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quinta-feira, 31 de julho de 2025

Carlos Drummond de Andrade: Desligamento do poeta

 
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A arte completa,
a vida completa,
o poeta recolhe seus dons,
o arsenal de sons e signos,
o sentimento de seu pensamento.

Imobiliza-se,
infinitamente cala-se,
cápsula em si mesma contida.

Fica sendo o não rir
de longos dentes,
o não ver

de cristais acerados,
o não estar
nem ter aparência.
O absoluto do não ser.

Não há invocá-lo acenar-lhe pedir-lhe.

Passa ao estranho domínio
de deus ou pasárgada-segunda.

Onde não aflora a pergunta
nem o tema da
nem a hipótese do.

Sua poesia pousa no tempo.
Cada verso, com sua música
e sua paixão, livre de dono,
respira em flor, expande-se
na luz amorosa.

A circulação do poema
sem poeta: forma autônoma
de toda circunstância,
magia em si, prima letra
escrita no ar, sem intermédio,
faiscando,
na ausência definitiva
do corpo desintegrado.

Agora Manuel Bandeira é pura
poesia, profundamente.

(As Impurezas do Branco — 1973)

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia” de Emanuel de Moraes, Fortuna Crítica de Mário de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Sérgio Buarque de Holanda, Haroldo de Campos, João Gaspa  Simões, Hélcio Martins, Gilberto Mendonça Teles, Affonso Romano de Sant’Anna, Joaquim-Francisco Coelho, José Guilherme Merquior e Antônio Houaiss, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro e itabirano, fez seus estudos iniciais no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, de Itabira, formado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, não exerceu o ofício, foi poeta, contista, cronista, funcionário público em várias repartições, redator e chefe de redação em jornais e revistas; em 1921, publicou seus primeiros trabalhos no Diário de Minas; foi professor de Geografia e Português no Ginásio Sul Americano em Itabira; viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas: Diário de Minas, A Revista [modernista], Revista do Ensino, Minas Gerais, A Tribuna, Estado de Minas, Diário da Tarde, Revista Acadêmica, revista Euclides [foi responsável pela seção ‘Conversa de Livraria’], Tribuna Popular [diário comunista, foi co-diretor convidado por Luís Carlos Prestes, e ali permanecendo por alguns meses], A Manhã [colaborou no suplemento literário], Política e Letras, Jornal do Brasil; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos; teve obras traduzidas para o alemão, búlgaro, chinês, dinamarquês, francês, holandês, inglês, italiano, espanhol, latim, norueguês, sueco, tcheco, e em linguagem braille; traduziu para a língua portuguesa: François Mauriac, Choderlos de Laclos, Honoré de Balzac, Marcel Proust, García Lorca, Maurice Maeterlinck, Molière, Th. Descourtilz [estudioso e pesquisador ornitológico], Knut Hamsun [escritor norueguês]; colaborou em programas radiofônicos; recebeu premiações várias.

terça-feira, 8 de julho de 2025

Frédéric Mistral: Miréia* — Canto segundo — A Colheita [trecho]

 
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— trecho: seis primeiras estrofes —

[traduzido por Manuel Bandeira]

Canto segundo

A Colheita

       Cantai, cantai, ó raparigas!
       Pois a colheita é cantadeira.
Dormem o seu terceiro sono os belos sirgos,
       Sobre as amoreiras as moças,
       Que o bom tempo alvoroça e alegra,
       São como um enxame de loucas
Abelhas a roubar o mel aos rosmaninhos.

       Despojai das folhas os ramos!
       Cantai, cantai, ó raparigas!
Miréia está entre vós nesta manhã de maio.
       Nesta manhã colocou ela
       Por brincos em suas orelhas,
       A faceira! duas cerejas...
Nesta manhã Vicente outra vez passou lá.

       Ao seu gorro escarlate, à moda
       Das gentes dos mares latinos,
Trazia ansiosamente uma pena de galo.
       Pisando firme o chão da estrada,
       Pondo em fuga as serpes vadias,
       A golpes de bastão tangia
Para longe as sonoras pedras do caminho!

        “Ó Vicente”, lhe diz Miréia
       Do meio dos verdes carreiros,
“Muito apressado vais!” O rapaz, prestemente,
       Vira-se para donde viera
       A voz, e lá, numa amoreira,
       Pousada como uma calhandra,
Descobriu a menina e abordou-a contente,

        “Miréia! Então? Boa colheita?”
        “Eh, vai indo, vai indo aos poucos.”
“Quer que a ajude?” “Pois sim.” E enquanto ela
       Trepava na amoreira, e ria, aos gritinhos,
       Vicente, pisando nos trevos,
       Subiu a árvore como um rato.
“Mestre Ramon só tem uma filha, Miréia!

       “Fique nos galhos baixos, deixe
       Os altos para mim.” Ligeira,
Correndo a mão no ramo: “Assim, em companhia,
       O trabalho não aborrece!
       Sozinha, dá uma preguiça!”
       Disse. “Eu também, o que me amola”,
Secundou o rapaz, “é justamente isso.

[ . . . ]

Frédéric Mistral

Mirèio

Cant segound

La culido

       Cantas, cantas, magnanarello,
       Que la culido es cantarello!
Galant soun li magnan e s’endormon di tres;
       Lis amourié soun plen de fiho
       Que lou bèu tèms escarrabiho,
       Coume un vòu de blóundis abiho
Que raubon sa melico i roumanin dóu gres.

       En desfuiant vòsti verguello,
       Cantas, cantas, magnanarello!
Mirèio es à la fueio, un bèu matin de Mai.
       Aquéu matin, pèr pendeloto,
       A sis auriho, la faroto!
       Avié penja dos agrioto...
Vincèn, aquéu matin, passè 'qui tournamai.

       A sa barreto escarlatino,
       Coume an li gènt di mar latino,
Avié poulidamen uno plumo de gau;
       E’n trapejant dins li draiolo
       Fasié fugi li serp courriolo,
       E di dindànti clapeirolo
Emé soun bastounet bandissié li frejau.

        O Vincèn, ié faguè Mirèio
       D’entre-mitan li vèrdi lèio,
Passes bèn vite, que! Vincenet tout-d’un-tèm
       Se revirè vers la plantado,
       E, sus un amourié quihado
       Coume uno gaio couquihado,
Destouquè la chatouno, e ié landè, countènt.

        Bèn? Mirèio, vèn bèn la fueio?
        He! pau-à-pau tout se despueio...
Voulès que vous ajude? O!... Dóu tèms qu’eilamount
       Elo risié jitant de siéule,
       Vincèn, picant dóu pèd lou tréule,
       Escalè l’aubre coume un gréule.
Mirèio, n’a que vous lou vièi Mèste Ramoun:

       Fasès li baisso! aurai li cimo,
       Iéu, boutas! E’mé sa man primo,
Elo en mousènt la ramo: Engardo de langui
       De travaia 'n pau en coumpagno!
       Souleto, vous vèn une cagno!
       Dis. Iéu peréu ço que m’enlagno,
Respoundeguè lou drole, èi just acò-d’aqui.

[ . . . ]

— o -—

Mireille

Chant second

La Cueillette

       Chantez, chantez, magnanarelles! car la cueillette aime les chants. Beaux sont les vers à soie, et ils s’endorment de leur troisième somme; les mûriers sont pleins de jeunes filles que le beau temps rend alertes et gaies, telles qu’un essaim de blondes abeilles qui dérobent leur miel aux romarins des champs pierreux.

       En défeuillant vos rameaux, chantez, chantez, magnanarelles! Mireille est à la feuille, un beau matin de mai: cette matinée-là? pour pendeloques, à ses oreilles, la coquette avait pendu deux cerises.... Vincent, cette matinée, passa là de nouveau.

       A son bonnet écarlate, comme en ont les riverains des mers latines il avait gentiment une plume de coq; et en foulant les sentiers, il faisait fuir les couleuvres vagabondes, et des sonores tas de pierres avec son bâton il chassait les cailloux.

       O Vincent! lui cria Mireille du milieu des vertes allées, pourquoi passes-tu si vite! Vincent aussitôt se retourna vers la plantation, et, sur un mûrier perchée comme une gaie coquillade, il découvrit la fillette, et vers elle vola, joyeux.

       Eh bien! Mireille, vient-elle bien, la feuille? Eh! peu à peu tout (rameau) se dépouille. Voulez-vous que je vous aide? Oui! Pendant qu’elle riait là-haut en jetant de folâtres cris de joie, Vincent, frappant du pied le trèfle, grimpa sur l’arbre comme un loir. Mireille, il n’a que vous, le vieux maître Ramon:

       Faites les branches basses! j’atteindrai les cimes, moi, allez! Et de sa main légère, celle-ci trayant la ramée: Cela garde d’ennui, de travailler (avec) un peu de compagnie! Seule, il vous vient un nonchaloir! dit-elle. Moi de même, ce qui m’irrite, répondit le gars, c’est justement cela.

[ . . . ]

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado trecho do discurso de recepção proferido pelo poeta C[arl]. D[avid]. af Wirsén, “por ocasião da entrega do Prêmio Nobel de Literatura” a Frédéric Mistral, no dia 10 de dezembro de 1904, na Academia Sueca:
          . . . “Em outras poesias líricas, Mistral fez valer com calor os direitos do neoprovençal a uma existência independente, procurando ao mesmo tempo protegê-lo contra toda tentativa de descrédito ou de negligência.
          O poema em forma de novela, Nerto, oferece à admiração dos leitores páginas lindíssimas. Mas a narrativa épica Lou Poeumò dou Rose tem maior profundidade. Composta por um poeta de sessenta e sete anos, é todavia cheia de vida, e nada mais cativante do que as numerosas pinturas que apresenta das regiões banhadas pelo Ródano. Que tipo soberbo aquele altivo e pio capitão de navio Aprau, que julga que para aprender a rezar é preciso ser marinheiro! E eis aqui um delicioso quadro: uma noite, a filha do piloto, Anglora, cuja imaginação se alimentara de velhas lendas, julgou ter visto, nas ondas do Ródano iluminado pela lua, o deus do rio, Lou Dra, e imagina ter sido tocada por ele. Aqui o próprio verso parece fluir e cintilar ao luar.
          Em suma, as obras de Mistral são todas monumentos elevados à glória de sua cara Provença.” . . .
O longo poema Mirèio (Mireille, Miréia), uma narrativa épica escrita originalmente no dialeto occitano/provençal, é composto por 12 cantos distribuídos em quase 900 estrofes que perfazem mais de 5.000 versos no total.
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Miréia: Frédéric Mistral, Tradução de Manuel Bandeira, Estudo Introdutivo de André Chansom, Ilustrações de Yves Brayer, Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Frédéric Mistral, por Dr. Gunnar Ahlström, Discurso de Recepção pronunciado pelo poeta C. D. af Wirsén — Biblioteca dos Prêmio Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Joseph Étienne Frédéric Mistral ou Josèp Estève Frederi Mistrau [no dialeto occitano ‘mistraleano’] (1830 1914), francês da aldeia de Maillane, comuna da região de Provence-Alpes-Côte d'Azur, estudou no Colégio Real de Avignon, formou-se em Direito na cidade de Aix [Aix-en-Provence], foi poeta, escritor e lexicógrafo em língua occitana (provençal), cultuador da Provença, tendo sido o primeiro a elevá-la à categoria de língua literária; suas obras: Mirèio (Miréia, Mireille, longo poema épico, 1859 e muitas reedições), Calendau (longo poema épico, 1867), Lis Isclo d’or (As Ilhas de Ouro, 1876), Lou Trésor dóu Félibrige, Dictionnaire provençal-français, ou O Grande Dicionário do Félibrige (dois volumes, 1878-1879), Nerto (romance/drama lírico, 1884), La Rèino Jano (tragédia provençale en 5 actes en vers, 1890), Lou Pouèmo dóu Rose (O Poema do Ródano, longo poema épico, 1897), Moun Espelido (Minhas Origens [Memori e raconte, Memórias e narrativas], 1906), La Genesi, traducho en prouvençau (O Gênese, ‘texto latino da Vulgata [bíblia, em latim] justaposto e tradução francesa ao pé da página’, edição trilíngue, 1910), Lis Óulivado (1912) ...; teve obras musicadas: Mireille (Miréio), em sua tradução francesa, inspirou uma ópera de Charles Gounod, em 1863, e Calendau, musicada pelo compositor Marèchal; vários de seus poemas receberam traduções em diversas línguas; Frédéric Mistral foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1904, e recebeu o título de doutor honoris-causa pelas universidades de Halle[-Wittenberg] e de Bonn, ambas na Alemanha.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Frédéric Mistral: Miréia * — Canto primeiro — A Granja das Almezas [trecho]

 
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— trecho: seis primeiras estrofes 

[traduzido por Manuel Bandeira]

       Canto uma moça da Provença.
       Em seus amores juvenis,
Nas ribeiras da Crau, até mar, nos trigais,
       Discípulo do grande Homero,
       Quero segui-la. Camponesa
       Simples como era, não admira
Que só na Crau corresse a fama do seu nome.

       Bem que sua fronte brilhasse
       De juventude apenas, sem
Jamais diadema de ouro ou manto de Damasco,
       Quero vê-la glorificada
       Como rainha, e acariciada
       Por nossa língua desdenhada,
Pois só cantamos para vós, ó provençais!

       Tu, Senhor Deus de minha pátria,
       Tu, que nasceste entre pastores,
Dá alento à minha voz, fogo às minhas palavras,
       Tu o sabes: em meio à verdura,
       Aos raios do sol, à orvalhada,
       Quando os figos amadurecem
Vem o homem como um lobo e pilha a árvore toda.

       Mas na árvore que ele destroça,
       Tu preservas sempre algum ramo
A que não chega a mão insaciável dos homens,
       Belo rebento prematuro,
       E redolente e virginal,
       Belo fruto madalenense,
Onde o pássaro do ar vem aplacar a fome.

       Eu, vejo-o bem, esse raminho,
       E sua frescura me atrai!
Vejo, bulindo no ar, ao perpassar do vento,
       Suas folhas e imortais frutos...
       Belo Deus, Deus meu, sobre as asas
       De nossa língua provençal,
Dá-me possa eu colher o alto galho dos pássaros!

       Ao pé do Ródano, entre os choupos
       E os salgueiros de suas margens,
Em pobre choça carcomida pelas águas,
       Morava com o filho um cesteiro,
       E ganhavam os dois a vida
       De granja em granja reparando
Cestas rompidas e canastras estouradas.

[ . . . ]

Frédéric Mistral

Mirèio

Cant proumié

Lou Mas di Falabrego

       Cante uno chato de Prouvènço,
       Dins lis amour de la jouvènço,
A travès da la Crau, vers la mar, dins li bla,
       Umble escoulan dóu grand Oumèro,
       Iéu la vole segui. Coume èro
       Rèn qu’uno chato de la terro,
En foro de la Ceau ‘se n’es gaire parla.

       Emai soun front noun lusiguèsse
       Que de jouinesso; emai n’aguèsse
Ni diadèmo d’or ni mantèu de Damas,
       Vole qu’en glòri fugue aussado
       Coume uno rèino, e caressado
       Pèr nosto lengo mespresado,
Car cantan que pèr vautre, o pastre e gènt di mas!

       Tu, Segnour Diéu de ma patrio,
       Que nasquéres dins la pastriho,
Enfioco mi paraulo e dono-me d’alen!
       Lou sabes: entre la verduro,
       Au soulèu em’i bagnaduro,
       Quand li figo se fan maduro,
Vèn l’ome alonbati desfrucha l’aubre en plen.

       Mais sus l’aubre qu’én espalanco,
       Tu toujour quihes quauco branco
Ounte l’ome abrama noun posque aussa la man,
       Bello jitello proumierenco,
       E redoulènto, e vierginenco,
       Bello frucho madalenenco
Unte l’aucèu de lèr se vèn leva la fam.

       Iéu la vese, aquelo branqueto,
       E sa frescour me fai lingueto!
Ièu vese, i ventoulet, boulega dins lou cèu
       Sa ramo e sa frucho inmourtalo...
       Bèu Dièu, Dièu ami, sus lis alo
       De nosto lengo prouvençalo,
Fai que posque avera la branco dis ancèu!

       De-long dóu Rose, entre li piho
       E li sauseto de la riho,
En un paure oustaloun pèr l’aigo rousiga
       I’n panieraire demouravo,
       Qu’emé soun drole pièi passavo
       De mas en mas, e pedassavo
Li canestello routo e li panié trauca.

[ . . . ]

— o —

Mireille

Chant premier

Le Mas des Micocoules

       Je chante une jeune fille de Provence. Dans les amours de sa jeunesse, à travers la Crau, vers la mer, dans les blés, humble ècolier du grand Homère, je véux la suivre. Comme c’était seulement une fille de glèbe, en dehors de la Crau il s’en est peu parlé.

       Bien que son front ne brillât que de jeunesse; bien qu’elle n’eût ni diadème d’or ni manteau de Damas, je veuille qu’en gloire elle soit élevée comme une reine, et caressée par notre langue méprisée, car nous ne chantons que pour vous, ó pâtres et habitants des mas.

       Toi, Seigneur Dieu de ma patrie, qui naquis parmi les pâtres, enflamme mes paroles et donne-moi du souffle! Tu le sais: parmi la verdure, au soleil et aux rosées, quand les figues mûrissent, vient l’homme, avide comme un loup, dépouiller entièrement l’arbre de ses fruits.

       Mais sur l’arbre dont il brise les rameaux, toi, toujours tu élèves quelque branche où l’homme insatiable ne puisse porter la main, betle pousse hâtive, et odorante, et virginale, beau fruit mûr à la Magdeleine, òu vient l’oiseau de l’air apaiser sa faim.

       Moi, je la vois, cette branchette, et sa fraîcheur provoque mes désirs! Je vois, au (souffle des) brises, s’agiter dans le ciel son feuillage et ses fruits immortels... Dieu beau, Dieu ami, sur les ailes de notre langue provençale, fais que je puisse aveindre la branche des oiseaux!

       Au borf fu Rhòne, entre les peupliers et les saulaies de la rive, dans une pauvre maisonette rongée par l’eau, un vannier demeurait, qui, avec son fils, passait ensuite de ferme en ferme, et raccommodait les corbeilles rompues et les paniers troués.

[ . . . ]

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página deixa registrado trecho do discurso de recepção proferido pelo poeta C[arl]. D[avid]. af Wirsén, “por ocasião da entrega do Prêmio Nobel de Literatura” a Frédéric Mistral, no dia 10 de dezembro de 1904, na Academia Sueca:
          . . . “ Seu primeiro ensaio foi um grande poema sobre a vida campestre, depois publicou poesias numa coleção intitulada Li Provençalo; finalmente, durante sete anos consecutivos, trabalhou na obra que deveria fundar o seu renome universal, Mirèio.
          A ação deste poema é muito simples. Uma boa e simpática moça do campo não pode desposar um rapaz pobre que a ama, porque o pai recusa o seu consentimento; desesperada, foge da casa paterna e vai procurar alívio e socorro na igreja da peregrinação das três Santas Marias, na ilha Camarga, no delta do Ródano. O autor conta de maneira encantadora o amor primaveril dos jovens, e descreve com mão de mestre como Mirèio voa através das planícies pedregosas da Crau. Atacada de insolação na Camarga tórrida, a infeliz moça arrasta-se até a capela da romaria para ali morrer, e lá, numa visão, as três santas lhe aparecem no instante em que ela exala o último suspiro.
          O valor dessa obra não está no assunto, nem na imaginação nela ostentada, por mais atraente que seja a figura de Mirèio; está na arte de encadear os episódios no decurso da narrativa, e de desenrolar aos nossos olhos toda a Provença com a sua natureza, as suas recordações, os seus costumes antigos e a vida quotidiana de seus habitantes. O próprio Mistral diz que não canta senão para os pastores e os camponeses: fá-lo com uma simplicidade homérica. É bem, como ele mesmo confessa, um discípulo do grande Homero; mas longe de imitar servilmente, dá prova de extrema originalidade em sua maneira de descrever. Um sopro da idade de ouro anima muitas de suas descrições. Como esquecer as suas pinturas dos cavalos brancos da Camarga? Galopando com a crina ao vento, parecem ter sido tocados pelo tridente de Netuno e destacados do carro do deus do mar. Afastados de seus queridos pastos à beira da água, conseguem fugir e, mesmo depois de longos anos de ausência, voltar às planícies bem conhecidas, que saúdam com seus alegres relinchos, ao ouvir novamente as vagas se quebrarem nas ribanceiras do rio.
          O ritmo desse poema é de uma beleza harmoniosa, e a composição artística bem sucedida a todos os aspectos. A fonte onde se inspirou Mistral não foi a psicologia, foi a natureza, o homem mesmo foi tratado por ele da maneira mais absoluta, como filho da natureza. Que outros poetas sondem os abismos da alma humana! Mireille é uma rosa entreaberta, resplandecendo ainda do orvalho da madrugada; é a obra espontânea de um espírito original, e não o fruto de um trabalho de pura reflexão.” . . .
O longo poema Mirèio (Mireille, Miréia), uma narrativa épica escrita originalmente no dialeto occitano/provençal, é composto por 12 cantos distribuídos em quase 900 estrofes que perfazem mais de 5.000 versos no total.
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Miréia: Frédéric Mistral, Tradução de Manuel Bandeira, Estudo Introdutivo de André Chansom, Ilustrações de Yves Brayer, Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Frédéric Mistral, por Dr. Gunnar Ahlström, Discurso de Recepção pronunciado pelo poeta C. D. af Wirsén — Biblioteca dos Prêmio Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Joseph Étienne Frédéric Mistral ou Josèp Estève Frederi Mistrau [no dialeto occitano ‘mistraleano’] (1830 1914), francês-provençal da aldeia de Maillane, comuna da região de Provence-Alpes-Côte d'Azur, estudou no Colégio Real de Avignon, formou-se em Direito na cidade de Aix [Aix-en-Provence], foi poeta, escritor e lexicógrafo em língua occitana (provençal), cultuador da Provença, tendo sido o primeiro a elevá-la à categoria de língua literária; suas obras: Mirèio (Miréia, Mireille, longo poema épico, 1859 e muitas reedições), Calendau (longo poema épico, 1867), Lis Isclo d’or (As Ilhas de Ouro, 1876), Lou Trésor dóu Félibrige, Dictionnaire provençal-français, ou O Grande Dicionário do Félibrige (dois volumes, 1878-1879), Nerto (romance/drama lírico, 1884), La Rèino Jano (tragédia provençale en 5 actes en vers, 1890), Lou Pouèmo dóu Rose (O Poema do Ródano, longo poema épico, 1897), Moun Espelido (Minhas Origens [Memori e raconte, Memórias e narrativas], 1906), La Genesi, traducho en prouvençau (O Gênese, ‘texto latino da Vulgata [bíblia, em latim] justaposto e tradução francesa ao pé da página’, edição trilíngue, 1910), Lis Óulivado (1912) ...; teve obras musicadas: Mireille (Miréio), em sua tradução francesa, inspirou uma ópera de Charles Gounod, em 1863, e Calendau, musicada pelo compositor Marèchal; vários de seus poemas receberam traduções em diversas línguas; Frédéric Mistral foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1904, e recebeu o título de doutor honoris-causa pelas universidades de Halle[-Wittenberg] e de Bonn, ambas na Alemanha.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Elizabeth Barrett Browning: As minhas cartas! Todas elas frio, . . . [soneto]

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(traduzido por Manuel Bandeira)

As minhas cartas! Todas elas frio,
mudo e morto papel! No entanto agora
lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio
da vida eis que retomo hora por hora.

Nesta queria ver-me  era no estio
como amiga a seu lado... Nesta implora
vir e as mãos me tomar... Tão simples! Li-o
e chorei. Nesta diz quanto me adora.

Nesta confiou: "sou teu", e empalidece
a tinta no papel, tanto o apertara
ao meu peito, que todo inda estremece!

Mas uma... Ó meu amor, o que me disse
não digo. Que bem mal me aproveitara,
se o que então me disseste eu repetisse...

Elizabeth Barrett Browning

Sonnet 28
My letters! all dead paper, ... mute and white!

My letters! all dead paper,... mute and white!
And yet they seem alive and quivering
Against my tremulous hands which loose the string
And let them drop down on my knee to-night.

This said,... he wished to have me in his sight
Once, as a friend: this fixed a day in spring
To come and touch my hand... a simple thing,
Yet I wept for it! this,... the paper's light...

Said, Dear, I love thee; and I sank and quailed
As if God's future thundered on my past.
This said, I am thine  and so its ink has paled

With lying at my heart that beat too fast.
And this... O Love, thy words have ill availed,
If, what this said, I dared repeat at last!

(Sonnets from the Portuguese — 1847)
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Elizabeth Barrett Browning (1806 1861), inglesa de Coxhoe Hall, Durham, foi poetisa do Romantismo e da época vitoriana; autodidata, exceto por ter recebido “algumas instruções de grego e latim de um tutor que vivia com a família e ajudava seu irmão Edward”, ainda aos dez anos de idade, já havia lido várias peças de Shakespeare, traduções homéricas, de Pope, histórias da Inglaterra, Grécia e Roma e, logo após, peças de Racine e Molière, o Inferno, de Dante; todo o Antigo Testamento, em hebraico, Tom Paine, Voltaire, Rousseau e Mary Wollstonecraft; aos 15 anos de idade, tornou-se praticamente inválida por problemas de coluna e, depois, teve sua saúde agravada por complicações pulmonares; em 1846, casando-se com o também poeta Robert Browning, mudou-se para Florença Itália, ali vivendo pelo resto da vida; Elizabeth escreveu seu primeiro poema aos 12 anos, The Battle of Marathon (A Batalha de Maratona), em 4 tomos, que seu pai mandou imprimir; suas obras: An Essay on Mind and Other Poems (Um Ensaio sobre a Mente e Outros Poemas, 1826), Prometheus e Outros Poemas (1833), The Seraphim and Other Poems (Serafim e Outros Poemas, 1838), Sonnets from the Portuguese (Sonetos da Portuguesa, 1847), Casa Guidi Windows (Janelas da Casa Guidi, 1851), Aurora Leigh (1856), Poems Before Congress (Poemas Perante o Congresso, 1860) e outros, além de textos em prosa; traduziu a peça Prometeu Acorrentado (Prometheus Bound) atribuída a Ésquilo, dramaturgo da Grécia Antiga.

sábado, 6 de abril de 2024

Manuel Bandeira: A António Nobre

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Tu que penaste tanto e em cujo canto
Há a ingenuidade santa do menino;
Que amaste os choupos, o dobrar do sino,
E cujo pranto faz correr o pranto:

Com que magoado olhar, magoado espanto
Revejo em teu destino o meu destino!
Essa dor de tossir bebendo o ar fino,
A esmorecer e desejando tanto...

Mas tu dormiste em paz como as crianças.
Sorriu a Glória às tuas esperanças
E beijou-te na boca... O lindo som!

Quem me dará o beijo que cobiço?
Foste conde aos vinte anos... Eu, nem isso...
Eu, não terei a Glória... nem fui bom.

Petrópolis, 3-2-1916.
(A Cinza das Horas, em Poesias Completas,
nova edição aumentada, pág. 10.)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Manuel Bandeira (1886 1968), pernambucano de Recife, estudou no Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, concluiu o curso de Humanidades, interrompeu os estudos para se tratar de tuberculose, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e antologista; seu legado literário é extenso, deixou-nos muitas obras em verso e prosa e também organizou e publicou antologias de diversos autores e épocas; obras poéticas: A Cinza das Horas (1917), Carnaval (1919), Poesias, acrescida de O Ritmo Dissoluto (1924), Libertinagem (1930), Estrela da Manhã (1936), Poesias Completas, acrescida de Lira dos Cinquent'Anos, Poemas Traduzidos (1945), Opus 10 (1952), Alumbramentos (1960), Estrela da Tarde (1960), Estrela da Vida Inteira (1966) e outros; obras em prosa: Crônicas da Província do Brasil (1936), Guia de Ouro Preto (1938), Noções de História das Literaturas (1940), Autoria das Cartas Chilenas (1940), Apresentação da Poesia Brasileira (1946), Literatura Hispano-Americana (1949), Gonçalves Dias, Biografia (1952), De Poetas e de Poesia (1954), A Flauta de Papel (1957), Andorinha, Andorinha (1966), Itinerário de Pasárgada (1966), Colóquio Unilateralmente Sentimental (1968), Berimbau e Outros Poemas, e outros; antologias: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica, da Fase Parnasiana, da Fase Moderna — Volume 1, da Fase Moderna — Volume 2, Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos, Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia Simbolista, Antologia Poética (1961), Poesia do Brasil (1963) e outros; além disso, selecionou e organizou obras de outros autores e traduziu textos de Schiller, Shakespeare, Jean Cocteau, Zorrilla, Fréderic Mistral, Brecht, Morris West, John Ford, etc.

domingo, 17 de março de 2024

Manuel Bandeira: A Dama Branca


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A Dama Branca que eu encontrei,
Faz tantos anos,
Na minha vida sem lei nem rei,
Sorriu-me em todos os desenganos.

Era sorriso de compaixão?
Era sorriso de zombaria?
Não era mofa nem dó. Senão,
Só nas tristezas me sorriria.

E a Dama Branca sorriu também
A cada júbilo interior.
Sorria como querendo bem.
E todavia não era amor.

Era desejo? Credo! de tísicos?
Por histeria… quem sabe lá?
A Dama tinha caprichos físicos:
Era uma estranha vulgívaga.

Ela era o gênio da corrupção.
Tábua de vícios adulterinos.
Tivera amantes: uma porção.
Até mulheres. Até meninos.

Ao pobre amante que lhe queria,
Se lhe furtava sarcástica.
Com uns perjura, com outros fria,
Com outros má,

A Dama Branca que eu encontrei,
Há tantos anos,
Na minha vida sem lei nem rei,
Sorriu-me em todos os desenganos.

Essa constância de anos a fio,
Sutil, captara-me. E imaginai!
Por uma noite de muito frio
A Dama Branca levou meu pai.

(Carnaval, em Poesias Completas, págs. 108-109)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Manuel Bandeira (1886 1968), pernambucano de Recife, estudou no Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, concluiu o curso de Humanidades, interrompeu os estudos para se tratar de tuberculose, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e antologista; seu legado literário é extenso, deixou-nos muitas obras em verso e prosa e também organizou e publicou antologias de diversos autores e épocas; obras poéticas: A Cinza das Horas (1917), Carnaval (1919), Poesias, acrescida de O Ritmo Dissoluto (1924), Libertinagem (1930), Estrela da Manhã (1936), Poesias Completas, acrescida de Lira dos Cinquent'Anos, Poemas Traduzidos (1945), Opus 10 (1952), Alumbramentos (1960), Estrela da Tarde (1960), Estrela da Vida Inteira (1966) e outros; obras em prosa: Crônicas da Província do Brasil (1936), Guia de Ouro Preto (1938), Noções de História das Literaturas (1940), Autoria das Cartas Chilenas (1940), Apresentação da Poesia Brasileira (1946), Literatura Hispano-Americana (1949), Gonçalves Dias, Biografia (1952), De Poetas e de Poesia (1954), A Flauta de Papel (1957), Andorinha, Andorinha (1966), Itinerário de Pasárgada (1966), Colóquio Unilateralmente Sentimental (1968), Berimbau e Outros Poemas, e outros; antologias: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica, da Fase Parnasiana, da Fase Moderna — Volume 1, da Fase Moderna — Volume 2, Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos, Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia Simbolista, Antologia Poética (1961), Poesia do Brasil (1963) e outros; além disso, selecionou e organizou obras de outros autores e traduziu textos de Schiller, Shakespeare, Jean Cocteau, Zorrilla, Fréderic Mistral, Brecht, Morris West, John Ford, etc.