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Passei a vida inteira vivendo
meias verdades
Sempre tive RG não tinha
identidade,
Me olhava no espelho e tinha
vergonha de mim mesma,
me disseram que eu era tudo,
Morena, mulata eu só não sabia
que era preta.
Agora você aceita
depois de tanto negarem a
minha história eu me descobri.
Eu não estou aqui para ser tua
Barbie
porque nasci sendo abayomi.
Já sofri calada as tuas
humilhações
hoje em silêncio eu não mais sofro.
Você só vai ter minha cabeça
baixa
se conseguir arrancar ela de
cima do meu pescoço.
Eu sou a intrepidez de Harriet
Tubmam
sou a mulher preta, gorda,
lésbica
e nordestina que você não
reconhece a luta e insulta.
Mas, eu estou e não preciso
ser igual a você pra Resistir.
No teu ouvido eu sou o garfo
arranhando o prato
sou a mina que você tentou
fazer de capacho
mas não conseguiu.
Você viu, que mina preta não é
bagunça?
Assume o teu lugar de
privilégio e escuta.
Eu sou aquela neguinha que
meteu fuga
e te deixou passando mal
quando você planejou estuprar
como um senhorzinho fazia no
canavial.
Eu sou o silêncio quebrado,
sou a mosca no teu prato
e esse você vai ser obrigado a
pagar.
Eu sou a praga
o feitiço que as bruxas antes
de serem queimadas lançaram sobre ti.
EU SOU AQUELA QUE VOCÊ
SEMPRE
SILENCIOU
MAS HOJE QUERENDO OU NÃO
VAI
TER QUE OUVIR.
Eu sou aquela que quando você
escreve uma história pra mim
Eu vou e apago
eu sou a princesa que se
depender do meu beijo
você continua sendo sapo.
Eu sei bem que depois de tudo
isso
você vai achar que entrou pra
minha lista negra
Mas fique tranquilo e acredite
que na minha lista negra
só entra quem é vip
esse não é o teu caso.
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Negritude — [10 poetas &
30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia
Literária, São Paulo — SP; Patrícia Meira, nascida em 1988 [?], baiana de Itajuípe,
é poeta, produtora cultural, slammer*, romancista, roteirista, compositora,
oficineira e afroempreendora; mudou-se para São Paulo aos vinte anos de idade;
escreve desde criança, aos 14 anos destruiu todos seus textos e só em 2014
retomou sua relação com a escrita; em São Paulo, frequentando o Sarau Movimento
Aliança da Praça — M.A.P., inicia sua participação em slams — campeonatos de
poesia falada; depois veio a presença e premiações no Slam da Guilhermina e,
assim, foi escrevendo sua história nos slams; suas obras: Por amar outra
mulher, Resisto, É amor que você quer? Então Toma! e Impressões (poesias, todos
em 2018), Manual da Imoralidade (poesia, 2019), Emaranhado (romance, 2019); Patrícia
Meira está enveredando na música sertaneja, com projetos em andamento, é integrante,
compositora e poeta do espetáculo Samba Poética, combinando samba, poesia e
ancestralidade . . .
* Nota deste Verso e Conversa:
algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”,
to slam = bater, uma expressão cujo significado se
assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso
‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito
Neves, prefaciadora de Antifa — coleção
SLAM; b)
nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em
Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim
conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia
falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento
SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do
SLAM.