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domingo, 18 de dezembro de 2022

Patrícia Meira: Identidade

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Passei a vida inteira vivendo meias verdades
Sempre tive RG não tinha identidade,
Me olhava no espelho e tinha vergonha de mim mesma,
me disseram que eu era tudo,
Morena, mulata eu só não sabia que era preta.
Agora você aceita
depois de tanto negarem a minha história eu me descobri.
Eu não estou aqui para ser tua Barbie
porque nasci sendo abayomi.
Já sofri calada as tuas humilhações
hoje em silêncio eu não mais sofro.
Você só vai ter minha cabeça baixa
se conseguir arrancar ela de cima do meu pescoço.
Eu sou a intrepidez de Harriet Tubmam
sou a mulher preta, gorda, lésbica
e nordestina que você não reconhece a luta e insulta.
Mas, eu estou e não preciso ser igual a você pra Resistir.
No teu ouvido eu sou o garfo arranhando o prato
sou a mina que você tentou fazer de capacho
mas não conseguiu.
Você viu, que mina preta não é bagunça?
Assume o teu lugar de privilégio e escuta.
Eu sou aquela neguinha que meteu fuga
e te deixou passando mal
quando você planejou estuprar
como um senhorzinho fazia no canavial.
Eu sou o silêncio quebrado, sou a mosca no teu prato
e esse você vai ser obrigado a pagar.
Eu sou a praga
o feitiço que as bruxas antes de serem queimadas lançaram sobre ti.
EU SOU AQUELA QUE VOCÊ
SEMPRE SILENCIOU
MAS HOJE QUERENDO OU NÃO
VAI TER QUE OUVIR.
Eu sou aquela que quando você escreve uma história pra mim
Eu vou e apago
eu sou a princesa que se depender do meu beijo
você continua sendo sapo.
Eu sei bem que depois de tudo isso
você vai achar que entrou pra minha lista negra
Mas fique tranquilo e acredite
que na minha lista negra
só entra quem é vip
esse não é o teu caso.

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Negritude — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Patrícia Meira, nascida em 1988 [?], baiana de Itajuípe, é poeta, produtora cultural, slammer*, romancista, roteirista, compositora, oficineira e afroempreendora; mudou-se para São Paulo aos vinte anos de idade; escreve desde criança, aos 14 anos destruiu todos seus textos e só em 2014 retomou sua relação com a escrita; em São Paulo, frequentando o Sarau Movimento Aliança da Praça M.A.P., inicia sua participação em slams campeonatos de poesia falada; depois veio a presença e premiações no Slam da Guilhermina e, assim, foi escrevendo sua história nos slams; suas obras: Por amar outra mulher, Resisto, É amor que você quer? Então Toma! e Impressões (poesias, todos em 2018), Manual da Imoralidade (poesia, 2019), Emaranhado (romance, 2019); Patrícia Meira está enveredando na música sertaneja, com projetos em andamento, é integrante, compositora e poeta do espetáculo Samba Poética, combinando samba, poesia e ancestralidade . . .

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa coleção SLAM; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.