Mostrando postagens com marcador Caio Porfírio Carneiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caio Porfírio Carneiro. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de janeiro de 2020

Francisco Carvalho: Canção da Ira

Resultado de imagem para crônica das raízes francisco carvalho
____________________
Estou com raiva
de ser burguês
raiva do terçol
raiva do talvez.
Raiva dos tempos
que não são tão lindos
raiva do sino
todos os domingos.
Estou com raiva
de ser burguês
raiva dos outros
e de quem os fez.
Raiva da sopa
com metafísica
raiva do pijama
raiva de notícia.
Raiva do astronauta
e do café com leite
raiva da palavra
que fala em segredo.
Estou com raiva
do morto e seu jeito
raiva da calva
e do grito insalubre
a escorrer do peito.
Raiva do sigilo
por trás da parede
raiva da navalha
que nos arremeda
raiva da notícia
que nos mete medo.
Estou com raiva
de ser burguês
raiva da noite
assim de estrelas.
Raiva do mistério
raiva da metáfora
raiva de mim mesmo
raiva do balaço
raiva corrosiva
raiva que se enrosca
feito coisa viva.
Raiva da rotina
raiva poliglota
raiva do automóvel
raiva do cortejo
que corteja a morte.
Raiva essencial
do clamor profundo
que sobe das fezes
minerais do mundo.
Raiva dos sapatos
e da simetria
raiva paralela
à raiva da alegria.
Estou com raiva
da sede maior
que aumenta esta sede
da linfa do amor.

____________________
Crônica das Raízes: poesia — Francisco Carvalho, texto da contracapa: Caio Porfírio Carneiro, Coleção Alagadiço Novo, 1992, Casa de José de Alencar — Programa Editorial, Fortaleza — CE; Francisco de Oliveira Carvalho (1927 2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes (1966), Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969), Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (poesias, 1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997), Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Francisco Carvalho: Os Pêssegos

Resultado de imagem para Crônica das Raízes Francisco Carvalho
____________________
Não me fales de amor com tal mistério,
pois o amor não se presta à hipocrisia.
Não passa o amor de efêmera utopia
que se evapora à sombra do hemisfério.

O amor não deve ser levado a sério.
Não passa o amor de incerta fantasia,
de um sonho que se busca e que se adia
sob o tropel do instante deletério.

Sou dos que se descobrem quando passas.
Sei que é difícil ver-te sem arder,
sem que não sinta um repentino susto.

Mas deixemos de lado essas trapaças.
Sinto mesmo é vontade de morder
os pêssegos dourados do teu busto.

____________________
Crônica das Raízes: poesia — Francisco Carvalho, texto da contracapa: Caio Porfírio Carneiro, Coleção Alagadiço Novo, 1992, Casa de José de Alencar — Programa Editorial, Fortaleza — CE; Francisco de Oliveira Carvalho (1927 2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes (1966), Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969), Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (poesias, 1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997), Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.

domingo, 6 de outubro de 2019

Francisco Carvalho: Boimito

Resultado de imagem para francisco carvalho crônica das raízes
____________________
De que tempo o boi
chega assim feérico?
Boi emancipado
de chifres pretéritos.

Este boi me chega
de um tempo infalível.
Refaz o mistério
do espaço abolido.

Passeia no asfalto
tão fora do tempo.
O andar deste boi
ondula com o vento.

Fita os automóveis
com sutil desprezo.
De que tempo o boi
chega tão disperso?

Este boi me pasta
rumina o meu sonho.
Chega a ser eterno
novilho entre os homens.

Francisco Carvalho
____________________
Crônica das Raízes: poesia — Francisco Carvalho, texto da contracapa: Caio Porfírio Carneiro, Coleção Alagadiço Novo, 1992, Casa de José de Alencar — Programa Editorial, Fortaleza — CE; Francisco de Oliveira Carvalho (1927 2013), cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955), Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes (1966), Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969), Quadrante solar (Prêmio Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990), Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (poesias, 1992), Galope de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro (Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997), Romance da nuvem pássaro (1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal, França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu à Academia Cearense de Letras.