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domingo, 26 de novembro de 2023

Carlos D. Fernandes: Ante o cadáver de Cruz e Sousa


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Ah! que eterno poder maravilhoso
Era esse que o corpo te animava,
E que a tu’alma límpida vibrava
Como um plangente carrilhão mavioso?...

Que sol ardente, que fecunda lava,
Que secreto clarão, mago e radioso,
Dentro em teu ser, como um vulcão raivoso,
Eternamente em convulsões estuava?...

Que anjos celestes, cândidos e graves,
Faziam do teu ser floridas naves,
Cheias de augusto cânticos eternos?...

Que mão foi essa, lívida e gelada.
Que sufocou tu’alma, acrisolada
Na tortura de todos os infernos?!...

(Vanitas Vanitatum, pág. 49)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Carlos Augusto Furtado de Mendonça Dias Fernandes (1874 1942), paraibano de Mamanguape, formado em Direito no Recife, foi poeta, romancista, contista, biógrafo, pedagogo e jornalista; suas obras: Solaus (Paris, 1902), Vanitas Vanitatum (Belém, 1906), Canção de Vesta (Recife, 1908), A Renegada (romance, Recife, 1908), Os Cangaceiros (romance, Paraíba, 1914), Palma de Acantos (Paraíba, 1917), Escola Pitoresca (livro didático “de leitura para as escolas de terceiro grau e complementares”, Paraíba, 1918), Mirian (1920), Livro das Parcas (Paraíba, 1921), Terra da Promissão (Paraíba, 1923), Sansão e Dalila (Paraíba, 1923), A Vindicta (1931), Fretana (romance autobiográfico, 1936), entre outros títulos em verso e prosa; no romance autobiográfico Fretana “evoca episódios e figuras do movimento simbolista”; Carlos Fernandes, poeta da geração simbolista, andarilho, percorreu vários Estados, residiu em diversas cidades do país e, por onde passou, escreveu em muitos jornais e revistas, entre os quais n’A Gazeta da Tarde, A Cidade do Rio, Jornal do Comércio e na Revista Rosa-Cruz  de inspiração simbolista, periódicos do Rio de Janeiro, A Gazeta de Belém e Província do Pará, ambas do Pará, A União, da Paraíba; o poeta jornalista Carlos Fernandes também foi fundador da revista Meridional e cofundador da já mencionada revista Rosa-Cruz, ao lado de Saturnino Meirelles, também poeta simbolista, e outros; é patrono da Academia Paraibana de Letras cadeira 32; veio a falecer no Rio de Janeiro.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Carlos Fernandes: Cruz e Sousa

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Era um anjo Lusbel em ônix modelado,
Tendo no coração toda a amarga tristeza,
Toda a desolação desse anjo rebelado
Chorando o exílio atroz da divina realeza.

Tinha como Lusbel o orgulho grave e mudo
Ante a vil compaixão das vilãs criaturas;
Passava pela terra esquecido de tudo
Transformando em Falerno o felo das amarguras.

Mesmo soberbo assim, era o seu frágil peito
Tabernáculo aberto às almas perseguidas
Pela sanha voraz do ódio e do despeito,
 Garras que a inveja tem nas patas escondidas.

Chispava o seu olhar chamas lívidas, frias,
Vomitava o seu verbo uma viscosa brava
De desespero contra as suas ironias
de qualquer histrião que o seu estro afrontava.

Essa afronta não era uma injúria assacada
Contra o augusto valor do seu gênio irrequieto;
Mas a podre expansão suja e desenfreada
De um cretino qualquer, que lhe enojasse o afeto.

Mas se acaso encontrava um'alma como a sua,
Só vibrando a emoção dos castos sentimentos,
Bem liberta do pó, da veleidade nua
E livre para voar como a fúria dos ventos,

Todo o seu ser, então, miraculosamente,
Em brancos roseirais de afeto florescia;
E ele todo era como uma harpa cólia plangente
Soluçando ao rumor de leve ventania.

E quantos novos céus, quantos céus inviolados
Ele descortinava em rápidos adejos,
Nos idílios mentais, nesses brancos noivados,
Em que é tálamo o sonho e as idéias são beijos!...

Uma tal compleição tão delicada e meiga
Era como uma flor de sombria floresta,
Que não pode medrar na planura da veiga
Porque até mesmo o ar caricioso a cresta.

Embora transplantada, essa flor tenebrosa,
Que agora no mistério as pétalas descerra,
Algum tempo medrou entre a messe espinhosa
Das vinganças cruéis dos bárbaros da terra.

Dentro em sua corola inda mal entreaberta,
Injetaram-lhe o pus das mais negras injúrias,
e em torno ao caule seu, de rubra gorja aberta,
Andavam lobos vis em truculentas fúrias...

Mas um dia, afinal, a morte protetora
A planta derribou sobre a alfombra das heras
e em seu manto escondeu contra a gula traidora,
Contra o ímpeto mau de tão sanhudas feras...

Guarda-a contigo bem essa flor inefável
Só tecida de angústias e angélicos receios;
Guarda-a porque talvez o seu fogo amorável
Faça brotar a vida em teus gélidos seios.

Abre o teu colo imaculado, amplo, infinito,
Consagra o teu amor insondável, profundo,
A quem tanto sofreu sem ter no lábio um grito
Que atordasse de leve o turbilhão do mundo.

Só no silêncio do teu gélido regaço,
De onde o eterno torpor das ilusões emana,
Pode um poeta esquecer o ofegante cansaço
De macular os pés nessa poeira mundana.

Deixa que à tua sombra ele morto floresça,
Nessa infinita paz muda da eternidade,
Abrindo o manto teu sobre a sua cabeça,
Como um pálio de amor de graça e de piedade.



Vanitas Vanitatum (1906)
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Roteiro da Poesia Brasileira — Simbolismo, Seleção e Prefácio de Lauro Junkes, 2006, Global Editora e Distribuidora, São Paulo — SP; Carlos Augusto Furtado de Mendonça Dias Fernandes (1874  1942), paraibano de Mamanguape, formado em Direito no Recife, foi poeta, romancista, contista, biógrafo, pedagogo e jornalista; poeta da geração simbolista, andarilho, percorreu vários Estados, residiu em diversas cidades do país e escreveu em diversos jornais por onde passou, entre eles n’A Gazeta da Tarde, A Cidade do Rio e na Revista Rosa-Cruz, esta de inspiração simbolista; sua obra: Solaus (Paris, 1902), Vanitas Vanitatum (Belém, 1906), Canção de Vesta (Recife, 1908), A Renegada (romance, Recife, 1908), Os Cangaceiros (romance, Paraíba, 1914), Palma de Acantos (Paraíba, 1917), Livro das Parcas (Paraíba, 1921), Terra da Promissão (Paraíba, 1923), Sansão e Dalila (Paraíba, 1923), Fretana (romance autobiográfico, 1936), entre muitos outros títulos em verso e prosa; no romance autobiográfico Fretana, Carlos Dias Fernandes “evoca episódios e figuras do movimento simbolista”; veio a falecer no Rio de Janeiro.

sábado, 20 de junho de 2015

Carlos Fernandes: Ratio victriz et cor invictum

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... Trop faible esclave, écoute,
Écoute et ma raison te perdonne et t'absout.
Rends-lui du moins les pleurs! Tu vas céder sans doute!
Hélas non! Toujours non! O mon coeur, prends donc tout!
DESBORDES-VALMORE

I

Amargurado coração dolente
Que por afetos vãos tanto hás sofrido,
Consola-te e sufoca o teu gemido,
Sendo ao bem, sendo ao mal indiferente.

De que te vale este ansiar latente
Que te tem na amargura consumido,
E as lágrimas de dor que tens vertido
Por tudo a quanto aspiras vagamente?

Nessas lutas de amor em que te empenhas,
Serás sempre traído e rechaçado,
Pobre romeiro de desertas brenhas!

Por tudo por que em vão tens palpitado,
É mister coração que te contenhas,
Sendo mais comedido e recatado.

II

Esconde a tua lágrima sincera,
O teu ansioso palpitar reprime,
Porque o teu pranto amargo não redime
Esta ânsia de sofrer que te lacera.

Sê misto de cordeiro e de pantera,
Confunde o torpe mal e o bem sublime,
Caminha alheio entre a virtude e o crime,
Sendo menos arcanjo do que fera.

Nas margens veladas de pureza
Não te percas sonâmbulo maldito,
Por tua ingênua e fátua singeleza.

Basta de angústias, coração proscrito,
Submete-te às leis da natureza,
Comunga as hóstias do mundano rito.

III

 Assim diz-me a razão serena e fria
Ao viril coração desbaratado,
Qual solícita sombra que a meu lado
Por maus caminhos os meus passos guia.

E como um vão gemido sufocado,
Como um triste rumor de voz sombria,
Que em mortuárias névoas irradia
Do * silêncio de um túmulo fechado,

Torna-lhe o coração solene e triste:
Em tirar o prazer do sofrimento
Um sábio engano de viver consiste.

Nas chamas deste eterno desalento
É que o meu sangue a circular resiste
À gelidez do eterno esquecimento.

(Solaus, 1902, Paris, págs. 14  15)



* Nota do Organizador: Está: "De".
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro  RJ; Carlos Augusto Furtado de Mendonça Dias Fernandes (1874  1942), paraibano de Mamanguape, formado em Direito no Recife, foi poeta, romancista, contista, biógrafo, pedagogo e jornalista; sua obra: Solaus (Paris, 1902), Vanitas Vanitatum (Belém, 1906), Canção de Vesta (Recife, 1908), A Renegada (romance, Recife, 1908), Os Cangaceiros (romance, Paraíba, 1914), Palma de Acantos (Paraíba, 1917), Livro das Parcas (Paraíba, 1921), Terra da Promissão (Paraíba, 1923), Sansão e Dalila (Paraíba, 1923), Fretana (romance autobiográfico, 1936), entre muitos outros títulos em verso e prosa; no romance autobiográfico Fretana “evoca episódios e figuras do movimento simbolista”; Carlos Fernandes, poeta da geração simbolista, andarilho, percorreu vários Estados, residiu em diversas cidades do país e escreveu em diversos jornais por onde passou, entre eles n’A Gazeta da Tarde, A Cidade do Rio e na Revista Rosa-Cruz, esta de inspiração simbolista; veio a falecer no Rio de Janeiro.