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terça-feira, 31 de março de 2015

Monteiro Lobato: Um homem de consciência

O conto abaixo, de autoria de Lobato, faz parte do livro Cidades Mortas (contos, 1920) e pertence à era pré-modernista da literatura brasileira. Vale a pena a leitura.
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          Chamava-se João Teodoro, só. O mais pacato e modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro.
          Nunca fora nada na vida, nem admitia a hipótese de vir a ser alguma coisa. E por muito tempo não quis nem sequer o que todos ali queriam: mudar-se para terra melhor.
          Mas João Teodoro acompanhava com aperto do coração o desaparecimento visível de sua Itaoca.
          Isto já foi muito melhor, dizia consigo. Já teve três médicos bem bons agora só um e bem ruinzote. Já teve seis advogados e hoje mal dá serviço para um rábula ordinário como o Tenório. Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que presta se muda. Fica o restolho. Decididamente, a minha Itaoca está se acabando...
          João Teodoro entrou a incubar a idéia de também mudar-se, mas para isso necessitava dum fato qualquer que o convencesse de maneira absoluta de que Itaoca não tinha mesmo conserto ou arranjo possível.
          É isso, deliberou lá por dentro. Quando eu verificar que tudo está perdido, que Itaoca não vale mais nada de nada, então arrumo a trouxa e boto-me fora daqui.
          Um dia aconteceu a grande novidade: a nomeação de João Teodoro para delegado. Nosso homem recebeu a notícia como se fosse uma cacetada no crânio. Delegado, ele! Ele que não era nada, nunca fora nada, não queria ser nada, se julgava capaz de nada...
          Ser delegado numa cidadezinha daquelas é coisa seriíssima. Não há cargo mais importante. É o homem que prende os outros, que solta, que manda dar sovas, que vai à capital falar com o governo. Uma coisa colossal ser delegado e estava ele, João Teodoro, delegado de Itaoca!...
          João Teodoro caiu em meditação profunda. Passou a noite em claro, pensando e arrumando as malas. Pela madrugada botou-as num burro, montou seu cavalinho magro e partiu.
          Antes de deixar a cidade foi visto por um amigo madrugador.
          Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens?
          Vou-me embora, respondeu o retirante. Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim.
          Mas, como? Agora que você está delegado?
          Justamente por isso. Terra em que João Teodoro chega a delegado eu não moro. Adeus.
          E sumiu.

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Português no colégio — primeiro e segundo anos dos cursos clássico, científico, normal e para a iniciação às Faculdades de Filosofia, de Raul Moreira Léllis, 14a. edição, 1970, Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; José Bento Renato Monteiro Lobato (1882  1948), paulista de Taubaté, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (atual USP), foi promotor público, contista, ensaísta, tradutor e editor; é considerado um dos mais influentes escritores brasileiros, tendo sido um dos primeiros autores de literatura infantil do Brasil e de toda a América Latina; escreveu para revistas e jornais de sua época, A Tribuna (de Santos), Gazeta de Notícias e revista Fon-Fon (do Rio de Janeiro) e O Estado de São Paulo; fundou a revista Paraíba, em Caçapava  SP, na qual teve como colaboradores Olavo Bilac, Cassiano Ricardo e Coelho Neto, entre outras importantes figuras da literatura; colaborou na Revista do Brasil e, posteriormente, adquirindo-a e se tornando seu editor, transformou-a em centro de cultura, contando com uma rede de distribuição com mais de mil representantes; participou da criação da Companhia Editora Nacional; foi co-fundador da Editora Brasiliense e da Revista Brasiliense, juntamente com Caio Prado Júnior e Artur Neves e, na Argentina, por onde também andou, fundou a Editorial Acteon; sua obra é, em grande parte, composta de livros para crianças; escreveu e publicou, Idéias de Jeca Tatu (1918), Urupês (contos, 1918), Cidades Mortas (contos, 1920), Negrinha (contos, 1920), O Saci (infantil, 1921), Fábulas de Narizinho (infantil, 1921), O Marquês de Rabicó (1922), O Macaco que se fez Homem (romance, 1923), Reinações de Narizinho (infantil, 1931), Caçadas de Pedrinho (1933), Emília no país da Gramática (1934), Histórias de Tia Nastácia (1937), O Escândalo do Petróleo (1936), O Pica-Pau Amarelo (infantil, 1939), e tantos outros títulos; da literatura estrangeira, Lobato traduziu e adaptou Contos de Grimm, Contos de Andersen, Alice no País das Maravilhas, Alice no País dos Espelhos, Robinson Crusoé, Robin Hood.

domingo, 5 de outubro de 2014

Virgínia Victorino: O que eu te não digo

O meu desejo era mandar-te prosa
cheia de cor, de brilho, de relevo,
na pequenina folha cor-de-rosa
deste papel vulgar em que te escrevo.

Palavras de ternura? Não me atrevo.
Se penso numa frase carinhosa
arrependo-me logo:  “Não… Não devo…”
E a página sai fria, dolorosa.

Lamentas-te. Bem sei que tens razão.
Quero escrever, falar, e não consigo…
Vê que perturbadora comoção!

E, contudo, tu tens de compreender
o que eu, por mais que faça, te não digo;
o que eu não sou capaz de te escrever.

(Namorados  1918)

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Português no colégio — primeiro e segundo anos dos cursos clássico, científico, normal e para a iniciação às Faculdades de Filosofia, de Raul Moreira Léllis, 14a. edição, 1970, Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Virgínia Villa Nova de Sousa Victorino (1895 1967), natural de Alcobaça  Portugal, foi professora, dramaturga e poetisa; cursou Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, e piano, canto, harmonia e italiano no Conservatório Nacional de Lisboa; dirigiu o teatro radiofônico na Emissora Nacional; escreveu e publicou Namorados (poemas, 1918  reeditado mais de uma dezena de vezes) e A Volta (teatro, 1932), entre outros livros de poesia e de peças teatrais; teve vasta colaboração em jornais e revistas portuguesas e brasileiras; recebeu premiações por sua obra.

sábado, 4 de outubro de 2014

Antero de Quental: O Palácio da Ventura

Resultado de imagem para Português no colégio — primeiro e segundo anos dos cursos clássico, científico, normal e para a iniciação às Faculdades de Filosofia, de Raul Moreira Léllis,
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Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão  e nada mais!

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Português no colégio — primeiro e segundo anos dos cursos clássico, científico, normal e para a iniciação às Faculdades de Filosofia, de Raul Moreira Léllis, 14a. edição, 1970, Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Antero Tarquínio de Quental (1842 1891), português de Ponta Delgada (Ilha dos Açores), formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta e escritor; publica seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publica Odes Modernas, na qual enaltece a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã, polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução intelectual; em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português;  em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou: Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã, 1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886) entre outros títulos; suicidou-se com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Olegário Mariano: Os Termos da Jornada

Meus amigos, cheguei ao termo da jornada.
Não foi suave a ascensão como é calma a descida.
Se trago o coração virgem como a alvorada,
Foi o que Deus me deu, na partilha da vida.

Amei. Sofri. Na solidão da minha estrada,
Muitas vezes, curvei-me à injúria imerecida.
Uma calúnia, uma injustiça, uma pedrada,
Mas, a cigarra voou, mesmo de asa partida.

Voou cantando... O horizonte abraçava as montanhas.
O encanto da ascensão e o anseio da vitória
Irmanavam-se os dois em músicas estranhas.

Subi alto e ao descer... quanta desesperança!
Se a vida chora em mim um passado sem glória,
O amor floresce em mim, nos meus olhos de criança.

(O Enamorado da Vida  1937)

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Português no colégio — primeiro e segundo anos dos cursos clássico, científico, normal e para a iniciação às Faculdades de Filosofia, de Raul Moreira Léllis, 14a. edição, 1970, Companhia Editora Nacional, São Paulo — SP; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta e jornalista; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; ficou conhecido como o "poeta das cigarras" por causa de um de seus temas prediletos; obras literárias: Angelus (1911); Sonetos (1912); Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913); Água corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918); Últimas Cigarras (1920); Bataclan (crônicas em versos, 1923); Canto da minha terra (1930); Destino (1931); Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933); O Enamorado da Vida (prefácio de Júlio Dantas, 1937), A Vida que já vivi (memórias, 1945); Toda uma Vida de Poesia (1957); e tantos outros títulos.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Raul Bopp: Mãe-preta


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 Mãe-preta conte uma história.
 Então feche os olhos filhinho:

Longe muito longe
era uma vez o Congo…

Por toda parte o mato grande.
Muito sol batia o chão.

De noite
chegavam os elefantes.
Então o barulho do mato crescia.

Quando o rio ficava brabo
inchava.

Brigava com as árvores.
Carregava  com tudo, águas abaixo,
até chegar na boca do mar
 um mar de malem
xumaré
momulú de aluê du querê
O lê-lê

Depois…

Os olhos da preta pararam.
Acordaram-se as vozes do sangue
glu-glus de água engasgada
naquele dia do nunca-mais.

Era uma praia vazia
uns riscos brancos de areia
e batelões carregando escravos.

Então
começou  o porão negreiro.
Era um mar que não acabava mais.

depois…

 Ué mãezinha,
por que você não conta o resto da história?


('Cobra Norato "?"' ... e outros poemas)
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Português no colégio  primeiro e segundo anos dos cursos clássico, científico, normal e para a iniciação às Faculdades de Filosofia, de Raul Moreira Léllis, 14a. edição, 1970, Companhia Editora Nacional, São Paulo SP; Raul Bopp (1898 1984), gaúcho de Santa Maria, além de poeta foi memorialista e folclorista; obra poética: Cobra Norato (1931), Urucungo (poemas negros, 1932), Antologia Poética (1967), Putirum (1969), Mironga e outros poemas (1978) e Poesia Completa (1998).