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— trecho: seis primeiras estrofes —
[traduzido por Manuel Bandeira]
Canto uma moça da Provença.
Em seus amores juvenis,
Nas ribeiras da Crau, até mar, nos trigais,
Discípulo do grande Homero,
Quero segui-la. Camponesa
Simples como era, não admira
Que só na Crau corresse a fama do seu nome.
Bem que sua fronte brilhasse
De juventude apenas, sem
Jamais diadema de ouro ou manto de Damasco,
Quero vê-la glorificada
Como rainha, e acariciada
Por nossa língua desdenhada,
Pois só cantamos para vós, ó provençais!
Tu, Senhor Deus de minha pátria,
Tu, que nasceste entre pastores,
Dá alento à minha voz, fogo às minhas
palavras,
Tu o sabes: em meio à verdura,
Aos raios do sol, à orvalhada,
Quando os figos amadurecem
Vem o homem como um lobo e pilha a árvore
toda.
Mas na árvore que ele destroça,
Tu preservas sempre algum ramo
A que não chega a mão insaciável dos homens,
Belo rebento prematuro,
E redolente e virginal,
Belo fruto madalenense,
Onde o pássaro do ar vem aplacar a fome.
Eu, vejo-o bem, esse raminho,
E sua frescura me atrai!
Vejo, bulindo no ar, ao perpassar do vento,
Suas folhas e imortais frutos...
Belo Deus, Deus meu, sobre as asas
De nossa língua provençal,
Dá-me possa eu colher o alto galho dos
pássaros!
Ao pé do Ródano, entre os choupos
E os salgueiros de suas margens,
Em pobre choça carcomida pelas águas,
Morava com o filho um cesteiro,
E ganhavam os dois a vida
De granja em granja reparando
Cestas rompidas e canastras estouradas.
[ . . . ]
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| Frédéric Mistral |
Mirèio
Cant
proumié
Lou Mas di Falabrego
Cante uno chato de Prouvènço,
Dins lis amour de la jouvènço,
A travès da la Crau, vers la mar, dins li
bla,
Umble escoulan dóu grand Oumèro,
Iéu la vole segui. Coume èro
Rèn qu’uno chato de la terro,
En foro de la Ceau ‘se n’es gaire parla.
Emai soun front noun lusiguèsse
Que de jouinesso; emai n’aguèsse
Ni diadèmo d’or ni mantèu de Damas,
Vole qu’en glòri fugue aussado
Coume uno rèino, e caressado
Pèr nosto lengo mespresado,
Car cantan que pèr vautre, o pastre e gènt di
mas!
Tu, Segnour Diéu de ma patrio,
Que nasquéres dins la pastriho,
Enfioco mi paraulo e dono-me d’alen!
Lou sabes: entre la verduro,
Au soulèu em’i bagnaduro,
Quand li figo se fan maduro,
Vèn l’ome alonbati desfrucha l’aubre en plen.
Mais sus l’aubre qu’én espalanco,
Tu toujour quihes quauco branco
Ounte l’ome abrama noun posque aussa la man,
Bello jitello proumierenco,
E redoulènto, e vierginenco,
Bello frucho madalenenco
Unte l’aucèu de lèr se vèn leva la fam.
Iéu la vese, aquelo branqueto,
E sa frescour me fai lingueto!
Ièu vese, i ventoulet, boulega dins lou cèu
Sa ramo e sa frucho inmourtalo...
Bèu Dièu, Dièu ami, sus lis alo
De nosto lengo prouvençalo,
Fai que posque avera la branco dis ancèu!
De-long dóu Rose, entre li piho
E li sauseto de la riho,
En un paure oustaloun pèr l’aigo rousiga
I’n panieraire demouravo,
Qu’emé soun drole pièi passavo
De mas en mas, e pedassavo
Li canestello routo e li panié trauca.
[ . . . ]
— o —
Mireille
Chant premier
Le Mas des Micocoules
Je chante une jeune fille de Provence. Dans les
amours de sa jeunesse, à travers la Crau, vers la mer, dans les blés, humble ècolier
du grand Homère, je véux la suivre. Comme c’était seulement une fille de glèbe,
en dehors de la Crau il s’en est peu parlé.
Bien que son front ne brillât que de jeunesse;
bien qu’elle n’eût ni diadème d’or ni manteau de Damas, je veuille qu’en gloire
elle soit élevée comme une reine, et caressée par notre langue méprisée, car nous
ne chantons que pour vous, ó pâtres et habitants des mas.
Toi, Seigneur Dieu de ma patrie, qui naquis parmi
les pâtres, enflamme mes paroles et donne-moi du souffle! Tu le sais: parmi la verdure,
au soleil et aux rosées, quand les figues mûrissent, vient l’homme, avide comme
un loup, dépouiller entièrement l’arbre de ses fruits.
Mais sur l’arbre dont il brise les rameaux, toi,
toujours tu élèves quelque branche où l’homme insatiable ne puisse porter la main,
betle pousse hâtive, et odorante, et virginale, beau fruit mûr à la Magdeleine,
òu vient l’oiseau de l’air apaiser sa faim.
Moi, je la vois, cette branchette, et sa
fraîcheur provoque mes désirs! Je vois, au (souffle des) brises, s’agiter dans
le ciel son feuillage et ses fruits immortels... Dieu beau, Dieu ami, sur les ailes
de notre langue provençale, fais que je puisse aveindre la branche des oiseaux!
Au borf fu Rhòne, entre les peupliers et les
saulaies de la rive, dans une pauvre maisonette rongée par l’eau, un vannier demeurait,
qui, avec son fils, passait ensuite de ferme en ferme, et raccommodait les
corbeilles rompues et les paniers troués.
[ . . . ]
* Nota do blogue Verso e Conversa: O
atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado trecho do
discurso de recepção proferido pelo poeta C[arl]. D[avid]. af Wirsén, “por
ocasião da entrega do Prêmio Nobel de Literatura” a Frédéric Mistral, no dia 10
de dezembro de 1904, na Academia Sueca:
. . . “ Seu primeiro ensaio foi um grande
poema sobre a vida campestre, depois publicou poesias numa coleção intitulada
Li Provençalo; finalmente, durante sete anos consecutivos, trabalhou na obra
que deveria fundar o seu renome universal, Mirèio.
A ação deste poema é muito simples. Uma boa e
simpática moça do campo não pode desposar um rapaz pobre que a ama, porque o
pai recusa o seu consentimento; desesperada, foge da casa paterna e vai
procurar alívio e socorro na igreja da peregrinação das três Santas Marias, na
ilha Camarga, no delta do Ródano. O autor conta de maneira encantadora o amor
primaveril dos jovens, e descreve com mão de mestre como Mirèio voa através das
planícies pedregosas da Crau. Atacada de insolação na Camarga tórrida, a
infeliz moça arrasta-se até a capela da romaria para ali morrer, e lá, numa
visão, as três santas lhe aparecem no instante em que ela exala o último
suspiro.
O valor dessa obra não está no assunto, nem
na imaginação nela ostentada, por mais atraente que seja a figura de Mirèio;
está na arte de encadear os episódios no decurso da narrativa, e de desenrolar
aos nossos olhos toda a Provença com a sua natureza, as suas recordações, os
seus costumes antigos e a vida quotidiana de seus habitantes. O próprio Mistral
diz que não canta senão para os pastores e os camponeses: fá-lo com uma
simplicidade homérica. É bem, como ele mesmo confessa, um discípulo do grande
Homero; mas longe de imitar servilmente, dá prova de extrema originalidade em
sua maneira de descrever. Um sopro da idade de ouro anima muitas de suas
descrições. Como esquecer as suas pinturas dos cavalos brancos da Camarga?
Galopando com a crina ao vento, parecem ter sido tocados pelo tridente de
Netuno e destacados do carro do deus do mar. Afastados de seus queridos pastos
à beira da água, conseguem fugir e, mesmo depois de longos anos de ausência,
voltar às planícies bem conhecidas, que saúdam com seus alegres relinchos, ao
ouvir novamente as vagas se quebrarem nas ribanceiras do rio.
O ritmo desse poema é de uma beleza
harmoniosa, e a composição artística bem sucedida a todos os aspectos. A fonte
onde se inspirou Mistral não foi a psicologia, foi a natureza, o homem mesmo
foi tratado por ele da maneira mais absoluta, como filho da natureza. Que
outros poetas sondem os abismos da alma humana! Mireille é uma rosa
entreaberta, resplandecendo ainda do orvalho da madrugada; é a obra espontânea
de um espírito original, e não o fruto de um trabalho de pura reflexão.” . . .
O longo poema Mirèio (Mireille, Miréia), uma
narrativa épica escrita originalmente no dialeto occitano/provençal, é composto
por 12 cantos distribuídos em quase 900 estrofes que perfazem mais de 5.000
versos no total.
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Miréia:
Frédéric Mistral, Tradução de Manuel Bandeira, Estudo Introdutivo de André Chansom,
Ilustrações de Yves Brayer, Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Frédéric
Mistral, por Dr. Gunnar Ahlström, Discurso de Recepção pronunciado pelo poeta C.
D. af Wirsén — Biblioteca dos Prêmio Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi,
Rio de Janeiro — RJ; Joseph Étienne Frédéric Mistral ou Josèp Estève Frederi Mistrau
[no dialeto occitano ‘mistraleano’] (1830 — 1914), francês-provençal da aldeia de Maillane,
comuna da região de Provence-Alpes-Côte d'Azur, estudou no Colégio Real de Avignon,
formou-se em Direito na cidade de Aix [Aix-en-Provence], foi poeta, escritor e lexicógrafo
em língua occitana (provençal), cultuador da Provença, tendo sido o primeiro a elevá-la
à categoria de língua literária; suas obras: Mirèio (Miréia, Mireille, longo poema
épico, 1859 e muitas reedições), Calendau (longo poema épico, 1867), Lis Isclo d’or
(As Ilhas de Ouro, 1876), Lou Trésor dóu Félibrige, Dictionnaire provençal-français,
ou O Grande Dicionário do Félibrige (dois volumes, 1878-1879), Nerto (romance/drama
lírico, 1884), La Rèino Jano (tragédia provençale en 5 actes en vers, 1890), Lou
Pouèmo dóu Rose (O Poema do Ródano, longo poema épico, 1897), Moun Espelido (Minhas
Origens [Memori e raconte, Memórias e narrativas], 1906), La Genesi, traducho en
prouvençau (O Gênese, ‘texto latino da Vulgata [bíblia, em latim] justaposto e tradução
francesa ao pé da página’, edição trilíngue, 1910), Lis Óulivado (1912) ...; teve
obras musicadas: Mireille (Miréio), em sua tradução francesa, inspirou uma ópera
de Charles Gounod, em 1863, e Calendau, musicada pelo compositor Marèchal; vários
de seus poemas receberam traduções em diversas línguas; Frédéric Mistral foi laureado
com o Prêmio Nobel de Literatura em 1904, e recebeu o título de doutor honoris-causa
pelas universidades de Halle[-Wittenberg] e de Bonn, ambas na Alemanha.