terça-feira, 31 de julho de 2012

João Carlos Teixeira Gomes: Soneto da morte sem susto

JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES
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Minha única certeza é minha morte.
Virá festiva, com pendões vermelhos,
Provocadora com seu riso forte.
Mas me verá de pé, não de joelhos.


Pode vir de mansinho a forasteira
Ou numa orgia de ossos e fanfarras,
Com dois laços de fita na caveira
E o ágil chacoalhar das finas garras.


Eu que os mares amei, e o sol tirânico,
Os flavos grauçás de dorso enxuto,
As moças de maiô e o vento atlântico,


Sereno hei de esperá-la em meu reduto,
E assim ao ver-me, sem sinal de pânico,
A própria morte se porá de luto.


O Domador de Gafanhotos (1976)

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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 70, Seleção e Prefácio de Afonso Henriques Neto, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2009, São Paulo  SP; João Carlos Teixeira Gomes, baiano de Salvador, nascido em 1936, é poeta, ensaísta, jornalista e professor da Universidade Federal da Bahia; publicou Ciclo Imaginário (1975, Edições Arpoador, Salvador  BA), O Domador de Gafanhotos (1976, Fundação Cultural do Estado da Bahia, Salvador  BA), A Esfinge Contemplada  e outros poemas (1988, Nova Fronteira, Rio de Janeiro  RJ), entre outros ensaios e memória política.

domingo, 29 de julho de 2012

Nhô Bentico (Abílio Víctor): Nem te ligo...

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Eu quiria me casá,
Mais acho que num cunsigo: 
tudas moça que eu namoro
dizem logo: nem te ligo...

Fui, um dia, no jardim,
fiquei perto dos amigo.
As moças logo disserum: 
Nhô Bentico, nem te ligo...

Comprei um tomóve Forde,

daqueles do tempo antigo,
as moça gritaram arto: 
Sai, caipira, nem te ligo...

Andei no grobo da morte
i me escapei do pirigo: 
as moça batiam parma,
mais gritavam:  nem te ligo...

Comecei a fazê pão
só de farinha de trigo: 
as moça gostavam dele,
mais diziam: nem te ligo...

Comprei uma mula preta,
lijêra que era um castigo.
Passava perto das moça,
me diziam: nem te ligo...

Mandei fazê um sobrado,
na Rua Dotô Rodrigo,
As moça oiavam p'ra riba
i berravam: nem te ligo...

Gastei tudo meu dinhêro,
fiquei quaje iguá mendigo,
mais as moça cuntinuaram 
sempre co'o tar: nem te ligo.

Agora tô sussegado,
pensando sempre cumigo,
dizendo sempre p'ra vida: 
Óia, vida, nem te ligo...


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Poemas Sertanejos  Reedição dos livros Folhas do Mato (1938 e 1940) e Favas de Ingá (1950), Gráfica Regional, 1984, Itapetininga  SP; este poema foi publicado originalmente em Folhas do Mato (1938); Nhô Bentico e Abílio Víctor (1899  1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Soares Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato, Versos Humorísticos, Favas de Ingá e Poemas Sertanejos.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Dalton Trevisan: Pico na Veia (14)


Conto 141:

A mulher do velho poeta:
 Em vez de ganhar dinheiro, você fica aí sentado cantando o mesmo versinho!
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Pico na Veia, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ, 2002; Dalton Trevisan, um curitibano nascido no ano de 1925, é autor de Cemitério de Elefantes, A Polaquinha, O Vampiro de Curitiba, A Trombeta do Anjo Vingador, além de Pico na Veia e mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre e Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná.

domingo, 22 de julho de 2012

Dalton Trevisan: Pico na Veia (13)


Conto 37:

Na farmácia, a mocinha com o bebê no colo, apagando a voz:
 Uma caixa de pílula e um batom bem vermelho.
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Pico na Veia, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ, 2002; Dalton Trevisan, um curitibano nascido no ano de 1925, é autor de Cemitério de Elefantes, A Polaquinha, O Vampiro de Curitiba, A Trombeta do Anjo Vingador, além de Pico na Veia e mais uma vintena de obras. Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor. O eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio — São Paulo, a Revista Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos — como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre e Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres. Em 2002, os vinte e um números da Revista Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dalton Trevisan: Pico na Veia (12)


Conto 147:


Melhora muito o convívio de Sócrates e Xantipa assim que um deles bebe cicuta.
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Pico na Veia, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ, 2002; Dalton Trevisan, um curitibano nascido no ano de 1925, é autor de Cemitério de Elefantes, A Polaquinha, O Vampiro de Curitiba, A Trombeta do Anjo Vingador, além de Pico na Veia e mais uma vintena de obras. Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor. O eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio — São Paulo, a Revista Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos — como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre e Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres. Em 2002, os vinte e um números da Revista Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Francisco Otaviano: Preguiça


               Oh Preguiça! Tu que és uma constante e patriótica advogada do sossego e da ordem pública; a mais entusiástica apologista do statu quo, e de todas as idéias conservadoras; a inimiga mais decidida de tudo quanto cheira a reformas e progresso, a mudanças e a movimento;
               Preguiça! Tu que és a amante desvelada do santo ócio, a extremosa namorada da sinecura, e a maga inspiradora de todos os inefáveis conchegos de um dolce for niente;
               Preguiça! Tu que és deusa que preside aos bocejos e aos cochilos, e que tens um templo no boudoir da moça casquilha, no gabinete do ministro de Estado, nos palácios dos ricos, e até na senzala do preto velho;
               Preguiça! Tu que tens sempre um hino e um sorriso para a noite dos sábados, e um voto de maldição e uma careta para a manhã das segundas-feiras;
               Preguiça! Tu que ensinaste ao Tamoio a tecer a sonolenta rede, e ao homem civilizado a fazer as deliciosas poltronas, as suaves cadeiras de balanço e as camas de colchões macios;
               Preguiça! Tu que fizeste inventar os carros, os cupês, os tílburis, e as gôndolas; tu que inspiras as gazetas aos deputados e aos estudantes; tu que demoras o expediente nas secretarias de Estado, tu que improvisas dores de cabeças para os ministros que não querem dar audiência nos dias marcados;
               Preguiça! Tu que és amiga fiel do provisório, a conselheira dos paliativos e dos panos quentes; tu que adoras tantas vezes a rolha, e tantas vezes morres de amores por um adiamento;
               Preguiça! Tu que com um dedo mágico pões durante quatro meses do ano em torturas diárias os ponteiros dos relógios das câmaras; tu que com a mais santa abnegação estás sempre disposta a trocar uma casaca nova por um robe-de-chambre velho;
               Preguiça! Tu que acompanhas sempre a lua-de-mel dos noivos, que arredondas o cachaço dos frades; que fazes os empregados públicos chegar à repartição um quarto de hora mais tarde; tu que és filósofa, porque desprezas a riqueza, que és estadista, porque nunca te precipitas; que és poética, porque é no teu seio que melhor se sonha acordado; que és higiênica, porque aborreces tanto os ardores do sol como o frio da noite e nunca nos aconselhas que nos exponhamos  ao  mau tempo;
               Oh Preguiça! Também eu reconheço o teu poder; às vezes cometo o teu pecado; e ainda hoje, agora mesmo, maldigo o meu dever, que não consente que eu me entregue todo inteiro aos cômodos suaves a que me convidas, mas eu te vingarei, minha boa preguiça, escrevendo uma Semana digna de ti, e indigna de quem a ler;
               Oh Preguiça! Se não fosses um pecado mortal, eu ainda havia de te escrever um soneto!
               E, entretanto, apesar de seres um pecado mortal, todos se acham com direito de te dedicar um dia, pelo menos, quando não dedicam semanas, meses, e anos ao teu culto; todos se julgam com direito de ter preguiça uma ou outra vez e uma vez ou outra de dar férias ao cumprimento de seus deveres; todos... todos... menos somente o redator da Semana!
               ...
(Transcrito por Afrânio Coutinho, Antologia
 Brasileira de Literatura , volume III,
 2 a. Edição, 1967, Editora Distribuidora
 de Livros Escolares, Rio de Janeiro  GB)
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Antologia de Antologias  prosadores brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio Doyle e prefácio de Fábio Lucas, Musa Editora 1996, São Paulo  SP; Francisco Otaviano de Almeida Rosa (1825  1889), nascido no Rio de Janeiro, escritor, tradutor e poeta, jornalista, político e diplomata, não teve preocupação em publicar livros; suas duas obras literárias, juntas, Cantos de Selma (1872) e Traduções e Poesias (1881), perfizeram a tiragem de 57 exemplares; apenas postumamente, em 1925, teve sua poesia reunida; sua obra foi registrada esparsamente em revistas e jornais de seu tempo.

José Américo de Almeida: Antes que me falem *

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Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: é não ter o que comer na terra de Canaã.



* Conferido com José Américo de Almeida, A Bagaceira, 16a. edição, Livraria José Olympio  Editora, Rio de Janeiro, 1978, pp. 2-3.
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Antologia de Antologias  prosadores brasileiros "revisitados", organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, apresentação de Plínio Doyle e prefácio de Fábio Lucas, 1996, Musa Editora, São Paulo — SP; José Américo de Almeida (1887  1980), paraibano de João Pessoa, foi escritor (romancista, ensaísta, poeta e cronista), político, advogado, professor universitário, folclorista e sociólogo; escreveu e publicou Reflexões de uma cabra (1922), A Paraíba e seus problemas (1923), A Bagaceira (romance, 1928), Os Casos de Sangue (ensaio, 1954), O Boqueirão (romance, 1935), Coiteiros (romance, 1935), A palavra e o tempo (1965), Quarto minguante (poesia, 1975), Antes que me esqueça (1976), entre outros.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Luís Guimarães Júnior: A Escrava


Enquanto os outros negros companheiros
Bailam em frente à lúgubre senzala,
E da fausta vivenda a rica sala
Percorre a dança em giros feiticeiros;

Enquanto a noite com seus ais fagueiros
Como um segredo tropical se exala,
E a quente aragem que a palmeira embala,
Treme na leve rama dos coqueiros;

Enquanto a festa vívida, inclemente,
Louca de febre e graças soberanas,
Prende o senhor e o escravo juntamente:

Ela, fugindo às emoções humanas,
Recorda tristemente, tristemente,
A solidão das noites africanas.
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Páginas de Ouro da Poesia Brasileira (vários autores) Seleção e Prefácio de Alberto de Oliveira, 1911, H. Garnier, Livreiro Editor, Rio de Janeiro RJ; Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (1845? 1898), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito na Faculdade de Recife, foi poeta, folhetinista, comediógrafo, jornalista e diplomata, e publicou Lírio Branco (1862), Uma Cena Contemporânea (teatro, 1862), Corimbos (poesia, 1866), A Família Agulha (romance, 1870), Noturnos (poesia, 1872), Filigranas (ficção, 1872), Sonetos e Rimas (poesia, 1880) etc.

terça-feira, 17 de julho de 2012

João Cabral de Melo Neto: Catar Feijão


a Alexandre O'Neill

Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

                              2

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.
A educação pela pedra (1966)
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Roteiro da Poesia Brasileira Anos 40, Seleção e Prefácio de Luciano Rosa, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2010, São Paulo SP; João Cabral de Melo Neto (1920 1999), pernambucano de Recife, serviu na carreira diplomática em vários países, foi poeta, e considerado como um dos maiores autores de poesia brasileira; obra poética: Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), O cão sem plumas (1950), O rio (1954), Quaderna (1960), A educação pela pedra (1966), Morte e vida severina e outros poemas em voz alta (1966), Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Auto do frade (1986), Crime na Calle Relator (1987), Sevilla andando (1989) etc.; em prosa, publicou O Brasil no arquivo das Índias de Sevilha, uma pesquisa histórico-documental, editado pelo Ministério das Relações Exteriores, Considerações sobre o poeta dormindo (1941) Juan Miró (1952); por diversas vezes recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Lago Burnett: Soneto para a Poesia


Se te acumulo, irrompes imprevista,
áspera até, mas sempre feminina,
deixando esta impressão de quem domina
àquele que supõe que te conquista.

Por merecer-te, impus-me a disciplina
com que te atraio à solidão de artista
e se acaso não pode alçar-te a vista
me invades com teus olhos de assassina.

Quando te esqueço, vens a meu encalço
e teu beijo é tão íntimo e insonoro
que nem posso julgar um beijo falso.

Eu te colho no tempo, por descuido,
mas, se não vens, a lágrima que choro
bebo pensando que é teu próprio fluido.
O Amor e seus Derivados (1984)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 40, Seleção e Prefácio de Luciano Rosa, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2010, São Paulo SP; José Carlos Lago Burnett (1929 — 1995), maranhense de São Luís, foi poeta, cronista, jornalista e locutor de rádio; nos anos 40, participou do lançamento do jornal Letras da Província e das revistas O Saci e Afluente, na capital maranhense, e, no Rio de Janeiro, colaborou em diversos periódicos: Jornal do Brasil, Diário de Notícias e Última Hora; publicou Estrela do Céu Perdido (1949), O Ballet das Palavras (1951), Os Elementos do Mito (1953), 50 Poemas de Lago Burnett (1959), O Amor e seus Derivados (1984) etc.

domingo, 15 de julho de 2012

Antônio Moura: Escrever


Escrever para supraviver
por um momento, ou ser

inteiramente num instante
em que passado, presente


e futuro se fundem numa
chama única e transparente.


Escrever para ver num lago
branco ao lado negro de Narciso,


luz e sombra velando-se e
revelando-se nas pontas do


sorriso  anjo-monstro, que
nas águas aparece refletido.

Escrever, riscar à carvão na própria
lápide o brilho cego de diamantes.


Escrever, morrer e aspirar, eterna
mente, a poeira de uma estante.
Rio Silêncio (2004)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo SP; Antônio Moura, paraense de Belém, nascido em 1963, poeta, letrista, publicitário e roteirista de cinema e vídeo, publicou Dez (Super Cores, 1996), Hong Kong & outros poemas (Ateliê Editorial, 1999), Rio Silêncio (Lumme Editor, 1999) e Quase-Sonhos (tradução de Presque-songes, de Jean-Joseph Rabearivelo  Lumme Editor, 2004); tem trabalhos publicados em diversas revistas brasileiras (Cult, Suplemento Literário de Minas Gerais e Sibila) e em antologias nacionais e internacionais.

sábado, 14 de julho de 2012

Luiz Gama: Quem sou eu? *

Resultado de imagem para Roteiro da Poesia Brasileira — Romantismo, Seleção e Prefácio de Antonio Carlos Secchin
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Quem sou eu? que importa quem?
Sou um trovador proscrito,
Que trago na fronte escrito
Esta palavra  Ninguém! 
A. E. Zaluar, Dores e Flores

Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o Tico-tico;
Não me envolvo em torvelinho,
Vivo só no meu cantinho:
Da grandeza sempre longe
Como vive o pobre monge.
Tenho mui poucos amigos,
Porém bons, que são antigos,
Fujo sempre à hipocrisia,
Á sandice, à fidalguia;
Das manadas de Barões?
Anjo Bento, antes trovões.
Faço versos, não sou vate,
Digo muito disparate,
Mas só rendo obediência
Á virtude, à inteligência:
Eis aqui o Getulino,
Que no plectro anda mofino.
Sei que é louco e que é pateta
Quem se mete a ser poeta;
Que no século das luzes,
Os birbantes mais lapuzes,
Compram negros e comendas,
Têm brasões, não das Kalendas,
E com tretas e com furtos
Vão subindo a passos curtos;
Fazem grossa pepineira,
Só pela Arte de Vieira,
E com jeito e proteções,
Galgam altas posições!
Mas eu, sempre vigiando,
Nessa súcia vou malhando
De tratantes, bem ou mal
Com semblante festival.
Dou de rijo no pedante
De pílulas fabricante,
Que blasona arte divina,
Com sulfatos de quinina,
Trabusanas, xaropadas,
E mil outras patacoadas,
Que, sem pinga de rubor,
Diz a todos que é DOUTOR!
Não tolero o magistrado,
Que do brio descuidado,
Vende a lei, trai a justiça
 Faz a todos injustiça 
Com rigor deprime o pobre
Presta abrigo ao rico, ao nobre,
E só acha horrendo crime
No mendigo, que deprime.
 Neste dou com dupla força,
Té que a manha perca ou torça.
Fujo às léguas do lojista,
Do beato e do sacrista 
Crocodilos disfarçados,
Que se fazem muito honrados,
Mas que tendo ocasião,
São mais feros que o Leão.
Fujo ao cego lisonjeiro,
Que, qual ramo de salgueiro,
Maleável, sem firmeza,
Vive à lei da natureza:
Que, conforme sopra o vento,
Dá mil voltas num  momento.
O que sou e como penso,
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfunados,
Vomitando maldições
Contras as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual Grilo
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
Desta arenga receosos,
Hão de chamar-me tarelo,
Bode, negro, Mongibelo;
Porém eu, que não me abalo,
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.
Se negro sou, eu sou bode,
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda casta,
Pois que a espécie é muito vasta...
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes...
Aqui, nesta boa terra.
Marram todos, tudo berra;
Nobres Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas,
Deputados, senadores,
Gentis-homens, vereadores;
Belas damas emproadas,
De nobreza empantufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres gentes,
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis,
Brigadeiros, Coronéis,
Destemidos, Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães de mar e guerra,
— Tudo marra, tudo berra —
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados,
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos. —
O amante de Siringa
Tinha pêlo e má catinga;
O deus Mendes, pelas contas,
Na cabeça tinha pontas;
Jove quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse, pois, a matinada,
Porque tudo é bodarrada!
Primeiras trovas burlescas (1861) **

* Clique no título lá em cima e leia "Luiz Gama: um abolicionista leitor de Renan", de Ligia Fonseca Ferreira;
** Clique aqui e leia "Primeiras Trovas Burlescas", do poeta Luiz Gama.
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Roteiro da Poesia Brasileira  Romantismo, Seleção e Prefácio de Antonio Carlos Secchin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São PauloSP; Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830 1882), baiano de Salvador, foi poeta, jornalista e advogado provisionado (sem cátedra), defensor dos oprimidos e pobre por opção; de mãe africana e pai português, foi pelo genitor vendido como escravo aos 10 anos de idade; aos dezoito anos aprendeu a ler e a escrever, conseguiu as provas de ter nascido livre e, já ex-escravo, entrou para o mundo das letras ao publicar sua única obra, Primeiras Trovas Burlescas (1861), uma coletânea de poemas líricos e de sátira social e política; colaborou intensamente com a imprensa e ajudou a fundar os primeiros periódicos ilustrados de São Paulo, Diabo Coxo (1864 1865) e Cabrião (1866 1867).