Mostrando postagens com marcador Ary de Mesquita. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ary de Mesquita. Mostrar todas as postagens

sábado, 23 de maio de 2026

Goethe: Quietude no Oceano

 
____________________
[traduzido por Ary de Mesquita]

Um silêncio desceu, profundo, sobre as águas,
E sem arfar sequer repousa o velho mar;
Entanto o pescador, a ruminar as mágoas,
Volve lasso, em redor, os olhos devagar.
Não há nenhum rumor por mais sutil e brando,
Não há no mar ou no ar vagas nem viração...
Só existe o silêncio imenso amortalhando
A impassível aquosa e límpida amplidão.

Johann Wolfgang von Goethe

Meeres Stille

Tiefe Stille herrscht im Wasser,
Ohne Regung ruht das Meer,
Und bekümmert sieht der Schiffer
Glatte Fläche ringsumher.
Keine Luft von keiner Seite!
Todesstille fürchterlich!
In der ungeheuern Weite
Reget keine Welle sich.

[Gedichte — Erster Band]
____________________
Clássicos Jackson, Volume XXXVIII — Poesia, 1º. Volume — [vários autores e tradutores], Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1964, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, iniciou sua formação em Direito pela universidade de Leipzig e a concluiu em Strassburg, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; em casa, aprendeu as primeiras letras com o pai [consta ter aprendido italiano, estudado latim, grego e história “ainda menino”]; Goethe realizou seus primeiros poemas (canções e odes) ainda jovem; suas obras: Die Laune des Verliebten (peça pastoral em versos, 1768), Götz von Berlinchingen (drama histórico em 5 atos, 1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, romance, 1774), Clavigo (tragédia em 5 atos, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Römische Elegien (Elegias Romanas, 24 poemas, 1788-1’790), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (Der Zauberlehrling, balada, 1797), Hermann e Dorothea (poema épico, 1798), Die natürliche Tochter (drama em verso, 18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (romance, 1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, coleção de poemas, 1819, e versão ampliada em 1827), Gedichte (Poesias: baladas, lieder, sonetos, etc.); Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

quinta-feira, 26 de março de 2026

Jean Richepin: Homem, cruel, tem cuidado! . . .

 
____________________
[traduzido por Ary de Mesquita]

Do “Nivose”

Homem, cruel, tem cuidado!
Pois não vês espedaçado
O nosso corpo aos teus pés?
Cessa tuas investidas,
Somos pobres margaridas,
Mas tu não ouves, quem és?!

Eu sou aquele coitado,
Que, em tempos de namorado,
A vossa astúcia traiu;
Morrei, mentiroso bando,
Foi vossas pét’las contando
Que minha amante mentiu!

Jean Richepin

X

«Homme aux yeux cruels, prends garde!
Tu nous écrases! Regarde
Nos cadavres sous tes pas.
Tu pleures et tu t’irrites.
Nous sommes les marguerites.
Pitié! Mais tu n’entends pas.

Si, je vous entends, menteuses.
Ô peuple d’entremetteuses,
Sois-tu donc anéanti!
Mourez sous mes mains brutales!
C’est en comptant vos pétales
Que ma maîtresse a menti.»

(Les Caresses [groupement: Nivôse], 1877)
____________________
Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Auguste-Jules Richepin, ou Jean Richepin (1849 1926), franco-argelino nascido em Medeia Argélia, à época departamento francês no norte da África, teve seus primeiros aprendizados escolares no Lycée Charlesmagne, estudou e diplomou-se em Literatura na École Normale Supérieure, ambos em Paris, foi poeta, romancista, dramaturgo, marinheiro, estivador, porteiro, professor ...; em 1870-1871, voluntariou-se e participou da Guerra franco-pruissiana; em 1873, estreou como ator e dramaturgo com a peça L'Étoile e, já frequentador do Quartier Latin a Montmartre, bairros parisienses, sua vida boêmia e marginal acabou por inspirá-lo na criação das primeiras e provocativas poesias, as quais, já na estréia com sua obra La chanson de Gueux (poemas, 1876), tal como o ocorrido com Baudelaire (na publicação de Fleurs du Mal), lhe renderam uma condenação à prisão, além do pagamento de 600 francos de multa, pelo fato de alguns dos poemas terem sido considerados ofensivos e terem causado escândalo social; suas obras: coleções de poemas: Chanson des gueux (1876), Les Caresses (groupements: Floréal, Thermidor, Brumaire et Nivôse, 1877), Les Blasphemes (1884), La Mer (1886), Les Litanies de la mer (1894), Mes Paradis (1894), La Bombarde (1899), Poèmes durant la guerre: 1914-1918 (1919), Les Glas (1922) ..., romances: Les Morts bizarres (1876), Madame André (1878), La Glu (1881), Le Pave (1883), Miarka la fille à l'ours (1883), Les braves gens (1886), Césarine (1888) ..., e peças teatrais: Nana Sahib (drame en vers en 7 tableaux, 1883), Le Chemineau (drame en 5 actes, 1897), etc.; o poeta também compôs textos para músicos, colaborou em vários jornais, pertenceu à Académie Française (Academia Francesa); um “viajante incansável”, andejou por Londres, viajou pela Itália, Espanha, Alemanha, Escandinávia, Norte da África, ocasiões em que proferia conferências e redigia artigos para a imprensa parisiense.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Musset: Vida não vivida

 
____________________
[traduzido por Francisco Octaviano]

Era bela, como a estátua
Em mortuária capela,
Dormindo em leito de pedra,
Imóvel, pode ser bela.

Tinha bondade, se basta
Dar, ao acaso, sem dó,
Sem que Deus enxergue a esmola,
Se a esmola é dinheiro só.

Pensava, se o vão ruído
De um falar suave e lento,
Como gemido de arroio,
Denuncia o Pensamento.

Orava, se os olhos negros
Uma fez fitos no chão,
Outra vez ao céu erguidos,
Podem chamar-se oração.

Sorria, se o refrigério
De uma brisa, na alvorada,
Chegasse a expandir a flor
Que se conserva fechada.

Chorara, se, argila inerte,
Seu coração ressequido
Gotas de celeste orvalho
Pudesse haver recolhido.

Amara, se no seu peito
Não velasse orgulho fútil,
Como em cima de um sepulcro
Se entretém lâmpada inútil.

Aparentava viver...
Sem ter vivido morreu...
Caiu-lhe das mãos o livro...
Nesse livro nada leu!

Musset

Sur une morte

Elle était belle, si la Nuit
Qui dort dans la sombre chapelle
Où Michel-Ange a fait son lit,
Immobile peut être belle.

Elle était bonne, s’il suffit
Qu’en passant la main s’ouvre et donne,
Sans que Dieu n’ait rien vu, rien dit,
Si l’or sans pitié fait l’aumône.

Elle pensait, si le vain bruit
D’une voix douce et cadencée,
Comme le ruisseau qui gémit
Peut faire croire à la pensée.

Elle priait, si deux beaux yeux,
Tantôt s’attachant à la terre,
Tantôt se levant vers les cieux,
Peuvent s’appeler la Prière.

Elle aurait souri, si la fleur
Qui ne s’est point épanouie
Pouvait s’ouvrir à la fraîcheur
Du vent qui passe et qui l’oublie.

Elle aurait pleuré si sa main,
Sur son coeur froidement posée,
Eût jamais, dans l’argile humain,
Senti la céleste rosée.

Elle aurait aimé, si l’orgueil
Pareil à la lampe inutile
Qu’on allume près d’un cercueil,
N’eût veillé sur son coeur stérile.

Elle est morte, et n’a point vécu.
Elle faisait semblant de vivre.
De ses mains est tombé le livre,
Dans lequel elle n’a rien lu.
____________________
Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Alfred Louis Charles de Musset (1810 1857), francês e parisiense, antes de completar 9 anos de idade foi matriculado no Lycée Henri IV, concluiu o ensino médio, depois aventurou-se nos estudos de medicina, direito, pintura, música, logo os abandonou, e passou a se dedicar com determinação e interesse à literatura, foi poeta, novelista, romancista, crítico e dramaturgo, e tido como "l'enfant terrible" do período romantista em Paris; “desde os 14 anos já fazia seus versos": A ma mére (1824), À Mademoiselle Zoé le Douairin (1826), Un rêve et L’anglais mangeur d’opium (1828)...; escreveu e publicou Premières poésies (1829), Une nuit vénitienne (teatro, 1830), Contes d'Espagne et d'Itale (coletânea de poemas, Contos da Espanha e da Itália, 1830), Secrètes pensées de Raphael (Pensamentos secretos de Raphael, 1830), Voeux stériles (Voos estéreis, 1830), Namouna (poema narrativo, 1831), La coupe et les lèvres (teatro, 1832), Rolla (longo poema narrativo, 1833), On ne badine pas avec l'amour (Com o amor não se brinca, teatro comédia, 1834), Lorenzaccio (drama romântico, 1834), Fantasio (teatro comédia, 1834), Le Chandelier (comédia em três atos, 1835), La confession d'un enfant du siècle (A confissão de um filho do século, novela autobiográfica, 1836), Les Nuits: La Nuit de Mai [1835], La Nuit de Décembre [1835], La Nuit d'Août [1836], La Nuit d'Octobre [1837], La Nuit d’Avril [1838] (ciclo As Noites, 1835-1838), Lettres du Dupuis et Cotonet (crítica, Cartas de Dupuis e Cotonet, 1837), Souvenir (Recordação, 1841), Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermé preciso que uma porta esteja aberta ou fechada, comédia, 1845), Carmosine (comédia em Um Ato, 1850), Bettine (comédia, 1851) e outros textos em verso e prosa e para teatro; teve poemas musicados por Hector Berlioz [poème Le Lever, 1839], Charles Gounod [avec piano, Venise, 1849], Édouard Lalo [trois mélodies: À une fleur, Chanson de Barberine et La Zuecca, 1870], Claude Debussy [Madrid, 1879], [Rondeau, 1881] e [Chanson espagnole, 1883] etc.; pertenceu à Académie Française; o poeta, desde 1824, foi um dos frequentadores do “Cénacle”, salão literário de Charles Nodier bibliotecário da Bibliotéque de l’Arsenal, e tendo como companhia Victor Hugo e outros; passou a viver como um “dândi devasso”, teve várias amantes, uma das quais a escritora George Sand [pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant]; em 1845, Musset foi condecorado com a Legião de Honra em reconhecimento à sua influência na literatura francesa; com a “saúde frágil, mas sobretudo atormentado pelo alcoolismo, pela ociosidade e pela devassidão, morreu de tuberculose em 2 de maio de 1857”, aos 46 anos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Antero de Quental: Solemnia Verba

 
____________________
Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andamos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E noite, onde foi luz de primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.

____________________
Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Antero Tarquínio de Quental (1842 1891), natural de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel [Arquipélago dos Açores]  Portugal, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta, escritor e tipógrafo; publicou seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publicou Odes Modernas, na qual enalteceu a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã, polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução intelectual; em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português; em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã, 1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886) entre outros títulos; suicidou-se com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.

sábado, 29 de novembro de 2025

Heine: Diz que outrora um cavalheiro Adorava uma donzela, . . .

 
____________________
[traduzido por Ary de Mesquita]

XXXIX.

Diz que outrora um cavalheiro
Adorava uma donzela,
Que amava outro, e que, um dia,
Foi saber que não a ela,
Mas a outra este queria.

De rancor e de despeito,
Ao primeiro namorado
Ela aceita o casamento,
E o cavalheiro, coitado!
Vai morrer de sofrimento.

* * *

Tais histórias são antigas,
Antigas como as estrelas,
Mas sempre novas serão,
E a quem sucede uma delas
Se lhe parte o coração.

(Livro das Canções [inclui Intermezo Lírico] — 1827)

Heinrich Heine

Ein Jüngling liebt ein Mädchen

Lied XXXIX.

Ein Jüngling liebt ein Mädchen,
Die hat einen andern erwählt;
Der andre liebt eine andre,
Und hat sich mit dieser vermählt.

Das Mädchen heiratet aus Ärger
Den ersten besten Mann,
Der ihr in den Weg gelaufen;
Der Jüngling ist übel dran.

Es ist eine alte Geschichte,
Doch bleibt sie immer neu;
Und wem sie just passieret,
Dem bricht das Herz entzwei.

[1822]

(Buch der Lieder [+ Lyrisches Intermezzo] — 1827)
____________________
Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formou-se em Direito, estudou nas universidades de Bonn, Göttingen e Berlim, sempre se interessou mais pela literatura, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; em 1817, teve poemas publicados pela primeira vez na revista Hamburgs Wächter; frequentou salões e círculos literários berlinenses, traduziu obras de Lord Byron; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por renomados compositores: Franz Schubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner, e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; Heine, devido a suas posições político-progressistas e críticas à Alemanha, sofreu censura, seus livros estiveram proibidos de circular no país e, em 1831, o poeta foi forçado a se mudar para Paris; viveu no exílio até a morte parte deste período esteve “permanentemente acamado devido a uma doença espinhal” que o paralisou; suas obras: Gedichte (Poesias, 1821), Reisebilder (Quadros de Viagem, 4 volumes, prosa, 18261831), Buch der Lieder [+ Lyrisches Intermezzo] (Livro das Canções [inclui Intermezo Lírico 20 poemas], poesias, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Hebraïsche Melodien (Melodias Hebraicas), Lyrische und Spruchwitz-Dichtung (Poesia Lírica e sarcástica), Deutschland. Ein Wintermärchen (Alemanha. Um Conto de Inverno, poema satírico, 1844), Atta Troll — Ein Sommermachtstraum (Atta Troll — sonho de uma noite de verão, 1847), Romanzero (Romanceiro, poesias, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (Últimos Versos, publicação póstuma, 1869), entre outros títulos, inclusive prosa.

sábado, 22 de novembro de 2025

Antero de Quental: Evolução

 
____________________
Fui rocha, em tempo, e fui no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onde, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul, glauco pascigo...

Hoje sou homem e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente á liberdade.

____________________
Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Antero Tarquínio de Quental (1842 1891), natural de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel [Arquipélago dos Açores] Portugal, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta, escritor e tipógrafo; publicou seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publicou Odes Modernas, na qual enalteceu a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã, polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução intelectual; em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português; em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã, 1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886) entre outros títulos; suicidou-se com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.

domingo, 16 de novembro de 2025

Heine: Imagens do meu passado, Imagens do tempo antigo, . . .

 
____________________
[traduzido por Ary Mesquita]

XXXVIII.

Imagens do meu passado,
Imagens do tempo antigo,
Às vezes vão ressurgindo,
Os dias reproduzindo
Em que falei contigo.

De dia, andava tristonho
Falando comigo mesmo,
A todas perguntas mudo,
Se retrucava era a esmo,
Indiferente a tudo.

De noite, pálido, errante,
Lá ia eu pela rua,
Só da sombra acompanhado,
Com o semblante enamorado
A contemplar a lua.

E os meus passos fatigados
Palmilhavam a cidade
Até que enfim, devagar,
Os astros na imensidade
Deixassem de brilhar.

E parava em sua casa,
E ficava horas olhando
Tua janela fechada,
Com minh’alma apunhalada
E o coração sangrando.

Eu sei, uma vez, curiosa,
Na ponta dos pés, a medo,
Tu foste à janela, e me viste:
Imóvel como um rochedo,
E como a noite triste.

(Livro das Canções [inclui Intermezo Lírico] — 1827)

Heinrich Heine

Manch Bild vergessener Zeiten

Lied XXXVIII

Manch Bild vergessener Zeiten
Steigt auf aus seinem Grab,
Und zeigt, wie in deiner Nähe
Ich einst gelebet hab.

Am Tage schwankte ich träumend
Durch alle Straßen herum;
Die Leute verwundert mich ansahn,
Ich war so traurig und stumm.

Des Nachts da war es besser,
Da waren die Straßen leer;
Ich und mein Schatten selbander,
Wir wandelten schweigend einher.

Mit widerhallendem Fußtritt
Wandelt ich über die Brück;
Der Mond brach aus den Wolken,
Und grüßte mit ernstem Blick.

Stehn blieb ich vor deinem Hause,
Und starrte in die Höh,
Und starrte nach deinem Fenster —
Das Herz tat mir so weh.

Ich weiß, du hast aus dem Fenster
Gar oft herabgesehn,
Und sahst mich im Mondenlichte
Wie eine Säule stehn.

(Buch der Lieder [+ Lyrisches Intermezzo] — 1827)
____________________
Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Christian Johann Heinrich Heine (1797 1856), alemão de Dusseldorf, formou-se em Direito, estudou nas universidades de Bonn, Göttingen e Berlim, sempre se interessou mais pela literatura, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; em 1817, teve poemas publicados pela primeira vez na revista Hamburgs Wächter; frequentou salões e círculos literários berlinenses, traduziu obras de Lord Byron; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por renomados compositores: Franz Schubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner, e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; Heine, devido a suas posições político-progressistas e críticas à Alemanha, sofreu censura, seus livros estiveram proibidos de circular no país e, em 1831, o poeta foi forçado a se mudar para Paris; viveu no exílio até a morte parte deste período esteve “permanentemente acamado devido a uma doença espinhal” que o paralisou; suas obras: Gedichte (Poesias, 1821), Reisebilder (Quadros de Viagem, 4 volumes, prosa, 18261831), Buch der Lieder [+ Lyrisches Intermezzo] (Livro das Canções [inclui Intermezo Lírico 20 poemas], poesias, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844), Hebraïsche Melodien (Melodias Hebraicas), Lyrische und Spruchwitz-Dichtung (Poesia Lírica e sarcástica), Deutschland. Ein Wintermärchen (Alemanha. Um Conto de Inverno, poema satírico, 1844), Atta Troll — Ein Sommermachtstraum (Atta Troll — sonho de uma noite de verão, 1847), Romanzero (Romanceiro, poesias, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (Últimos Versos, publicação póstuma, 1869), entre outros títulos, inclusive prosa.

sábado, 15 de novembro de 2025

Baudelaire: A Carniça

____________________
[traduzido por Ary de Mesquita]

Tu recordas, querida, aquilo que estou vendo
inda pela lembrança?
Na volta de uma estrada, um cadáver horrendo
Que sobre as pedras descansa.

As pernas para o ar, como uma fêmea ardente,
E que exale e que difunda
O veneno, ele expõe, cínico e indiferente,
Sua carne nauseabunda.

Nessa putrefação, brilhante, o sol luzia
Pra cozê-la devagar,
A fim de devolver à natureza, um dia,
O que ela pode juntar.

E contemplava o céu o fúnebre despojo
Abrir-se como uma flor.
Quem lhe estivesse ao pé vomitava de nojo
Ao lhe sentir o fedor.

Moscas vinham cheirar, nesse pútrido ventre,
As viscosas multidões
De vermes a vagar, negras e aquosas, entre
As fezes das podridões.

E tudo isto descia, e tudo isto subia,
E avançava borbulhando;
Dir-se-ia que um sopro o corpo revivia,
Cheio se multiplicando.

E esse pequeno mundo estranho produzia
Como os ventos um rumor,
Que lembra a água corrente, e lembra o grão que chia
Na joeira do semeador.

Sua forma esbateu-se em figura imprecisa
Como um debuxo que lança
No painel o pintor, e o esquece, e após precisa
Terminá-lo de lembrança.

Por detrás de uim rochedo, olhos de cão faminto
Nos olhavam irritados,
Espreitando a ocasião de saciar o instinto
Em mais dois ou três bocados.

Mas um dia serás igual à sordideza
Dessa horrenda podridão,
Luz dos meus olhos, sol da minha natureza,
Minha trágica paixão.

Ouve, serás assim, rainha das amadas,
Quando, sem vida, tu fores
Apodrecer teu corpo esbelto entre as ossadas,
Sob a erva e sob as flores.

Então, querida, diz aos vermes do monturo,
Que aos beijos te comerão,
Que eu guardei para mimo que havia de puro
Do teu ser em corrupção!

Charles Baudelaire

Une charogne

XXIX

Rappelez-vous l'objet que nous vîmes, mon âme,
Ce beau matin d'été si doux:
Au détour d'un sentier une charogne infame
Sur un lit semé de cailloux,

Les jambes en l'air, comme une femme lubrique,
Brûlante et suant les poisons,
Ouvrait d'une façon nonchalante et cynique
Son ventre plein d'exhalaisons.

Le soleil rayonnait sur cette pourriture,
Comme afin de la cuire à point,
Et de rendre au centuple à la grande Nature
Tout ce qu'ensemble elle avait joint.

Et le ciel regardait la carcasse superbe
Comme une fleur s'épanouir;
La puanteur était si forte, que sur l'herbe
Vous crûtes vous évanouir.

Les mouches bourdonnaient sur ce ventre putride,
D'où sortaient de noirs bataillons
De larves qui coulaient comme un épais liquide
Le long de ces vivants haillons.

Tout cela descendait, montait comme une vague
Ou s'élançait en pétillant;
On eût dit que le corps, enflé d'un souffle vague,
Vivait en se multipliant.

Et ce monde rendait une étrange musique
Comme l'eau courante et le vent,
Ou le grain qu'un vanneur d'un mouvement rythmique
Agite et tourne dans son van.

Les formes s'effaçaient et n'étaient plus qu'un rêve,
Une ébauche lente à venir
Sur la toile oubliée, et que l'artiste achève
Seulement par le souvenir.

Derrière les rochers une chienne inquiète
Nous regardait d'un oeil fâché,
Epiant le moment de reprendre au squelette
Le morceau qu'elle avait lâché.

 Et pourtant vous serez semblable à cette ordure,
A cette horrible infection,
Étoile de mes yeux, soleil de ma nature,
Vous, mon ange et ma passion!

Oui! telle vous serez, ô la reine des grâces,
Apres les derniers sacrements,
Quand vous irez, sous l'herbe et les floraisons grasses,
Moisir parmi les ossements.

Alors, ô ma beauté! dites à la vermine
Qui vous mangera de baisers,
Que j'ai gardé la forme et l'essence divine
De mes amours décomposés!

(Les Fleurs du Mal, poemas 1857)
____________________
Clássicos Jackson, Volume XXXIX — Poesia, 2º. Volume [vários autores e tradutores] — Selecção e Notas de Ary de Mesquita, 1958, W. M. Jackson Editores, Rio de Janeiro — RJ; Charles-Pierre Baudelaire (1821 1867), francês e parisiense, foi aluno interno do Colégio Real de Lyon, concluiu seus estudos secundários no Liceu Louis-le-Grand em Paris, foi poeta, crítico de arte, ensaísta, tradutor e literato; não quis seguir carreira alguma, fez imersão no mundo literário, por pressão familiar partiu em viagem para Calcutá Índia, desistiu a meio caminho e retornou para a França; Baudelaire, ao atingir a maioridade tomou posse de parte da herança paterna, adquiriu independência econômica e, em Paris, passou a viver entre poetas e pintores, levando vida boêmia no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne); Baudelaire foi um dos precursores do Simbolismo e é reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia, sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX; obras: As Flores do Mal (Les Fleurs du Mal, poemas, 1857 e + reedições), Os Paraísos Artificiais (Les Paradis Artificiels, ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (Petits poèmes en prose ou Le Spleen de Paris, edição póstuma, 1869), outros vários títulos e alguns inacabados; As Flores do Mal, considerada a sua mais conhecida e principal obra, em sua 1ª edição e divulgação recebeu fortes contestações no campo da moral dos costumes e na justiça; em razão do lançamento, Baudelaire foi julgado, recebeu censuras e multas governamentais e, para a 2ª edição da obra, o poeta foi forçado a excluir alguns poemas (seis), e incluiu outros (dezoito); traduziu Edgar Allan Poe.