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sexta-feira, 17 de maio de 2024

Hermes Fontes: Solenemente

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Juro por tudo quanto é jura... Juro
Por mim... por ti... por nós... por Jesus Cristo
Que hei de esquecer-te!... Vê-me, estou seguro
Contra o teu sólio, a cuja queda assisto.

E, visto que duvidas tanto, visto
Que ris do que, solene, te asseguro,
Juro mais: pelo ser em que consisto!
Por meu passado! pelo meu futuro!

Juro pela Mãe Virgem concebida!
Pelas venturas de que vou no encalço!
Por minha vida!... pela tua vida...

Juro por tudo que mais amo e exalço!
E, depois de uma jura tão comprida,
Juro... juro que estou... jurando falso...

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), nascido em Buquim SE, bacharel pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, mas não exerceu a profissão, foi poeta, compositor, jornalista, caricaturista e funcionário público trabalhou nos Correios e foi oficial de gabinete do ministro da Viação , tendo sido um dos fundadores do jornal Estréia (1904) e colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, entre outros periódicos de sua época; o poeta também foi caricaturista do jornal O Bibliógrafo; obra poética: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922), A Fonte da Mata (1930) ...; o poeta, num processo de depressão, suicidou-se na véspera do Natal de 1930; sua poesia é de estética simbolista.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Guimarães Passos: Teu lenço


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Esse teu lenço que possuo e aperto
De encontro ao peito, quando durmo, creio
Que hei-de um dia, mandar-to, pois roubei-o,
E foi meu crime, em breve, descoberto.

Luto, contudo, a procurar quem certo
Possa nisto servir-me de correio;
Tu nem calculas qual o meu receio,
Se, em caminho, te fosse o lenço aberto...

Porém, ó minha vívida quimera,
Fita as bandas que habito, fita e espera,
Que, enfim, verás em trêmulos adejos,

Em cada ponta um beija-flor pegando,
Ir o teu lenço pelo espaço voando
Pando, enfunado, côncavo de beijos!

(Versos de um simples — 1891)

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Sebastião Cícero dos Guimarães Passos (1867 1909), alagoano de Maceió, foi jornalista e poeta; no Rio de Janeiro, trabalhou em diversos periódicos da época (Gazeta da Tarde, Gazeta de Notícias, A Semana), e nas suas colunas publicava crônicas e versos; muitas vezes também assinava seus textos com pseudônimos (Filadelfo, Gill, Floreal, Puff, Tim e Fortúnio; produziu textos humorísticos para O Filhote, textos esses reunidos no livro Pimentões (publicado em parceria com Olavo Bilac); em sua estada em Buenos Aires, como exilado no governo Floriano, colaborou com os jornais La Nación e La Prensa; escreveu e publicou Versos de um Simples (1891), Hipnotismo (1900), Horas Mortas (1901), Dicionário de Rimas (com Olavo Bilac, 1905), Tratado de Versificação (com Olavo Bilac, 1905); o poeta foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Luiz Pistarini: O periquito

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Filha, deram-te. É teu. Mas, tem paciência,
Tem dó: soltemos esse passarinho...
É tão bonito, sim! Mas que inclemência
Prendê-lo aqui nesta corrente, anjinho!

Quem sabe se ele é pai, se a sua ausência,
Triste, não chora o pobre filhotinho?
Demais, bem vês que é uma feroz violência
Privá-lo, assim, de regressar ao ninho.

Deixemo-lo partir: upa! Ei-Io voando!
Como vai presto, como vai sem medo,
Retas fazendo e curvas delineando!

Choras? Paciência... Que fazer, querida?
Isto é para que aprendas, desde cedo,
A ser piedosa e a ser compadecida!

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Luis Pistarini ou Luiz Pistarini (1877 1918), fluminense de Resende, em sua juventude residiu em São Paulo e no Rio de Janeiro, foi jornalista e poeta; começou a escrever aos onze anos, muito embora tenha cursado apenas quatro anos da escola primária; colaborou com revistas literárias da época, trabalhou em jornais de Resende, Barra Mansa e do Rio de Janeiro, então capital federal; dirigiu a revista A Crisálida e o jornal O Domingo, foi redator da revista O Malho, editor do jornal A Lira e também trabalhou na Câmara Municipal de Resende; o poeta também assinou textos com o pseudônimo Lívio Peralta; suas obras: Bandolim (1899), De Luto (1898), Sombrinhas, Postais (1907) e Agonias e Ressurreição (publicação póstuma, com prefácio do poeta Luís Murat); foi autor do Hino de Resende, sua cidade natal; é patrono da cadeira nº 27 da Academia Fluminense de Letras, sediada em Niterói, à época capital do estado; é tido que levou uma vida “atormentado por enfermidades”.

domingo, 24 de março de 2024

Medeiros e Albuquerque: Eu sei, Senhor, que não mereço nada, . . . [soneto]


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Eu sei, Senhor, que não mereço nada,
Mas ponho em tuas mãos, humildemente
Meu coração que sofre. E, resignada,
Minha alma aguarda, confiante e crente.

Quando eu chegar ao termo da jornada
Em que a morte, emboscada, espera a gente,
Tem pena de minh’alma amargurada,
Vê que eu também sou filho e sê clemente

Perdoa-me, meu Deus, se eu sou culpado,
Se tanto crime fiz, tanto pecado,
Que hoje choro contrito... E dá, Senhor,

Que no coro glorioso, que te exalta
No céu profundo, não se sinta a falta
De minha voz cantando o teu louvor!

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; José Joaquim da Costa de Medeiros e Albuquerque (1867 1934), pernambucano de Recife, foi funcionário público, jornalista, professor, contista, poeta, orador, romancista, teatrólogo, ensaísta e memorialista; na imprensa usou também os pseudônimos Armando Quevedo, Atásius Noll, J. dos Santos, Max e Rifiúfio Singapura; escreveu e publicou Pecados (poesia, 1889), Canções da decadência (poesia, 1889), Mãe Tapuia (conto, 1900), Poesias 1893 — 1901 (1904), Contos escolhidos (1907), O escândalo (drama, 1910), Marta (romance, 1920), Fim (poesia, 1922), Teatro meu... e dos outros (1923), O assassinato do general (conto, 1926), Por alheias terras (memória, 1931), Laura (romance, 1933), e muitos outros títulos; foi autor da letra do Hino da República; Medeiros e Albuquerque introduziu e tornou conhecidos os simbolistas franceses no Brasil, tendo sido ele próprio um decadentista e um dos precursores do simbolismo na poesia brasileira.

quinta-feira, 21 de março de 2024

Guimarães Passos: Eu pecador


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Nas tuas horas de arrependimento,
Pensando em mim, o próprio amor maldizes,
E revolvendo o peito nas raízes,
Falas até nas grades de um convento.

Do gozo, tiras o maior tormento,
Das dores, tiras as mais negras crises;
Nos dias em que nós somos felizes,
Eu leio tudo no teu pensamento.

Tu vês o inferno, quando eu vejo a aurora,
E nos teus olhos, onde a dor se imprime.
Deus nos acena, formosa pecadora.

Bradas ao céu de medo, e ao céu eu brado,
Tu, pedindo perdão para o teu crime,
Eu, pedindo que aumente o teu pecado.

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Sebastião Cícero dos Guimarães Passos (1867 1909), alagoano de Maceió, foi jornalista e poeta; no Rio de Janeiro, trabalhou em diversos periódicos da época (Gazeta da Tarde, Gazeta de Notícias, A Semana), e nas suas colunas publicava crônicas e versos; muitas vezes também assinava seus textos com pseudônimos (Filadelfo, Gill, Floreal, Puff, Tim e Fortúnio; produziu textos humorísticos para O Filhote, textos esses reunidos no livro Pimentões (publicado em parceria com Olavo Bilac); em sua estada em Buenos Aires, como exilado no governo Floriano, colaborou com os jornais La Nación e La Prensa; escreveu e publicou Versos de um Simples (1891), Hipnotismo (1900), Horas Mortas (1901), Dicionário de Rimas (com Olavo Bilac, 1905), Tratado de Versificação (com Olavo Bilac, 1905); o poeta foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Guerra Junqueiro: Mostrou-me a luz da crença-alva recém . . . [soneto]


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Mostrou-me a luz da crença-alva recém
Pálida virgem de luzentes tranças;
Dorme agora na campa das crianças,
Onde eu quisera repousar também.

A graça, as ilusões, o amor, a unção,
Doiradas catedrais do meu passado,
Tudo caiu desfeito, escalavrado,
Nos tremendos combates da razão.

Perdida a fé, esse imortal abrigo,
Fiquei sozinho, como herói antigo,
Batalhando sem elmo e sem escudo.

A implacável, a rígida ciência,
Deixou-me unicamente a Providência,
Mas, deixando-me Deus, deixou-me tudo!

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850 1923), português de Ligares Freixo de Espada à Cinta, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi alto funcionário administrativo, político, deputado, jornalista, escritor e poeta; à sua época, bastante popular, é considerado o mais típico representante da chamada Escola Nova e, com sua poesia panfletária, contribuiu para formar o ambiente revolucionário que acabou por provocar a implantação da República portuguesa; passando a residir em Lisboa, a partir de 1875 colaborou em prosa e em verso com jornais políticos e artísticos, A Lanterna Mágica, O António Maria, Diário de Notícias, Atlântida, Branco e Negro, Brasil Portugal, A Crônica, A Illustração Portugueza, A Imprensa, A Leitura, A Mulher, O Occidente, Renascença, O Pantheon, A República Portugueza, Ribaltas e Gambiarras, Serões, Azulejos, Azeitonense, entre outros periódicos; suas obras: A Morte de D. João (1874), Contos para a Infância (1875), A Musa em Férias (1879), A Velhice do Padre Eterno (1885), Finis Patriae (1890), Os Simples (1892), Oração ao Pão (1902), Gritos da Alma (1912), Poesias Dispersas (1920), ...

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Luiz Pistarini: Bilhete de doente

 
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Recebi, minha flor, com muito agrado,
O mimo e mais os beijos, que agradeço;
Beijos… de longe, que outros não mereço,
Principalmente neste triste estado!

Ah! nem sabes, talvez, quanto padeço!
Mas vivo agora tão desalentado,
Que, com o mínimo excesso, empalideço,
Desmaio e tombo, exânime e prostrado…

Não me visites, pois… não! Tem paciência!
Ninguém resiste à tentação que adora,
E o doutor me proíbe essa imprudência…

Perdoa: mas dispenso-te a visita:
Para quem sofre, como eu sofro agora,
Faz muito mal uma mulher bonita!

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Luis Pistarini ou Luiz Pistarini (1877 1918), fluminense de Resende, em sua juventude residiu em São Paulo e no Rio de Janeiro, foi jornalista e poeta; começou a escrever aos onze anos, muito embora tenha cursado apenas quatro anos da escola primária; colaborou com revistas literárias da época, trabalhou em jornais de Resende, Barra Mansa e do Rio de Janeiro, então capital federal; dirigiu a revista A Crisálida e o jornal O Domingo, foi redator da revista O Malho, editor do jornal A Lira e trabalhou na Câmara Municipal de Resende; o poeta também assinou textos com o pseudônimo Lívio Peralta; suas obras: Bandolim (1899), De Luto (1898), Sombrinhas, Postais (1907) e Agonias e Ressurreição (publicação póstuma, com prefácio do poeta Luís Murat); foi autor do Hino de Resende, sua cidade natal; é patrono da cadeira nº 27 da Academia Fluminense de Letras, sediada em Niterói, à época capital do estado; é tido que levou uma vida “atormentado por enfermidades”.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Laurindo Rabelo: Leandro e Hero


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Hei de, mártir de amor, morrer te amando

O facho de Helesponto apaga o dia
Sem que aos olhos de Hero o sono traga,
Que dentro de sua alma não se apaga
O fogo com que o facho se acendia.

Aflita o seu Leandro ao mar pedia,
Que abrandado por ela, a prece afaga,
E traz-lhe o morto amante numa vaga
(talvez vaga de amor, inda que fria)

Ao vê-lo pasma, e clama num transporte 
“Leandro!... és morto?!... Que destino infando
Te conduz aos meus braços desta sorte?!!

“Morreste!... mas... (e às ondas se arrojando,
Assim termina já sorvendo a morte)
“Hei de, mártir de amor, morrer te amando”.

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro — RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; suas obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Auta de Souza: No Jardim das Oliveiras

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 “Minh’alma é triste até à morte…” Doce
Jesus falou… E o Nazareno Santo
Chorava, como se su’alma fosse
Um mar imenso de amargura e pranto.

Depois, silencioso, ele afastou-se
E foi rezar no mais sombrio canto.
Seu grande olhar formoso iluminou-se
Fitando o etéreo e estrelejado manto.

 “Pai, piedade…” E a sua vez plangente
Tremia, enquanto pelas trevas mudas
Baixava manso o triste olhar dolente.

Pobre Jesus! Como n’um sonho via:
Em cada sombra a traição de Judas,
Em cada estrela os olhos de Maria!

[Macaíba — 7 de Abril de 1898.]
[Horto — 1900]


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Auta de Souza, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro expõe o que se segue: a poetisa ficou órfã de mãe, aos três anos de idade, e de pai, no ano seguinte, ambos vitimados pela tuberculose; aos doze anos, morreu seu irmão caçula, queimado por labaredas de um candeeiro derrubado acidentalmente; aos quatorze, ela própria recebeu o diagnóstico de tuberculose e teve que interromper os estudos; em 1895 conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, promotor público, se apaixonou, namorou mas, por pressão de seus irmãos e em razão de sua doença, acabou se separando e, depois, João Leopoldo veio a morrer também de tuberculose; todos estes acontecimentos acabaram sendo demarcadores de sua obra: religiosidade, orfandade, morte do irmão, desilusão amorosa, tuberculose.
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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Auta Henriqueta de Souza (1876 1901), potiguar de Macaíba, negra, foi poetisa da segunda geração romântica byroniana e com influência simbolista; na infância, criada pela avó materna e alfabetizada por professores particulares, foi matriculada, aos onze anos, no Colégio São Vicente de Paula dirigido por freiras vicentinas francesas, época em que aprendeu Francês, Inglês, Literatura inclusive literatura religiosa , Música, Desenho, e leu, no original, obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand e Fénelon; aos quatorze anos, por ter contraído tuberculose, teve que interromper os estudos no colégio religioso e prosseguiu seu formação intelectual de maneira autodidata; começou a escrever seus versos aos dezesseis anos, apesar da doença; frequentou o Clube do Biscoito, associação de amigos, no qual se promovia reuniões dançantes com recitação de poemas de vários autores; aos dezoito anos colaborou com a revista Oásis, aos vinte anos passou a escreveu para a República, jornal de maior circulação, o que a tornou visível para a imprensa de outras regiões, teve também poemas publicados em O País, do Rio de Janeiro, e escreveu com assiduidade para o jornal A Tribuna, de Natal, tendo sido publicada também  n’A Gazetinha, de Recife, no jornal religioso Oito de Setembro, de Natal, e na Revista do Rio Grande do Norte; a poetisa encerrou seu primeiro livro de manuscritos, com o título Dhálias, mas a publicação se deu de fato em 1900, e com o título mudado para Horto, cuja edição recebeu o prefácio de Olavo Bilac e acabou se tornando sua única obra deixada em vida. Entre 1899 e 1900, Auta de Souza também publicou poemas com os pseudônimos Ida Salúcio e Hilário das Neves, prática comum no período; além de versos escritos em português, também os escreveu em francês; consta de sua biografia ter sido considerada uma das mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas do país, Luís da Câmara Cascudo a chamou de “a maior poetisa mística brasileira.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Guilherme de Almeida: Silêncio


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Silêncio voz do amor, voz da alma, voz das cousas,
Suave senhor dos céus, dos claustros e das grutas;
Quebra-te o encanto o vôo, em trêmulas volutas,
Do bando singular das lentas mariposas!

Silêncio alma da dor de pálpebras enxutas;
Reino branco da paz, dos círios e das lousas;
Quando me calo, és tu, só tu, Silêncio, que ousas
Falar-me e, quando falo, és só tu que me escutas.

Irmão gêmeo da morte, ó mística linguagem
Com que se fala a Deus! Meu coração selvagem
Segreda-te a impressão que à flor da alma resvala

E tu lhe fazes, mudo, a confidência triste
Que te faz a mudez de tudo quanto existe,
Porque és, silêncio, a voz de tudo o que não fala!

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Guilherme de Andrade e Almeida (1890 1969), paulista de Campinas, além de jurista e professor de direito, foi poeta, jornalista, cronista social, ensaísta, crítico cinematográfico e tradutor; trabalhou como redator em diversos periódicos paulistanos, entre eles O Estado de São Paulo; participante da Semana de Arte Moderna (1922), colaborou nos periódicos Klaxon, Verde e Terra Roxa; consta que a sua produção de "haicais em português" se inicia após seu encontro com Kozo Ichige, cônsul japonês no Brasil, à época, 1936; escreveu e publicou, em poesia: Nós (estréia literária, 1917), A Dança das Horas (1919), Messidor (1919), A flor que foi um homem — Narciso (1921), A Frauta que eu perdi (1924), Meu (1925), Raça (1925), Encantamento (1925), Simplicidade (1929), Você (1931), Estudante poeta (1943), Tempo (1944), Poesia Vária (1947), Rua (1961); em prosa: Do Sentimento Nacionalista na Poesia Brasileira (ensaio, 1926), Ritmo, Elemento de Expressão (1926), Gente de Cinema (1929), O meu Portugal (1933), A Casa (palestra, 1935), Gonçalves Dias e o Romantismo (conferência, 1944), Histórias, talvez... (1948), As Palavras de Buda (1948); e outros títulos em verso e prosa, além de várias traduções, entre as quais Flores do Mal, de Baudelaire, e Paralelamente, de Verlaine.

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Guerra Junqueiro: O luar


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Ó luz! ó alma na amplidão suspensa,
Ó astros puros, ó luar, ó sol!
E em noites tristes de tristeza imensa,
Ó luz feita harmonia, ó rouxinol!

E como eu quero ainda! E como é triste
Sentir a vossa doce claridade,
Esse bater de ondas da saudade,
Sobre a imagem dum bem que não existe!

Lá vem a luz, a Ofélia desmaiada,
Pela amplidão da abóbada azulada,
A grinalda de estrelas desfolhando...

Sonâmbula d’amor, com mãos piedosas
Entorna as longas tranças luminosas
Por sobre os corações que estão chorando.

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850 1923), português de Ligares Freixo de Espada à Cinta, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi alto funcionário administrativo, político, deputado, jornalista, escritor e poeta; à sua época, bastante popular, é considerado o mais típico representante da chamada Escola Nova e, com sua poesia panfletária, contribuiu para formar o ambiente revolucionário que acabou por provocar a implantação da República portuguesa; passando a residir em Lisboa, a partir de 1875 colaborou em prosa e em verso com jornais políticos e artísticos, A Lanterna Mágica, O António Maria, Diário de Notícias, Atlântida, Branco e Negro, Brasil Portugal, A Crônica, A Illustração Portugueza, A Imprensa, A Leitura, A Mulher, O Occidente, Renascença, O Pantheon, A República Portugueza, Ribaltas e Gambiarras, Serões, Azulejos, Azeitonense, entre outros periódicos; suas obras: A Morte de D. João (1874), Contos para a Infância (1875), A Musa em Férias (1879), A Velhice do Padre Eterno (1885), Finis Patriae (1890), Os Simples (1892), Oração ao Pão (1902), Gritos da Alma (1912), Poesias Dispersas (1920), ...

domingo, 8 de outubro de 2023

Medeiros e Albuquerque: Ilusões


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Velas fugindo pelo mar em fora...
Velas... pontos depois... depois, vazia
A curva azul do mar, onde, sonora,
Canta do vento a triste salmodia.

Partem pálidas, brancas... Vem a aurora
E vem a noite após, muda e sombria...
E, se em porto distante a frota ancora,
É p’ra partir de novo no outro dia...

Assim, as ilusões. Chegam, garbosas,
Palpitam sonhos, desabrocham rosas
Na esteira azul das peregrinas frotas...

Chegam... Ancoram n’alma um só momento:
Logo as velas abrindo, amplas, ao vento,
Fogem p’ra longes solidões remotas...

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; José Joaquim da Costa de Medeiros e Albuquerque (1867 1934), pernambucano de Recife, foi funcionário público, jornalista, professor, contista, poeta, orador, romancista, teatrólogo, ensaísta e memorialista; na imprensa usou também os pseudônimos Armando Quevedo, Atásius Noll, J. dos Santos, Max e Rifiúfio Singapura; escreveu e publicou Pecados (poesia, 1889), Canções da decadência (poesia, 1889), Mãe Tapuia (conto, 1900), Poesias 1893 — 1901 (1904), Contos escolhidos (1907), O escândalo (drama, 1910), Marta (romance, 1920), Fim (poesia, 1922), Teatro meu... e dos outros (1923), O assassinato do general (conto, 1926), Por alheias terras (memória, 1931), Laura (romance, 1933), e muitos outros títulos; foi autor da letra do Hino da República; Medeiros e Albuquerque introduziu e tornou conhecidos os simbolistas franceses no Brasil, tendo sido ele próprio um decadentista e um dos precursores do simbolismo na poesia brasileira.

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Hermes Fontes: Buena-dicha


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Olhou-me a buena-dicha; olhou-me e disse:
 Amarás. Brilharás e sofrerás.
Eu ia, então, na minha meninice
Inquieta, à cerca de vintênio atrás.

E, se tal por sabê-lo, eu antevisse
O predestino esplêndido e mendaz,
Quis amar, quis brilhar, quis que a velhice
Não me recriminasse de ações más.

Para brilhar, busquei a glória na arte.
Para amar, procurei o bem no afeto.
Para sofrer, levei a cruz e o andor.

Mas, a glória mentiu. Por sua parte,
Mentiu-me o amor, tudo mentiu, exceto
A doce mãe dos imortais a dor!

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), nascido em Buquim SE, bacharel pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, mas não exerceu a profissão, foi poeta, compositor, jornalista, caricaturista e funcionário público trabalhou nos Correios e foi oficial de gabinete do ministro da Viação , tendo sido um dos fundadores do jornal Estréia (1904) e colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, entre outros periódicos de sua época; o poeta também foi caricaturista do jornal O Bibliógrafo; obra poética: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922), A Fonte da Mata (1930) ...; o poeta, num processo de depressão, suicidou-se na véspera do Natal de 1930; sua poesia é de estética simbolista.

sábado, 23 de setembro de 2023

Iveta Ribeiro: Conselhos

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Faze do coração um relicário
Onde guardes do amor a pura essência,
Seja a bondade o doce breviário
Por onde te orientes na existência.

Tem piedade do cruel fadário
Daqueles que mergulham na demência
Não condenes o réprobo e o falsário
Foragidos da própria consciência.

Que Jesus seja o lema e seja a trilha
Por onde em passos firmes caminhares
Em procura da luz que no alto brilha.

Repara que o exaltado é quem se humilha
E não te esqueças nunca que é vitória
Ser boa e ser honesta, minha filha.

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Iveta de Sousa Cunha, ou Iveta Cunha Ribeiro dos Santos (1886 1963), nascida na cidade do Rio de Janeiro, à época Distrito Federal, foi poetisa, cronista, pintora, dramaturga, atriz, radialista e redatora de vários jornais e revistas, A Cigarra — Magazine, por exemplo; foi patrona [ou patronesse] da Cadeira 34 da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul; em 1949, a poetisa organizou no Liceu Literário Português (Rio de Janeiro) a Primeira Estante Feminina Portuguesa no Brasil, com 282 autoras lusas; como pintora realizou 14 exposições individuais, assinando 598 trabalhos de vários gêneros, expondo-os no Rio de Janeiro  RS, Porto Alegre  RS e Lisboa  Portugal; suas obras: Almas simples (novela), Coisas da Vida (contos, 1922), Despertar (novela), Meus versos (poemas, 1927), Mutações (poemas, 1935), Florzinha (teatro, 1937), Meu Livro de Orações (1939), Migalhas (poemas em prosa), Corpos e Almas (poemas, 1943), Duas almas (poemas, 1958), Em todos os tempos (contos), Meu filho (novela), Pequena antologia de poetisas brasileiras (organização de obras, antologia); Iveta Ribeira foi embaixatriz da cultura feminina do Brasil, em Portugal, promoveu o intercâmbio cultural e artístico entre as duas nações e foi delegada à Confederação Feminina de la Paz Americana, na Argentina.