des tresses brunes, au flanc d’une vague d’émeraude…
          Je vais dévoiler tous les mystères: mystères religieux ou naturels, mort, naissance, avenir, passé, cosmogonie, néant. Je suis maître en fantasmagories.
          Écoutez!…
          J’ai tous les talents! Il n’y a personne ici et il y a quelqu’un: je ne voudrais pas répandre mon trésor. Veut-on des chants nègres, des danses de houris? Veut-on que je disparaisse, que je plonge à la recherche de l’anneau? Veut-on? Je ferai de l’or, des remèdes.
          Fiez-vous donc à moi, la foi soulage, guide, guérit. Tous, venez, même les petits enfants, que je vous console, qu’on répande pour vous son cœur, le cœur merveilleux! Pauvres hommes, travailleurs! Je ne demande pas de prières; avec votre confiance seulement, je serai heureux.
           Et pensons à moi. Ceci me fait peu regretter le monde. J’ai de la chance de ne pas souffrir plus. Ma vie ne fut que folies douces, c’est regrettable.
          Bah! faisons toutes les grimaces imaginables.
          Décidément, nous sommes hors du monde. Plus aucun son. Mon tact a disparu. Ah! mon château, ma Saxe, mon bois de saules. Les soirs, les matins, les nuits, les jours… Suis-je las!
          Je devrais avoir mon enfer pour la colère, mon enfer pour l’orgueil, et l’enfer de la caresse; un concert d’enfers.
          Je meurs de lassitude. C’est le tombeau, je m’en vais aux vers, horreur de l’horreur! Satan, farceur, tu veux me dissoudre, avec tes charmes. Je réclame. Je réclame! un coup de fourche, une goutte de feu.
          Ah! remonter à la vie! Jeter les yeux sur nos difformités. Et ce poison, ce baiser mille fois maudit! Ma faiblesse, la cruauté du monde! Mon Dieu, pitié, cachez-moi, je me tiens trop mal! — Je suis caché et je ne le suis pas.
          C’est le feu qui se relève avec son damné.

* Nota do tradutor Paulo Hecker Filho: Provável alusão ao imperador germânico que odiava o protestantismo e causou a Guerra dos Trinta Anos no século XVII.
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Rimbaud — Uma temporada no inferno (edição bilíngue) seguido de Correspondência (Cartas familiares, Correspondência com Verlaine, Agonia em Marselha, Cartas da África), Edição, Introdução e Notas de Ivan Pinheiro Machado e Tradução de Paulo Hecker Filho, Alexandre Ribondi, Júlia da Rosa Simões e Ivo Barroso, Coleção Rebeldes & Malditos, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Rimbaud: Manhã

UMA TEMPORADA NO INFERNO SEGUIDO DE CORRESPONDÊNCIA - Arthur ...
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

               Não tive uma vez uma juventude amável, heróica, fabulosa, a ser narrada sobre folhas de ouro, muita sorte! Por que crime, por que erro, mereci minha fraqueza atual? Os que creem que os animais têm soluços de pena, que os doentes desesperam, que os mortos tenham maus sonhos, tratem de contar a minha queda e o meu sono. Eu não posso me explicar mais que o mendigo com seus contínuos Pater e Ave Maria. Não sei mais falar!
               Porém hoje creio ter terminado o relato do meu inferno. Era o inferno; o velho, de que o filho do homem abriu as portas.
               Do mesmo deserto, à mesma noite, sempre meus olhos cansados se abrem para a estrela de prata, sempre, sem que se comovam os reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, da sabedoria nova, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, adorar os primeiros! O Natal na terra!
               O Cântico dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

Uma Temporada no Inferno — 1873

Rimbaud

               Matin

               N'eus-je pas une fois une jeunesse aimable, héroïque, fabuleuse, à écrire sur des feuilles d'or, trop de chance! Par quel crime, par quelle erreur, ai-je mérité ma faiblesse actuelle? Vous qui prétendez que des bêtes poussent des sanglots de chagrin, que des malades désespèrent, que des morts rêvent mal, tâchez de raconter ma chute et mon sommeil. Moi, je ne puis pas plus m'expliquer que le mendiant avec ses continuels Pater et Ave mariaJe ne sais plus parler!
               Pourtant, aujourd'hui, je crois avoir fini la relation de mon enfer. C'était bien l'enfer; l'ancien, celui dont le fils de l'homme ouvrit les portes.
               Du même désert, à la même nuit, toujours mes yeux las se réveillent à l'étoile d'argent, toujours, sans que s'émeuvent les Rois de la vie, les trois mages, le coeur, l'âme, l'esprit. Quand irons-nous, par delà les grèves et les monts, saluer la naissance du travail nouveau, la sagesse nouvelle, la fuite des tyrans et des démons, la fin de la superstition, adorer les premiers! Noël sur la terre!
               Le chant des cieux, la marche des peuples! Esclaves, ne maudissons pas la vie.

Une saison en enfer — 1873 
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Rimbaud — Uma temporada no inferno (edição bilíngue) seguido de Correspondência (Cartas familiares, Correspondência com Verlaine, Agonia em Marselha, Cartas da África), Edição, Introdução e Notas de Ivan Pinheiro Machado e Tradução de Paulo Hecker Filho, Alexandre Ribondi, Júlia da Rosa Simões e Ivo Barroso, Coleção Rebeldes & Malditos, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), nascido em Charleville França, foi poeta do simbolismo francês, recebeu influências de Victor Hugo, George Izambard, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandona a literatura e retoma a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Rimbaud: Delírios II — Alquimia do Verbo [excerto]

UMA TEMPORADA NO INFERNO SEGUIDO DE CORRESPONDÊNCIA - Arthur ...
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

               Para mim. A história das minhas loucuras.
               Há muito me gabava de possuir todas as paisagens possíveis, e julgava irrisórias as celebridades da pintura e da poesia moderna.
               Gostava das pinturas idiotas, em portas, decorações, telas circenses, placas, iluminuras populares; a literatura fora de moda, o latim da igreja, livros eróticos sem ortografia, romances de nossos antepassados, contos de fadas, pequenos livros infantis, velhas óperas, estribilhos ingênuos, ritmos ingênuos.
               Sonhava com as cruzadas, viagens de descobertas de que não existem relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião esmagadas, revoluções de costumes, deslocamentos de raças e continentes: acreditava em todas as magias.
               Inventava a cor das vogais!  A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde. Regulava a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, me vangloriava de ter inventado um verbo poético acessível, um dia ou outro, a todos os sentidos. Era comigo traduzi-los.
               Foi primeiro um experimento. Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.

Longe dos pássaros, do gato, dos campônios,
O que eu bebia, de joelhos no gramado,
Entre os doces troncos das aveleiras,
Na névoa quente e verde da tarde?

Que podia beber no juvenil Oise
 Olmos sem voz, grama sem flores, céu coberto! 
Das cabaças amarelas, longe da minha choupana
Querida? Algum álcool dourado, de suar.

Fazia uma torta tabuleta de albergue.
 Uma tormenta vem tapar o céu. À noite,
A água das árvores se perdia nas areias virgens,
O vento de Deus jogava granizos nos banhados;

Chorando, via o ouro  e não pude beber.

No verão às quatro da manhã
O sono do amor ainda dura.
Sob o arvoredo se evapora
             O odor da noite de festa.

Ali, na vasta cocheira,
Das Hespérides* ao sol,
Já, em mangas de camisa,
                          Se movem os Carpinteiros.

Em seus Desertos de seiva, tranqüilos,
Preparam os belos painéis
                          em que a cidade terá
             seus falsos céus.

Aos atraentes operários,
Súditos de um rei da Babilônia,
Vênus deixa um instante os Amantes
             Coroada por suas almas.

             Ó Rainha dos Pastores,
Traz a aguardente aos que trabalham,
Para manter-lhes as forças até o banho
Do meio-dia no mar.

( . . . )
Uma Temporada no Inferno — 1873

Arthur Rimbaud | Carrilho, Fotos e Literatura
Rimbaud

               Delires II — Alchimie du Verbe

               À moi. L’histoire d’une de mes folies.
               Depuis longtemps je me vantais de posséder tous les paysages possibles, et trouvais dérisoires les célébrités de la peinture et de la poésie moderne.
               J’aimais les peintures idiotes, dessus des portes, décors, toiles de saltimbanques, enseignes, enluminures populaires ; la littérature démodée, latin d’église, livres érotiques sans orthographe, romans de nos aïeules, contes de fées, petits livres de l’enfance, opéras vieux, refrains niais, rythmes naïfs.
               Je rêvais croisades, voyages de découvertes dont on n’a pas de relations, républiques sans histoires, guerres de religion étouffées, révolutions de meurs, déplacements de races et de continents : je croyais à tous les enchantements.
               J’inventai la couleur des voyelles ! — A noir, E blanc, I rouge, O bleu, U vert. — Je réglai la forme et le mouvement de chaque consonne, et, avec des rythmes instinctifs, je me flattai d’inventer un verbe poétique accessible, un jour ou l’autre, à tous les sens. Je réservais la traduction.
               Ce fut d’abord une étude. J’écrivais des silences, des nuits, je notais l’inexprimable, je fixais des vertiges.

Loin des oiseaux, des troupeaux, des villageoises,
Que buvais-je, à genoux dans cette bruyère
Entourée de tendres bois de noisetiers,
Dans un brouillard d’après-midi tiède et vert?

Que pouvais-je boire dans cette jeune Oise,
— Ormeaux sans voix, gazon sans fleurs, ciel couvert! —
Boire à ces gourdes jaunes, loin de ma case
Chérie? Quelque liqueur d’or qui fait suer.

Je faisais une louche enseigne d’auberge.
— Un orage vint chasser le ciel. Au soir
L’eau des bois se perdait sur les sables vierges,
Le vent de Dieu jetait des glaçons aux mares;

Pleurant, je voyais de l’or — et ne pus boire. —

A quatre heures du matin, l’été,
Le sommeil d’amour dure encore.
Sous les bocages s’évapore
             L’odeur du soir fêté.

Là-bas, dans leur vaste chantier
Au soleil des Hespérides,
Déjà s’agitent — en bras de chemise —
                          Les Charpentiers.

Dans leurs Déserts de mousse, tranquilles,
Ils préparent les lambris précieux
                          Où la ville
             Peindra de faux cieux.

Ô, pour ces Ouvriers charmants
Sujets d’un roi de Babylone,
Vénus! quitte un instant les Amants
             Dont l’âme est en couronne.

             Ô Reine des Bergers,
Porte aux travailleurs l’eau-de-vie,
Que leurs forces soient en paix
En attendant le bain dans la mer à midi.

( . . . )
Une saison en enfer — 1873

* Nota do Tradutor: as três filhas de Atlas. Tinham um jardim que dava frutos de ouro sob a guarda de um dragão de cem cabeças. Hércules, no décimo primeiro de seus doze trabalhos, mata o dragão e pega os frutos.
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Rimbaud — Uma temporada no inferno (edição bilíngue) seguido de Correspondência (Cartas familiares, Correspondência com Verlaine, Agonia em Marselha, Cartas da África), Edição, Introdução e Notas de Ivan Pinheiro Machado e Tradução de Paulo Hecker Filho, Alexandre Ribondi, Júlia da Rosa Simões e Ivo Barroso, Coleção Rebeldes & Malditos, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), nascido em Charleville França, foi poeta do simbolismo francês, recebeu influências de Victor Hugo, George Izambard, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandona a literatura e retoma a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.