quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Bocage: Meu ser evaporei na lida insana . . . [soneto]

Era Clássica Soares Amora A Presença Literatura Portuguesa
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Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava,
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim, quase imortal, a essência humana!

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não doirava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus... ó Deus! quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube!

Bocage
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Presença da Literatura Portuguesa II — Era Clássica, por Antonio Soares Amora, 1974, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765  1805), nascido em Setúbal Portugal, foi poeta representante do arcadismo lusitano; segue para Lisboa (1783), se alista na marinha de guerra, passa a participar da vida boêmia da cidade, e, após, parte para Goa, colônia portuguesa na Índia (1786), depois segue para Damão, outra colônia naquele país, daí seguindo para Macau, possessão portuguesa na China, retornando então para Portugal (1790); Bocage escrevia desde a mais tenra idade, e, ao publicar sua primeira obra, Rimas (1791), foi convidado a participar da academia de belas artes Nova Arcádia e adotou o pseudônimo de Elmano Sadino (Elmano anagrama de Manoel, e Sadino homenagem ao Rio Sado, que banha Setúbal, sua cidade natal); em 1797, acusado de heresia e de levar vida devassa, o poeta foi encarcerado e, após passar por diversas prisões, hospícios e conventos, foi libertado no último dia de 1798; publicou mais duas novas séries de poesias, às quais também deu o nome de Rimas (1799 e 1804); outros escritos: A Morte de D. Ignez, Improvisos de Bocage, Mágoas Amorosas de Elmano, Queixumes do Pastor Elmano Contra a Falsidade da Pastora Urselina, ...

Camões: Enquanto quis Fortuna que tivesse . . . [soneto]

Era Clássica Soares Amora A Presença Literatura Portuguesa
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I

Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho co tormento,
para que seus enganos não dissesse.

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,

verdades puras são, e não defeitos...
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos!

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Presença da Literatura Portuguesa II — Era Clássica, por Antonio Soares Amora, 1974, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Luís Vaz de Camões (1524 1580), português, teria nascido em Lisboa ou em Coimbra, foi poeta e é considerado um dos maiores vultos da literatura em língua portuguesa da Renascença e um dos grandes poetas do mundo ocidental; foi através de sua obra poética que a língua portuguesa passou a expressar sentimentos, sensações, fatos e idéias de uma forma até então jamais alcançada por ninguém; retratou o humanismo e a expansão ultramarina, dois elementos que caracterizaram o Renascimento Português; celebrizou-se não tão somente por ter escrito Os Lusíadas, longo poema épico que expõe a história e a cultura portuguesa até à época vigentes, mas também pelo desenvolvimento de uma obra lírica na qual se encontram, entre os poemas mais famosos, os sonetos; foi só após a sua morte que teve reunida, na coletânea Rimas, sua obra lírica.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Manuel Bandeira: Nova Poética

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Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfa, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.

19 de maio de 1949

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Antologia Poética — Manuel Bandeira, nova edição, 7a. impressão, 2010, Editora Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Manuel Bandeira (1886 1968), pernambucano de Recife, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e antologista; seu legado literário é extenso, deixou-nos muitas obras em verso e prosa e também organizou e publicou antologias de diversas autores e épocas; obra poética: A Cinza das Horas (Edição do Autor, 1917, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro RJ), Carnaval (Edição do Autor, 1919, Rio de Janeiro), Poesias, acrescida de O Ritmo Dissoluto (1924, Rio de Janeiro), Libertinagem (1930, Edição do Autor, Rio de Janeiro), Estrela da Manhã (1936, Edição do Autor, Rio de Janeiro), Poesias Completas, acrescida de Lira dos Cinquent'Anos (Edição do Autor, Rio de Janeiro), Poemas Traduzidos (1945, Rio de Janeiro), Opus 10 (1952, Niterói RJ), Alumbramentos (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Tarde (1960, Rio de Janeiro) e outros; obra em prosa: Crônicas da Província do Brasil (1936, Rio de Janeiro), Guia de Ouro Preto (1938, Rio de Janeiro), Noções de História das Literaturas (1940, Rio de Janeiro), Autoria das Cartas Chilenas (1940, Rio de Janeiro), Apresentação da Poesia Brasileira (1946, Rio de Janeiro), Literatura Hispano-Americana (1949, Rio de Janeiro), Gonçalves Dias, Biografia (1952, Rio de Janeiro), De Poetas e de Poesia (1954, Rio de Janeiro), A Flauta de Papel (1957, Rio de Janeiro), Andorinha, Andorinha (1966, José Olympio, Rio de Janeiro), Itinerário de Pasárgada (1966, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Colóquio Unilateralmente Sentimental (1968, Editora Record, Rio de Janeiro), Berimbau e Outros Poemas (Nova Fronteira, Rio de Janeiro) e outros; antologias:  Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica, da Fase Parnasiana, da Fase Moderna — Volume 1, da Fase Moderna — Volume 2 (todas editadas pela Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia Simbolista (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia Poética (1961, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Poesia do Brasil (1963, Editora do Autor, Rio de Janeiro) e outros; além disso, selecionou e organizou obras de outros autores e traduziu textos de Schiler, Shakespeare, Jean Cocteau, Zorrilla, Fréderic Mistral, Brecht, Morris West, John Ford e outros.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Aline Isaia: Ingenuidade Descalça

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Toda manhã
cozinho, lavo, costuro, planto
e, sem pressa,
rego
sonhos.

Domingo, renuncio.

É vaidade.
O exercício de insistir, a cada semana,
nas promessas do novo que nem sei se um dia
me alcançam.
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Para Tarsila  Coleção Palavra e Arte, de Aline Isaia, Ilustrações de Tarsila do Amaral e apresentação de Tarsila do Amaral  sobrinha neta, 2006, 1a. edição, Editora Alegoria, Porto Alegre  RS; Aline Isaia, escritora e poeta, além de Para Tarsila (2006), escreveu e publicou Do Avesso  fragmentos (2004), Jardim Brasil  Em Tempo de Democracia (2004) ...

Antônio Dinis da Cruz e Silva: Ai triste! O oitavo lustro é já passado . . . [soneto]

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3

Ai triste! O oitavo lustro é já passado
De minha amarga descontente vida,
Sem que nesta carreira tão comprida
Um sincero prazer tenha gostado.

Sempre de densas nuvens rodeado
Me trouxe o Sol a luz apetecida;
E o campo, que pisei na amarga lida,
De abrolhos achei sempre semeado.

Se o bem sucede ao mal, se com presteza
A boa ou má fortuna corre e passa,
Constante na inconstância e ligeireza:

Como só em meus males tem firmeza!
Mas ah! para alongar minha desgraça
Comigo tem mudado a natureza.

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Presença da Literatura Portuguesa II — Era Clássica, por Antonio Soares Amora, 1974, Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Antônio Dinis da Cruz e Silva (1731  1799), português coimbrense, estudou Latim e Filosofia no Colégio dos Oratianos, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, foi magistrado e poeta fundador da Arcádia Lusitana; no Arcadismo usava o pseudônimo de Elpino Nonacriense; consta que coexistia entre os Árcades o lema de muito pouco ou mesmo nada de suas obras serem publicadas em vida, com o poeta isso também se deu: publicou apenas quatro "hinos", três "idílios", duas "odes" e um "ditirambo"; postumamente vieram Odes Pindáricas (1801), O Hissope (1802), Poesias (seis volumes, 1807 1817, incluindo a comédia O Falso Heroísmo).

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Carlos Drummond de Andrade: O Amor e seus Contratos

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Voltas a um mote de Joaquim-Francisco Coelho

Nos contratos que tu lavras
não vi, Amor, valimento.
Só palavras e palavras
feitas de sonho e de vento.

Tanto nas juras mais vivas 
como nos beijos mais longos
em que perduram salivas
de outras paixões ainda ativas,
sopro de angolas e congos,
eu sinto a turva incerteza
(ai, ouro de tredas lavras)
da enovelada surpresa
que põe tanto de estranheza
nos contratos que tu lavras.

Por mais que no teu falar
brilhe a promessa incessante
de um afeto a perdurar
até o mundo acabar
e mesmo depois  diamante
de mil prismas incendidos,
amarga-me o pensamento
de serem pactos fingidos
e nos seus subentendidos
não vi, Amor, valimento.

Experiência de escrituras,
eu tenho. De que me serve?
Após sofridas leituras
de ementas e de rasuras,
no peito a dúvida ferve,
se nos mais doutos cartórios
de Londres, Londrina, Lavras
para assuntos amatórios,
teus itens são ilusórios,
só palavras e palavras.

As nulidades tamanhas
que te invalidam o trato
não sei se provêm de manhas
ou de vistas mais estranhas.
Serão talvez teu retrato
gravado em vento ou em sonho
como aéreo documento
que nunca mais recomponho.
São todas 
 digo tristonho  
feitas de sonho e de vento.

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Corpo, novos poemas, segunda edição, 1984, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Os Dias Lindos — crônicas (1977); A Paixão Medida (1980); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...

domingo, 21 de dezembro de 2014

laboratório: perdidolharemconcrethorizonte


perdidolharemconcrethorizonte
odorescoresvãosdesvãosparedes
sacisduendesmanequinsestátuas
janelasfrestasparaumcéudistante

muroabstratodetijoloslógicos
ralosescombrosburacoderato
pedrascanteiroretorcidogalho
mofoeruínagerminandoonovo
 
presenteeternoqueconduzavícios
choroesorrisosacausaralarde
clínicoolhoperenizaoefêmero

alguémnoturnorespirandoasfotos
gritoesilênciotrespassandoavida
cidadeacolhadebraçosabertos!

fotosAdriana Gragnani  textoGenésio dos Santos
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Adriana Gragnani busca ângulos concretos e abstratos e fotografa; Genésio dos Santos, ativista da palavra, é aprendiz de blogueiro.

laboratório: sonetempero

 
cheiroverdeoutrascoresoutroscheiros
camomilafunchocravogergelim
cebolinhapimentãosalsalecrim
coloríficohortelãpápricalouro
segurelhalhoporótomilhozimbro
rosmaninhocardamomoaçafrão
finesherbesalfavacaipolimão
ervadocealcaparracurryendro
alcaráviamangeronanizmostarda
cogumelodillmastruzamendoim
raizfortecurcumapimentabranca
nozmoscadasalgengibrekümelcoentro
cerefóliobaunilhamanjericão
shoyuallspicecanelacominhorégano

fotosAdriana Gragnani  textoGenésio dos Santos
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Adriana Gragnani busca ângulos concretos e abstratos e fotografa; Genésio dos Santos, ativista da palavra, é aprendiz de blogueiro.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Cecília Meireles: Canção de alta noite

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Alta noite, lua quieta,
muitos frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar... Perder o seu passo
na noite também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar...  enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar  somente,
Não necessita de nada.

Poesia completa
 (ed. do centenário,
2 vols., 2001)
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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 30, Seleção e Prefácio de Ivan Junqueira, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo — SP; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 — 1964), nascida no Rio de Janeiro RJ, foi poeta, ensaísta, cronista, folclorista, tradutora e educadora; em 1919, publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois, vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923) e Baladas para El-rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literária e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados.

Silva Gaio: As Minhas Canções

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Amigos, estas canções
são simples como os descantes
que à tarde vibram, distantes,
levados nas virações.

São como o canto que entoa
o lavrador pela estrada,
e de quebrada em quebrada
plangentemente ressoa.

pois solto-as também ao vento
ao pisar a estrada breve
onde a Ilusão nos deteve
a marcha por um momento;

ao ver já sumir-se ao largo
a terra da mocidade,
quando o pranto orvalho amargo
faz vicejar a Saudade.

Ao lê-las talvez, um dia,
dias vos lembrem risonhos,
em que bordáveis de sonhos
a teia de fantasia,

nessa “terra prometida”,
onde a nossa boca em flor
bebe na taça da vida
o doce néctar do amor.

Talvez ao lê-las oiçais
como num eco vibrar
à hora crepuscular
vossas canções matinais.

Talvez que então do porvir
no deserto desnudado
ainda vos venha sorrir
a miragem do passado...

Amigos, estas canções
são simples, banais descantes,
como os que passam vibrantes,
à tarde, nas virações.

São como estranha cadência
que recordasse, através
da saudade, a limpidez
da voz d'oiro adolescência,

na singeleza lembrando
também rimadas cantigas,
que ao longe fosse entoando
um coro de raparigas.

E se as vou soltando ao vento
ao pisar a estrada breve,
em que a Ilusão nos deteve
a marcha por um momento,

é que dá prazer ignoto
repetir na vida inteira
a mesma canção ligeira
do tempo alegre e remoto,

a doce canção de outrora,
que todos juntos cantamos
cada dia e cada hora,
nos vergéis que atravessamos.

Amigos, estas “canções”
São simples como os descantes,
que à tarde morrem, distantes,
nas serenas virações...

1887

Poesias. Canções do Mondego,
 Rimas Escolhidas — Coimbra,
 França Amado, 1892

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Presença da Literatura Portuguesa IV — Simbolismo, por Antonio Soares Amora, 1969,Difusão Européia do Livro, São Paulo — SP; Manuel da Silva Gaio (1860 1934), português coimbrense, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta, teorizador e ensaísta; iniciador do Neo-lusitanismo, movimento que trouxe para as artes a poesia nacionalista e regionalista, produziu a revista Arte (1895 1896), juntamente com Eugênio de Castro, e através dela procurou integrar Portugal nos movimentos de vanguarda da arte, da literatura e da crítica europeias; colaborou com jornais e revistas da época; escreveu e publicou Primeira Rimas (1880), Poesias Canções do Mondego, Rimas Escolhidas (1892), Os Novos I — Moniz Barreto. Estudo Crítico (1894), O Mundo vive de Ilusão (poesia, 1896), Na Volta da Índia (drama histórico, 1898), A Encruzilhada (drama, 1903), Novos Poemas (1906), Torturador (romance, 1911), Chave Dourada (poesia, 1916), Sulamite (poema, 1928) e outros títulos.