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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Paul Valéry: Sob o sol

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[traduzido por Augusto de Campos]

Sob o sol em meu leito após a água
Sob o sol e sob o reflexo enorme do sol sobre o mar,
    Sob a janela,
Sob os reflexos e os reflexos dos reflexos
Do sol e dos sóis sobre o mar
    Nos vidros,
Após o banho, o café, as ideias,
    Nu sob o sol em meu leito todo iluminado
        Nu louco
            Eu!

(sem titulo, XVI, 204. — Cadernos, 1933)

Paul Valéry

Au soleil

Au soleil sur mon lit après l’eau
Au soleil et au reflet énorme du soleil sur la mer,
    Sous ma fenêtre
Et aux reflets et aux reflets des reflets
Du soleil et des soleils sur la mer
    Dans les glaces,
Après le bain, le café, les idées,
    Nu au soleil sur mon lit tout illuminé
        Nu seul fou
            Moi!

(Sans titre, XVI, 204. — Cahiers, 1933)
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Linguaviagem — Augusto de Campos: Ensaios, Estudos [acerca] de seis poetas selecionados & poemas traduzidos, Breve introdução e Tradução dos poemas [bilíngue], por Augusto de Campos, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 1945), mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas funções na esfera pública francesa, foi filósofo, professor, crítico, ensaísta e poeta considerado um dos expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; em 1924 foi um dos cofundadores da revue littéraire Commerce [revista literária]; suas obras: A Jovem Parca (La Jeune Parque, 1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922), Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres (1942), etecetera etecetera; foram publicadas postumamente Mon Fauste (Meu Fausto, 1946), Vues (Visualizações, 1948), Lettres à quelques-uns (Cartas para alguns, 1952), Cahiers, 2 vol. condensés (Cadernos, 2 volumes condensados, 1970) e outros; o poeta Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke ...

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Paul Valéry: As Romãs

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Duras romãs entreabertas
Pelo excesso dos grãos de ouro,
Eu vejo reis, todo um tesouro
Nascer de suas descobertas!

Se os sóis de onde ressurgis,
Ó romãs de entrevista tez,
Vos fazem, prenhes de altivez,
Romper os claustros de rubis,

E se o ouro seco cede enfim
Ante a demanda ainda mais dura
E explode em gemas de carmim,

Essa luminosa ruptura
Faz sonhar uma alma que há em mim
De sua secreta arquitetura.

1920
[Charmes — 1922]

Paul Valéry

Les grenades

Dures grenades entr’ouvertes
Cédant à l'excès de vos grains,
Je crois voir des fronts souverains
Éclatés de leurs découvertes!

Si les soleils par vous subis,
Ô grenades entre-bâillées,
Vous ont fait d'orgueil travaillées
Craquer les cloisons de rubis,

Et que si l'or sec de l'écorce
À la demande d'une force
Crève en gemmes rouges de jus,

Cette lumineuse rupture
Fait rêver une âme que j'eus
De sa secrète architecture.

1920
[Charmes — 1922]
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Linguaviagem — Augusto de Campos: Ensaios, Estudos [acerca] de seis poetas selecionados & poemas traduzidos, Breve introdução e Tradução dos poemas [bilíngue], por Augusto de Campos, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 1945), mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas funções na esfera pública francesa, foi filósofo, professor, crítico, ensaísta e poeta considerado um dos expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; em 1924 foi um dos cofundadores da revue littéraire Commerce [revista literária]; suas obras: A Jovem Parca (La Jeune Parque, 1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922), Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres (1942), etecetera etecetera; foram publicadas postumamente Mon Fauste (Meu Fausto, 1946), Vues (Visualizações, 1948), Lettres à quelques-uns (Cartas para alguns, 1952), Cahiers, 2 vol. condensés (Cadernos, 2 volumes condensados, 1970) e outros; o poeta Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke ...

sábado, 29 de março de 2025

Paul Valéry: A Adormecida

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

A Lucien Fabre.

Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?

Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga.

Dorme, dourada soma: sombras e abandono.
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,

Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela. Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

1920

Paul Valéry

La Dormeuse

A Lucien Fabre.

Quels secrets dans son coeur brûle ma jeune amie,
Âme par le doux masque aspirant une fleur?
De quels vains aliments sa naïve chaleur
Fait ce rayonnement d’une femme endormie?

Souffles, songes, silence, invincible accalmie,
Tu triomphes, ô paix plus puissante qu’un pleur,
Quand de ce plein sommeil l’onde grave et l’ampleur
Conspirent sur le sein d’une telle ennemie.

Dormeuse, amas doré d’ombres et d’abandons,
Ton repos redoutable est chargé de tels dons,
Ô biche avec langueur longue auprès d’une grappe,

Que malgré l’âme absente, occupée aux enfers,
Ta forme au ventre pur qu’un bras fluide drape,
Veille; ta forme veille, et mes yeux sont ouverts.

[Album de vers Anciens (1920)]
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Linguaviagem — Augusto de Campos: Ensaios, Estudos [acerca] de seis poetas selecionados & poemas traduzidos, Breve introdução e Tradução dos poemas [bilíngue], por Augusto de Campos, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 1945), mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas funções na esfera pública francesa, foi filósofo, professor, crítico, ensaísta e poeta considerado um dos expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; em 1924 foi um dos cofundadores da revue littéraire Commerce [revista literária]; suas obras: A Jovem Parca (La Jeune Parque, 1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922), Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres (1942), etecetera etecetera; foram publicadas postumamente Mon Fauste (Meu Fausto, 1946), Vues (Visualizações, 1948), Lettres à quelques-uns (Cartas para alguns, 1952), Cahiers, 2 vol. condensés (Cadernos, 2 volumes condensados, 1970) e outros; o poeta Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke ...

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Paul Valéry: "Vai! não preciso mais de sua raça ingênua, Cara Serpente . . . [trecho de A Jovem Parca]

 
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     [traduzido por Augusto de Campos]

     [ . . . ]

50 "Vai! não preciso mais de tua raça ingênua,
     Cara Serpente... A mim me enleio, ó ser veloz!
     Cessa de me emprestar teu novelo de nós
     E tua submissão que, a fugir, me incrimina...
     Minha alma já me basta, ornamento da ruína!
55 E pode, em minha sombra diluindo as taras,
     Do meu seio morder, à noite, as pedras raras
     E ali sugar sem fim os delírios, seu mel...
     Deixa desfalecer teu braço de ouropel
     Que ameaça de amor meu fim espiritual...
60 Tudo o que faças me será menos letal
     Ou menos desejável... Calma, assim, as curvas,
     Renuncia aos coleios e às promessas turvas...
     Minha surpresa é breve, estou de olhos abertos.
     Não esperava ter dos meus ricos desertos
65 Menos que a gestação de trança e insensatez:
     Seus pós apaixonados brilham de aridez
     Por mais que eu recomece e me altere a buscar
     Os vãos confins dos meus infernos de pensar...
     Eu sei... A minha angústia é às vezes teatral.
70 Não é tão pura a mente para que, imortal,
     Em sua fuga triste a chama não sucumba
     Aos muros abismais de sua morna tumba.
     Tudo pode medrar de uma espera infinita.
     A sombra mesma cede à agonia que a agita,
75 A alma avara se entreabre e o monstro não descura,
     Que se enrodilha aos pés da porta da loucura...
     Mas, por mais caprichoso e ágil que te faças,
     Réptil, ó vivas curvas de carícias lassas,
     Tão rente impaciência, languidez tão terna,
80 Quem és, ante esta noite de extensão eterna?
     Vias dormir de encanto e minha negligência...
     Mas, com meu labirinto, eu sou de inteligência
     Mais versátil, ó Tirso, e mais periculosa.
     Foge de mim! Retoma a vil senda viscosa!
85 Procura olhos sem luz para as danças massivas.
     Corre em outros dosséis as vestes sucessivas,
     Cobra de quem quiser os germes do seu mal.
     E que nesses anéis do teu sonho animal
     Arqueje até o fim toda inocência ansiosa!...
90 Eu, porém, velo. E saio, amarga e prodigiosa,
     Úmida de um chorar que nem ao menos choro;
     Na ausência de contornos de mortal, me escoro
     Em mim, só... E rompendo um túmulo sereno,
     Me apoio na inquietude, mas ainda reino,
95 E domo estas visões, entre olho e noite, alçando
     Ao menor movimento o orgulho do meu mando.”

     [ . . . ]

Paul Valéry

     [ . . . ]

50 Va! je n’ai plus besoin de ta race naïve,
     Cher Serpent… Je m’enlace, être vertigineux!
     Cesse de me prêter ce mélange de nœuds
     Ni ta fidélité qui me fuit et devine…
     Mon âme y peut suffire, ornement de ruine!
55 Elle sait, sur mon ombre égarant ses tourments,
     De mon sein, dans les nuits, mordre les rocs charmants;
     Elle y suce longtemps le lait des rêveries…
     Laisse donc défaillir ce bras de pierreries
     Qui menace d’amour mon sort spirituel…
60 Tu ne peux rien sur moi qui ne soit moins cruel,
     Moins désirable… Apaise alors, calme ces ondes,
     Rappelle ces remous, ces promesses immondes…
     Ma surprise s’abrège, et mes yeux sont ouverts.
     Je n’attendais pas moins de mes riches déserts
65 Qu’un tel enfantement de fureur et de tresse:
     Leurs fonds passionnés brillent de sécheresse
     Si loin que je m’avance et m’altère pour voir
     De mes enfers pensifs les confins sans espoir…
     Je sais… Ma lassitude est parfois un théâtre.
70 L’esprit n’est pas si pur que jamais idolâtre
     Sa fougue solitaire aux élans de flambeau
     Ne fasse fuir les murs de son morne tombeau.
     Tout peut naître ici-bas d’une attente infinie.
     L’ombre même le cède à certaine agonie,
75 L’âme avare s’entr’ouvre, et du monstre s’émeut
     Qui se tord sur les pas d’une porte de feu…
     Mais, pour capricieux et prompt que tu paraisses,
     Reptile, ô vifs détours tout courus de caresses,
     Si proche impatience et si lourde langueur,
80 Qu’es-tu, près de ma nuit d’éternelle longueur?
     Tu regardais dormir ma belle négligence…
     Mais avec mes périls, je suis d’intelligence,
     Plus versatile, ô Thyrse, et plus perfide qu’eux.
     Fuis-moi! du noir retour reprends le fil visqueux!
85 Va chercher des yeux clos pour tes danses massives.
     Coule vers d’autres lits tes robes successives,
     Couve sur d’autres cœurs les germes de leur mal,
     Et que dans les anneaux de ton rêve animal
     Halète jusqu’au jour l’innocence anxieuse!…
90 Moi, je veille. Je sors, pâle et prodigieuse,
     Toute humide des pleurs que je n’ai point versés,
     D’une absence aux contours de mortelle bercés
     Par soi seule… Et brisant une tombe sereine,
     Je m’accoude inquiète et pourtant souveraine,
95 Tant de mes visions parmi la nuit et l’œil,
     Les moindres mouvements consultent mon orgueil.»

     [ . . . ]

(La Jeune Parque, 1917)
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Linguaviagem — Augusto de Campos: Ensaios, Estudos [acerca] de seis poetas selecionados & poemas traduzidos, Breve introdução e Tradução dos poemas [bilíngue], por Augusto de Campos, 1987, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 1945), mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas funções na esfera pública francesa, foi filósofo, professor, crítico, ensaísta e poeta considerado um dos expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; em 1924 foi um dos cofundadores da revue littéraire Commerce [revista literária]; suas obras: A Jovem Parca (La Jeune Parque, 1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922), Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres (1942), etecetera etecetera; foram publicadas postumamente Mon Fauste (Meu Fausto, 1946), Vues (Visualizações, 1948), Lettres à quelques-uns (Cartas para alguns, 1952), Cahiers, 2 vol. condensés (Cadernos, 2 volumes condensados, 1970) e outros; o poeta Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke ...

terça-feira, 14 de julho de 2020

Paul Valéry: Os passos

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[traduzido por Guilherme de Almeida]

Filhos do meu silêncio amante,
Teus passos santos e pausados,
Para o meu leito vigilante
Caminham mudos e gelados.

Que bons que são, vulto divino,
Puro ser, teus passos contidos!
Deuses!... os bens do meu destino
Me vêm sobre esses pés despidos.

Se trazes, nos lábios risonhos,
Para saciar o seu desejo,
Ao habitante dos meus sonhos
O alimento feliz de um beijo,

Retarda essa atitude terna,
Ser e não ser, dom com que faço
Da vida a tua espera eterna,
E do coração o teu passo.

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Les pas

Tes pas, enfants de mon silence,
Saintement, lentement placés,
Vers le lit de ma vigilance
Procèdent muets et glacés.

Personne pure, ombre divine,
Qu'ils sont doux, tes pas retenus!
Dieux! tous les dons que je devine
Viennent à moi sur ces pieds nus!

Si, de tes lèvres avancées,
Tu prépares pour l'apaiser,
A l'habitant de mes pensées
La nourriture d'un baiser,

Ne hâte pas cet acte tendre,
Douceur d'être et de n'être pas,
Car j'ai vécu de vous attendre,
Et mon coeur n'était que vos pas.
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Poetas de França (vários autores) — Guilherme de Almeida, Tradução e Dedicatória ‘Soneto de amor pela França’ de Guilherme de Almeida e Prefácio de Marcelo Tápia, 5ª edição, 2011, Edições Babel, São Paulo — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 1945), mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas atividades na vida pública francesa, foi filósofo, escritor e poeta considerado um dos expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; bibliografia: A Jovem Parca (1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922), Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres (1942) etecetera etecétera; o poeta Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke...

terça-feira, 23 de junho de 2020

Paul Valéry: O Bosque Amigo

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[traduzido por Júlio Castañon Guimarães]

Lado a lado, pensamos coisas puras,
Enquanto ao longo dessas estradas,
Seguíamos adiante de mãos dadas,
Sem falar... por entre flores obscuras;

Andávamos, sós, como enamorados
Pelo verde da noite e pradarias,
Partilhando essa luz das fantasias,
A lua fiel aos seres desvairados,

E depois, morremos sobre a alfombra,
Muito longe, sós na suave sombra
Desse íntimo bosque a murmurar;

E sempre no alto, no brilho imenso,
Eis que nos encontramos a chorar
Ó caro companheiro do silêncio!

Biografia de Paul Valéry
Paul Valéry

Le Bois Amical

Nous avons pensé des choses pures
Côte à côte, le long des chemins,
Nous nous sommes tenus par les mains
Sans dire… parmi les fleurs obscures;

Nous marchions comme des fiancés
Seuls, dans la nuit verte des prairies;
Nous partagions ce fruit de féeries
La lune amicale aux insensés

Et puis, nous sommes morts sur la mousse,
Très loin, tout seuls parmi l’ombre douce
De ce bois intime et murmurant;

Et là-haut, dans la lumière immense,
Nous nous sommes trouvés en pleurant
Ô mon cher compagnon de silence!
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Fragmentos do Narciso e Outros Poemas: Paul Valéry — Tradução e Anotações Prévias de Júlio Castañon Guimarães, edição bilíngue, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 1945), mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas atividades na vida pública francesa, foi filósofo, escritor e poeta considerado um dos expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; bibliografia: A Jovem Parca (1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922), Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres (1942) etecétera etecétera; o poeta Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke...

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Paul Valéry: Adormecida no Bosque

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[traduzido por Júlio Castañon Guimarães]

A princesa em palácio todo em rosa púrpura,
Dorme sob os murmúrios e as sombras infiéis.
E de coral esboça uma palavra obscura
Quando as aves perdidas mordem seus anéis.

Nem as gotas ela ouve, em suas quedas lestas,
Do século vazio retinirem a pompa,
Nem flautas em um sopro unidas nas florestas
Rompem o rumor de uma frase de trompa.

Deixa, devagar, o eco adormecer a diana,
Sempre mais semelhante à suave liana
Que oscila e toca teus olhos amortalhados.

Tão perto de tua face, a rosa, tão lenta,
Não desfaz o prazer desses cílios cerrados,
Sensíveis em segredos ao raio que os freqüenta.

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Paul Valéry

Au bois dormant

La princesse, dans un palais de rose pure,
Sous les murmures, sous la mobile ombre dort,
Et de corail ébauche une parole obscure
Quand les oiseaux perdus mordent ses bagues d’or.

Elle n’écoute ni les gouttes, dans leurs chutes,
Tinter d’un siècle vide au lointain le trésor,
Ni, sur la forêt vague, un vent fondu de flûtes
Déchirer la rumeur d’une phrase de cor.

Laisse, longue, l’écho rendormir la diane,
Ô toujours plus égale à la molle liane
Qui se balance et bat tes yeux ensevelis.

Si proche de ta joue et si lente la rose
Ne va pas dissiper ce délice de plis
Secrètement sensible au rayon qui s’y pose.

(Album de vers anciens)
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Fragmentos do Narciso e Outros Poemas: Paul Valéry — Tradução e Anotações Prévias de Júlio Castañon Guimarães, edição bilíngue, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 1945), mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas atividades na vida pública francesa, foi filósofo, escritor e poeta considerado um dos expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; bibliografia: A Jovem Parca (1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922), Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres (1942) etecétera etecétera; o poeta Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke...

domingo, 7 de junho de 2020

Paul Valéry: As Vãs Dançarinas

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[traduzido por Júlio Castañon Guimarães]

E vieram aquelas que são leves flores,
Imagens de ouro e miúdas belezas e cores
Onde se irisa débil lua... Podem-se ver,
Melodiosas, no bosque aclarado, a correr.
São de malvas e íris e noturnas rosas
Essas graças da noite em danças viçosas.
Dos dedos de ouro, quanto perfume velado!
Mas suave azul desfolha no bosque fanado
E exígua água mal luz, posta em abrigo
Como baço tesouro de um orvalho antigo
De onde o silêncio em flor se alça... Podem-se ver,
Melodiosas, no bosque aclarado, a correr.
Nos cálices prezados suas mãos são graciosas;
Um pouco de lua dorme nas bocas ciosas
E, belos, seus braços de gestos adormidos
Estimam desatar sob os mirtos queridos
Seus laços, suas carícias... Algumas, porém,
Menos presas ao ritmo e às harpas além,
Vão ao lago encoberto, em passo sem ruído,
Beber do lírio a água em que dorme o puro olvido.

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Paul Valéry

Les Vaines Danseuses

Celles qui sont des fleurs légères sont venues,
Figurines d’or et beautés toutes menues
Où s’irise une faible lune… Les voici
Mélodieuses fuir dans le bois éclairci.
De mauves et d’iris et de nocturnes roses
Sont les grâces de nuit sous leurs danses écloses.
Que de parfums voilés dispensent leurs doigts d’or!
Mais l’azur doux s’effeuille en ce bocage mort
Et de l’eau mince luit à peine, reposée
Comme un pâle trésor d'une antique rosée
D’où le silence en fleur monte... Encore les voici
Mélodieuses fuir dans le bois éclairci.
Aux calices aimés leurs mains sont gracieuses;
Un peu de lune dort sur leurs lèvres pieuses
Et leurs bras merveilleux aux gestes endormis
Aiment à dénouer sous les myrtes amis
Leurs liens fauves et leurs caresses... Mais certaines,
Moins captives du rythme et des harpes lointaines,
S’en vont d'un pas subtil au lac enseveli
Boire des lys l’eau frêle où dort le pur oubli.
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Fragmentos do Narciso e Outros Poemas: Paul Valéry — Tradução e Anotações Prévias de Júlio Castañon Guimarães, edição bilíngue, 2013, Ateliê Editorial, Cotia — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 1945), mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas atividades na vida pública francesa, foi filósofo, escritor e poeta considerado um dos expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; bibliografia: A Jovem Parca (1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922), Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres (1942) etecétera etecétera; o poeta Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke...