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[traduzido por Augusto de Campos]
[ . . . ]
50 "Vai!
não preciso mais de tua
raça ingênua,
Cara Serpente... A mim me enleio, ó ser veloz!
Cessa
de me emprestar teu novelo de nós
E
tua submissão que, a fugir, me incrimina...
Minha
alma já me basta, ornamento da ruína!
55 E pode, em minha sombra diluindo as taras,
Do
meu seio morder, à noite, as pedras raras
E
ali sugar sem fim os delírios, seu mel...
Deixa
desfalecer teu braço de ouropel
Que
ameaça de amor meu fim espiritual...
60 Tudo o que faças me será menos letal
Ou
menos desejável... Calma, assim, as curvas,
Renuncia
aos coleios e às promessas turvas...
Minha
surpresa é breve, estou de olhos abertos.
Não
esperava ter dos meus ricos desertos
65 Menos que a gestação de trança e
insensatez:
Seus
pós apaixonados brilham de aridez
Por
mais que eu recomece e me altere a buscar
Os
vãos confins dos meus infernos de pensar...
Eu
sei... A minha angústia é às vezes teatral.
70 Não é tão pura a mente para que, imortal,
Em
sua fuga triste a chama não sucumba
Aos
muros abismais de sua morna tumba.
Tudo
pode medrar de uma espera infinita.
A
sombra mesma cede à agonia que a agita,
75 A alma avara se entreabre e o monstro não
descura,
Que
se enrodilha aos pés da porta da loucura...
Mas,
por mais caprichoso e ágil que te faças,
Réptil,
ó vivas curvas de carícias lassas,
Tão rente impaciência, languidez tão terna,
80 Quem és, ante esta noite de extensão
eterna?
Vias
dormir de encanto e minha negligência...
Mas,
com meu labirinto, eu sou de inteligência
Mais
versátil, ó Tirso, e mais periculosa.
Foge
de mim! Retoma a vil senda viscosa!
85 Procura olhos sem luz para as danças
massivas.
Corre
em outros dosséis as vestes sucessivas,
Cobra
de quem quiser os germes do seu mal.
E
que nesses anéis do teu sonho animal
Arqueje
até o fim toda inocência ansiosa!...
90 Eu, porém, velo. E saio, amarga e
prodigiosa,
Úmida
de um chorar que nem ao menos choro;
Na
ausência de contornos de mortal, me escoro
Em
mim, só... E rompendo um túmulo sereno,
Me
apoio na inquietude, mas ainda reino,
95 E domo estas visões, entre olho e noite,
alçando
Ao
menor movimento o orgulho do meu mando.”
[ . . . ]
 |
| Paul Valéry |
[ . . . ]
50 Va! je n’ai plus besoin de ta race naïve,
Cher Serpent… Je m’enlace,
être vertigineux!
Cesse de me prêter ce mélange
de nœuds
Ni ta fidélité qui me fuit et
devine…
Mon âme y peut suffire,
ornement de ruine!
55 Elle sait, sur mon ombre égarant ses tourments,
De mon sein, dans les nuits,
mordre les rocs charmants;
Elle y suce longtemps le lait
des rêveries…
Laisse donc défaillir ce bras
de pierreries
Qui menace d’amour mon sort
spirituel…
60 Tu ne peux rien sur moi qui ne soit moins cruel,
Moins désirable… Apaise
alors, calme ces ondes,
Rappelle ces remous, ces
promesses immondes…
Ma surprise s’abrège, et mes
yeux sont ouverts.
Je n’attendais pas moins de
mes riches déserts
65 Qu’un tel enfantement de fureur et de tresse:
Leurs fonds passionnés
brillent de sécheresse
Si loin que je m’avance et
m’altère pour voir
De mes enfers pensifs les
confins sans espoir…
Je sais… Ma lassitude est
parfois un théâtre.
70 L’esprit n’est pas si pur que jamais idolâtre
Sa fougue solitaire aux élans
de flambeau
Ne fasse fuir les murs de son
morne tombeau.
Tout peut naître ici-bas
d’une attente infinie.
L’ombre même le cède à
certaine agonie,
75 L’âme avare s’entr’ouvre, et du monstre s’émeut
Qui se tord sur les pas d’une
porte de feu…
Mais, pour capricieux et
prompt que tu paraisses,
Reptile, ô vifs détours tout
courus de caresses,
Si proche impatience et si
lourde langueur,
80 Qu’es-tu, près de ma nuit d’éternelle longueur?
Tu regardais dormir ma belle
négligence…
Mais avec mes périls, je suis
d’intelligence,
Plus versatile, ô Thyrse, et
plus perfide qu’eux.
Fuis-moi! du noir retour
reprends le fil visqueux!
85 Va chercher des yeux clos pour tes danses massives.
Coule vers d’autres lits tes
robes successives,
Couve sur d’autres cœurs les
germes de leur mal,
Et que dans les anneaux de
ton rêve animal
Halète jusqu’au jour
l’innocence anxieuse!…
90 Moi, je veille. Je sors, pâle et prodigieuse,
Toute
humide des pleurs que je n’ai point versés,
D’une
absence aux contours de mortelle bercés
Par
soi seule… Et brisant une tombe sereine,
Je
m’accoude inquiète et pourtant souveraine,
95 Tant de mes visions parmi la nuit et
l’œil,
Les
moindres mouvements consultent mon orgueil.»
[ . . . ]
(La Jeune
Parque, 1917)
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Linguaviagem — Augusto de Campos:
Ensaios, Estudos [acerca] de seis poetas selecionados & poemas traduzidos, Breve
introdução e Tradução dos poemas [bilíngue], por Augusto de Campos, 1987, Companhia
das Letras, São Paulo — SP; Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871 — 1945),
mais conhecido como Paul Valéry, francês de Sète, fez seus estudos secundários no
Lycée de Montpellier, cursou Direito, exerceu diversas funções na esfera pública
francesa, foi filósofo, professor, crítico, ensaísta e poeta considerado um dos
expoentes da escola Simbolista; seus primeiros versos vieram à luz a partir de 1889,
ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade, tendo sido publicados nos periódicos
Revue Maritime de Marseille, La Revue Indépendante, de Paris, e La Conque; em 1924
foi um dos cofundadores da revue littéraire Commerce [revista literária]; suas obras:
A Jovem Parca (La Jeune Parque, 1917), Album de vers Anciens (1920), Charmes (1922),
Analetos (1927), Discours aux l’honneur de Goethe (1932), Mauvaises pensées et autres
(1942), etecetera etecetera; foram publicadas postumamente Mon Fauste (Meu Fausto,
1946), Vues (Visualizações, 1948), Lettres à quelques-uns (Cartas para alguns, 1952),
Cahiers, 2 vol. condensés (Cadernos, 2 volumes condensados, 1970) e outros; o poeta
Paul Valéry é tido como o autor de poemas dos mais significativos entre os que foram
produzidos no século XX, ao lado de obras de T. S. Eliot, Ezra Pound, Fernando Pessoa,
Rainer Maria Rilke ...