segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Johann Wolfgang von Goethe: Recomendação

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[traduzido por Amélia de Rezende Martins]

Ai, que deve o homem esperar?
É melhor ficar inerte?
É melhor viver sem leme?
A algum amor se aferrar?
Deve em tenda residir?
Ou uma casa edificar?
Deve se fiar em rocha,
Tão sujeita a vacilar?
A cada um o seu tanto...
Cada qual rume com fé,
Pense onde se fixar
E não caia estando em pé.

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Johann von Goethe

Beherzigung

Ach, was soll der Mensch verlangen?
Ist es besser, ruhig bleiben?
Klammernd fest sich anzuhangen?
Ist es besser, sich zu treiben?
Soll er sich ein Häuschen bauen?
Soll er unter Zelten leben?
Soll er auf die Felsen trauen?
Selbst die festen Felsen beben.
Eines schickt sich nicht für alle.
Sehe jeder, wie er's treibe,
Sehe jeder, wo er bleibe,
Und wer steht, dass er nicht falle!
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologias de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; bibliografia: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), Clavigo (1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (1779), Torquato Tasso (1780), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (1810), Aus meinem Leben. Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo.

domingo, 29 de setembro de 2019

Gilberto Mendonça Teles: Caiporismo

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Um dia um caipora, baixinho, gordo e nu,
montou num caititu e foi pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.

E logo todos os bichos se amoitaram e só
saíram aos cochichos, aproveitando o pó
da noite que tecia seu manto de jaó.

Mas um velho goiano (seis mortes, por aí)
arrumou seu jirau sobre um pé de pequi
e ficou escuitano jaó e juriti.

Esperava veado e só então deu fé
naquilo que a seu lado parecia de pé
e tinha o corpo todo seco que nem sapé.

Quem não teme o diabo e arreliado está
sabe bem que no cabo de sua faca só há
sangue de coisa ruim, cheiro de coisa má.

Com três golpes no umbigo matou o caipora.
Mas quando ia embora viu-se baixinho e nu
montando um caititu e indo pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.

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Saciologia Goiana — Poesia: Gilberto Mendonça Teles, Coleção Poesia Hoje — Volume 53, Texto/Apresentação: O Poeta Crítico, artigo de Tristão de Athayde, 1982, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Gilberto Mendonça Teles, nascido em 1931, goiano de Bela Vista de Goiás, formado em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (Universidades Federal e Católica de Goiás) e com doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, professor, poeta e crítico literário, é detentor de uma vasta bibliografia em poesias, Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1958), Pássaro de Pedra (1962), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), e outros títulos editados e reeditados, além de ensaios, Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), A Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996) etc.; o poeta e ensaísta, diversas vezes premiado por sua atividade literária, também é reconhecido fora do país, com livros vertidos para outras línguas e publicados no exterior.

sábado, 28 de setembro de 2019

José Paulo Paes: Aos óculos

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Só fingem que põem
o mundo ao alcance
dos meus olhos míopes.

Na verdade me exilam
dele com filtrar-lhe
a menor imagem.

Já não vejo as coisas
como são: vejo-as como eles querem
que as veja.

Logo, são eles que vêem,
não eu que, mesmo cônscio
do logro, lhes sou grato

por anteciparem em mim
o Édipo curioso
de suas próprias trevas.

Prosas Seguidas de Odes Mínimas — 1992

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José Paulo Paes: Melhores Poemas — Ensaio e Seleção de Davi Arrigucci Jr., 2ª edição, 2000, Global Editora, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; escreveu e publicou: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Meia Palavra (1973), Pavão, Parlenda, Paraíso: uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa (ensaio, 1977), Resíduo (1980), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses, tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Salvador de Mendonça: Versos a Lúcio

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                              I

Há no espaço infinito do Universo,
Além da Via Láctea, uns pequeninos
Vestígios de matéria e notas de hinos
Com que da Criação se plasma o verso.

Forjam-se, ali, dos seres os destinos,
E o Supremo Fator em luz imerso
Marca a derrota aos astros e o diverso
Curso a tantos milhões de peregrinos.

Passam os sóis e levam no seu bando
Novos corpos no vácuo flutuando,
Vergéis de Paraíso, antros de Inferno

Saltam da forja as chispas coruscantes.
Homens, estrelas, monstros ululantes,
No infindo desdobrar do plano eterno.

                             II

Forjaram-te ao clarão da luz intensa
Que se chama a Verdade. De armadura
Revestiram-te o corpo. E a destra pura
Ergueu bem alto o lábaro a crença.

Tu passaste entre nós qual a figura
De algum novo Jesus. Tua alma imensa
Foi a própria Justiça. E uma sentença
Era o verbo da Lei feito escritura.

Tinhas na voz a cólera sagrada
Para a opressão e para a vil manada
Que se rojava aos pés dos opressores

Tinhas no coração a caridade,
O amor do bem de toda a humanidade
Dos fracos, das crianças e das flores.

                              III

Quando surgiste acima da montanha
De algum mundo de luz e liberdade,
Tinhas no triste olhar funda saudade,
Mensageiro do céu em terra estranha.

Quando espalhaste a viva claridade
De todo esse teu ser, fulgiu tamanha
A branca luz que sempre te acompanha
Que te ocultar não pôde a Imensidade.

Hoje, por sobre as rosas do Oriente,
Por sobre a curva argêntea do crescente,
Tu da Pátria entrevês o vulto escuro.

Estrela d’alva, protetora estrela,
Rasga o véu que procura inda escondê-la,
Torna a guiá-la, estrela do futuro!

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* Nota de Cecilia Costa Junqueira, com acréscimo deste aprendiz de blogueiro: Poema lido por Salvador de Mendonça para seu irmão em 12 de junho de 1912, quando da inauguração de seu busto na ABL; este aprendiz de blogueiro acrescenta: o irmão, Lúcio de Mendonça (1854 — 1909), advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta, foi o idealizador e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, a quem coube a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.
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Salvador de Mendonça, Série essencial 80, Academia Brasileira de Letras, Organização de Cecilia Costa Junqueira, 2014, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Salvador de Menezes Drummond Furtado de Mendonça (1841 1913), fluminense de Itaboraí, recebeu seus primeiros ensinamentos da mãe, com quem aprendeu línguas, música e desenho; depois, já no Rio de Janeiro, então capital do Império estudou no Colégio Marinho e no Curiácio, e, em São Paulo, formou-se em Direito na Faculdade do Largo São Francisco (atual USP); foi advogado, professor, jornalista, diplomata, teatrólogo, tradutor, escritor e poeta; colaborou como redator no Diário do Rio de Janeiro, além de publicar seus textos e críticas, manter colunas em outros periódicos: Jornal do Commércio, Correio Mercantil, Jornal da República, Actualidade, Tribuna Liberal, O Ipiranga e outros, em alguns deles ocupando funções as mais variadas; foi tradutor da Casa Garnier, livraria e editora; bibliografia: Singairu (poesia, 1859), O Romance de um Moço Rico (teatro, 1860), A Herança (teatro, 1861), Joana de Flandres, ou A Volta do Cruzado (ópera, 1863), Marabá (romance, prefaciado por José de Alencar, 1875), Lendas da Serra e da Baixada (poesia, 1910) etc.; foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, criador e ocupante da cadeira nº 20, sendo patrono o escritor Joaquim Manuel de Macedo.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

José J. Veiga: O inutilútil

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                    Há mais de dois mil anos o sábio Chuang Tzu ensinava que no mundo não existe grande nem pequeno, bom nem mau, útil nem inútil por si: esses conceitos são ilusórios se não forem encarados no contexto geral. Noutras palavras, tudo pode ser bonito ou feio, bom ou mau, útil ou inútil, conforme a vizinhança. O “bonito” precisa do “feio” para ser bonito; o “grande” precisa do “pequeno” para ser grande, e assim por diante. Tudo que está no mundo tem um motivo para estar aí; o fato de ignorarmos esse motivo não significa que determinada coisa esteja aí de “penetra”.
                    Existem em todo o mundo certas plantas que a tradição convencionou chamar de “folhagem inútil”, “mato”, “erva daninha”, como se na natureza também vigorasse uma divisão em classes, a dos nobres e a dos plebeus.
                    Será que existem mesmo plantas inúteis? A designação de “erva daninha” não será mero artifício para esconder a nossa ignorância? Se a natureza é econômica e astuta, como ensinam os naturalistas, não pode haver nada inútil no mundo. Por exemplo, antigamente minhoca só servia para iscar anzol ou encher papo de galinha de quintal; mas hoje é item de exportação de muitos países. Urubu antigamente só servia para ser esconjurado por pessoas supersticiosas, e hoje é exportado do Terceiro Mundo para o Primeiro, que tinha acabado com eles por questão de estética. Até cálculo biliar, aquelas pedrinhas que causam dor lancinante quando estão sendo expelidas, hoje é item de comércio externo de alguns países. Tudo é útil, o problema é saber para quê.
                    Quanto a nossas “plantas daninhas”, no que depender da pesquisadora mineira Mitzi Brandão em breve estarão desfilando nos cardápios dos restaurantes e nas mesas das famílias. Trabalhando para uma empresa de pesquisa agropecuária do estado. D. Mitzi já descobriu que 400 espécies de plantas consideradas “daninhas” são comestíveis e até mais nutritivas do que muitas leguminosas que adquiriram status de plantas alimentícias. A tiririca, por exemplo, que lavradores do país inteiro atacam a ferro e literalmente também a fogo, dá uma caipirinha de revirar os olhos, principalmente se for feita com a boa cachaça daqui de Piumhy. E fiquem sabendo que a tiririca é também poderoso afrodisíaco. Empresários estrangeiros têm vindo ao Brasil a pretexto de estudar possibilidades de investimento ou de negócios outros, mas no que eles estão de olho é na tiririca.
                    D. Mitzi Brandão já descobriu a utilidade de 400 plantas consideradas daninhas, e promete continuar pesquisando para descobrir mais. Cabe agora aos nutricionistas e aos mestres-cucas imaginativos inventarem meios de utilização dessas descobertas, para que elas não fiquem apenas como assunto de almanaquistas.

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Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 — Restaurado por José J. Veiga, 1989, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 1999), goiano de Corumbá de Goiás, que ao terminar seus estudos secundários transferiu-se para o Rio de Janeiro e ali formou-se em Direito, foi jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC — Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV — Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Estranha Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve obras publicadas nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; em 1997, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; de sua biografia, também consta ter "restaurado" O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 (1988) e O Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 (1989).

José J. Veiga: Era Homem e Não Sabia

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                    Ela nasceu mulher, nunca reclamou dessa condição, andava em companhia de nobres, valia o seu peso em ouro, prata, platina. Um belo dia uns alcaguetes desalmados (existirá algum almado?) apontaram o dedo perito e denunciaram: “É homem querendo passar por mulher.”
                    Ela tentou se defender, mas gaguejando muito devido ao choque: “Eeuu? Parem com isso. Olhem o respeito.”
                    “Você mesma. Confesse e assuma,” responderam os pesquisadores/alcaguetes.
                    Não adiantou a pobrezinha invocar nomes de escritores famosos da língua, que sempre a trataram como mulher. Por fim, fez um trejeito bem feminino e desabafou:
                    “Esses gramáticos estão perdendo o tempo. Quem lida comigo me trata como mulher. Quem faz compras para a casa sabe disso. A pessoa escolhe uma abóbora, um peixe, um pedaço de carne-seca e manda pesar. O vendedor joga a peça na balança, olha e diz: “Um quilo e trezentas gramas bem pesado. Vai, madame (ou chefe, ou doutor)?”
                    “E também nas maternidades, servidas por profissionais que usam outro tipo de avental, as crianças continuam nascendo pesando três quilos e duzentas, três quilos e trezentas gramas. É só os gramáticos e os locutores que deram para me chamar de homem. Mas quem é que liga para eles?”
                    A grama tem razão. Fora das gramáticas e dos estúdios, ninguém vai mudar o sexo dela.

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O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 — Restaurado por José J. Veiga, 1988, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 1999), goiano de Corumbá de Goiás, que ao terminar seus estudos secundários transferiu-se para o Rio de Janeiro e ali formou-se em Direito, foi jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC — Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV — Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Estranha Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve obras publicadas nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; em 1997, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; de sua biografia, também consta ter "restaurado" O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 (1988) e O Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 (1989).

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Afonso Henriques Neto: Quase didático

Afonso Henriques Neto por Marcelo Santos – EdUERJ – Editora da ...
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aos amigos

solte seus olhos à luz
da mais silenciosa estrela
em sua alma apreendida;

aprenda a senti-la conforme
brilhos e sombras do espacial
diamante sob afrodisíaco olhar;

prenda seus olhos à mutação
de cada sinal em cada gesto
da infinita cadeia em gestação;

saiba tocar o objeto mais próximo
com a pureza dos sentidos
esvaziados de qualquer interferência;

componha sua canção como peixes
que à flor do sonho
perseguissem o fundo instinto de sol;

mude em poesia o mundo dado
entre esfinge e solidão:
água indecifrável da eterna transformação;

oh navegar o novo quando palavras não há

REF (Restos & Estrelas &
Fraturas — 2004) [1975], p. 9

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Afonso Henriques Neto (Coleção Ciranda da Poesia), Estudo/Ensaio e Entrevista por Marcelo Santos, 2012, Editora UERJ — Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Guimaraens Neto, nascido em 1944, mineiro de Belo Horizonte, formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), com doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), participante ativo do movimento político-cultural conhecido como poesia marginal da década de 1970, é professor, ensaísta, tradutor e poeta; morou e atuou em Brasília DF e atualmente vive no Rio de Janeiro; bibliografia: O misterioso ladrão de Tenerife (1ª edição em 1972), Restos & estrelas & fraturas (1ª edição em 1975), Ossos do paraíso (1981), Tudo nenhum (1985), Avenida Eros (1992), Piano mudo (1992), Abismo com violinos (1995), Eles devem ter visto o caos (1998), Ser infinitas palavras (2001), Cidade vertigem (ensaio poético, 2005), Fogo Alto: Catulo, Villon, Blake, Rimbaud, Huidobro, Lorca, Ginsberg (traduções, 2009), Uma cerveja no dilúvio (2011) e outros; participou de antologias.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Hélder Câmara: Na caixa dos meus trebelhos . . . [soneto]

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Na caixa dos meus trebelhos
Dormitam sonhos de glória
Alguns amargos conselhos
Uma partida, uma história

Ali trinta e dois espelhos
Refletem, viva memória
Anseios gastos, já velhos
De alguma quase vitória

E o meu tabuleiro a um canto
Cheio de poeira e de traços
Conserva-se em mudo espanto

Talvez por ver que ilusões
Depois dos nossos fracassos
Se perdem como peões

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Tabuleiro da vida: O xadrez na história. Histórias do xadrez — Herbert Carvalho, 2004, Editora Senac, São Paulo — SP; Hélder Câmara (1937 2016), cearense de Fortaleza, foi enxadrista, escritor e também poeta; transferindo-se para o Rio de Janeiro, na década de 1950, foi campeão carioca de xadrez e campeão brasileiro; depois, mudando-se para São Paulo, tornou-se campeão brasileiro e paulista; por diversas vezes integrou equipe olímpica brasileira em competições de xadrez no exterior; trabalhou no Jornal dos Sports, Rio, e n’O Estado de São Paulo, escrevendo colunas e crônicas sobre xadrez; bibliografia: Diagonais: crônicas de xadrez (1996), Caíssa (crônicas, 2006), 100 crônicas de xadrez (2014); Hélder Câmara, o enxadrista e poeta, mestre internacional de xadrez, foi perseguido e preso em 1971, em plena ditadura militar, pelo simples fato de ser sobrinho e homônimo do arcebispo Dom Hélder Câmara (1909 1999), defensor dos direitos humanos e um dos fundadores da CNBB Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Ricardo Aleixo: [só ex is te mt ri lh as] *

Ciclo do Bem - edição set/2019, 275
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       só     ex     is     te

  mt     ri     lh     as

            na     fl     or     es

ta     po     rq     ue

      ne     mt     od     as

              em     en     te     vi

ra     ár     vo     re

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* Nota deste Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro destas páginas deu título ao poema apenas com o intuito de facilitar sua busca no blogue.
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Revista E — Sesc São Paulo, setembro de 2019, nº 3, ano 26; Ricardo Aleixo, nascido em 1960, mineiro de Belo Horizonte, autodidata, é poeta, músico, artista visual/sonoro, artista plástico, editor, produtor cultural, performer e pesquisador de poéticas intermídia; seus textos dialogam por excelência com o concretismo e a etnopoesia; Ricardo Aleixo é editor da revista Roda — Arte e Cultura do Atlântico Negro, pela Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte; bibliografia: Festim (1992), A Roda do Mundo (em colaboração com Edimilson de Almeida Pereira, 1996), Quem faz o quê? (1999), Trívio (2001), a aranha Ariadne (2003), Máquina Zero (2004), Real irreal (vídeo-poema, 2008), Modelos Vivos (2010), Antiboi (2017), Pesado Demais para a Ventania (antologia poética, 2018), Diário da Encruza (a ser editado, 2019) e outros.

Georg Trakl: Föhn

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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Lamento cego no vento, dias lunares de inverno,
Infância, os passos se perdem discretos em negra sebe,
Longo toque noturno.Discreta vem a noite branca,

Transforma em sonhos purpúreos tormento e dor
Da vida pedregosa,
Para que nunca o pontudo espinho deixe o corpo em decomposição.

Profunda em sono suspira a alma angustiada,

Profundo o vento em árvores destruídas,
E a figura de lamento da mãe
Vagueia pela floresta solitária

Desse luto silente; noites,
Repletas de lágrimas, de anjos de fogo.
Prateado, espatifa-se contra a parede nua um esqueleto de criança.

(1914)

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Georg Trakl

Föhn

Blinde Klage im Wind, mondene Wintertage,
Kindheit, leise verhallen die Schritte an schwarzer Hecke,
Langes Abendgeläut.
Leise kommt die weiße Nacht gezogen,

Verwandelt in purpurne Träume Schmerz und Plage
Des steinigen Lebens,
Daß nimmer der dornige Stachel ablasse vom verwesenden Leib.


Tief im Schlummer aufseufzt die bange Seele,

Tief der Wind in zerbrochenen Bäumen,
Und es schwankt die Klagegestalt
Der Mutter durch den einsamen Wald

Dieser schweigenden Trauer; Nächte,
Erfüllt von Tränen, feurigen Engeln.
Silbern zerschellt an kahler Mauer ein kindlich Gerippe.

(1914)
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Poesia Expressionista Alemã: uma antologia, Organização e Tradução de Claudia Cavalcanti, edição bilíngue ilustrada, 2000, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Georg Trakl (1887 1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (1913), além de textos esparsos em edições da revista Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (Sebastian im Traum, 1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em agosto de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.