
____________________
(sobre uma página de Eça de
Queirós)
São as paredes de uma cor
simpática...
Mavioso perfume no ar ondeia...
Está-se bem na sala: é alta, cheia
Duma discreta luz aristocrática.
Junto à condessa, muito branca,
apática,
Um gorducho marido papagueia.
Ao lado que o piano mais sombreia,
Em absorção deliciosa, extática,
Um rapaz louro, encantador e sério,
Escuta, com adúltero mistério,
Do rechonchudo a esposa sensual.
Enfim sai: e o olhar dela veemente
Pela janela o segue longamente...
E pensa do marido: “Este animal!”
(Murmúrios e Clamores, poesias completas,
1ª edição — 1902.
Rio de Janeiro: Garnier, p. 164. Originalmente do livro
Visões
do Abismo — 1888 [Nota do Organizador])
____________________
Lúcio de Mendonça — Série Essencial
68, Academia Brasileira de Letras, Organização de João Pedro Fagerlande, 2013,
Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Lúcio Eugênio de Meneses
e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 — 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo — atual
USP do Largo de São Francisco —, foi advogado, magistrado, jornalista,
contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha — MG; escreveu e publicou Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera 1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas
do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi
o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito;
como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº
11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.
