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quarta-feira, 10 de julho de 2019

Lúcio de Mendonça: A Família

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(sobre uma página de Eça de Queirós)

São as paredes de uma cor simpática...
Mavioso perfume no ar ondeia...
Está-se bem na sala: é alta, cheia
Duma discreta luz aristocrática.

Junto à condessa, muito branca, apática,
Um gorducho marido papagueia.
Ao lado que o piano mais sombreia,
Em absorção deliciosa, extática,

Um rapaz louro, encantador e sério,
Escuta, com adúltero mistério,
Do rechonchudo a esposa sensual.

Enfim sai: e o olhar dela veemente
Pela janela o segue longamente...
E pensa do marido: “Este animal!”

(Murmúrios e Clamores, poesias completas, 1ª edição — 1902.
Rio de Janeiro: Garnier, p. 164. Originalmente do livro
Visões do Abismo — 1888 [Nota do Organizador])

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Lúcio de Mendonça — Série Essencial 68, Academia Brasileira de Letras, Organização de João Pedro Fagerlande, 2013, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854  1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo  atual USP do Largo de São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha  MG; escreveu e publicou Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera 1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.

sábado, 8 de junho de 2019

Lúcio de Mendonça: Ângela

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Quando Ângela nasceu, no vale umbroso
Onde a casa paterna se escondia,
O rio murmurou mais sonoroso,
As aves concertaram na harmonia;
Houve canções do vento na palmeira;
A veiga de perfumes recendeu;
Teve um sorriso a natureza inteira,
                          Quando Ângela nasceu.

Quando Ângela viveu, em torno dela
O mundo em paraíso transformou-se.
Ao passar-lhe por frente da janela,
Enternecia o vento a voz tão doce!
Foi mais rútilo o sol e mais fecundo;
Mais amorosa a lua enlanguesceu...
Como que Deus esteve só no mundo,
                          Quando Ângela viveu.

Quando Ângela morreu, quando ao degredo
Se resgatou dos anjos a irmã presa,
Os ventos soluçaram no arvoredo,
Os sabiás gemeram na devesa;
O rio teve lágrimas de espuma;
A luz vívida o sol amorteceu,
E amortalhou-se o vale em densa bruma,
                          Quando Ângela morreu.

(Murmúrios e Clamores, poesias completas, 1ª edição — 1902.
Rio de Janeiro: Garnier, p. 45. Originalmente do livro
Névoas Matutinas — 1896 [Nota do Organizador])

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Lúcio de Mendonça — Série Essencial 68, Academia Brasileira de Letras, Organização de João Pedro Fagerlande, 2013, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo de São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha RJ; escreveu e publicou Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Lúcio de Mendonça: A minha Amante

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É uma alta perfeição, sinceramente,
E das mais ideais e consumadas.
Tem as formas gentis arredondadas,
Como uma tentação armada à gente.

Vê-la é ter um desejo veemente
De a possuir por horas dilatadas...
Traz às macias costas adoradas
Fino crivo de linho, um meu presente.

Adoro-a com amor terno e constante;
Entre os braços da austríaca faceira
Esqueço-me da vida de estudante.

É austríaca, sim, essa estrangeira;
E não tem os perigos de outra amante,
Porque é, singelamente, uma cadeira.

1877

(Murmúrios e Clamores, poesias completas — 1ª edição, 1902.
Rio de Janeiro: Garnier, p. 231. Originalmente do livro
Canções do Outono — 1896 [Nota do Organizador])

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Lúcio de Mendonça — Série Essencial 68, Academia Brasileira de Letras, Organização de João Pedro Fagerlande, 2013, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Lúcio Eugênio de Meneses e Vasconcelos Drummond Furtado de Mendonça (1854 1909), fluminense de Piraí, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo atual USP do Largo de São Francisco , foi advogado, magistrado, jornalista, contista e poeta; colaborou em diversos periódicos da época, entre os quais O Ipiranga e A Província, de São Paulo, A República, do Rio de Janeiro e Colombo, de Campanha RJ; escreveu e publicou Névoas Matutinas (1872), Alvoradas (1875), O Marido da Adúltera (1882), Visões do Abismo (1888), Esboços e Perfis (1889), Vergastas (poesia, 1889), Canções de Outono (1896), Horas do bom tempo (1901), Murmúrios e Clamores — poesias completas (1902), Páginas Jurídicas (1903), A Caminho (1903); Lúcio de Mendonça foi o “pai” da idéia de criação de uma academia de letras, levando-a a efeito; como um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, coube-lhe a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Fagundes Varela.