____________________
EU
ERA ainda muito criança, mas sabia uma infinidade de coisas que os adultos
ignoravam. Sabia que não se deve responder aos cumprimentos dos glimerinos,
aquela raça de anões que a gente encontra quando menos espera e que fazem tudo
para nos distrair de nossa missão; sabia que nos lugares onde a mãe-do-ouro
aparece à flor da terra não se deve abaixar nem para apertar os cordões dos
sapatos, a cobiça está em toda parte e morde manso; sabia que ao ouvir passos
atrás ninguém deve parar ou correr, mas manter a marcha normal, quem mostrar
sinais de medo está perdido na estrada.
A
estrada é cheia de armadilhas, de alçapões, de mundéus perigosos, para não
falar em desvios tentadores, mas eu podia percorrê-la na ida e na volta de
olhos fechados sem cometer o mais leve deslize. Era por isso que eu não gostava
de viajar acompanhado, a preocupação de salvar outros do desastre tirava-me o
prazer da caminhada, mas desde criança eu era perseguido pela insistência dos
que precisavam viajar e tinham medo do caminho, parecia que ninguém sabia dar
um passo sem ser orientado por mim, chegavam a fazer romaria lá em casa,
aborreciam minha mãe com pedidos de interferência; e como eu não podia negar
nada a minha mãe eu estava sempre na estrada acompanhando uns e outros. Mal chegava
de uma viagem era informado de que fulano, ou sicrano, ou viúva de trás da
igreja, ou o ancião que perdera a filha afogada estava a minha espera para nova
caminhada. E sempre tinham urgência, negócios inadiáveis a tratar em outros
lugares, se eu não lhes fizesse esse favor estariam perdidos, desgraçados, ou
desmoralizados. Como poderia eu recuar e dar-lhes as costas, como se não
tivesse nada a ver com os problemas deles? A responsabilidade seria muito
grande para meus ombros infantis. Minha mãe preparava a minha matula, dizia
“coitado de meu filho, não tem descanso”, beijava-me na testa e lá ia eu a
percorrer de novo a mesma estrada, como se eu fosse um burro cativo, levando às
vezes gente que eu nem conhecia, e cujos negócios me eram remotos ou estranhos.
Minha
única esperança de liberdade era crescer depressa para ser como os adultos,
completamente incapazes de irem sozinhos daqui ali; mas quando eu baixava os
olhos para olhar o meu corpo de menino, e via o quanto eu ainda estava perto do
chão, vinha-me um desânimo, um desejo maligno de adoecer e morrer e deixar os
adultos entregues ao seu destino. Eu nunca soube há quanto tempo estava naquela
vida, nem tinha lembrança de haver conhecido outra. Teria eu nascido com
alpercatas nos pés e trouxinha às costas? Era difícil dizer que não, embora a
hipótese parecesse inconcebível.
Se
seu me queixava a outras pessoas, elas faziam um ar compungido, engrolavam
qualquer coisa para dizer que cada um tem que aceitar o seu destino, e eu
compreendia que eles também estavam me reservando para quando precisassem de
mim; outros presenteavam-me com garruchinhas de espoleta, automoveizinhos de
corda, quando não um par de botinas novas. Tudo o que eles queriam de mim era
resignação e presteza. Naturalmente eu podia acabar com aquilo a qualquer hora,
mas — e a responsabilidade?
Mas
não se pense que as minhas caminhadas para lá e para cá fossem uma rotina
desinteressante; nada disso. Raro era o dia em que eu não aprendia alguma coisa
nova, e embora a descoberta só tivesse utilidade na estrada, eu a recolhia para
utilização futura, ou para ampliação de meus conhecimentos. Foi ao abaixar-me
num córrego para beber água que fiz uma descoberta a meu ver muito importante:
descobri que, quando se derruba uma moeda em água corrente, não se deve pensar
em recuperá-la. Quem tentar fazê-lo poderá ficar o resto da vida à beira da
água retirando moedas. É como se a pessoa “sangrasse” a areia do fundo da água
e depois não conseguisse estancar o jorro de moedas.
Talvez
eu não devesse ter contado isso a meu pai, pois não era difícil prever o que
aconteceria. Ele riu em minha cara, e chamou-me fantasista. Como eu insistisse,
ofendido, ele reptou-me a prová-lo. Ainda aí eu poderia ter desconversado, mas
não: aceitei o desafio, como se tratasse de um ponto de honra. Levei-o à beira
de um córrego, mandei-o soltar uma moeda na água — e só à força conseguimos
tirá-lo de lá dias depois; e para impedi-lo de voltar, tivemos de interná-lo.
Disseram que a culpa foi minha, mas não consigo sentir-me culpado.
Depois
disso notei que as pessoas passaram a me evitar. A princípio pensei que
estivessem sendo gentis, tivessem decidido dar-me afinal um descanso, depois de
tantos anos de trabalho pesado; mas depois verifiquei que a situação era mais
séria, nem na rua conversavam comigo, os poucos que eu conseguia deter estavam
sempre apressados, davam uma desculpa e se afastavam sem nem olhar para trás.
De
repente ocorreu-me um pensamento medonho: será que minha mãe também pensava e
sentia como os outros? Nesse caso, que martírio não seria a sua vida,
preocupada todo o tempo em esconder de mim os seus sentimentos! Alarmado com
essa possibilidade, eu a observei durante dias, escutei-a no sono, tentando
surpreender uma palavra, um gesto, qualquer coisa que me denunciasse o seu
estado de espírito. Às vezes me parecia que o meu medo estava confirmado, mas
no minuto seguinte eu estava novamente em dúvida. A única maneira de esclarecer
tudo era naturalmente abrir-me com ela. Mas logo que comecei a expor-lhe o meu
caso percebi o erro que havia cometido. Estava eu certo de querer a verdade, e
não a compaixão de minha mãe? Qual seria nesse caso o papel de uma boa mãe — dar-me o que eu queria ou o que eu temia? Que direito tinha eu de forçá-la a
uma decisão dessa ordem?
Quando
acabei de falar ela abraçou-me chorando e só conseguia dizer: “Meu filho, meu
filho tão infeliz!”
Qual
seria o sentido dessa frase aparentemente tão clara? Seria pena pela minha
sorte de guia forçado, pela minha capacidade de amedrontar os outros — ou estaria
ela pensando na minha sina de amedrontador da própria mãe? Chorei também, mas
depois percebi que eu não tinha motivo nenhum para chorar, eu estava chorando
mais por formalidade, porque o que havia eu feito para estar naquela situação?
Que culpa tinha eu da minha vida?
Enxuguei
as lágrimas e senti-me como se tivesse acabado de subir ao alto de uma grande
montanha, de onde eu podia ver embaixo o menino de calça curta que eu havia
deixado de ser, emaranhado em seus ridículos problemas infantis, pelos quais eu
não sentia mais o menor interesse. Voltei-lhe as costas sem nenhum pesar e
desci pelo outro lado assoviando e esfregando as mãos de contente.
____________________
Os Cavalinhos de Platiplanto — Contos, 1986, 16a. Edição, Difel Difusão Editorial S/A, São Paulo — SP; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 — 1999), goiano de Corumbá de Goiás, ali terminou seus estudos secundários e, transferindo-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito; foi locutor de rádio, jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC — Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV — Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve edições publicadas nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; além de ter sido laureado diversas vezes nos meios literários, foi agraciado, em 1997, com o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.