O conto abaixo, de autoria
de Lobato, faz parte do livro Cidades Mortas (contos, 1920) e pertence à era
pré-modernista da literatura brasileira. Vale a pena a leitura.
____________________
Chamava-se João Teodoro, só. O mais pacato e modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro.
____________________
Chamava-se João Teodoro, só. O mais pacato e modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro.
Nunca fora nada na vida, nem admitia
a hipótese de vir a ser alguma coisa. E por muito tempo não quis nem sequer o
que todos ali queriam: mudar-se para terra melhor.
Mas João Teodoro acompanhava com
aperto do coração o desaparecimento visível de sua Itaoca.
— Isto já foi muito melhor, dizia
consigo. Já teve três médicos bem bons — agora só um e bem ruinzote. Já teve
seis advogados e hoje mal dá serviço para um rábula ordinário como o Tenório.
Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que presta se muda. Fica o
restolho. Decididamente, a minha Itaoca está se acabando...
João Teodoro entrou a incubar a idéia
de também mudar-se, mas para isso necessitava dum fato qualquer que o
convencesse de maneira absoluta de que Itaoca não tinha mesmo conserto ou arranjo
possível.
— É isso, deliberou lá por dentro. Quando
eu verificar que tudo está perdido, que Itaoca não vale mais nada de nada,
então arrumo a trouxa e boto-me fora daqui.
Um dia aconteceu a grande novidade: a
nomeação de João Teodoro para delegado. Nosso homem recebeu a notícia como se
fosse uma cacetada no crânio. Delegado, ele! Ele que não era nada, nunca fora
nada, não queria ser nada, se julgava capaz de nada...
Ser delegado numa cidadezinha
daquelas é coisa seriíssima. Não há cargo mais importante. É o homem que prende
os outros, que solta, que manda dar sovas, que vai à capital falar com o
governo. Uma coisa colossal ser delegado — e estava ele, João Teodoro,
de—le—ga—do de Itaoca!...
João Teodoro caiu em meditação
profunda. Passou a noite em claro, pensando e arrumando as malas. Pela
madrugada botou-as num burro, montou seu cavalinho magro e partiu.
Antes de deixar a cidade foi visto por
um amigo madrugador.
— Que é isso, João? Para onde se
atira tão cedo, assim de armas e bagagens?
— Vou-me embora, respondeu o
retirante. Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim.
— Mas, como? Agora que você está
delegado?
— Justamente por isso. Terra em que
João Teodoro chega a delegado eu não moro. Adeus.
E sumiu.

____________________
Português no
colégio — primeiro e segundo anos dos cursos clássico, científico,
normal e para a iniciação às Faculdades de Filosofia, de Raul Moreira
Léllis, 14a. edição, 1970, Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP;
José Bento Renato Monteiro Lobato (1882 — 1948), paulista de Taubaté, formado
pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atual USP), foi promotor
público, contista, ensaísta, tradutor e editor; é considerado um dos mais
influentes escritores brasileiros, tendo sido um dos primeiros autores de
literatura infantil do Brasil e de toda a América Latina; escreveu para
revistas e jornais de sua época, A Tribuna (de Santos), Gazeta de Notícias e
revista Fon-Fon (do Rio de Janeiro) e O Estado de São Paulo; fundou a revista
Paraíba, em Caçapava — SP, na qual teve como colaboradores Olavo Bilac,
Cassiano Ricardo e Coelho Neto, entre outras importantes figuras da literatura;
colaborou na Revista do Brasil e, posteriormente, adquirindo-a e se tornando seu editor, transformou-a em centro de cultura, contando com uma rede de
distribuição com mais de mil representantes; participou da criação da Companhia Editora Nacional; foi co-fundador da Editora Brasiliense e da Revista Brasiliense, juntamente com Caio Prado Júnior e Artur Neves e, na Argentina, por onde também andou, fundou a Editorial Acteon; sua obra é, em grande parte, composta de livros para
crianças; escreveu e publicou, Idéias de Jeca Tatu (1918), Urupês (contos, 1918),
Cidades Mortas (contos, 1920), Negrinha (contos, 1920), O Saci (infantil, 1921),
Fábulas de Narizinho (infantil, 1921), O Marquês de Rabicó (1922), O Macaco que
se fez Homem (romance, 1923), Reinações de Narizinho (infantil, 1931), Caçadas
de Pedrinho (1933), Emília no país da Gramática (1934), Histórias de Tia Nastácia
(1937), O Escândalo do Petróleo (1936), O Pica-Pau Amarelo (infantil, 1939),
e tantos outros títulos; da literatura estrangeira, Lobato traduziu e
adaptou Contos de Grimm, Contos de Andersen, Alice no País das Maravilhas, Alice
no País dos Espelhos, Robinson Crusoé, Robin Hood.

