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quinta-feira, 1 de junho de 2023

Konstantinos Kaváfis: O Deus abandona Antônio


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[traduzido por José Paulo Paes]

Quando, à meia-noite, de súbito escutares
um tiaso invisível a passar
com músicas esplêndidas, com vozes
a tua Fortuna que se rende, as tuas obras
que malograram, os planos de tua vida
que se mostraram mentirosos, não os chores em vão.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
diz adeus à Alexandria que de ti se afasta.
E sobretudo não te iludas, alegando
que tudo foi um sonho, que teu ouvido te enganou.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
como cumpre a quem mereceu uma cidade assim,
acerca-te com firmeza da janela
e ouve com emoção, mas ouve sem
as lamentações ou as súplicas dos fracos,
num derradeiro prazer, os sons que passam,
os raros instrumentos do místico tiaso,
e diz adeus à Alexandria que ora perdes.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 16.05.82

Konstantinos Kaváfis

ΑΠΟΛΕΊΠΕΙΝ Ο ΘΕΌΣ ΑΝΤΏΝΙΟΝ

Σαν έξαφνα, ώρα μεσάνυχτ’, ακούσθει
αόρατος θίασος να περνά
με μουσικές εξαίσιες, με φωνές —
την τύχη σου που ενδίδει πιά, τα έργα σου
που απέτυχαν, τα σχέδια της ζωής σου
που βγήκαν όλα πλάνες, μη ανοφέλετα θρηνήσεις.
Σαν έτοιμος από καιρό, σα θαρραλέος,
αποχαιρέτα την, την Αλεξάνδρεια που φεύγει.
Προ πάντων να μη γελασθείς, μην πεις πως ήταν
ένα όνειρο, πως απατήθηκεν η ακοή σου·
μάταιες ελπίδες τέτοιες μην καταδεχθείς.
Σαν έτοιμος από καιρό, σα θαρραλέος,
σαν που ταιριάζει σε που αξιώθηκες μιά τέτοια πόλι,
πλησίασε σταθερά προς το παράθυρο,
κι άκουσε με συγκίνησιν, αλλ’ όχι
με των δειλών τα παρακάλια και παράπονα,
ως τελευταία απόλαυσι τους ήχους,
τα εξαίσια όργανα του μυστικού θιάσου,
κι αποχαιρέτα την, την Αλεξάνδρεια που χάνεις.

[1911]

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família se mudaram para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Konstantinos Kaváfis: Quando despontem

 
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[traduzido por Trajano Vieira]

Empenha-te, poeta, no resguardo,
mesmo que lacunar a sua captura:
os vislumbres do teu erotismo.
Insere-os, semivelados, em tua fraseologia.
Empenha-te, poeta, no resguardo,
quando despontem em teu cérebro,
em plena noite, no sol-a-pino.

[1916]

K. Kaváfis

ΟΤΑΝ ΔΙΕΓΕΊΡΟΝΤΑΙ

Προσπάθησε να τα φυλάξεις, ποιητή,
όσο κι αν είναι λίγα αυτά που σταματιούνται.
Του ερωτισμού σου τα οράματα.
Βαλ'τα, μισοκρυμένα, μες τες φράσεις σου.
Προσπάθησε να τα κρατήσεις, ποιητή,
όταν διεγείρονται μες το μυαλό σου,
την νύχτα ή μες την λάμψι του μεσημεριού.

[1916]
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Konstantinos Kaváfis — 60 poemas, Seleção, Tradução e Apresentação de Trajano Vieira, edição bilíngüe, 2ª edição, 2018, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Konstantinos Kaváfis: Da escola do filósofo famoso

 
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[traduzido por Trajano Vieira]

Seguiu os passos de Amônio Saccás por dois anos;
mas sua filosofia o entendiou. Saccás e sua filosofia.

Envolveu-se então na política,
mas reconsiderou. Eparco encarnava o estulto;
e os de seu círculo, imbecis altivos, posavam de impolutos.
Precário era o grego desses miseráveis, bárbaro.

A igreja chegou a despertar
sua atenção: batizar-se,
virar cristão? Não insistiu, porém,
nessa via. Os pais eram demasiadamente
pagãos; arrumaria briga com eles,
e da mesada polpuda que terrível!
logo o tolheriam.

Mas tinha de tomar uma atitude. Tornou-se habitué
de endereços decaídos em Alexandria,
cada canto onde se ocultava a orgia.

Uma dádiva lhe dera o destino:
dotara-o de um rosto de beleza exímia.
E ele curtia esse dom divino.

Uma década pelo menos
de beldade. Depois,
quem sabe fosse atrás de Saccás.
Se não mais estivesse entre nós, vivo,
procuraria outro filósofo, outro sofista:
sempre se acha alguém com perfil propício.

Ou voltaria para a política? Não via com maus olhos
o histórico da família,
cumpridora dos deveres cívicos,
e a pompa de coisas afins.

[1921]

Konstantinos Kaváfis

ΑΠΟ ΤΗΝ ΣΧΟΛΗΝ ΤΟΥ
ΠΕΡΙΩΝΥΜΟΥ ΦΙΛΟΣΟΦΟΥ

Έμεινε μαθητής του Αμμωνίου Σακκά δυο χρόνια•
αλλά βαρέθηκε και την φιλοσοφία και τον Σακκά.

Κατόπι μπήκε στα πολιτικά.
Μα τα παραίτησεν. Ήταν ο Έπαρχος μωρός•
κ' οι πέριξ του ξόανα επίσημα και σοβαροφανή•
τρισβάρβαρα τα ελληνικά των, οι άθλιοι.

Την περιέργειάν του είλκυσε
κομμάτ' η Εκκλησία• να βαπτισθεί
και να περάσει Χριστιανός. Μα γρήγορα
την γνώμη του άλλαξε. Θα κάκιωνε ασφαλώς
με τους γονείς του, επιδεικτικά εθνικούς•
και θα του έπαυαν πράγμα φρικτόν
ευθύς τα λίαν γενναία δοσίματα.

Έπρεπεν όμως και να κάμει κάτι. Έγινε ο θαμών
των διεφθαρμένων οίκων της Αλεξανδρείας,
κάθε κρυφού καταγωγίου κραιπάλης.

Η τύχη του εφάν' εις τούτο ευμενής•
τον έδωσε μορφήν εις άκρον ευειδή.
Και χαίρονταν την θείαν δωρεάν.

Τουλάχιστον για δέκα χρόνια ακόμη
η καλλονή του θα διαρκούσεν. Έπειτα
ίσως εκ νέου στον Σακκά να πήγαινε.
Κι αν εν τω μεταξύ απέθνησκεν ο γέρος,
πήγαινε σ' άλλου φιλοσόφου ή σοφιστού•
πάντοτε βρίσκεται κατάλληλος κανείς.

Ή τέλος, δυνατόν και στα πολιτικά
να επέστρεφεν αξιεπαίνως ενθυμούμενος
τες οικογενειακές του παραδόσεις,
το χρέος προς την πατρίδα, κι άλλα ηχηρά παρόμοια.

[1921]
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Konstantinos Kaváfis — 60 poemas, Seleção, Tradução e Apresentação de Trajano Vieira, edição bilíngüe, 2ª edição, 2018, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Konstantinos Kaváfis: Vamos, rei lacedemônio!

 
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[traduzido por Trajano Vieira]

Cratesicleia vetava que a vissem
chorosa, lamentando-se.
Passava altiva e ensimesmada.
Traço algum de rancor e angustia
no semblante imperturbável.
Num só instante baqueia:
no pré-embarque no navio nefasto rumo a Alexandria,
conduziu o filho ao santuário de Poseidon
e, solitários, o estreitou,
beijou-o, "triturado pela dor",
na frase de Plutarco, "totalmente devastado."
Mas era dama de fibra,
e, reaprumando-se, notável,
volta-se para Cleômenes: "Vamos, rei
lacedemônio! Ninguém nos vislumbre, à saída,
sorumbáticos.
Seria denegrir Esparta.
Isso depende só de nós,
já o destino é o dâimon quem nos brinda."

E, a bordo do navio, buscou o "nos brinda".

[1929]

K. Kaváfis

ΆΓΕ, Ω ΒΑΣΙΛΕΥ ΛΑΚΕΔΑΙΜΟΝΙΩΝ

Δεν καταδέχονταν η Κρατησίκλεια
ο κόσμος να την δει να κλαίει και να θρηνεί•
και μεγαλοπρεπής εβάδιζε και σιωπηλή.
Τίποτε δεν απόδειχνε η ατάραχη μορφή της
απ' τον καϋμό και τα τυράννια της.
Μα όσο και νάναι μια στιγμή δεν βάσταξε•
και πριν στο άθλιο πλοίο μπει να πάει στην Αλεξάνδρεια,
πήρε τον υιό της στον ναό του Ποσειδώνος,
και μόνοι σαν βρεθήκαν τον αγκάλιασε
και τον ασπάζονταν, «διαλγούντα», λέγει
ο Πλούταρχος, «και συντεταραγμένον».
Όμως ο δυνατός της χαρακτήρ επάσχισε•
και συνελθούσα η θαυμασία γυναίκα
είπε στον Κλεομένη «Άγε, ω βασιλεύ
Λακεδαιμονίων, όπως, επάν έξω
γενώμεθα, μηδείς ίδη δακρύοντας
ημάς μηδέ ανάξιόν τι της Σπάρτης
ποιούντας. Τούτο γαρ εφ' ημίν μόνον•
αι τύχαι δε, όπως αν ο δαίμων διδώ, πάρεισι.»

Και μες στο πλοίο μπήκε, πηαίνοντας προς το «διδώ».

[1929]
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Konstantinos Kaváfis — 60 poemas, Seleção, Tradução e Apresentação de Trajano Vieira, edição bilíngüe, 2ª edição, 2018, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Konstantinos Kaváfis: As janelas

 
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[traduzido por Trajano Vieira]

No escuro do habitáculo eu passo
a depressão dos dias e meus passos
buscam janelas. Quando abrir-se uma
delas, peço ao fulgor que me consuma.
Mas a janela não há, ou não consigo
vê-la. Que fique ausente, a sós, consigo!
Talvez a luz tão-só renove a dor.
Quem sabe a nova que ela irá me impor?

[1903]

K. Kaváfis

ΤΑ ΠΑΡΑΘΥΡΑ

Σ' αυτές τες σκοτεινές κάμαρες, που περνώ
μέρες βαρυές, επάνω κάτω τριγυρνώ
για νάβρω τα παράθυρα.  Οταν ανοίξει
ένα παράθυρο θάναι παρηγορία. 
Μα τα παράθυρα δεν βρίσκονται, ή δεν μπορώ
να τάβρω. Και καλλίτερα ίσως να μην τα βρω.
Ίσως το φως θάναι μια νέα τυραννία.
Ποιός ξέρει τι καινούργια πράγματα θα δείξει.

[1903]
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Konstantinos Kaváfis — 60 poemas, Seleção, Tradução e Apresentação de Trajano Vieira, edição bilíngüe, 2ª edição, 2018, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Konstantinos Kaváfis: Hegêmone da Líbia Ocidental

 
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[traduzido por Trajano Vieira]

Nos dez dias de sua estada em Alexandria,
deixou impressão positiva
o hegêmone da Líbia ocidental,
Aristômenes, filho de Menelau.
Com suas vestes combinava o nome: ambos discretos, à grega.
Não era um perquiridor de honrarias,
as quais, modesto, acolhia satisfeito.
Seu dispêndio concentrava em bibliografia grega,
no campo historiográfico e filosófico.
Era um sujeito de poucas palavras.
Cogitavam da profundeza de suas reflexões,
gente assim não é de abrir a boca.

Não eram profundas suas reflexões ou coisa que o valha.
Tratava-se de um ente corriqueiro, ridículo.
Assumiu denominação grega, indumentária grega,
absorveu aqui e ali certas posturas gregas;
sua ânima se pelava de medo
com a eventual reversão
da impressão positiva,
caso escorregasse no grego, com grotescos barbarismos,
e os alexandrinos, como de hábito,
seres abomináveis,
zombassem dele.

Esse o motivo de sua continência verbal,
obcecado, trêmulo, com declinações e prosódia.
Aporrinhava-o o fato de ecoar, reprimida,
dentro de si,
a profusão de vozes.

[1928]


ΗΓΕΜΏΝ ΕΚ ΔΥΤΙΚΉΣ ΛΙΒΎΗΣ

Άρεσε γενικώς στην Αλεξάνδρεια,
τες δέκα μέρες που διέμεινεν αυτού,
ο ηγεμών εκ Δυτικής Λιβύης
Αριστομένης, υιός του Μενελάου.
Ως τ' όνομά του, κ' η περιβολή, κοσμίως, ελληνική.
Δέχονταν ευχαρίστως τες τιμές, αλλά
δεν τες επιζητούσεν• ήταν μετριόφρων.
Αγόραζε βιβλία ελληνικά,
ιδίως ιστορικά και φιλοσοφικά.
Προ πάντων δε άνθρωπος λιγομίλητος.
Θάταν βαθύς στες σκέψεις, διεδίδετο,
κ' οι τέτοιοι τόχουν φυσικό να μη μιλούν πολλά.

Μήτε βαθύς στες σκέψεις ήταν, μήτε τίποτε.
Ένας τυχαίος, αστείος άνθρωπος.
Πήρε όνομα ελληνικό, ντύθηκε σαν τους Έλληνας,
έμαθ' επάνω, κάτω σαν τους Έλληνας να φέρεται•
κ' έτρεμεν η ψυχή του μη τυχόν
χαλάσει την καλούτσικην εντύπωσι
μιλώντας με βαρβαρισμούς δεινούς τα ελληνικά,
κ' οι Αλεξανδρινοί τον πάρουν στο ψιλό,
ως είναι το συνήθειο τους, οι απαίσιοι.

Γι' αυτό και περιορίζονταν σε λίγες λέξεις,
προσέχοντας με δέος τες κλίσεις και την προφορά•
κ' έπληττεν ουκ ολίγον έχοντας
κουβέντες στοιβαγμένες μέσα του.

[1928]
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Konstantinos Kaváfis — 60 poemas, Seleção, Tradução e Apresentação de Trajano Vieira, edição bilíngüe, 2ª edição, 2018, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

domingo, 28 de março de 2021

Konstantinos Kaváfis: Lápide de Lísias, o gramático

 
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[traduzido por Trajano Vieira]

Alguns passos à destra, quando adentras na biblioteca
de Berito, foi onde enterramos Lísias, o sábio
gramático. Inexiste espaço mais propício.
Depusemo-lo próximo ao que rememora (quem sabe?)
em seu retiro: escólios, infólios, escrituras,
grafias, fascículos prolíficos em hermenêutica
helênica. Outra vantagem: rendemos loas à visão de sua lápide,
ao nos encaminharmos para os livros.

[1914]

K. Kaváfis

ΛΥΣΙΟΥ ΓΡΑΜΜΑΤΙΚΟΥ ΤΑΦΟΣ

Πλησιέστατα, δεξιά που μπαίνεις, στην βιβλιοθήκη
της Βηρυτού θάψαμε τον σοφό Λυσία,
γραμματικόν. Ο χώρος κάλλιστα προσήκει.
Τον θέσαμε κοντά σ' αυτά του που θυμάται
ίσως κ' εκεί  σχόλια, κείμενα, τεχνολογία,
γραφές, εις τεύχη ελληνισμών πολλή ερμηνεία.
Κ' επίσης έτσι από μας θα βλέπεται και θα τιμάται
ο τάφος του, όταν που περνούμε στα βιβλία.

[1914]
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Konstantinos Kaváfis — 60 poemas, Seleção, Tradução e Apresentação de Trajano Vieira, edição bilíngüe, 2ª edição, 2018, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

quinta-feira, 11 de março de 2021

Konstantinos Kaváfis: Ítaca *

 
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[traduzido por José Paulo Paes]

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

(1911)


ΙΘΆΚΗ

Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,
να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος,
γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον θυμωμένο Ποσειδώνα μη φοβάσαι,
τέτοια στον δρόμο σου ποτέ σου δεν θα βρεις,
αν μέν’ η σκέψις σου υψηλή, αν εκλεκτή
συγκίνησις το πνεύμα και το σώμα σου αγγίζει.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον άγριο Ποσειδώνα δεν θα συναντήσεις,
αν δεν τους κουβανείς μες στην ψυχή σου,
αν η ψυχή σου δεν τους στήνει εμπρός σου.

Να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος.
Πολλά τα καλοκαιρινά πρωιά να είναι
που με τι ευχαρίστησι, με τι χαρά
θα μπαίνεις σε λιμένας πρωτοειδωμένους
να σταματήσεις σ’ εμπορεία Φοινικικά,
και τες καλές πραγμάτειες ν’ αποκτήσεις,
σεντέφια και κοράλλια, κεχριμπάρια κ’ έβενους,
και ηδονικά μυρωδικά κάθε λογής,
όσο μπορείς πιο άφθονα ηδονικά μυρωδικά
σε πόλεις Aιγυπτιακές πολλές να πας,
να μάθεις και να μάθεις απ’ τους σπουδασμένους.

Πάντα στον νου σου νάχεις την Ιθάκη.
Το φθάσιμον εκεί είν’ ο προορισμός σου.
Aλλά μη βιάζεις το ταξείδι διόλου.
Καλλίτερα χρόνια πολλά να διαρκέσει
και γέρος πια ν’ αράξεις στο νησί,
πλούσιος με όσα κέρδισες στον δρόμο,
μη προσδοκώντας πλούτη να σε δώσει η Ιθάκη.

Η Ιθάκη σ’ έδωσε τ’ ωραίο ταξείδι.
Χωρίς αυτήν δεν θάβγαινες στον δρόμο.
Άλλα δεν έχει να σε δώσει πια.

Κι αν πτωχική την βρεις, η Ιθάκη δεν σε γέλασε.
Έτσι σοφός που έγινες, με τόση πείρα,
ήδη θα το κατάλαβες η Ιθάκες τι σημαίνουν.

(1911)

* Nota do tradutor José Paulo Paes: Ítaca — Ítaca era, como se sabe, o nome da ilha sobre a qual reinava Odisseu ou Ulisses, um dos heróis do cerco de Tróia cujo aventuroso regresso à sua ilha pátria constitui a matéria narrada na Odisséia, a alguns de cujos episódios há alusões no poema de Kaváfis. Os Lestrigões eram um povo de antropófagos em cujo país Odisseu aportou e onde perdeu vários companheiros, bem como todos os seus barcos, com exceção de um batel, com o qual conseguiu fugir. Seres gigantescos de forma humana e com um só olho, redondo, no meio da testa, os Ciclopes habitavam, segundo a crença, a Sicília, morando nas cavernas dos seus montes. Foi numa delas que, ao ali chegar com 12 companheiros, Odisseu encontrou o terrível ciclope Polifemo. Este lhe devorou alguns dos companheiros, mas o herói conseguiu embriagá-lo com vinho e fazê-lo dormir, quando então o matou vazando-lhe o único olho. Tal ato suscitou contra ele a fúria de Posídon ou Netuno, deus do mar, o qual o perseguiu com terríveis tempestades em vários momentos de sua longa viagem de regresso a Ítaca, vista no poema de Kaváfis, da mesma maneira que no clássico soneto de Du Bellay, como uma viagem de aprendizado, de aquisição de experiência e sabedoria.
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Poemas — Konstantinos Kaváfis, Seleção, Estudo crítico, Notas e Tradução direta do grego por José Paulo Paes, Coleção Poiesis, 1982 — Editora Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

domingo, 7 de março de 2021

Konstantinos Kaváfis: Num demo da Ásia Menor

 
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[traduzido por Trajano Vieira]

A novidade sobre o desenlace da guerra naval em Áccio
nos pegara de surpresa.
Mas é ociosa a redução de um texto diverso.
Basta a alteração do nome. No desfecho,
em lugar de “Tendo poupado Roma de Otávio,
o funesto,
um César com um quê de paródico”,
inscrevemos “Tendo poupado Roma de Antônio,
o funesto.”
O teor continua válido.

“Ao arrebatador, ao número um,
ao indobrável em toda e qualquer rusga,
ao ínclito realizador no campo da política,
a Antônio, em que nosso demo
depositava todas as esperanças”,
nesse ponto, como o dissemos, o câmbio: “ao César,
verdadeira premiação de Zeus,
à muralha inquebrantável para os gregos,
a quem propugna, gentil, o estilo de vida grego,
ao queridíssimo em todos os quadrantes gregos,
ao mais qualificado para os louvores rútilos
(incluindo delongas narrativas de seus prodígios),
em língua grega (prosa e poesia),
em língua grega (sinônimo de renome)”
etc., etc. E tudo fica nos conformes.

[1926]


ΕΝ ΔΗΜΩ ΤΗΣ ΜΙΚΡΑΣ ΑΣΙΑΣ

Η ειδήσεις για την έκβασι της ναυμαχίας, στο Άκτιον,
ήσαν βεβαίως απροσδόκητες.
Αλλά δεν είναι ανάγκη να συντάξουμε νέον έγγραφον.
Τ' όνομα μόνον ν' αλλαχθεί. Αντίς, εκεί
στες τελευταίες γραμμές, «Λυτρώσας τους Ρωμαίους
απ' τον ολέθριον Οκτάβιον,
τον δίκην παρωδίας Καίσαρα,»
τώρα θα βάλουμε «Λυτρώσας τους Ρωμαίους
απ' τον ολέθριον Αντώνιον».
Όλο το κείμενον ταιριάζει ωραία.

« Στον νικητήν, τον ενδοξότατον,
τον εν παντί πολεμικώ έργω ανυπέρβλητον,
τον θαυμαστόν επί μεγαλουργία πολιτική,
υπέρ του οποίου ενθέρμως εύχονταν ο δήμος•
την επικράτησι του Αντωνίου»
εδώ, όπως είπαμεν, η αλλαγή: «του Καίσαρος
ως δώρον του Διός κάλλιστον θεωρών 
στον κραταιό προστάτη των Ελλήνων,
τον έθη ελληνικά ευμενώς γεραίροντα,
τον προσφιλή εν πάση χώρα ελληνική,
τον λίαν ενδεδειγμένον για έπαινο περιφανή,
και για εξιστόρησι των πράξεών του εκτενή
εν λόγω ελληνικώ κ' εμμέτρω και πεζώ•
εν λόγω ελληνικώ  που είν' ο φορεύς της φήμης,»
και τα λοιπά, και τα λοιπά. Λαμπρά ταιριάζουν όλα.

[1926]
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Konstantinos Kaváfis — 60 poemas, Seleção, Tradução e Apresentação de Trajano Vieira, edição bilíngüe, 2ª edição, 2018, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inacabados, inéditos ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Konstantinos Kaváfis: Os passos *

 
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[traduzido por José Paulo Paes]

Em leito ebúrneo, de que são ornatos
águias de coral, dorme profundamente
Nero o seu sono tranqüilo, inconsciente, afortunado,
no vigoroso florescimento da carne,
na bela afirmação da juventude.

Mas no aposento alabastrino onde está encerrado
o antigo larário dos Enobarbos,
como os Lares se mostram perturbados.
Os deuzinhos domésticos tiritam
e forcejam por esconder os seus corpos minúsculos.
Isso porque ouviram um ruído sinistro,
um ruído funesto a subir pela escada;
são passadas de ferro que sacodem toda a escada.
Ora desfalecentes, os Lares miseráveis
vão-se esconder no fundo do larário,
um ao outro atropela, um com o outro colide,
caem uns sobre os outros, os pequenos deuses,
pois compreenderam que tipo de ruído é aquele:
conheceram enfim os passos das Erínias.

(1909)

Konstantinos Kaváfis

ΤΑ ΒΉΜΑΤΑ

Σ’ εβένινο κρεββάτι στολισμένο
με κοραλλένιους αετούς, βαθυά κοιμάται
ο Νέρων — ασυνείδητος, ήσυχος, κ’ ευτυχής•
ακμαίος μες στην ευρωστία της σαρκός,
και στης νεότητος τ’ ωραίο σφρίγος.

Aλλά στην αίθουσα την αλαβάστρινη που κλείνει
των Aηνοβάρβων το αρχαίο λαράριο
τι ανήσυχοι που είν’ οι Λάρητές του.
Τρέμουν οι σπιτικοί μικροί θεοί,
και προσπαθούν τ’ ασήμαντά των σώματα να κρύψουν.
Γιατί άκουσαν μια απαίσια βοή,
θανάσιμη βοή την σκάλα ν’ ανεβαίνει,
βήματα σιδερένια που τραντάζουν τα σκαλιά.
Και λιγοθυμισμένοι τώρα οι άθλιοι Λάρητες,
μέσα στο βάθος του λαράριου χώνονται,
ο ένας τον άλλονα σκουντά και σκουντουφλά,
ο ένας μικρός θεός πάνω στον άλλον πέφτει
γιατί κατάλαβαν τι είδος βοή είναι τούτη,
τάνοιωσαν πια τα βήματα των Εριννύων.

(1909)

* Nota do tradutor José Paulo Paes: Os passos — Os Enobarbos eram os antepassados de Nero, cujo pai, marido de Agripa, chama-se Gneo Domício Enobarbo. Os antigos romanos costumavam ter uma pequena capela doméstica, o larário, onde guardavam os Lares, isto é, as divindades tutelares da casa. As Erínias, Fúrias ou Eumênides eram as deusas da violência e do terror na mitologia grega. Representadas como gênios alados, com os cabelos entremeados de serpentes, ficavam postadas à entrada do inferno e chicoteavam impiedosamente suas vítimas, já que tinham por missão punir os crimes e vingar os inocentes.
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Poemas — Konstantinos Kaváfis, Seleção, Estudo crítico, Notas e Tradução direta do grego por José Paulo Paes, Coleção Poiesis, 1982 — Editora Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.