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Estou com raiva
de ser burguês
raiva do terçol
raiva do talvez.
Raiva dos tempos
que não são tão lindos
raiva do sino
todos os domingos.
Estou com raiva
de ser burguês
raiva dos outros
e de quem os fez.
Raiva da sopa
com metafísica
raiva do pijama
raiva de notícia.
Raiva do astronauta
e do café com leite
raiva da palavra
que fala em segredo.
Estou com raiva
do morto e seu jeito
raiva da calva
e do grito insalubre
a escorrer do peito.
Raiva do sigilo
por trás da parede
raiva da navalha
que nos arremeda
raiva da notícia
que nos mete medo.
Estou com raiva
de ser burguês
raiva da noite
assim de estrelas.
Raiva do mistério
raiva da metáfora
raiva de mim mesmo
raiva do balaço
raiva corrosiva
raiva que se enrosca
feito coisa viva.
Raiva da rotina
raiva poliglota
raiva do automóvel
raiva do cortejo
que corteja a morte.
Raiva essencial
do clamor profundo
que sobe das fezes
minerais do mundo.
Raiva dos sapatos
e da simetria
raiva paralela
à raiva da alegria.
Estou com raiva
da sede maior
que aumenta esta sede
da linfa do amor.

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Crônica das Raízes: poesia —
Francisco Carvalho, texto da contracapa: Caio Porfírio Carneiro, Coleção Alagadiço Novo, 1992, Casa de José de Alencar —
Programa Editorial, Fortaleza — CE; Francisco de Oliveira Carvalho (1927 — 2013),
cearense de Russas, estudou no Ateneu São Bernardo, foi escritor e poeta; ainda
em Russas, publicou seus primeiros versos, numa pequena tipografia; depois, mudando-se
para Fortaleza, fez carreira profissional como assessor na Universidade Federal
do Ceará, participou da vida intelectual da capital do estado e envolveu-se com
os movimentos literários do seu tempo; bibliografia: Cristal da memória (1955),
Canção atrás da esfinge (1956), Do girassol e da nuvem (1960), O tempo e os amantes
(1966), Dimensão das coisas (1967), Memorial de Orfeu (1969), Quadrante solar (Prêmio
Nestlé de Literatura, 1982), Barca dos sentidos (1989), Rosa geométrica (1990),
Exercícios de literatura (ensaio, 1990), Crônica das raízes (poesias, 1992), Galope
de Pégaso (1994), Textos e contextos (ensaio, 1995), Girassóis de barro (Prêmio
da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1997), Romance da nuvem pássaro
(1998), A concha e o rumor (2000), Memórias do espantalho (2004), e outros títulos
em verso e prosa, além de ter participado em antologias publicados no Brasil, Portugal,
França e Alemanha; o poeta teve parte de sua obra traduzida para o búlgaro; pertenceu
à Academia Cearense de Letras.
