Mostrando postagens com marcador André Seffrin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador André Seffrin. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Nísia Floresta: A lágrima de um caeté (fragmento)


____________________
[ . . . ]

Era um Caeté, que vagava
Na terra que Deus lhe deu,
Onde Pátria, esposa e filhos
Ele embalde defendeu!…

É este… pensava ele,
O meu rio mais querido;
Aqui tenho às margens suas
Doces prazeres fruído…

Aqui, mais tarde trazendo
N’alma triste, acerba dor,
Vim chorar as praias minhas
Na posse de usurpador!

Que de invadi-las
Não satisfeito,
Vinha nas matas
Ferir-me o peito!

Ferros nos trouxe,
Fogo, trovões,
E de cristãos
Os corações

E sobre nós
Tudo lançou!
De nossa terra
Nos despojou!

Tudo roubou-nos,
Esse tirano,
Que povo diz-se
Livre e humano!

Filho se diz
De Deus Potente
De quem profana
A obra ingente!

Ó terra de meus pais, ó Pátria minha!
Que seus restos guardando, viste de outros
Longo tempo a bravura disputar
Ao feroz estrangeiro a Pátria nossa,
A nossa liberdade, os frutos seus!...
Recolhe o pranto meu, quando dispersos
Pelas vastas florestas tristes vagam
Os poucos filhos teus à morte escapos,
Ao jugo de tiranos opressores,
Que em nome do piedoso céu vieram
Tirar-nos estes bens que o céu nos dera!
As esposas, a filha, a paz roubar-nos!...
Trazendo d'Além-mar as leis, os vícios,
Nossas leis e costumes postergaram!

[ . . . ]

(A lágrima de um caeté, 1849)

____________________
Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto (1810  1885), ou Dionísia Pinto Lisboa, ou Dionísia Freire Lisboa, ou Dionísia Freire Pinto, ou Dionísia Gonçalves Pinto Freyre, nascida em Papari [atual Nísia Floresta], Capitania da Paraíba [atual Rio Grande do Norte], militante feminista e abolicionista, foi educadora, escritora, tradutora, jornalista, ensaísta e poetisa atuante nas letras, no jornalismo e nos movimentos sociais de sua época; de sua biografia, com lacunas, consta ter sido a “primeira voz feminista, no Brasil, a se erguer contra os preconceitos da sociedade patriarcal, em relação à mulher.”; Dionísia casou-se aos treze anos [tido como normal e usual à época], em poucos meses largou o casamento, foi repreendida pela família, voltou a morar com os pais e recebeu a proteção da mãe; em 1824, partindo com a família rumo a Pernambuco, residiu em Goiana, Olinda e Recife; ainda de sua biografia, consta a sugestão de que tomara contato com seus primeiros estudos em Goiana PE, antes, Dionísia obtivera conhecimento de estudos iniciais através de seu pai, advogado e homem culto, visto que em Papari, onde a poeta nasceu, não havia escola; em Recife, conhece Manuel Augusto de Faria Rocha, estudante de Direito, de quem se apaixona e a ele se une sem formalidades legais em 1828, teve filhos, mudam-se para Porto Alegre [1832], “dedica-se ao magistério, e escreve artigos para a imprensa”, enviúva, ali permanecendo por quatro anos; posteriormente, já morando no Rio de Janeiro, fundou o Colégio Augusto, um colégio para moças, cujo nome é “em provável homenagem ao seu companheiro” que morrera no sul, colégio presidido por ela enquanto permaneceu no Brasil; em 1849, Nísia segue para a Europa, reside em Paris, Roma e Florença, passa a viver lá e cá, e vem a morrer em Rouen França, em 24.04.1885; em suas atividades literárias a poeta, feminista e abolicionista fez uso de muitos pseudônimos: Telezilla, Telesila, B. A., Une Brésiliene, Quotidiana Fidedigna e Nísia Floresta este último acabou por prevalecer e assim permanece conhecida até hoje; de seus traços biobibliográficos, ainda consta ter sido em Olinda e/ou Recife que a poeta feminista tomou contato com o mundo intelectual literário, leu clássicos portugueses e, em 1831, estreou na imprensa com a publicação de artigos que relatavam a posição social feminina em várias culturas, numa sequência de trinta números do Espelho das Brasileiras — jornal destinado às senhoras pernambucanas, de propriedade do tipógrafo francês Adolphe Émile de Bois Garin; a poeta falava o idioma francês e também conhecia o inglês e, aos 28 anos de idade (1838), em anúncio de jornal, disse “ser professora particular de latim, francês e italiano”; suas obras: Direito das mulheres e injustiça dos homens * (por atribuição da autora, tradução livre de Vindication of the rights of woman, publicação de 1792, de autoria de Mary Wollstonecraft, inglesa (1832), Conselhos à minha filha (coleção de ensaios, 1842 e em 1845, ora acrescidos de 40 pensamentos em versos), Daciz ou A jovem completa (1847), Fany ou O modelo das donzelas (romance, episódio da Revolução dos Farrapos no RS, 1847), Discurso que às suas educandas dirigia Nísia Floresta Brasileira Augusta (1847), A lágrima de um Caeté (poema de 712 versos, editado sob o pseudônimo Telezila, 1849), Dedicação a uma amiga (dois volumes, 1850), Consigli a mi figlia (1858), Conseils à ma fille (1859), Opúsculo humanitário (coleção de artigos sobre emancipação feminina, 1853), Páginas de uma vida obscura (1855), A Mulher (1859), Paris (1867), Trois ans en Italie, suivis d’un voyage en Grèce (1870). Le Brésil (1871), Fragments d’un ouvrage inèdit: notes biographiques (1878) e outra incontável quantidade de fragmentos, “cujo manuscrito talvez permaneça com algum notário, em Rouen [França]”; teve obras traduzidas para o francês e o italiano, A lágrima de um Caeté, por exemplo, recebeu uma edição italiana, pela tradução do escritor florentino Ettore Marcucci, Le lagrime d'un Caeté (1860).

* Nota do blogue Verso e Conversa: A respeito de Direito das mulheres e injustiça dos homens, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe o seguinte:
“Por muito tempo considerou-se que a obra fosse uma adaptação livre de A Vindication of the Rights of Woman, de Mary Wollstonecraft, pois a própria Nísia havia dito que nela se inspirara, mas estudos de Pallares-Burke (1995) e Oliveira & Martins (2012) demonstraram que Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens é na verdade uma tradução integral de La femme n'est pas inferieure a l'homme — Traduit de l’Anglois, publicado em 1750, por sua vez uma tradução de Woman Not Inferior to Man — by Sophia, A Person of Quality (1739), de uma escritora que só assina como Sophia. A identidade desta Sophia tem sido debatida, surgindo várias proposições: lady Mary Wortley Pierremont, lady Sophia Fermor, Philippe-Florent de Puisieux ou Madeleine d'Ansant de Puisieux.” [extraído de wikipedia, fr.wikisource.org e commons.wikimedia.org]

terça-feira, 30 de abril de 2024

Narcisa Amália: Pesadelo — II


____________________
A meu pai, o Sr. Jácome de Campos

II

Ton souffle du chaos falsait surtir les lois;
Ton image insultait aux dépouilles des rois.
Et, debout sur l’airain de leurs foudres guerrières,
Entretenait le ciel du bruit de tes exploits.
Casimir Delavigne

Salve! Oh! salve Oitenta-e-Nove
Que os obstáculos remove!
Em que o heroísmo envolve
O horror da maldição!
Rolam frontes laureadas,
Tombam testas coroadas
Pelo povo condenadas
Ao grito revolução!

Caem velhos privilégios
D’envolta co’os sacrilégios;
São troféus os cetros régios,
Mitra, burel e brasão!
E os três esquivos estados
Fundem-se em laços sagrados,
Que prendem os libertados
Aos pés da revolução!

No pedestal da igualdade
Firma o povo a liberdade,
Um canto à fraternidade
Entoa a voz da nação,
Que em delírio violento
Fita altiva o firmamento
E adora por um momento
A deusa Revolução!...

Os ódios secam o pranto,
A ira tem mago encanto,
E a morte sacode o manto
Lançando crânios no chão!
Aqui são longos gemidos
Desses que tombam feridos;
Ouvem-se além os rugidos
Da fera revolução.

Treme a humana potestade
Ante tua mortandade!
Proclama que a sociedade
Agoniza em convulsão!
Erguem-se estranhas fileiras
Vão devassar as fronteiras,
Bradando às hostes guerreiras:
Abaixo a Revolução!

O nobre povo oprimido
Supõe-se fraco e vencido,
Medem-lhe o sangue espargido
Nas vascas da confusão.
Não sabem que é mais veemente
Dos livres o grito ingente
Quando reboa fremente
À luz da revolução!

Levanta-se hirta a falange
E a louca marcha constrange;
Rindo-se aguça o alfanje
Tendo por guia a razão!
Ao sibilar da metralha
O obus gemendo estraçalha,
E o vasto campo amortalha
Quem fere a revolução!

Cobre a bandeira sagrada
A multidão lacerada,
E da França ensanguentada
Assoma Napoleão;
Surge da borda do abismo
O gênio do cristianismo,
E dos mártires o civismo
Confirma a Revolução.

(Nebulosas, 1872)

____________________
Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJNarcisa Amália de Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende — RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitáque tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase esquecida.

sábado, 2 de março de 2024

Narcisa Amália: Pesadelo — III


____________________
III

Que palmas de valor não murcha a grande história!
O povo esquece um dia os ínclitos varões.
Pedro Luis

Contempla minha pátria sobranceira,
Dessas hostes os louros refulgentes;
E procurando a glória em teus altares
Entretece uma coroa a Tiradentes.

Viste marchar ao exílio acorrentados
Quais feras que teu seio rejeitava,
Os mais que desprender-te o pulso tentam,
E dormiste sorrindo sempre escrava!...

E quando retumbou no espaço um brado
Tentando sacudir-te a negra coma,
Curvaste-te ao flagício fratricida
E deste ao cadafalso o Padre Roma!

E não contente, após a exímia aurora
De tua amesquinhada independência,
Mais vítimas votaste em holocausto
Sufocando outra nobre inconfidência.

Não bastavam, porém, tantos horrores
Que enegrecem as brumas do passado;
Foi preciso que às mãos de um assassino
Caísse o grande herói Nunes Machado!

Foi preciso que em nome da justiça
De prisão em prisão vagando esquivo,
Acabasse final sem glória e nome,
Em martírio latente  Pedro Ivo!...

Mas se um dia o porvir abrir-te o livro
Que o presente te oculta temeroso;
Se com a vista medires a estacada
Em que o falso poder se ostenta umbroso;

Então, ó minha pátria, num lampejo
Os erros surgirão da majestade;
E arrojarás ao pó cetros e tronos
Bradando ao mundo inteiro  liberdade!

(Nebulosas, 1872)

____________________
Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Narcisa Amália de Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitáque tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase esquecida.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Lúcio de Mendonça: O consórcio maldito

 
____________________
XIV

Ele é um rude sujeito honrado e generoso,
Forte e trabalhador. Ela é toda franzina;
E de antiga nobreza; e é da raça felina
O seu mavioso gesto elétrico e nervoso.

Jura-lhe amor, e tem-lhe um ódio rancoroso.
Sobro o peito do atleta o régio busto inclina,
E mete-lhe no bolso a mão fidalga e fina
E despoja-o. E ele, o bom e cego esposo,

Deixa-se despojar, e trabalha, calado.
Ela com uns padres vis anda de mancebia,
E, fartos, riem dele, o enorme desgraçado.

Ela é a Messalina, a barregã sombria,
Ele, um trabalhador estúpido e enganado.
Ele chama-se Povo, e ela Monarquia.

(Murmúrios e Clamores — poesias completas, 1902)

____________________
Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha MG; obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Lúcio de Mendonça: A um senador do império

 
____________________
Ora estás no apogeu da glória reluzente:
Subiste para sempre; és vitaliciamente
Nosso legislador, grande homem, se é que o há.

Perdoa como um deus a grande alma de Alá.

És coluna e farol da vasta monarquia.
Tens uma firme glória enorme que irradia
Ante uma multidão imensa de fiéis...
E, além de toda a glória, alguns contos de réis.
Vê, se já podes ver, os homens com que ombreias:
Octaviano o cantor que venceu as sereias,
Feiticeiro que muda em joias o papel,
Ateniense que tem o lábio ungido em mel
E que põe na palavra os brilhos do diamante;
Como o arcanjo Miguel formoso e coruscante,
Vê José Bonifácio, alma gêmea do sol.

Que iluminada altura e que brilhante escol!

No velho Panteão do campo de Santana,
Cinge-te o louro eterno a fronte soberana.
Senador e ministro! estás sentado à mão

De Deus Padre; e nem vês, embaixo, a multidão
O povo, a plebe vil sem nome e sem dinheiro,
Corja de pedinchões vadios e venais...
Tu campeias no céu e vê-te o mundo inteiro...

Judas Iscariotes, pagaram-te demais!

De feito, que eras tu? Vaidoso como um odre
Vazio, e, quanto ao mais, uma consciência podre.
Como Troplong, o infame, ao vil Napoleão,
Jurista, te vendeste a Pedro, o bom patrão.
Quiseste enodoar ao mesmo tempo, traste!
A blusa popular com que te apresentaste.
Mas não! manchado és tu, manchada é a libré
Que tu vestes agora; o ínfimo galé
Teria nojo dela!

És hoje um poderoso
Ministro e senador; pois olha, um cão leproso
Fugiria de ti, por não sujar-se mais.
Transpuseste orgulhoso os augustos umbrais
Do senado, e a curul que sob ti se infama
Há de ser como aquele ominoso Hakeldama
Com o preço da traição comprado, um mau lugar
Estéril e sem luz campo de sepultar.

Refere a tradição que um déspota romano
Fez cônsul um cavalo. O nosso soberano,
Calígula jogral, tirano bonachão,
Para nos aviltar, faz senador um cão.

Minas [Gerais], 1884.
(Murmúrios e Clamores — poesias completas, 1902)

____________________
Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha MG; obras: Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.

domingo, 20 de novembro de 2022

Lêdo Ivo: Canção inconveniente

____________________
Falo pelos que não falam.
Grito pelas bocas mudas.
Estou além da mortalha,
da mentira e da mordaça.

Sou a palavra de todos,
o som que incomoda os surdos,
(o sangue mais escondido
por toda parte se espalha).

Sou a testemunha incômoda
que vê as coisas ocultas
atrás de qualquer muralha.

Canto pelos que não sabem
que a mais simples das canções
é um campo de batalha.

____________________
Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1943, mudando-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito na Faculdade Nacional de Direito hoje UFRJ , passou a colaborar com suplementos literários e a trabalhar como jornalista; suas obras: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Lobo da Costa: O rei e o operário


____________________
O que vales, junto à forja,
Cingindo o sujo avental?
E a ti que te vale a gorja
Do teu diadema real?

Eu mando tropas e armadas,
Sustenho povos na mão...
Pois eu tempero as espadas,
Que fazem a revolução!

E eu tenho um cetro que ao vê-lo
Curvam-se as raças fiéis...
Pois eu possuo o martelo
Que prega a forca dos reis!

És um divino espantalho...
E tu, que vales, vilão?!
Eu forjo o anel do trabalho,
Tu forjas a escravidão!

Eu tenho o sangue que deve
Recordar-me os faraós...
E eu o do peão que em Grève
Decapitou teus avós.

Tu és das trevas o leito...
Mentes, eu laboro a luz!
Eu prego a luz do direito...
E eu prego as leis de Jesus!

Tu és a noite, eu o dia,
Deslumbram-te os vivos sóis...
Tu fundes a tirania,
Eu fundo os pulsos aos heróis!

(Lobo da Costa, 1989)

____________________
Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Francisco Lobo da Costa (1853 1888), gaúcho de Pelotas, foi jornalista, poeta e teatrólogo; consta de sua biografia que aos doze anos publicou seu primeiro poema no jornal Eco do Sul, aos quinze anos empregou-se na agência de telégrafo de Pelotas; a partir daí publicou seus textos em jornais nos quais trabalhou como redator e repórter, em especial no Eco do Sul, Diário de Pelotas e Progresso Literário; fundou um semanário literário, A Castália (1869 1870); suas obras: Rosas pálidas (poemas, 1872), Espinhos d’Alma (romance, 1872), O Filho das Ondas (peça teatral, 1873), Lucubrações (poesias, 1874), Dispersas e Auras do Sul (publicações póstumas, poesias), Lobo da Costa (ensaio de Alice Campos Moreira e breve antologia do poeta, 1989), além de textos esparsos nos periódicos já citados acima e em outros; o poeta Lobo da Costa, que teve uma parte da vida na boemia e no alcoolismo, estivera internado, e, mesmo com a campanha de amigos do Grêmio dos Lunáticos, uma associação de jovens intelectuais que veio em seu socorro, acabou encontrado morto, nu e com todos seus pertences furtados, numa rua de sua cidade; faleceu em 19 de junho de 1888, aos trinta e quatro anos.

domingo, 16 de outubro de 2022

Astrid Cabral: Amoródio verdeamarelo & Anticanção do exílio


____________________
Amoródio verdeamarelo

Amo os homens do povo
os que servem à pátria
domando os touros
da revolta e da fome
mulheres cujos ventres
enfunados de esperança
seguem desafiando a morte.

Odeio os poderosos
com seus corações apátridas
engordando rebanhos
em pastos roubados
as cúpidas panças
recheadas por lucros
de espúrias alianças.

— o —

Anticanção do exílio

Se fosse pela razão
não voltava não.
Mas é que sou movida
a gás de emoção.

Aqui o trabalho vale.
A mão poderosa toca
a rica realidade.

Lá, vive-se de projetos:
A mão impotente
não alcança os objetos.

Se fosse pela razão
não voltava não.
Mas é que sou movida
a gás de emoção.

(Rês desgarrada, 1994)

____________________
Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense de Manaus, ainda adolescente mudou-se para o Rio, diplomou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Zé Pirulito (1982), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.

sábado, 8 de outubro de 2022

Ricardo Vieira Lima: Indagações de hoje

 
____________________
Quem matou Hipátia de Alexandria?
Quem matou Joana d’Arc?
Quem matou Ana Bolena?
Quem mandou matar Marielle Franco?

Quem matou Mima Renard?
Quem matou Dandara dos Palmares?
Quem matou Tereza de Banguela?
Quem mandou matar Marielle Franco?

Quem matou Ursulina de Jesus?
Quem matou Joana Angélica?
Quem matou Rosa Luxemburgo?
Quem mandou matar Marielle Franco?

Quem matou Olga Benário?
Quem matou Maria Bonita?
Quem matou Dália Negra?
Quem mandou matar Marielle Franco?

Quem matou Aída Curi?
Quem matou as Irmãs Mirabal?
Quem matou Danna de Teffé?
Quem mandou matar Marielle Franco?

Quem matou Iara Iavelberg?
Quem matou Maria Lúcia Petit?
Quem matou Sônia Angel Jones?
Quem mandou matar Marielle Franco?

Quem matou Zuzu Angel?
Quem matou Araceli Crespo?
Quem matou Ana Lídia Braga?
Quem mandou matar Marielle Franco?

Quem matou Ângela Diniz?
Quem matou Cláudia Lessin Rodrigues?
Quem matou Ana Rosa Kucinski?
Quem mandou matar Marielle Franco?

Quem matou Dinalva Oliveira Teixeira?
Quem matou Lyda Monteiro da Silva?
Quem matou Solange Lourenço Gomes?
Quem mandou matar Marielle Franco?

Quem matou Margarida Maria Alves?
Quem matou Mônica Granuzzo?
Quem matou Daniela Perez?
Quem mandou matar Marielle Franco?

Quem matou Irmã Dorothy?
Quem matou Benazir Bhutto?
Quem matou Isabella Nardoni?
Quem mandou matar Marielle Franco?

Quem matou Eliza Samudio?
Quem matou Patrícia Acioli?
Quem matou Jandyra dos Santos Cruz?
Quem mandou matar Marielle Franco?

Quem matou Luana Barbosa dos Reis?
Quem matou Dandara Kettley?
Quem matou Sabrina Bittencourt?
Quem mandou matar Marielle Franco?

Quem mandou matar Marielle Franco?
Quem mandou matar Marielle Franco?
Quem mandou matar Marielle Franco?
Quem mandou matar Marielle Franco?

(14 de março de 2019)

____________________
Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Vieira Lima, nascido em 1969, de Niterói RJ, fez mestrado pela UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro e doutorado pela UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro, ambas em Literatura Brasileira, é poeta, crítico literário, ensaísta, jornalista, advogado, antologista, editor-assistente da revista Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea — UFRJ e um dos coordenadores do Sarau do Museu, evento literário mensal e virtual pelo Museu da Justiça do TJRJ; tem publicado resenhas, ensaios, entrevistas e poemas em vários jornais e revistas brasileiros e estrangeiros; tem poemas traduzidos e divulgados nos Estados Unidos e na Itália; obras: Aríete (poemas escolhidos, 2021) e participação em diversas antologias.